terça-feira, 1 de maio de 2012

SONIA ALMEIDA


SONIA ALMEIDA: A ALEGÓRICA PENUMBRA DA PALAVRA

José Neres
Jornal Pequeno - Suplemento Guesa
Novembro de 2011

      A luta com a palavra é algo constante, seja para quem utiliza as diversas linguagens apenas com o intuito de comunicar-se no dia a dia, seja para quem faz da palavra seu objeto de estudo e/ou de trabalho. De modo geral, as pessoas não dão tanta  atenção ao poder que emana das palavras e acreditam que comunicar é a única função que interessa na lide diária com os vocábulos. Mas não é bem assim! Quem faz da palavra sua fonte de trabalho, dores ou prazeres sabe que por trás de cada palavra pode se esconder um universo de significações, um mundo de ramificações que não se esgotam na troca cotidiana de informações. A palavra pode ferir, mas também tem poder de curar. Exalta, mas também intimida. Palavra é vida, é sangue, é abstração, é realidade... é sonho...

      E é dentro dessa atmosfera de limite entre o sonho e a realidade, entre o concreto e o abstrato que se situa o poeta, o ser que tenta tirar das palavras o fluido vital para tentar inocular nas demais pessoas tanto as belezas da vida quanto as agruras e os sofrimentos dos demais seres que nem sempre estão preparados para conviver com o universo das metáforas. O poeta nem sempre tem consciência de que, ao pôr os signos no papel ou na tela de um computador, pode alterar para sempre a percepção de mundo de todos os que virão ler ou ouvir aqueles versos. Por isso as palavras são, além de fonte de prazer é uma ameaça constante  ao poder constituído e forma de transgressão das possibilidades apenas racionais.

      Sonia Almeida, membro da Academia Maranhense de Letras e uma das homenageadas na V Feira do Livro de São Luís, é uma dessas pessoas que todos os dias tenta extrair do cerne das palavras a razão de toda uma existência. Seja como professora de Língua Portuguesa, seja como pesquisadora da linguagem ou como poetisa, ela todos os dias navega nas águas nem sempre calmas das palavras e luta para fixar no papel aquilo que parece tão claro e simples na imaginação. Desde seu primeiro trabalho publicado – Alegorias –, quando a escritora ensaiava seus primeiros passos rumo a uma produção mais madura, Sonia Almeida já demonstrava que a palavra seria seu maior desafio e sua proteção ao mesmo tempo. Já em seu primeiro trabalho, Sônia Almeidachama a atenção para as palavras.



É a palavra que me faz querer.

Hoje escolho a primeira: viagem.

Vou várias vezes. Vestida  de palavras sou agora, de forma incontrolável, esse balão que some nas nuves.

Nua de mim mesma, desapareço para me encontrar.



      Anos depois da estreia, ao publicar Penumbra, livro que foi recebido com grande entusiasmo por Josué Montello, a poetisa, em pleno domínio da linguagem poética, deixava claro que escrever é uma forma de usufruir uma liberdade que ultrapassa os limites corpóreos e alcança a dimensão do inefável. No primeiro poema do livro, o eu lírico diz:



Coloco a palavra na asa do poema

e faço o que mais quero:

vou na asa das palavras,

voo na alma do verso

e, sempre, que preciso,

futuro nas (a)venturas do signo.



      Mas essa relação da palavra com a libertada não se limita ao poema de abertura do livro. Ela permeia o livro, atravessando todo o trabalho como se fosse uma linha invisível a ligar versos e idéias. No poema Libertação, a recorrência de um dístico marca o ritmo dessa interação entre o uso das palavras e o desejo de liberdade.



Lá vem a palavra

Arrastando mais uma liberdade.



Consciente de que o ato de escrever é fruto não só da imaginação, mas também de intensas leituras de autores modelares que são absorvidos ao longo dos anos de contato com os livros, Sonia Almeida faz uma grande homenagem àqueles que sedimentaram seu caminho rumo a uma formação letrada. Desse modo, o poema R(d)eferência é muito mais do que um amontoado de nomes de escritores de títulos de livros, torna-se uma espécie de guia de leitura para quem também deseje mergulhar na mais genuínas águas literárias.

Em Palavra Cadente, livro prefaciado por Lygia Bojunga Nunes, a escritora continua envolvida com a metalinguagem, porém de forma mais contida. Contudo a relação com a palavra continua como um imperativo dos versos. Metaforizando a imagem da lua como reflexo do próprio ser humano que se metamorfoseia ao longo de seus ciclos e, em suas constantes mudanças, interfere na própria natureza, a autora trabalha constante jogos de palavras, com alterações sutis na forma que demandam imensas alterações no significados das palavras. Na leitura de diversos poemas, pesquisadora da Língua não consegue se esconder por trás da poetisa. Uma voz sempre alerta às questões vernaculares aproveita-se da poesia para trabalhar tanto a essência metafórica dos versos quanto as relações semânticas que se alteram com breves permutas de fonemas, como no poema abaixo.

A estrela esclarece

quem vem de encontro,

quem vem ao encontro,

de encontro a mim.



a estrela esclarece

quem vem ao encanto,

vindo contra mim;



quem vem de encontro,

quem vem ao encontro,

quem vem ao encanto,

quem vem contra mim.



A palavra esclarece.



            Em outros poemas a relação palavra-vida toma ares de essência vital para a existência do Ser. Não se entrega ao leitor/ouvinte apenas os versos impressos em uma página. Entrega-se um pouco de quem pôs nas palavras o transpor das emoções para o papel,  como pode ser visto em um dos últimos poemas do livro.



E eu me entrego no verso

quando o meu verso lhe entrego,

porque a palavra é feita dessa vida

mas o que eu faço é uma vida de palavra.

(...)

Porque se eu quiser morrer,

o meu desejo é feito de palavra.

Se eu quiser viver, basta querer

E a palavra faz.



            Em Há Fogo no Jogo, os elementos lúdicos do início do livro são aos poucos substituídos por vigorosas imagens que podem até mesmo confundir o leitor menos atento. O trabalho com a linguagem novamente deixa entrever, pelas frestas dos versos, a professora de Língua Portuguesa em constante trabalho com as armadilhas do idioma. As figuras de linguagem se multiplicam nas páginas e convidam a uma reflexão mais apurada. O leitor tem que ler os versos e também concentrar-se nos aparentes vazios textuais, afinal:



O silêncio é o calar, mas nem sempre o não-dizer.

Da mesma forma que a cinza pode estar quente,

o gelo pode queimar.



Sonia Almeida trabalha em todos os seus livros uma grande alegoria do Ser ou pelo menos da busca do Ser. E essa busca passa não apenas pelo sentir, mas também pelo dizer, pelo pôr no papel as alegrias e angústias do dia a dia. Na obra dessa autora, o crepitar do fogo e das chamas não se perde, ele ilumina palavra cadentes e tira da penumbra o vazio da existência humana.

Para Sonia Almeida, a palavra e o poeta estão imbricados e formam um todo que pode até se esfacelar, mas que não se perde. Como ela mesma declara:



Sob a tutela da palavra,

O poeta se livra.

Sob a condição da palavra

O poeta se escraviza...

Sob o jugo do verso, o poeta se faz.

Sob a servidão do verbo, o poeta é.











OBRAS DA AUTORA

Produção individual

·         Alegoria (prosa poética, 1992)

·         Tribuzi, Bandeira Poética de São Luís (ensaio, 1996)

·         Penumbra (poemas, 1998, com segunda edição em 2003)

·         Palavra Cadente (poemas, 2001)

·         Aula de Redação: uma viagem transdisciplinar (ensaio didático, 2004)

·         Há fogo no jogo (poemas, 2005)

·         Escrita no ensino superior: a singularidade em monografias, dissertações e teses (ensaio acadêmico, 2011)



Produção em coautoria



·         Linguagem

·         Ler para aprender

·         Anotações sobre linguagem

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ilhavirtualpontocom nº 12

Caros amigos, 
Chegamos ao 12º número de nosso Ilhavirtualpontocom. Desta vez temos:
- Em perfil literário de Laura Amélia Damous, por Arlete Souza Menezes
- Entrevista com Claunísio Amorim, por Ricardo Miranda Filho
- Poesia de Ricardo Miranda Filho
- Cronica de José Luís Carvalho dos Santos
- Chamada para colaboração no Projeto Gonçalves Dias


Você pode baixar o informativo em PDF clicando aqui, ou lê-lo abaixo...









sexta-feira, 20 de abril de 2012

CAFÉ LITERÁRIO

O projeto Café Literário é uma excelente iniciativa da professora e escritora Ceres Costa Fernandes. Na última terça-feira de cada mês, poetas, prosadores, críticos e pesquisadores em geral se reúnem no Centro Cultural Odylo Costya, filho para uma conversa sobre arte, literatura ou outro assunto de interesse cultural. No dia 24 de abril, convidado especial é  Hildeberto Barbosa Filho, que é  "Professor, Poeta e Critico literário. Autor de inúmeros livros na área da literatura, envolvendo poesia, ensaios, críticas e jornais literários. Membro da Academia Paraibana e Letras e da Academia Paraibana de Filosofia. Possui doutorado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (2000), Mestrado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1987), graduação em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1983), graduação em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (1978). Atualmente é professor titular da Universidade Federal da Paraíba." (fonte: Lattes)

Na ocasião, o crítico literário falará sobre a obra de Nauro Machado.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CRÔNICA DE CERES COSTA FERNANDES

A pedido da professora e escritora Ceres Costa Fernandes, reproduzimo aqui sua crônica FOGO OU PARANOIA, publicada em O Estado do Maranhão em 15 de abril de 2012.


                             FOGO OU PARANÓIA 2
                         Ceres Costa Fernandes
                            O Estado do Maranhão, 15 de abril de 2012

               Não sei bem quando a paranoia de morrer queimada em um grande incêndio começou. Mas, com certeza, foi há bastante tempo. A paúra já estava em ação, quando minha filha mais velha, esportista tricampeã  do Colégio Dom Bosco, esforçada e valente, acumulava luxações e dores lombares e decidimos apelar a um famoso quiroprático visitante, venerável senhor, que atendia em casa de família amiga. Isso, seja dito,  após tentarmos os protocolos normais da medicina.
          Durante a sessão de desentorta, sem mais o quê, repentinamente, o profissional dirige um olhar ao fundo dos meus olhos e declara, sentenciosamente: A senhora tem mais de quatro mil anos!  Indignei-me, mulher nenhuma aceita uma sentença tão desfavorável sobre sua idade, ainda mais que, na época, eu ainda era jovem. Ele, sentindo o meu desconforto, explicou. Isso se deve ao fato de que a senhora já reencarnou muitas vezes. Campainhas soaram nos meus ouvidos, vai ver que meu medo de fogo vem de vidas passadas! Apresso-me em perguntar: em alguma vida passada morri queimada?  
     Preparo-me para a resposta.  Quem sabe eu teria sido Joana d’Arc ou uma das bruxas de Salém Ou, talvez, matrona romana, tenha torrado no incêndio de Roma imputado a Nero, ou mesmo no grande incêndio de Londres, o do século 17  – nem pensar em  aceitar reencarnar em papéis insignificantes na história da humanidade. Ele me diz, Não sei, não tenho acesso a esse tipo de informação. Murchei. Fiquei sem saber, mas desconfio que andei metida, sim, em algum incêndio em uma das minhas reencarnações.
      Se não, como explicar que, em todos os ambientes que adentro pela primeira vez, vou logo observando os aparatos contra incêndios: se há chuveirinhos no teto, extintores à mão, janelas prontas para um pulo, onde se situam as portas corta-fogo, as saídas de emergência, etc. E. ai, meu Deus, me preocupam ainda os tapetes e o excesso de cortinas; se o piso é de lajota ou de madeira...
       Os hotéis, esses aí, especialmente os europeus, os antigos, tão pequenos e graciosos, com escadas forradas de tapetes, paredes de tecido e piso encarpetado, me deliciam e me assustam. Estive em mais de um em que os corredores pareciam túneis de tecido. Nesses – além das providências já mencionadas –, não fico acima do quinto andar e, isso, só após conferir a quantidade de lençóis do quarto e me certificar se o comprimento deles – feita uma “teresa” –, dá para escapar pela janela dos fundos;
     Que me desculpem os felizes desavisados não atingidos por essa fobia, mas os meus companheiros de infortúnio me entendem e darão razão.
    Em vista do que foi dito, vou confessar-lhes o que muitas vezes me ocupa a mente em suas horas vadias (as tais da insônia nas madrugadas ou as da prisão em engarrafamentos): o crescimento vertical de São Luís. Faz pouco tempo, tínhamos apenas três edifícios na cidade antiga: o João Goulart, o Caiçara e o Edifício BEM. Agora, na cidade nova, o que se vê são muralhas de prédios. Com a liberação do gabarito – o céu é o limite –  temos prédios de quinze andares, sem contar os andares com salão de festas, garagens, academias e outros mimos. Espero que todos esses estejam equipados com tudo o que há de mais moderno em prevenção de incêndios, quem sabe até heliportos.
      Tentando fugir dos assaltos, nutro pretensões de me mudar de casa para um apartamento, a contragosto de toda a família, seja dito.  Seguindo a minha paranoia e para não sair da frigideira e cair no fogo – sem trocadilhos –, decidi me informar sobre as condições do nosso valente Corpo de Bombeiros. Não quero assustar ninguém, mas creio que a briosa guarnição não está suficientemente equipada para o atendimento desse crescimento vertiginoso de edifícios. Segundo colhi, as nossas escadas Magirus (duas) alcançam somente 30 e 36 metros, a altura de um edifício de mais ou menos sete andares, menos os andares extras de festas, garagens, jogos. Parece haver seis carros  em ação. Em um incêndio que devastou uma loja de 1,99, na COHAB, soube que a mangueira não funcionou.
   E os hidrantes? Dizem que há 80. Alguém sabe onde se encontram? Aqui, no Olho d’Água, nunca vi nenhum. Soube que há alguns no aeroporto do Tirirical. No Centro Histórico, conheço vários, não sei se ainda funcionam. Outro problema é que lá acontecem muitos dias sem água, digamos assim.
    Feitas as contas, acho que um apartamento até o quinto andar, com hidrante perto, janelas com sacadas grandes, rua larga de trânsito fácil (!) para o acesso dos carros de bombeiros, vai bem. Mesmo com esses requisitos, pretendo levar para lá escadas de corda, ganchos de ferro e outros equipamentos que tais. Talvez até um parapente...Aceito sugestões.
ceresfernandes@superig.com.br

sexta-feira, 6 de abril de 2012

ILHAVIRTUALPONTOCOM 11

Chegamos ao décimo primeiro número de nosso informativo sobre as letras maranhenses. Neste volume temos textos sobre Coelho Neto e Baial Ramos, além da poesia de Xavier de Carvalho. Clique aqui para ler ou baixar o informativo em PDF

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eva Chatel, uma prosadora


A PROSA CRÍTICA E REFLEXIVA DE EVA CHATEL

José Neres
(Professor de Literatura. Coordenador do projeto Sistema Literário Maranhense.)



            Uma das grandes angústias de quem se dedica às letras é a pergunta tantas vezes revisitada sobre a utilidade da arte literária. Muitas pessoas imediatistas querem que a literatura tenha obrigatoriamente uma utilidade prática no dia a dia; outras consideram que o ato de ler não deva ser visto unicamente como uma tarefa que busque um fim fora de si mesmo, mas admitem que a literatura e a leitura em geral são essenciais para a formação do ser humano. Há também quem defenda a ideia de que a literatura seja apenas um suporte para a manutenção das ideologias dominantes, de perpetuação no poder de elemento e instituições que usam as letras como forma de eternizarem-se como figuras hipoteticamente importantes. Também existe quem acredite ser a literatura um importante instrumento de libertação coletiva ou individual, servindo a palavra escrita como fonte de reflexão sobre os acontecimentos norteadores do destino da humanidade.
                Para que serve a literatura? Para ensinar? Para divertir? Para eternizar  ideologias? Para trazer à realidade as mirabolantes histórias que povoam o fértil imaginário de um escritor? Ou, quem sabe, como forma de ganhar dinheiro sentado diante de uma folha de papel ou da tela de um computador?  Contudo, diante da sensação de ser levado pelas aventuras de um romance, de ser embalado pelo ritmo cadenciado de um poema ou de vivenciar a essência humana nos diálogos de uma peça teatral, o questionamento sobre a utilidade da literatura se torna uma discussão sem muita importância.
            Durante o ato de leitura, a pessoa mergulha não apenas nas denotações e conotações expressas pelas palavras, mas sim em um processo de conhecimento do próximo e de autoconhecimento. Ninguém que leu com atenção um bom livro sai das páginas do texto da mesma forma que entrou. Sai transformado, mas crítico, mais atento e muito mais humano.
            E é isso o que acontece quando se chega à última linha de um dos contos de “Substantivo Próprio” ou ao final de um dos dezoito capítulos da novela “De Volta”, ambos de autoria de Eva Maria Nunes Chatel, experiente professora de língua e literatura que resolveu brindar seus alunos, colegas, admiradores e leitores com sua prosa bem articulada e cheia de densidade crítica e psicológica.
            Em Substantivo Próprio, que traz como subtítulo “Fábulas Humanas”, a autora optou pela narrativa curta, centrada em breves contos nos quais as mazelas humanas são tratadas de forma lírica e contundente ao mesmo tempo. As histórias aparentemente banais e que podem ser vivenciadas cada rua de uma cidade qualquer podem até parecer simples à primeira vista. Contudo essa aura de cotidiano é sempre quebrada com reflexões que saem do senso comum e alcançam as profundezas da alma humana, sem deixar de lado a preocupação com o bem-estar social, econômico, físico e moral das pessoas.
            Em cada conto, no total de catorze, Eva Chatel associa os acontecimentos narrados às características inerentes a um animal. Nessas verdadeiras fábulas humanas, uma mulher trabalhadeira como Josefa, que é humilhada por sua condição profissional e social, pode decidir continuar sendo considerada apenas uma peça na engrenagem da exploração pecuniária ou estudar com o intuito de sair da miséria econômica e, principalmente, conseguir ser respeitada como ser humano que é. Sua teimosia é metaforicamente comparada à de uma jumenta, que “é teimosa, mas sabe dar coices certeiros” (p. 35). Anastácia, em outro conto, mãe de diversas crianças, percebe que sua prole pode seguir o mesmo destino dos filhotes dos porcos, ou seja, podem ser destinados ao abate. Da mesma forma, seres humanos como Alberto, Damião, Margarida, Marcelo, Oliveira e todas as outras personagens parecem fadados ao fracasso, há,  contudo, nos contos um fio tênue de esperança, que pode vir em forma de educação ou de esforço próprio. Porém, de modo geral, as personagens da prosa de Eva Chatel são sempre seres que “suportam dores, calúnias e desprezo até a última de suas mortes, a qual não causa piedade em quase ninguém” (p. 80).
            Os contos têm como título o nome dos protagonistas e contam com ilustrações feitas pela própria autora. Todavia, embora os nomes individualizem as personagens, o que se percebe é que uma possível troca de nomes não alteraria a situação de nenhum desses elementos marginalizados pela sociedade. Mesmo com nome, todos eles não passam de seres anônimos levados por uma enxurrada de desilusões pessoais e de falta de políticas públicas que lhes tragam alento.
            Na novela “De Volta”, apesar da previsibilidade do desfecho, o leitor se vê preso em um emaranhado de temas que se multiplicam formando uma rede de discussões acerca da própria essência humana e de suas inúmeras ramificações. Utilizando-se do fato de a protagonista, uma senhora octogenária, estar em estado de coma, Eva Chatel aproveita-se dessa imobilidade corpórea para demonstrar como o ser humano é muito mais que um corpo, muito mais que matéria. Livre das amarras das limitações físicas, a narradora vai flanando por ambientes e situações aparentemente corriqueiras, mas que, quando vistas sob outro prisma, ganham densidade e podem servir de base para inúmeras reflexões acerca do homem, seus sentimentos, seus defeitos e virtudes.
            Um bom exemplo disso está no capítulo intitulado Das Necessidades, em que o olhar penetrante da narradora percorre lugares diversos e nota que “muitas pessoas necessitam de apetrechos materiais para se sentirem completas. O planeta poderá até não mais existir em função do acúmulo de poluição, mas ninguém aceita se desvencilhar de nenhum detalhe material que o coloque em vantagem em relação aos outros seres humanos” (p. 31). De forma lírica, mas sem perder de foco as mazelas que atravancam os caminhos do povo, a escritora mostra que as necessidades vão além do que é realmente podendo servir com algemas para quem coloca a matéria acima de tudo.
            Se a cada capítulo do livro o leitor nem sempre pode esperar uma surpresa ou uma reviravolta, é certo que ele encontrará matéria suficiente para mudar o modo de pensar sobre os detalhes aparentemente irrelevantes do cotidiano ou pelo menos para refletir a própria existência humana, pois a narrativa, como comenta o professor Dino Cavalcante na última capa do livro, “expõe, através de um jogo discursivo bem elaborado, as vísceras de uma sociedade cada vez mais individualista, mas materialista, mas capitalista, mas (sobretudo) cada vez mais carente de sentimentos humanos”.
            Com esses dois livros, Eva Maria Nunes Chatel, quase que sem querer, contribui para a resposta das questões levantadas no início deste artigo. Para que serve a literatura? Talvez para fazer o ser humano sentir-se cada vez mais Humano. E isso não pode ser considerado pouca coisa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

ILHAVIRTUAL NÚMERO 10

Clique AQUI e veja a versão em PDF do décimo volume do Ilhavirtualpontocom com edital de concursos literários, perfil literário de Lúcia Santos e fragmento de romance de Coelho Neto

Boa leitura

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ilhavirtual9

Apresentamos nosso nono número do informativo literário Ilhavirtualpontocom. Para baixá-lo em PDF, clique aqui ou leia-o logo abaixo.

Neste número, há comentários sobre a música de Ary Otello, a prosa de Maria Firmina dos Reis, os conos de Bruno Tomé, além de uma poema de Rafaela Cristina Rocha sobre as mazelas de São Luís. Boa leitura a todos


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PAPOÉTICO


UM PAPO ÉTICO E POÉTICO
José Neres


Paulo Melo Sousa: fonte a imagem: internet
                As pessoas, em sua maioria, tendem a esperar que todas as ações saiam da iniciativa dos poderes constituídos. Com nem sempre há o interesse político de fazer algo pelo povo, essas pessoas acomodadas acabam paradas no tempo, na vã expectativa de que, em uma canetada oficial, todos os problemas sejam resolvidos. Como a mão que segura a caneta quase nunca faz o que a grande massa quer, todos ficam a ver navios, lanchas, trens, ônibus... lotados de incertezas.
                No entanto, outras pessoas percebem que para fazer algo nem sempre a subvenção pública é essencial ou imperativa e, com coragem, senso de oportunidade e muita, muita criatividade, conseguem dar vida nova ao que a maioria já julgava morto ou pelo menos em coma. Nesse segundo grupo, pode-se inserir o nome do poeta Paulo Melo Sousa, que, com uma visão de homem inteiramente voltado para a cultura, idealizou e pôs em prática o projeto Papoético, que acontece normalmente uma vez por semana.
                Recitais, lançamentos de livros, exibição de filmes, discussões filosóficas e exposição de ideias são algumas das muitas atividades que fazem desse projeto algo singular em nossa capital. Para começar, Paulo Melo Sousa encontrou um local que junta praticidade, música e poesia em poucos metros quadrados: O bar/sebo/livraria do Chiquinho, na Rua de São João. Logo na chegada, o visitante se encanta com a decoração que o fará voltar no tempo e com a acolhida do dono que vem abrir a porta e dar as boas vindas. Após subir as escadas, um mundo de livros, discos de vinil e de imagens, espera quem deseja alguns minutos mergulhado nem um rio de cultura e de diversão.
                Utilizando o e-mail e as informações boca a boca como principais formas de divulgação, o mentor do projeto consegue arregimentar as pessoas que frequentam o local. Nem sempre o público é grande, mas sem dúvida é sempre bastante atento às discussões levantadas no evento e dali podem surgir novas ideias e assuntos que irão além do senso comum e das discussões televisivas sobre as moças bonitas e os galãs fabricados pela mídia. A conversa ali costuma girar em outras esferas mais elevadas...

Nos encontros semanais, o público pode entrar em contato com o que é produzido nas artes contemporâneas maranhenses e brasileiras e ainda poderá encontrar com algumas pessoas que têm participação ativa na construção da cultura contemporânea. Na última quinta (16.02), o professor e cientista político Flávio Reis recepcionou dezenas de pessoas que foram prestigiar o lançamento do livro Guerrilhas, uma coletânea de artigos escritos na última década e que mantêm seu grau de atualidade por conta das temáticas escolhidas e da forma de abordar os assuntos
Quem for ao Papoético não irá se arrepender e perceberá logo que uma boa ideia pode ser levada à prática mesmo sem o apoio logístico das autoridades. E quem ganha com isso são os amantes das artes, que ganharam um elegante espaço para um papo que é sempre poético, mas sem perder o senso ético.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Semana de Arte Moderna


SEMANA DE ARTE MODERNA: 90 ANOS
José Neres



                Os momentos de ruptura com uma tradição já arraigada são essenciais para a renovação artística de um povo e para o aparecimento de novos valores e de novas concepções artísticas. No início do século XX, o Brasil passava por grandes mudanças políticas, econômicas e sociais, mas continuava atrelado à tradição no que dizia respeito às artes. As Vanguardas Europeias arregimentavam seus simpatizantes e começavam a dar seus primeiros frutos em terras brasileiras, contudo a maior parte da pequeníssima população letrada brasileira continuava adepta dos padrões clássicos.
            Por conta desse apego à tradição, autores de grande talento, como Lima Barreto e Augusto dos Anjos, que produziram obras de alto nível literário, não conseguiram projeção entre seus contemporâneos, que não viam com muita simpatia as inovações temáticas e linguísticas de autores não alinhados com o estilo preconizado pelo mundo acadêmico.
            Ainda no início do século XX, algumas atitudes isoladas tentavam quebrar as barreiras da tradição e mostrar para a população que as artes em geral podem ser representadas de formas diversas, que o diferente e o exótico também poderiam ser apreciados e que o Brasil precisava abrir-se para novas linguagens artísticas. Revistas e jornais alternativos apareciam e despareciam. Exposições de quadros e esculturas tentavam incutir no público um sopro renovador, mas os efeitos desses esforços eram atomizados por severas críticas que quase sempre desestimulavam os poucos que tentavam expor seus trabalhos aparentemente inovadores.
            Foi no início de 1922, mais exatamente no dias 13, 15 e 17 de fevereiro que, de modo mais ou menos organizado, os intelectuais insatisfeitos com os rumos das artes no Brasil conseguiram impor o golpe mais contundente em uma tradição que parecia querer se perpetuar. Nessa data histórica, há 90 anos, era realizadas a Semana de Arte Moderna, evento que deu início ao movimento modernista no Brasil.
            Logisticamente amparados e contando com anúncios rudimentares, porém eficientes para a época, ativistas culturais como Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira (que não pôde ir ao evento), Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Di Cavalcanti, Paulo Prado e muitos outros homens e mulheres preocupados com o atraso cultural do Brasil mudaram, com esse evento, a forma de ver, discutir e produzir arte.
            Mas como quase todos os participantes eram ainda muito jovens e com pouca ou nenhuma projeção nas artes, o grupo precisava de um nome forte que pudesse chancelar o evento e que também levasse público pelo menos para a palestra inicial. Coube ao escritor maranhense Graça Aranha esse papel de abrir a solenidade como a palestra “A Emoção Estética da Arte Moderna”, proferida no dia 13 de fevereiro daquele ano.
            Mas foi no segundo dia do evento, em 15 de fevereiro, uma quarta-feira, que ocorreram alguns dos momentos mais memoráveis da Semana. O público, não entendendo aquelas pinturas, esculturas, músicas a que os organizadores e palestrantes teimavam em chamar de arte, manifestava-se de forma agressiva, furiosa e até violenta, com vaias, palavras de baixo nível e inclusive tentativas de agressões físicas. Tudo piorou quando o poeta Ronald de Carvalho recitou o poema “Os Sapos”, escrito por Manuel Bandeira. Os refrões onomatopaicos que lembravam o coaxar dos anfíbios que davam nome ao texto incitaram o público a reagir com relinchos, miados, latidos e muitos gritos. Para a maioria dos visitantes, aquilo não poderia ser chamado de poesia. Era loucura! Provavelmente, boa parte dos presentes nem mesmo percebeu as ácidas críticas de Bandeira ao estilo parnasiano, que contava com muitos admiradores naquela época.  
            Nessa segunda noite de novidades e revoltas extremas, os ânimos só foram acalmados pela intervenção musical da pianista Guimar Novaes que, fugindo à proposta inicial da Semana, tocou composições de Chopin e Schumann. Para os exaltados manifestantes, aquilo sim era música, era arte de verdade. O restante não passava de aberrações sem a menor possibilidade de ser chamada de arte.
            No terceiro e último dia, as vaias escassearam... e o público também. Devidamente avisadas das “bizarrices” que aconteciam no Teatro Municipal de São Paulo, algumas pessoas que planejavam assistir aos últimos momentos do evento desistiram e o enceramento tinha tudo para ser tranquilo. Mas o calçado destoante de Heitor Villa-Lobos causou revolta. Segundo ele, aquela atitude tida como rebelde se devia muito mais à inflação causada por um calo que ao desejo de chocar os presentes.
            Terminada a Semana, durante dias ela ainda era motivo de polêmica. Muitas pessoas acusavam os organizadores de confundirem arte com manifestações explícitas de irresponsabilidade. Outras, raríssimas, consideram as ideias ali defendidas válidas e dignas de apreciação. Os jornais, em sua maioria, teciam comentários nada elogiosos aos participantes da S.A.M. , duvidando inclusive da sanidade daqueles jovens metidos a artistas.  Aparentemente o evento havia sido um fracasso, mas na prática ele marcou o início de uma nova era nas artes brasileiras.  A partir daqueles três dias alternados, o modo de pensar escultura, música, pintura, literatura e todas as demais representações artísticas foi drasticamente alterado. Não era mais apenas o padrão acadêmico que imperava. Ele começava a dividir espaço com novas técnicas e estruturas antes inimagináveis.
            Mesmo passadas nove décadas da semana que revolucionou as artes no Brasil, percebe-se que ela ainda é pouco estudada e pouco documentada. Embora nos últimos anos tenham surgidos alguns trabalhos sobre a Semana de Arte Moderna, ainda falta muito a ser esclarecido sobre esse evento e seus reflexos na cultura brasileira. Tentando preencher essa lacuna, Josué Montello coligiu uma coletânea de textos sobre o evento e o publicou, em 1994, sob o título de “O Modernismo na Academia: testemunhos e documentos”, uma leitura obrigatória para quem pretenda compreender as origens do movimento modernista.
            Por uma razão só explicável pela nossa histórica falta de memória para os acontecimentos culturais, a Semana de Arte Moderna, que tanto barulho causou e que fez tantas vozes serem ouvidas ao longo dessas décadas, completa seus noventa anos envolta em um incômodo silêncio, como se fosse apenas mais uma curiosidade nas páginas de um livro didático.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

LIVROS A MÃO CHEIA


TRÊS BOAS ESTREIAS
José Neres


            Em uma época em que o leitor de livros impressos começa a ser visto como um ser estranho e até mesmo anacrônico, sempre é bom saber que ainda há pessoas dedicando-se à produção de textos literários de bom nível e que se arriscam, mesmo contra a lógica mercadológica, a investir na produção e na divulgação de livros.
            Infelizmente, quase sempre o lançamento de um livro se transforma em um primeiro passo para o esquecimento de sua existência. Em nossa sociedade contemporânea, falta quem comente os novos autores e lhes dê estímulo para continuar na constante luta com versos e parágrafos. Como os trabalhos intelectuais publicados quase sempre caem no ostracismo, sem repercussão nem mesmo nos círculos de amizade, alguns escritores simplesmente desistem de publicar seus livros, deixando as gavetas cheias de originais, alguns de boa qualidade.
            Registremos aqui os trabalhos de três escritores estreantes de nossa terra. Seus livros foram publicados entre a metade de 2011 e o início de 2012, sendo, portanto, bastante recentes e quase desconhecidos da maioria do público leitor.
            Comecemos com a escritora Eva Maria Nunes Chatel, que publicou concomitantemente a novela “De Volta” e o livro de contos “Substantivo Próprio: Fábulas Humanas”.  No primeiro título, a autora faz um périplo pelas inusitadas visões de uma anciã em coma. Narrado em primeira pessoa pela protagonista, o livro não traz apenas uma história em vários breves capítulos, mas sim abre espaço para a reflexão do leitor a respeito da própria existência e da fragilidade da natureza humana. No outro livro, Eva Chatel, em contos curtos, metaforiza as mazelas humanas. Homens, mulheres, adultos e crianças são amalgamados às características de animais dentro de uma sociedade pretensamente civilizada, mas que nega às pessoas as condições de viver com dignidade.



            Saindo do campo da prosa de ficção e mergulhando na poesia, Carvalho Junior trouxe à luz o seu “Mulheres de Carvalho”, no qual o autor brinca de modo sério com as palavras, produzindo imagens poéticas de excelente qualidade. Suas temáticas são geralmente líricas, mas sem decair na pieguice sentimentalista tão comum nos poetas estreantes.  Com bom humor, Carvalho Junior trabalha temas que vão do sentimento amoroso não correspondido ao preconceito racial, passando por poemas telúricos em homenagem a sua cidade natal, um erotismo sutil e incursões pela metalinguagem. Tudo temperado com intenso trabalho com as palavras, a fim de tirar delas o máximo dos efeitos poéticos.
            Finalmente temos “Palavras ao Vento”, livro de Lindalva Barros, que com esse título estreia no mundo da poesia. Explorando a espacialização das palavras e os vazios entre os versos, a escritora esculpe em seus versos as antigas angústias do ser humano, com a solidão, a inexorável passagem do tempo e a inefabilidade da dor do existir e repetitiva rotina imposta pela vida. Seus versos são curtos, mas vigorosos, sem muita preocupação com a métrica ou com os esquemas rímicos tradicionais, porém carregados da essência humana, o que torna cada poema mais próximo ao leitor, já que a principal fonte de inspiração da autora é a complexa simplicidade da vida humana.
            Eva Chatel, Carvalho Junior e Lindalva Barros são apenas alguns dos nomes de autores que publicam seus livros e que transformam palavras em obras de arte. Felizmente não são nomes isolados em nossa terra. Há muitas outras pessoas produzindo bons textos e à espera de leitores que transformem páginas escritas em pedaços compartilhados da experiência humana.

CONTATO COM OS AUTORES E POSSÍVEL 
AQUISIÇÃO DO LIVRO

Os Livros de Eva Chatel podem ser adquiridos no seguinte no site da editora All Print

O livro de Carvalho Júnior pode ser adquirido pelo site da Café e Lápis Editora ou em contato com o próprio autor por seu blog

O livro de Lindalva Barros pode ser adquirido com a autora pelo seu e-mail ou por seu blog

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tom Jobim

Esse poema foi  publicado há mais de uma década, mas acredito que ainda tem muito a dizer sobre esse compositor e músico fantástico que nos deixou verdadeiras obras de arte.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

LIVRO DIGITAL GRATUITO




Caros amigos, estamos disponibilizando neste momento este livro sobre a vida e a obra de Adelino Fontoura, patrono da cadeira nº 1 da ABL, mas quase desconhecido do grande público. Além de um estudo sobre o poeta, nesse livro há também uma coletânea de poemas do escritor falecido precocemente.
Este livro é parte do projeto Sistema Literário Maranhense: Hipermídia e Hipertexto e pode ser encontrado também na versão impressa em bibliotecas, com a finalidade de divulgar as letras maranhenses.

AUTORES: José Neres, Jheysse Lima Coelho e Viviane Ferreira
NÚMERO DE PÁGINAS: 83


Quem quiser baixar o livro em PDF, clique AQUI.

Ou visualizar o trabalho abaixo.
Desejamos uma boa leitura a todos e bons momentos com a leitura desse poeta esquecido



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CAOS NO TRÂNSITO


ARMADURAS MODERNAS
José Neres


Aproveite e veja também o desenho animado que é citado no texto





            Ao folhear livros de História ou ao assistir a filmes sobre a Idade Média e sobre as arenas romanas, é possível que perceber que os homens que iam para as batalhas costumavam resguardar os corpos da melhor maneira possível. Armaduras, elmos, escudos, protetores de tórax e todos os apetrechos possíveis para proteger-se dos impactos com os adversários eram utilizados pelos guerreiros. A intenção maior era evitar que durante os combates os ferimentos causados pelas refregas ceifassem a vida dos lutadores. Ao mesmo tempo, toda essa proteção, juntamente com os equipamentos de ataques, era usada também para causar danos aos adversários.
            Hoje, muitos séculos após as Cruzadas e as batalhas pela vida e pela honra nas arenas, o homem continua na busca de algo que possa evitar seus ferimentos, mesmo que seja a custa de sérias lesões ou até mesmo da vida de outras pessoas. As armaduras tradicionais foram abandonadas e agora fazem parte do acervo de museus ou servem como parte da indumentária de filmes de época. Em seu lugar, apareceu algo bem mais moderno que teria como principal utilidade ajudar no deslocamento de pessoas e de cargas, mas que pode servir ao mesmo tempo como instrumento de defesa e de ataque, podendo evitar que o guerreiro contemporâneo tenha seu corpo estraçalhado, mas que pode inutilizar parcial ou permanentemente alguma pessoa desavisada que tenha o azar ou a imprudência de cruzar com o proprietário dessa armadura moderna em um momento de desatenção, imperícia ou de arrogância.  Essa nova arma de combate utilizada tanto por pessoas sérias e responsáveis quanto por boçais que não dão o maior valor à vida alheia é chamada veículo motorizado, podendo atender por diversos nomes: moto, carro, caminhão, ônibus...
            Os noticiários mais recentes não deixam dúvida de que a cada dia que passa o homem vem utilizando-se do carro como uma armadura protetora e como instrumento de combate em uma guerra urbana em que quase todos saem derrotados ou pelo menos lamentando a perda de um ente querido.
            Ao entrar em um carro, o cidadão comum parece ser tomando pela síndrome do Sr. Weeler, personagem criado por Walt Disney e representado pelo Pateta, que, ao ligar seu automóvel assume a postura de um monstro do trânsito, desrespeitando faixas, sinais e todas as regras da civilidade. Porém ao se ver novamente na condição de pedrestre, reclama da falta de educação dos demais condutores.
            Ao volante de um carro possante, o bom garoto do bairro pode ser convertido em um demônio irresponsável que faz zig-zag, entra pela contramão, vocifera contra quem cumpre a lei. O pai de família, ao ligar o carro, às vezes se transforma em um lunático que acredita ser sua pressa maior que a dos demais e põe em risco não somente a segurança de sua família, mas também a de todos os que estão a sua volta. O homem pequenino que mal consegue sustentar o peso do próprio corpo, quando está sentado diante da direção de seu carro sente-se como um gigante de músculos de aço capaz de tirar de sua frente todos aqueles que atravancam seu caminho. A delicada mulher, de sorriso encantador de modos educados, ao soltar o freio de mão e entrar no fluxo das avenidas, ou mesmo antes disso, sente-se senhora de todos os poderes do mundo e crê que pode ganhar tempo e encurtar distâncias à custa do pavor inoculado nos olho dos pedestres e dos demais condutores. Isso sem falar nas pessoas que jamais apresentaram uma capa de civilidade e aproveitam o carro para dar vazão a seus instintos criminosos.
            Os mortais gladiadores modernos vestem a armadura de metal revestida com a blindagem da impunidade ou pelo menos usam o capacete da intolerância e do descaso e fazem de cada rua uma arena, com corpos espalhados no asfalto ou na areia. Quando têm suas armaduras amassadas, confiscadas ou destruídas, compram uma nova e continuam matando sob o manto protetor das frágeis leis.

sábado, 31 de dezembro de 2011

ILHAVIRTUALPONTOCOM Nº 8

Amigos e amigas,

No apagar das luzes deste ano de 2011, disponibilizamos mais um exemplar do noso informativo ILHAVIRTUALPONTOCOM, para lê-lo em PDF, clique AQUI