sábado, 30 de outubro de 2010

LANÇAMENTO... LANÇAMENTO... LANÇAMENTO...




TÍTULO: TÁBUA DE PAPEL
NÚMERO DE PÁGINAS: 200
ORGANIZADOR: JOSÉ NERES

DATA DO LANÇAMENTO: 06 DE NOVEMBRO DE 2010
LOCAL: SINDICATO DOS BANCÁRIOS - RUA DO SOL - SÃO LUÍS - MARANHÃO


veja aqui o que você encontrará no livro



PROGRAMAÇÃO DO EVENTO

INSCRIÇÕES
• Livraria Athenas (Rua do Sol – Centro);
• Livraria Prazer de Ler (CCH – UFMA);
• Faculdade Athenas Maranhense (Xerox de Letras - Sr.ª Rosária).
Valor (ÚNICO):
R$ 20,00 (Certificado – 10h + Livro Coletânea)

LOCAL: Sindicato dos Bancários - Rua do Sol - São Luís - MA

INFORMAÇÕES:
Tel: (98) 3082-8871 (Germa na ou Claunísio)
E-mail: cafelapis.editora@gmail.com

PROGRAMAÇÃO:
08:15 h - Credenciamento

09:00 h – Abertura

09:20 h - 11:00 h - Mesa 1: Literatura e formação da identidade de um povo
Antonia Nilda Alves Cruz
Maria das Neves Oliveira e Silva Azevedo
Núbia Costa Bastos
Dinacy Mendonça Corrêa

11:10 h – 12:00 h – Palestra: Artur Azevedo e a comédia no Brasil
Dino Cavalcante

14:00 h - 15:40 h - Mesa 2: Literatura Maranhense: do clássico ao contemporâneo
Flaviano Menezes da Costa
Joaquim de Oliveira Gomes
Natércia Moraes Garrido
Rosely Maria Ribeiro Néri Saldanha

15:50 h - 16:50 h - Conferência de encerramento: Gullar: de São Luís para o mundo
Prof. José Neres

17:00 h - Lançamento Coletânea “Tábua de Papel: estudos de Literatura Maranhense”
Entrega de certificados e livros
Coquetel de Encerramento

sábado, 23 de outubro de 2010

Meu Primeiro Livro

Este foi meu primeiro livro, publicado em 1999, depois com algumas reedições. Gosto muito dele. Hoje um exemplar desse livro é muito raro de ser encontrado.. Ele também pode ser encontrado no site do Governo Federal - domínio público.


sábado, 16 de outubro de 2010

PROFISSÃO DE RISCO


O DO(C)ENTE
José Neres

            Nas últimas semanas, a mídia tem divulgado notícias acerca de situações destemperadas protagonizadas por profissionais da educação, principalmente por professores. As cenas mostram professores aos gritos diante dos alunos, mestres agredindo colegas de serviço, ou a classe inteira, e situações de conflitos que chegam até mesmo ao contato físico.
fonte da imagem: internet
            O que estará acontecendo com o corpo docente de nossas escolas? Será que os professores estão demonstrando despreparo para lidar com as situações novas que se apresentam a cada momento e para as quais não foram instruídos no período de formação? Ou será que são apenas fatos isolados explorados pela imprensa com o objetivo de vender notícias sensacionalistas?
            Seria preciso um estudo bastante sério e aprofundado para chegar-se à raiz do problema e vislumbrar-se uma tentativa de solução, mas um olhar mais atencioso sobre as notícias e conversas informais com professores, alunos, pais e corpo administrativo das escolas já são suficientes para visualizar o quadro negro que se descortina não só nas salas de aula, mas também nas demais dependências das instituições escolares e até em seus arredores.
            Há muito tempo o professor não é mais o profissional invejado pelo saber e nem respeitado por ocupar uma posição de destaque no panorama social. Na verdade, passou muito rapidamente da condição de detentor de altos conhecimentos que deveriam ser transmitidos a uma turma desejosa de aprender para a de administrador de conflitos e de bagunças dentro e fora das salas de aula. Em alguns casos, o mestre tem de negociar com os demais envolvidos no processo ensino-aprendizagem para que consiga terminar o horário com o mínimo possível de desgaste emocional.
            Com o surgimento de tecnologias avançadas, a comunidade passou a esperar – e a cobrar – do profissional da educação não mais uma competência intelectual e o desejável domínio do assunto a ser ministrado, mas sim as qualidades de um animador de auditório. Não é rara a cena em que um professor de profundo conhecimento e bastante imbuído no desejo de ensina tem de ouvir de alunos, coordenadores e dirigentes da escola que sua aula não está agradando por ser chata e sem uso dos recursos audiovisuais e/ou de uma metodologia que fizesse o aluno sentir-se motivado a aprender. Mesmo que a instituição não ofereça a menor condição logística para que o docente transforme sua aula em um show, ele é insistentemente cobrado e avaliado negativamente por essa aparente deficiência pedagógica.
            Quando, por outro lado, o professor mostra-se dinâmico, atualizado e leva recursos diversos para implementar suas atividades, ele corre o risco de ser visto pelos próprios colegas como alguém que está inflacionando o mercado; pelo corpo diretivo, como um professor modernoso, que não tem domínio de turma e que se mistura muito com os discentes. Pode ser ainda taxado pelos alunos como o professor bonzinho que não dá aula e depois quer cobrar a matéria na prova, e pelos pais como o enrolão que disfarça a falta de conhecimento com brincadeirinhas inúteis que tomam todo o tempo da aula.
            Além disso tudo, ainda há a transformação da sala de aula em campo de batalha, não apenas com conflitos verbais, mas também com agressões físicas por causa de descontentamentos diversos, principalmente pela insatisfação de pais e alunos por notas. O estresse virou parte do uniforme dos professores em todos os níveis de ensino.
            De modo muito rápido, o professor se viu destituído de sua autoridade e percebeu que a antiga condição de sujeito-suposto-saber está deteriorada. Ele não é visto mais como o profissional essencial para o desenvolvimento da nação. Não é mais o modelo a ser seguido pelos jovens. É visto com desconfiança na hora de comprar um produto a prazo e é apontado como exemplo cabal de que estudo a nada leva: “coitado, estudou tanto e não tem nada!”
            Acuando diante de uma realidade que não lhe é favorável, o professor olha para um lado e para o outro. Percebe que está cercado de dívidas, frustrações, trabalhos para corrigir, cobranças acadêmicas e de outros inúmeros problemas. Ferido, doente, ele solta um urro de desespero, um grito de socorro que soa como uma ameaça a toda a comunidade. No lugar de receber auxílio e de ser tratado com dignidade, ele tem seu grito gravado por um aluno, que coloca o vídeo na internet. O protesto do professor virou piada mundial!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

INSPIRAÇAO NORDESTINA

Com o objetivo de ajudar aos vestibulandos, disponibilizo aqui um breve estudo sobre o livro INSPIRAÇÃO NORDESTINA, de Patativa do Assaré.
Espero que seja útil...



A INSPIRAÇÃO NORDESTINA DE PATATIVA
José Neres


      Uma das poucas vantagens de um vestibular feito de acordo com os moldes mais tradicionais é a possibilidade que ele oferece ao estudante de entrar em contato com obras literárias e filosóficas que dificilmente seriam lidas, caso não fossem indicadas como leitura prévia obrigatória para uma prova de concurso.
      Este ano, os candidatos a uma vaga nos cursos da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA – terão de ler o Sermão do Bom Ladrão, do Padre Antônio Vieira; A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado; e a segunda parte do livro Inspiração Nordestina, do poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, conhecido literariamente como Patativa do Assaré, um dos mais significativos nomes da poesia popular brasileira.

Patativa: um homem do campo

      Nascido em 05 de março de 1909, na cidade de Assaré, cerca de 500 quilômetros de Fortaleza,  no seio de uma família bastante pobre, Antônio Gonçalves da Silva ao oito anos perdeu o pai e teve de trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. O fato de haver frequentado apenas alguns meses de escola, o suficiente para ser alfabetizado, não foi obstáculo para que o garoto deixasse de lado o gosto pelos versos populares e pelo ritmo cadenciado dos poemas cantados pelos repentistas que faziam sucesso na época.
      Ainda rapazinho, encantado com o poder melódico das palavras, Antônio começou a recitar poemas em festas de amigos e familiares. Não demorou muito para ele ser apelidado de Patativa, por causa da melodia de seus versos, que eram comparados ao canto do pássaro de mesmo nome.
      Em 1956, Patativa do Assaré publicou seu primeiro livro, intitulado Inspiração Nordestina. O livro depois foi republicado em 1967, acrescido de alguns novos poemas. Depois vieram outras obras, como, por exemplo, Cante lá que eu canto cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Aqui tem coisa (1994), Digo e não peço segredo (2001), além de diversas antologias publicadas em vida ou postumamente.
      Patativa do Assaré foi reconhecido ainda em vida como grande poeta e recebeu diversos prêmios por sua obra, inclusive cinco títulos de Doutor Honoris Causa, sendo também estudado em diversos trabalhos universitários e em ensaios de críticos renomados.
      O reconhecimento nacional, porém não veio por meio de seus livros, mas sim por causa de um de seus poemas – Triste Partida – que foi cantado por Luís Gonzaga. A partir desse episódio, o nome de Patativa começou a chamar atenção também nos meios acadêmicos. Mesmo conhecendo o sucesso, o poeta jamais deixou o contato com sua terra natal e com seu povo. Ele faleceu, em 2002, aos 93 anos, na mesma cidade em que nasceu

Patativa: um homem de poesia
     
      O que de imediato chama a atenção na poesia de Patativa do Assaré é sua forte tendência à oralidade. Aproveitando-se de suas origens humildes, o poeta utiliza com maestria a licença poética e trabalha a voz do homem do sertão em seus versos, sem esquecer a musicalidade, que é outra marca de sua poesia.
      Ao se apresentar ao público, Patativa se mostra com um poeta da roça, rude, com poucos estudos e vindo de família pobre, como pode ser visto no fragmento abaixo extraído da primeira parte de Inspiração Nordestina:

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.
(...)
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

      Esse apego às origens sertanejas aparece em outros poemas, como é o caso do famoso Cante lá, que eu canto cá, no qual ele mostra as diferenças entre um poeta criado na cidade, com acesso à educação e aos luxos urbanos e outro que teve sua educação tirada do convívio com o campo. Como em uma longa resposta a um desafio, Patativa mostra as qualidades inerentes ao poeta do campo:

Poeta, cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá. 
Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem. 

      Para terminar o poema, ele pede que o poeta da cidade se contente em ficar no lugar onde foi criado, pois tudo o que tem na zona urbana tem, mesmo que de forma diferente, no campo. 

O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.
Aqui findo esta verdade
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá.
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá que eu canto cá. 

      É interessante notar que o uso de expressões regionalistas e das aparentes falhas gramaticais não tiram a beleza rítmica do poema e ainda confere ao leitor ou ouvinte a sensação de ouvir a voz de um homem do campo em seu interminável diálogo sobre as qualidades da  vida longe das cidades, em uma espécie de fugere urbem com sotaque nordestino.
      Outra característica que faz parte da poética de Patativa do Assaré é sua tendência a fazer críticas sociais. Consciente de que literatura não é apenas expressão de uma beleza idealizada, o poeta aproveita a cadência de seus versos para fazer denúncias sociais e críticas ao que julga errado. Isso pode ser visto em grande parte da obra do autor de Aqui tem coisa, mas se torna mais pungente em Triste Partida e em seu ABC do Flagelo, no qual as letras do alfabeto referem-se ao sofrimento do povo. De modo bastante poético, Patativa leva o leitor a refletir sobre as condições no Nordeste, sobre a seca que mata o gado e espanta o trabalhador, levando-o para longe de sua terra natal. Nas letras B  e J do poema, reproduzidas a seguir, é possível perceber o tom de lamento que permeia o texto inteiro.


B — Berra o gado impaciente
     reclamando o verde pasto,
     desfigurado e arrasto,
     com o olhar de penitente;
     o fazendeiro, descrente,
     um jeito não pode dar,
     o sol ardente a queimar
     e o vento forte soprando,
     a gente fica pensando
     que o mundo vai se acabar.

J — Já falei sobre a desgraça
     dos animais do Nordeste;
     com a seca vem a peste
     e a vida fica sem graça.
    
Quanto mais dia se passa
     mais a dor se multiplica;
     a mata que já foi rica,
     de tristeza geme e chora.
     Preciso dizer agora
     o povo como é que fica.

      A crítica às injustiças sociais, como foi dito anteriormente, também faz parte do repertório desse poeta que era ao mesmo tempo lírico e contundente em suas palavras. No longo poema Terra é Naturá, ele condena o latifúndio e praticamente implora por uma reforma agrária, deixando claro que a intenção do trabalhador rural não é igualar-se ao coronel latifundiário, mas sim ter condição de sustentar a família e poder usufruir daquilo que deveria ser um bem coletivo: o direito à terra e a um lugar para trabalhar. Mas antes de fazer seu pedido, o poeta metaforiza as qualidades intrínsecas da terra, que é vista como algo belo, mágico e essencial ao mesmo tempo:

Esta terra é como o vento,
O vento que, por capricho
Assopra, às vez, um momento,
Brando, fazendo cuchicho.
Ôtras vez, vira o capêta,
Vai fazendo piruêta,
Roncando com desatino,
Levando tudo de móio
Jogando arguêro nos óio
Do grande e do pequenino.

       Depois de dar ao texto um tom telúrico e lírico, Patativa muda o foco e passa a, nas últimas estrofes, exigir um direito que é negado ao trabalhador rural: o de ser dono da própria terra:

Não invejo o seu tesôro,
Sua mala de dinhêro
A sua prata, o seu ôro
O seu boi, o seu carnêro
Seu repôso, seu recreio,
Seu bom carro de passeio,
Sua casa de morá
E a sua loja surtida,
O que quero nesta vida
É terra pra trabaiá.

Iscute o que tô dizendo,
Seu dotô, seu coroné:
De fome tão padecendo
Meus fio e minha muié.
Sem briga, questão nem guerra,
Meça desta grande terra
Umas tarefa pra eu!
Tenha pena do agregado
Não me dêxe deserdado
Daquilo que Deus me deu.

      A temática dos “causos” contados pelos caboclos do sertão aparece também na poesia de Patativa dos Assaré, principalmente no poema Uma do Diabo, que narra, no ritmo cadente do cordel, a história de Mané Gibão, um homem que dizia de nada ter medo. Mesmo todo mundo avisando que o demônio aparecia pelas redondezas em forma de um grande bode, o rapaz desdenhava das pessoas, dizendo que aquilo era apenas conversa do povo. Tudo muda quando ele se vê cara a cara com o demônio e busca a proteção da imagem do Padre Cícero. Com o bom humor que lhe é peculiar, o poeta mostra como ficou o valentão após o demônio ter ido embora:

Eu senti grande miora,
Vendo o bicho se afastando
E saí estrada a fora
Com as perna bambeando.
E eu não nego nada não,
Nem que façam mangação
Eu não vou escondê nada
Dos aperto que passei
Quando em casa cheguei
A calça tava moiada

Ter que partir da própria terra, que é um tema recorrente em toda a obra poética de Patativa do Assaré, aparece também nos belos poemas A tristeza mais triste e Lamentos de um nordestino, nos quais o homem é afastado do rincão natal por causa das condições adversas ocasionadas pela seca que assolava o nordeste.
O pungente tom de tristeza pode ser percebido logo na primeira estrofe de cada um dos poemas acima citados:

Neste mundo não existe
Uma tristeza mais triste
Igual à separação
Do caboclo nordestino
Que viajou sem destino
Deixando o caro torrão
(A Tristeza mais triste)

Eu sou sertanejo das terras do Norte,
Mas a negra sorte me fez arribar.
Hoje vivo ausente,
Sem ver minha gente,
O  meu sol ardente
E o meu branco luar

Ai quem me dera voltar
Ai quem me dera voltar
Ao meu lar!
(Lamentos de um nordestino)


Para ler Patativa do Assaré

            Ler Patativa do Assaré é uma tarefa fácil e bastante prazerosa, mesmo em caso de ser uma leitura obrigatória para uma prova de vestibular. Mas o aluno inteligente logo verá que, durante o contato com o livro, ele não estará estudando apenas literatura, mas também História, Geografia, Língua Portuguesa, Filosofia e Sociologia, além de estar se preparando para a redação. Os temas trabalhados pelo poeta, como reforma agrária, coronelismo, saudade, medo, ambição e a relação entre campo e cidade podem ser explorados em provas das mais diversas disciplinas.
            Para ler a segunda parte do livro – a que foi indicada pela UEMA – candidato deve despir-se de todos os preconceitos linguísticos e ter a certeza de estar lendo um poeta que foge aos padrões, tanto com relação à linguagem, quanto à forma de apresentar os temas abordados.
            Porém, mesmo em uma época em que as pessoas apresentam grandes dificuldades na leitura de textos poéticos, os versos de Patativa podem ser saboreados de maneira lúdica e pragmática ao mesmo tempo.






sábado, 9 de outubro de 2010

GERALDO CALIMAN

O PAI DA PEDAGOGIA SOCIAL NO BRASIL
José Neres
(O Estado do Maranhão, 20 de setembro de 2010)

Em um primeiro contato com a Pedagogia Social, alguém pode pensar que se trata de algo romântico, oriundo de quem deseja salvar o mundo sem atentar para os inúmeros obstáculos que poderão ser encontrados durante o percurso que vai da teoria à prática. No entanto, realizar milagres ou esperar que estes aconteçam, como forma de sanar os problemas detectados em uma comunidade ou em grupo de risco, não é o objetivo maior da Pedagogia Social, que é uma ciência e, como tal, tem seus suportes teóricos e metodológicos.

Em termos gerais, a PS está preocupada com o ser humano em sua dimensão de conflito e/ou risco social, buscando formas de compreender e tentar sanar problemas como violência, uso de drogas, delinqüência e demais situações de risco. E embora a nomenclatura possa até ser nova, os problemas são antigos e estão sempre em busca de quem possa pelo menos minimizá-los.

Ao longo de toda a História da humanidade, sempre houve discussões a respeito do papel e da interferência do educador nos aspectos concernentes à formação social das pessoas. Pensadores como Platão, Hegel, Kant, Beccaria e Pestalozzi já demonstravam em seus textos preocupações com o desenvolvimento social da educação, não apenas nos aspectos informativos, mas também no âmbito da formação global do indivíduo. Contudo, é só a partir da segunda metade do século XX que esses estudos ganharam projeção e começaram a ser sistematizados, principalmente com as iniciativas de Paul Natorp e depois com os estudos de Hans Uwe Otto, Bernd Fichtner e Jorge Camors, entre outros pesquisadores que se dedicaram ou se dedicam ao assunto.

No Brasil, os trabalhos relativos à Pedagogia Social são ainda mais recentes. Atualmente, são diversos os estudiosos que se dedicam à compreensão do processo educacional pelo viés social, como é o caso de Antônio Carlos Gomes da Costa, Maria Stela Santos Graciani, Roberto da Silva, João Clemente Souza Neto, Rogério Moura e Maria da Glória Gohn. Porém quem pode ser considerado o introdutor desses estudos no Brasil é o professor ítalo-brasileiro Geraldo Caliman, que, em 1988, publicou o livro “Desafios, riscos e desvios”, considerado pelos estudiosos no assunto como o marco inicial da Pedagogia Social em terras brasileiras.

Geraldo Caliman, atualmente professor da Universidade Católica de Brasília, é um homem que dedicou sua vida aos estudos, à Igreja e às causas sociais. Graduou-se em Pedagogia (pela Faculdade Dom Bosco) e em Teologia (pela PUC-MG), depois foi para a Itália, onde fez curso de especialização em Filosofia, mestrado, doutorado e pós-doutorado pela Universitá Pontificia Salesiana, instituição na qual ocupou vários cargos docentes e administrativos. Mas a grande quantidade de títulos não tornou o professor um homem que se limitasse a transmitir seus vastos conhecimentos em sala de aula e se pôs em campo, trabalhando diretamente com o público que era objeto de suas pesquisas, ou seja, com pessoas em situação de risco social.

Ao voltar para o Brasil, Caliman percebeu que o país ainda não havia despertado para o estudo de algumas situações de risco em que jovens e adultos estavam envolvidos. Começou então a produzir trabalhos voltados para a divulgação e sistematização dos elementos norteadores da PS, estudos estes já bastante avançados na Europa e na América do Norte. Incompreendido a princípio, pois suas concepções iam de encontro a diversos dogmas arraigados na formação de muitos educadores que ainda não conheciam essa linha de estudo, o professor perseverou e conseguiu arregimentar alguns seguidores que disseminaram suas idéias pelo país.

Unindo teoria à prática, o pesquisador elaborou vários projetos e comandou diversas pesquisas voltadas para a compreensão e possível solução de alguns problemas como tóxico-dependência, jovens em situação de risco, marginalização, trabalho infanto-juvenil, formação de gangues, entre outros temas de grande relevância social. Para atingir um público formador de opinião e que disseminasse as novas teorias, o pesquisador publicou diversos artigos e livros, como, por exemplo, Os Paradigmas da exclusão social e Desvio social e delinquência juvenil, alguns de seus trabalhos mais recentes.

Hoje, cerca de duas décadas depois de aportar no Brasil, a Pedagogia Social começa a ganhar reforço de outros pesquisadores que vêem nesse estudo um caminho para diminuir o incômodo fosso que exclui uma parcela importante da sociedade brasileira. E Geraldo Caliman é visto não apenas com um pioneiro, mas como o verdadeiro pai dessa tendência no Brasil.

domingo, 3 de outubro de 2010

JORNADA TÁBUA DE PAPEL

 
 
Com o intuito de promover uma salutar discussão em torno da literatura produzida por autores maranhenses, a Café & Lápis Editora realizará, no dia 06 de novembro de 2010 (sábado), no Auditório Che Guevara/Sindicato dos Bancários (Rua do Sol – Centro) em São Luís, a Jornada Tábua de Papel – Literatura Maranhense, com a participação de professores universitários e escritores, que palestrarão sobre variadas temáticas. Ao final do evento, será lançado o livro coletânea TÁBUA DE PAPEL: ESTUDOS DE LITERATURA MARANHENSE, organizado pelo escritor e professor José Neres, reunindo artigos de dez autores. 
 
Capa do livro - lançamento: 06.11.2010
 
 
INSCRIÇÕES (a partir de 06 de setembro – terça-feira):
Local:
• Livraria Athenas (Rua do Sol – Centro);
• Livraria Prazer de Ler (CCH – UFMA);
• Faculdade Athenas Maranhense (Local a ser definido).
Valor (ÚNICO):
R$ 20,00 (Certificado – 10h + Livro Coletânea)

INFORMAÇÕES:
Tel: (98) 3082-8871 (Germana ou Claunísio)
E-mail:
cafelapis.editora@gmail.com
Blog: cafelapiseditora.blogspot.com 
PROGRAMAÇÃO:
08:15 h - Credenciamento

09:00 h – Abertura

09:20 h - 11:00 h - Mesa 1: Literatura e formação da identidade de um povo
Antonia Nilda Alves Cruz
Maria das Neves Oliveira e Silva Azevedo
Núbia Costa Bastos
Dinacy Mendonça Corrêa

11:10 h – 12:00 h – Palestra: Artur Azevedo e a comédia no Brasil
Dino Cavalcante

14:00 h - 15:40 h - Mesa 2: Literatura Maranhense: do clássico ao contemporâneo
Flaviano Menezes da Costa
Joaquim de Oliveira Gomes
Natércia Moraes Garrido
Rosely Maria Ribeiro Néri Saldanha

15:50 h - 16:50 h - Conferência de encerramento: Gullar: de São Luís para o mundo José Neres

17:00 h - Lançamento Coletânea “Tábua de Papel: estudos de Literatura Maranhense”
Entrega de certificados e livros
Coquetel de Encerramento

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

LANÇAMENTO DE LIVRO

Caros amigos, no dia 1º de outibro, a partir das 19 horas, na Livraria Leiamundo, haverá o lançamento do mais recente livro do escritor Wilson Marques. Quem puder, compareça! Vale a pena!!!!!

domingo, 26 de setembro de 2010

SECRETARIADO EXECUTIVO


SECRETARIADO: 25 ANOS DE SUCESSO
José Neres & Lindalva Barros
 

            Embora seja bastante antiga, remetendo inclusive à época dos escribas, no Brasil, foi somente a partir de 30 de setembro de 1985, com a aprovação da Lei nº 7.377, depois modificada pela Lei nº 9.261, de 10 de janeiro de 1986, que o profissional de secretariado teve sua situação regulamentada.
            Durante muito tempo, era comum acreditar-se que para exercer a função de secretário ou secretária bastava saber atender ao telefone, servir água ou cafezinho e, principalmente, ter rosto e corpo bonitos. Hoje, no entanto, as pessoas já começam a ter consciência de que competência e preparo técnico/acadêmico são elementos essenciais para quem deseje ingressar nessa carreira, que é uma das mais promissoras do mercado.
            É muito difícil imaginar, atualmente, um profissional de secretariado que aja de maneira passiva dentro de uma empresa, apenas acatando ordens sem pensar em saídas mais eficientes para os problemas enfrentados no dia a dia de uma instituição. O perfil moderno desse profissional exige que ele esteja atento às mudanças do mercado, atualizado com as novas técnicas de administração e gerenciamento de situações que anteriormente eram passadas diretamente para o imediato superior, sem a menor interferência do(a) secretário(a).
            Com a exigência de formação superior para exercer a profissão, a atividade secretarial deixou de ser vista como uma tarefa técnica, mecânica e repetitiva, passando a ter maior importância dentro da organização interna e externa de uma instituição pública ou privada. Com uma visão holística da realidade circundante, o(a) secretário(a) passou da categoria de simples serviçal de escritório à condição de gestor adjunto de diversos setores da instituição à qual presta serviço e não são raros os casos em que assume  responsabilidade extras em situações de emergência.
            No Maranhão, o curso superior em Secretariado Executivo demorou bastante a chegar e foi implantado graças aos esforços conjuntos de José de Ribamar Fiquene e Zenira Massoli Fiquene, proprietários de uma instituição de ensino superior, de Dalti Calvert Sousa, um dos ícones do secretariado no Estado e da professora Nilzenir de Lourdes Ribeiro Almeida, atual presidenta do Sindicato da classe e a primeira professora do Curso no Maranhão com diploma superior em Secretariado.
            O Curso, que recentemente completou dez anos de funcionamento, já formou aproximadamente mil profissionais e foi homenageado pelos Correios com um selo comemorativo pela passagem da primeira década de atuação. Constantemente adaptando-se às necessidades de um mercado cada vez mais exigente e que começa a impor a formação superior como condição essencial para a contratação de secretários e secretárias, o curso de Secretariado Executivo Bilíngue foi inicialmente coordenado pela professora Ester Rátis de Santana e depois pelas professoras Lígia Saraiva e Evelin Leite Kantorski e é atualmente dirigido por Conceição de Maria Moura Ferreira, secretária executiva de grande experiência na área administrativa e na educacional.
            Depois de muita luta, o profissional de secretariado finalmente começa a ser reconhecido como parte de extrema importância nas complexas engrenagens de uma instituição de qualquer porte. E agora, vinte e cinco anos após a regulamentação da profissão, a cada dia prova que pode fazer a diferença neste exigente e cada vez mais moderno mundo de negócios.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

AGUARDEM... TÁBUA DE PAPEL

Com o intuito de promover uma salutar discussão em torno da literatura produzida por autores maranhenses, a Café & Lápis Editora realizará, no dia 06 de novembro (sábado), no Auditório Che Guevara/Sindicato dos Bancários em São Luís, a Jornada Tábua de Papel – Literatura Maranhense, com a participação de professores universitários e escritores, que palestrarão sobre variadas temáticas.

Ao final do evento, será lançado o livro coletânea TÁBUA DE PAPEL: ESTUDOS DE LITERATURA MARANHENSE, organizado pelo escritor e professor JOSÉ NERES, da Faculdade Atenas Maranhense, reunindo artigos de dez autores. 
Capa provisória do livro

Em breve, locais de inscrições e programação completa.

Aguardem!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

O FALAR MARANHENSE

Aqui está nosso artigo publicado na revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa.
A revista já está nas bancas

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

GULLAR... SEMPRE GULLAR

Não consigo negar nem esconder minha admitação pela obra de Ferreira Gullar. Sou fã de toda a obra desse poeta que conseguiu sair dos limites da própria província e, com o poder de suas palavras, alcançou os mais altos postos da literatura brasileira.
Hoje o Poeta completa 80 anos e, como forma de homenagem, republico este artigo que saiu há muitos anos na Revista De Repente, do Piauí, com algumas modificações. Em breve, uma versão mais ampliada e consistente deste estudo saíra no livro Tábua de papel, a ser editado pela Café e Lápis Editora.



GULLAR: O CORDELISTA
José Neres


fonte: Internet: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBl4vaGkKYSz5ez41vnyp7wrnEWd-CtxKy0YI-ZTjIidxx_7FFsjcajk-AJsMZ_m9oedgqsI9cN31QcApCG-cjJVacva-bnILEMU5Vze03M0Di8ryQA9yi2taSqH-uByHoJfYL8da1vCI/s1600/ferreira+gullar.jpg
            Não há menor dúvida de que Ferreira Gullar é um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Com dezenas de livros publicados, o poeta maranhense é conhecido pela crítica e pelo leitor geral por seu tom que mescla o lírico ao social e por denunciar os desmandos dos governantes, separando muito bem, na relação de status quo quais são os dominantes e quais são os dominados. Tal atitude valeu-lhe anos de exílio e inúmeros poemas, como pode muito bem ser comprovado na leitura do livro Rabo de Foguete, sua autobiografia literária publicada no final de 1998.
            Visto por Vinícius de Moraes como “o último grande poeta brasileiro”, Gullar é dono de uma alentada obra, que vai de poemas a ensaios, passando por peças teatrais, prosa experimental, roteiro para telenovelas e séries de televisão, traduções e crônicas. Mas é sem dúvida seu livro, Poema Sujo, escrito durante os anos de chumbo da censura brasileira, a sua maior realização literária.  O crítico piauiense Assis Brasil compara a obra magna de Gullar a uma espécie de nova Canção do Exílio das letras nacionais.
 Conhecido também por seu estilo independente, o poeta partiu de textos de caráter parnasiano, atingiu a aura modernista e investiu em atitudes vanguardistas, brigando com o grupo concretista e trazendo à luz o movimento Neo-Concreto. E, entre 1962 e 1967, publicou, numa grande demonstração de engajamento político (que aparece também  em obras anteriores às datas citadas com outros matizes) quatro romances de cordel, com os seguintes  títulos: João Boa-Morte – Cabra Marcado pra Morrer; Quem Matou Aparecida; Peleja de Zé da Molesta com Tio Sam e História de um Valente.
            Embora a produção cordelística de Ferreira Gullar tenha sido relegada a um segundo plano até mesmo pelos estudiosos de sua obra, ela merece ser lida e relida, pois apresenta versos de boa qualidade e com grande carga de abordagem social. No início da saga de João Boa-Morte, o poeta adverte que o caso:

Sucedeu na Paraíba
mas é uma história banal
em todo aquele nordeste
Podia ser em “Sergipe,
Pernambuco ou Maranhão
Que todo cabra da peste
Ali se chama João
Boa-Morte, vida não

            João é um trabalhador rural que, após desafiar o Coronel Benedito, o dono das terras em que trabalha, se vê ameaçado de morte e é obrigado a deixar a região. Em todos os lugares aonde chega pedindo emprego, João é tratado com desdém, pois o antigo patrão já havia declarado que ninguém poderia contratá-lo, sob pena de sofrer retaliações. Com a mulher e os seis filhos, o herói da narrativa vaga sem perspectiva de alimentar sua família. Finalmente, após a morte de um dos filhos, por inanição, decide matar a mulher e as demais crianças  e cometer suicídio. Quando vai cometer o crime, é encontrado por Chico Vaqueiro, “um lavrador como ele sem dinheiro”, que faz parte da Liga que luta contra os latifundiários. O caboclo diz a João:

O inimigo da gente
é o latifundiário
Que submete nós todos
a esse cruel calvário
(...)
É contra aquele inimigo
que nós devemos lutar.
Que culpa têm os seus filhos?
Culpa de tanto penar?
Vamos mudar o sertão
Pra vida deles mudar.

            Saindo do campo e indo para a cidade, ou melhor, para a favela, mas sem mudar o enfoque da exploração do homem pelo homem, o poeta escreve o cordel Quem Matou Aparecida, subtítulado História de uma favelada que ateou às vestes. O Poema traz a vida e morte de uma moça que:

Que não teve glória, nem fama
de que se possa falar.
Não teve nome distinto:
criança brincou na lama,
fez–se moça sem ter cama
nasceu na Praia do Pinto,
morreu no mesmo lugar.

            Aparecida sai da favela e vai trabalhar como doméstica na residência de uma família rica. Envolta em um turbilhão de acontecimentos, a adolescente é seduzida pelo patrão e é descoberta pela patroa, que a acusa de roubo. Grávida, vai parar na cadeia, onde sofre as maiores humilhações possíveis. Depois de muito sofrimento, conhece o operário Simão, que trabalhava muito, mas ganhava “tão pouco/ que mal dava pra comer”. Vão morar juntos. O rapaz envolve-se em uma greve e é preso pela Repressão. Assim como muitas vítimas da ditadura, Simão desaparecer e nunca mais volta para o “barraco esburacado” onde morava com sua companheira. Sem alimento, a criança morre, no desespero, a mãe, com apenas 15 anos, “derramou álcool na roupa/ para logo fogo acender”. Surgem então os questionamentos Quem Matou Aparecida/ “Por que há ricos e pobres?”. Vindo depois a resposta:

Quem ateou fogo ás vestes
Dessa menina infeliz
Foi esse mundo sinistro
Que ela nem fez nem quis
- Que deve ser destruído
pro povo viver feliz.

            No terceiro cordel temos Zé da Molesta, “Um Zé franzino/ nascido no Ceará/ mas cantador como ele/ no mundo inteiro não há”. Numa típica alegoria, Gullar põe Zé da Molesta como sinônimo do povo brasileiro, sofrido, mas inteligente e improvisador. Para opositor, temos o Tio Sam, um estereótipo da cultura americana, arrogante e dominador, impondo seus desejos pela força. Desafiado pelo americano, o nordestino foi parar no prédio da ONU, para provar, que mesmo pobre, muito vale e que sua pobreza ocorrer em virtude dos constantes saques que os Estados Unidos promovem no Brasil. Rendido no embate, o norte-americano apela pela força bruta de seu poderio bélico e econômico, e o brasileiro tem de fugir dali para continuar com a vida. No desespero, o poderoso Tio Sam:

Gritou: “Chega de conversa,
Que estou desmoralizado!
Desliguem a televisão,
Deixem o circuito cortado,
Mobilizem os fuzileiros,
Quero ver esse ‘cabra’ amarrado.
Vamos lhe cortar a língua
Pra ele ficar calado.

            Finalmente, temos a História de um Valente, que traz a saga de Gregório Bezerra, um “filho de pais camponeses” que sai de Pernambuco e se torna soldado. Deixa o exército e ingressa no PCB, participa da revolta de 35, vai preso, é torturado, e depois tornar-se deputado, mas perde o mandato quando o Partido Comunista é posto na ilegalidade. Já sexagenário volta para cadeia. O poeta termina os versos conclamados e alertando:

Gregório está na cadeia.
Não basta apenas louvá-lo.
O que a ditadura espera
É a hora de eliminá-lo.
Juntemos nossos esforços
Para poder libertá-lo,
Que o povo precisa dele
Pra em sua luta ajudá-lo.

            É importante notar que em todos os seus cordéis, Ferreira Gullar procura soluções marxistas para os problemas enfrentados no Brasil. Para ele só há um modo de salvar o que temos: a luta de classes, através de uma revolução. Logicamente, as idéias defendidas pelo escritor, bem como as propostas por ele dadas não agradaram ao “Governo”, que, na época, o considerou uma ameaça.
            Interessante perceber também que somente agora parece que os leitores estão entrando em contato com os cordéis de Gullar. Mesmo que os textos fizessem parte das várias edições de Toda Poesia, acabavam servindo mais como uma curiosidade que como fonte de leitura e de estudo. Recentemente os textos foram reunidos em um livro chamado Romances de Cordel, uma edição que valorizou os textos, pois os tirou do conjunto geral e ressaltou a beleza individual de cada narrativa em cordel. Hoje os poemas podem também ser lidos na belíssima edição de Poesia Completa, Teatro e Prosa, da Nova Aguilar Editora, organizada pelo professor Antônio Carlos Secchin.
            Mesmo o próprio poeta dizendo que os poemas de tom dominante político são pobres, não podemos negar que a coragem de mostrar uma outra face do País em um momento tão melindroso já é o suficiente para imortalizar um escritor. E, inteligentemente, Gullar escolheu uma forma popular para trabalhar um tema que a todos interessa: a liberdade. Ao contrário do que alguns críticos pensam, o cordel não empobreceu a obra de Ferreira Gullar, pelo contrário, fê-la tornar-se mais rica, densa e humana.