José Neres
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Fonte da imagem: Internet |
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de uma década e meia após sua estreia em livro, quando não pairava mais nenhuma
desconfiança sobre seu talento poético, Wanda Cristina volta a ser lembrada por
outro grande crítico. Ela foi selecionada por Assis Brasil como uma das
representantes da poesia maranhense do século XX. O romancista e crítico
piauiense destaca a inventividade, o domínio da linguagem e o uso de formas
poéticas diversificadas por parte da escritora, que tem cinco de seus poemas
destacados na antologia.
Em
sua obra, Wanda Cristina não espera que o leitor abra o livro para entrar em
contato com a poesia e com as metáforas. Logo na capa, ela já costuma fazer um
trabalho de escolha lexical que leva o leitor a perceber que escolher um título
não se trata de um mero artifício verbal, mas sim de um recurso poético que
pode ser bem empregado por quem sabe que os jogos poéticos não se limitam à
confecção dos versos e à busca desenfreada pelas rimas. Desse modo surgiram
títulos como “Uma Cédula de Amor no meu Salário”, “Engraxam-se Sorrisos” e
“Rede de Arame”.
Embora
seja mais conhecida por seus textos em verso, Wanda Cristina não se prendeu a
apenas um gênero ou a uma forma. Ela, ao longo de sua trajetória literária, já
se dedicou à prosa, ao texto teatral, à composição de letras de músicas, à
pesquisa folclórica e a outros gêneros, além de dedicar-se ao magistério. Essas
múltiplas atividades talvez tenham eclipsado um pouco o brilho da poetisa que,
possivelmente ainda deve ter muitos textos inéditos esperando a oportunidade de
virem à luz.
As
temáticas e estruturas trabalhadas pela autora de “Geofagia Ruminante no Sótão
da Preamar” são variadas e vão desde situações cotidianas até incursões pela
experiência concretista, com especial atenção aos aspectos sociais da
realidade. Em diversos momentos de sua obra, Wanda Cristina deixa transparecer
seu descontentamento com a as injustiças sociais e com os (des)rumos que o
mundo vem tomando e que quase sempre não estão de acordo com o que seria
desejável. Atenta aos elementos circundantes, a escritora colhe do dia a dia a
matéria para seu trabalho com a palavra. Um acidente de trânsito, uma discussão
banal, um cigarro, uma árvore... Tudo pode servir de tema para a poética dessa
escritora que busca no cotidiano e dentro da essência das pessoas a
matéria-prima que, após um burilamento com a linguagem, se transforma em
Poesia.
Em
alguns de seus poemas, Wanda Cristina consegue amalgamar o tom de revolta com a
consistência de um apurado trabalho de construção poética. É o caso do pequeno,
mas contundente Aliteração, no qual, em apenas dez versos, a antiga concepção
político-ideologia do Pão e Circo é mostrada e desnudada como força coercitiva
da alienação do povo. Trata-se de um poema que ao mesmo tempo encanta o leitor
pela bela construção e o faz pensar na forma como somos manipulados ao longo
dos tempos.
Adepta
dos jogos de palavras, mas sem decair no mero experimentalismo fonético, e do
engajamento literário, contudo sem recorrer ao panfletarismo militante, Wanda
Cristina é o tipo de escritora que deve ser lida com calma, apreciando-se todas
as nuances e matizes que fazem de cada um de seus textos uma pequena obra de
arte.
Visite a página da escritora em http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=16679