sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A TEIA POÉTICA DE LÚCIA SANTOS

A TEIA POÉTICA DE LÚCIA SANTOS
José Neres
Publicado em O Estado do Maranhão 02/02/2009


A Poesia é uma ave alucinada que luta dia e noite pela liberdade, que se esforça para ser vista em todos os lugares, em todos os momentos, independentemente de formas, de espaço físico ou de status social. Mas algumas pessoas insistem em pensar que a Poesia só possa existir encarcerada nos versos de um poema.





É no poema, mas não só nele, que a Poesia se materializa. Mas ela não é tão elitista assim e pode aparecer também no sorriso de uma criança, na troca de olhares de um casal apaixonado, no último segundo de luz do ocaso, no suave balançar dos galhos de uma árvore ou no pranto enrugado de um idoso solitário a pensar em seu glorioso passado. Em todos os lugares está a Poesia. Tudo pode ser Poesia, dependendo de quem capta os mais singelos detalhes da vida para transformá-los em arte.


Algumas pessoas têm o dom de pôr no papel esses flashes da vida e de traduzir a poesia da Vida em forma de poemas. É esse o caso da escritora maranhense Lúcia Santos, autora de, por enquanto, três livros: "Quase azul quanto blue" (1992), "Batom Vermelho" (1998) e "Uma Gueixa pra Bashô" (2007), além de participações em antologias poéticas.


Dona de um estilo sintético e agudo, Lúcia Santos compõe seus textos com a maestria de quem tece uma infinita teia de palavras com inúmeros nós que se misturam e se multiplicam formando não um vácuo, mas possivelmente um breve vazio existencial. Suas temáticas tratam basicamente da essência humana, das dores e dos momentos de transição por que todas as pessoas passam em determinados momentos da vida. Contudo, mesmo tratando de assuntos que, nas mãos de um escritor inexperiente, descambariam invariavelmente para um mero lacrimejar de palavras, Lúcia Santos não abre espaço para o pieguismo simplista e sentimentalóide. Ela demonstra ao longo de suas obras que é possível tecer linhas de emoção usando a perspicácia, a inteligência e a razão, mas sem perder o senso poético e o bom gosto estilístico.


Ler os poemas de Lúcia Santos é também entrar em contato com uma tessitura poética que mescla uma consciência intertextual, sutis jogos de palavras, experiências de vida e um emaranhado de argumentos, raciocínio e dúvidas que convergem invariavelmente para um mergulho do eu-lírico rumo a uma busca de autoconhecimento sem precisar recorrer a uma fuga para um reino de serafins. Em boa parte dos poemas o leitor tem a abstração lírica combatida duramente pela acidez irônica de uma visão crítica que quase sempre quebra as expectativas. É o que acontece, por exemplo, no poema "Abstração", no qual a lembrança do enleio amoroso é atravessada por uma revoada de urubus.


Outro ponto importante da teia poética minuciosamente arquitetada pela escritora arariense é sua facilidade em tratar de assuntos que ficam no meio termo entre sensualidade e erotismo, entre tentação e desejo, entre amor e ódio. Sem cair na banalidade ou no mau gosto, Lúcia Santos trabalha vários matizes da essência da Mulher. As vozes femininas que se apresentam nos poemas não representam o simplismo de uma visão maniqueísta de uma sociedade pretensamente falocrática. De um poema para outro ou, às vezes, no próprio poema, a meiguice inicial se transforma em desejo ardente, em voluptuosidade ou em desafio. A mulher deixa de ser apenas caça, mas também se faz caça quando quer e assume a aura de caçadora quando lhe convém.


Consciente de que o poema não precisa de muitas palavras para mostrar sua poesia, Lúcia Santos é econômica em palavras, porém essa visível economia vocabular esconde uma infinita riqueza de imagens poéticas. São tantas as imagens, que o leitor menos experiente nas lides poéticas pode facilmente perder-se nas muitas armadilhas, verdadeiras teias de palavras e de silêncios que dizem muito mais do que os olhos humanos podem alcançar

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

UM CENTENÁRIO ESQUECIDO

Chego a um sebo e fico perdido entre os milhares de livros que nunca poderei ler. Procuro obras raras de autores maranhenses. Passeio entre as estantes. Abro alguns volumes. Leio algumas linhas. Acaricio algumas capas enrugadas pelo uso... Um pequeno livro amarelecido pelo tempo e de aparência frágil chama a minha atenção. Decido comprá-lo.

Na capa rústica, o nome do autor: Carvalho Guimarães, seguido de uma indicação de que ele fizera parte da Academia Maranhense de Letras. Emoldurado por um desenho assinado pelo artista Orestes Acquarone Filho, está o título da obra: Jurema e o Cajueiro.

Em uma falsa folha-de-rosto, deparo-me com um autógrafo do autor, datado de 31 de outubro de 1969. Logo abaixo, um dos possíveis proprietários do livro deixou suas impressões a lápis: “Lido. Por curiosidade. E, sobretudo, evanescentes lembranças do autor!...” Uma assinatura ilegível e a data de 24 de janeiro de 1995 encerram meu passeio pela página inicial da obra.

Manuseando com cuidado o volume, descubro que se trata de uma edição de 1963, impressa no Rio de Janeiro pela Gráfica Tupy. Leio atentamente o prefácio, de quatro páginas, assinado por Maria da Providência (da Associação Brasileira de Imprensa) e sou iluminado com importantes informações sobre o poeta. Descubro sua relação com a cidade de Passagem Franca, seu amor pelas letras e sua importância para o jornalismo escrito na primeira metade do século XX.

Começo a ler o poema. O “Era uma vez” inicial me remete aos velhos e sempre úteis contos de fada, e o encanto dos versos bem construídos levam-me à sombra do velho Cajueiro apaixonado pela Jurema, “outra árvore do sítio, a que ele amava, / E a quem loas teceu num longo poema”. Encanto-me com as divagações do Cajueiro, com seus dias de glória e me entristeço com sua decadência e com a certeza de que seus dias estão em contagem regressiva.

Na segunda parte do belo poema de Carvalho Guimarães, entro em contato com as angústias de Jurema. Ela também, reconhece seu fim próximo, uma morte sem jamais conhecer “o segredo/ Da volúpia de amor dos vegetais” e espera, ao lado do Cajueiro, seu eterno noivo, que se cumpra o destino inexorável das velhas árvores: a derrubada.

Na última página, descubro que o poema foi escrito em Passagem Franca, em 1908 (há um século, portanto). Um belo poema...

Um poema tão centenário quanto o cajueiro e a Jurema. Um poema tão belo como a simplicidade das árvores e tão esquecido quanto elas. Os ramos do texto, em forma de versos, resistiram ao tempo e, mesmo esquecidos, continuam espalhando suas sobras e acolhendo os leitores interessados em conhecer a história de amor entre as duas árvores que há cem anos buscam a realização do impossível final feliz.

Fecho o livro e vêm à minha memória as palavras do professor, crítico e poeta Antônio Carlos Secchin, que certa vez disse que “as noites de autógrafo se transformam em rituais simultâneos de batismo e de óbito de um livro”. Lembro também as sábias palavras de Sebastião Moreira Duarte ao lembrar que “no Maranhão, de tantos valores literários, consegue-se o prodígio de ser publicado e de continuar inédito”.

No fim de tudo, além da beleza e das belas mensagens expressas nas quarenta e três páginas do livro, resta também a certeza de que ainda temos muito o que descobrir nas tão esquecidas letras de nossa fértil literatura...


Fragmento do livro


Era uma vez uma árvore florida,
O robusto cajueiro do sertão.
Que tinha, como a gente, crença e vida,
A crescer e a florir, no coração!

Erguia-se na porta da Fazenda,
Com folhas verdes e amarelos frutos,
O guarda vigilante da vivenda,
Sentinela avançada para os brutos...

Era o boêmio, notívago. Passava,
A noite inteira, ao lado de Jurema, -
- Outra árvore do sítio, a que ele amava,
E a quem loas teceu num longo poema.

Olhava o gado no curral, em frente,
E sentia a delícia de viver,
Cantava toda a noite, como a gente,
Para as mágoas da vida não sofrer,

Mil gerações passaram... sempre ereto,
Aos estranhos pagodes assistia,
No terreiro da casa, o bando inquieto
Dos cantadores dos sertões ouvia.

domingo, 18 de janeiro de 2009

NAURO MACHADO NO YOUTUBE

"O poeta é sua obra
poética" (Nauro Machado)

Nauro Machado é um dos grades poetas do Brasil contemporâneo. Alguns estudiosos já se debruçaram sobre sua obra para tentar captar os vários matizes de uma poesia que é tida por grande parte dos leitores como complexa, hermética, de difícil acesso.

Não são muitos os registros de Nauro Machado falando sobre sua própria poética. Em um vídeo postado no Youtube, ele fala um pouco sobre seus poemas, seu estilo e seus anseios. Ele reconhece que é muito difícil classificar um poeta e o mais difícil é "o próprio poeta dizer quem ele é". Em outro momento do pequeno, mas denso documentário, o poeta admite que gosta da solidão e espera que no futuro sua obra seja estudada.

O pequeno vídeo pode chamar atenção também para a ausência de um projeto de preservação das imagens e dos sons de nossas letras e de nossa história como um todo. Seria órimo se tivessemos também imagens de Chagas, Tribuzi, Arlete Nogueira, Luís Augusto Cassas e de tantos outros que fazem nossa vida literária.

Não sei quem produziu o vídeo, mas o recomendo a todos os que gostam de poesia e que talvez um dia se proponham também a por seus sentimentos no papel. Vale a pena ver e rever o vídeo diversas vezes. O trabalho pode ser visto também em http://www.youtube.com/watch?v=9qiKh4TGfx8




video

VIANA NA MEMÓRIA DE SOEIRO


Nem todas as lembranças podem ser
afirmadas, com toda certeza,
quando elas são “Estórias” ou
quando começam a ser História,
pois, elas se confundem. (José Soeiro)


Ao Jermany, estimado aluno, neto de José Soeiro,
que me presenteou com os livros de seu avô.



Viajar, mesmo a trabalho, é uma oportunidade de conhecer outros lugares, outras pessoas, de respirar outros ares e de entrar em contato com outros pensamentos e outras culturas.

Semana passada, tive o prazer de conhecer Viana, uma cidade agradável, com gente simples e hospitaleira. Claro que uma semana é um tempo muito curto para alguém conhecer uma cidade, mas é o suficiente para ter uma imagem global. Além de conhecer vários vianenses, por causa da natureza do curso em que eu estava trabalhando, conheci também diversos moradores dos municípios que formam o entorno do município: Cajari, Penalva, Matinha, etc.

Além dos novos amigos que devo ter feito, tive a sorte de ser agraciado com dois livros de um autor local: José Soeiro.

Ao completar oitenta anos, José Soeiro acabou não só recebendo as homenagens devidas, mas também fazendo uma troca de presentes. Deu à história de sua terra natal uma gigantesca contribuição: publicou um livro intitulado TERRA QUERIDA, que é muito mais que uma autobiografia, é também um apanhado geral sobre muitos momentos da história de Viana. Em 94 páginas, boa parte da vida do autor é narrada em um estilo claro e vivaz. Sua história e a da cidade se amalgamam de tal maneira que em alguns pontos o leitor não poderá dissociar uma da outra. Depois de falar sobre seu nascimento, da constituição de sua família e diversos outros momentos de sua vida – sempre com um tom bastante crítico e dinâmico – Soeiro toca no ponto mais contundente da obra: sua relação com a política.

Ele rememora com boa dose de emoção a época em que foi vereador e a reticência da população com o fato de ter no legislativo municipal um representante negro. Narra sua saga ao escapar de assassinos profissionais contratados para impedir que um negro ocupasse a presidência da Câmara dos Vereadores e outras peripécias políticas.

Cinco anos após a primeira publicação, ao completar 85 anos, José Soeiro apareceu com um outro livro: VIANA TE AMAREI POR TODA VIDA, uma obra de referência para quem pretenda conhecer os primórdios e o estágio atual da cidade. Em um levantamento minucioso, amparado na memória e em pesquisas – que o autor faz questão de alertar que não têm cunho científico – o livro traz um pouco da história de Viana, seus prefeitos, seus povoados, momentos marcantes da cidade e muitas outras referências que servirão para futuros pesquisadores.

Consciente de seu papel de formador de opinião, José Soeiro, em suas obras não se limita a narrar fatos de sua vida, da cidade ou de sua família. Ele se imiscui no texto deixando sugestões para melhorar a região, critica mandatos e dá sua opinião sincera a respeito dos rumos da cidade. Ou seja, José Soeiro jamais abdica de seu papel de cidadão.

Pela regra, ao completar 90 anos, teremos mais um capítulo dessa história de um homem simples que coloca no papel bem mais que flashes de sua vida, mas sim lições de cidadania e a certeza de que a idade não deve ser obstáculo para a realização de sonhos. Para o bem de Viana e de sua memória... Vida longa a José Soeiro!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O JABUTI QUE FALAVA INGLÊS


Inexplicavelmente, virou senso comum dizer que o Maranhão não tem literatura voltada para o público infanto-juvenil. Quem diz isso talvez nunca tenha ouvido falar em Viriato Correia (Cazuza), Lenita Estrela de Sá (A Filha de Pai Francisco e Lagartinha Crisencrise), Ubiratan Teixeira (Buli-Búli), Lucas Baldez (Viagem ao Mundo da Imaginação), Wilson Marques (com a série Touchê...) ou de Josué Montello (A formiguinha que Sabia Dançar, A Cabeça de Ouro, Calunga), para ficar apenas em alguns autores.

Claro que ainda não temos uma tradição e uma linha editorial voltada para o público que começa a entrar em contado com os livros. Isso pode ser facilmente verificado quando se nota que, em nossas escolas, os livros paradidáticos quase nada têm a ver com a realidade regional. Mas isso é outra história que envolve dezenas de outros fatores, sobre os quais comentarei um dia desses.

Para engrossar a esse pequeno, contudo valoroso rol de escritores maranhenses dedicados a criar leitores, estréia em livro Joaquim de Oliveira Gomes, com O Jabuti que falava Inglês (Editora Fama, 2008). Um trabalho bem cuidado, em formato quadrado e com ilustrações coloridas de autoria do artista Beto Nicácio. O único porém com relação à diagramação é, talvez, a letra um pouco pequena demais para uma garotada que vê um Universo de desdobrando diante de seus olhos. Mas esse é só um detalhe técnico que pode ser corrigido em futura edição.

Usando um vocabulário fluido e um tom de encantamento, Joaquim Gomes mostra, em forma de alegoria, como o deslocamento inicial causado pelo contato com as diferenças pode ser marcante. O autor mostra também em sua fábula que gentileza, educação, companheirismo e solidariedade independem de língua, raça ou cultura e podem ser encontrados na torça de experiências entre seres de origens distintas. Para mostrar isso, o autor usa com sobriedade a metáfora do relacionamento entre seres humanos e animais. O Jabuti da fazendo, o único a falar inglês ali, serve como porta-voz das diferenças e uma espécie de ponderador entre as diversas personalidades abordadas na pequena obra.

Como a maioria das obras desse gênero, O Jabuti que Falava Inglês serve para divertir e para educar e pode ser lido em diversas camadas, dependendo do grau de amadurecimento do leitor. Esperamos que o autor não pare apenas nesse livro e possa brindar nossos jovens e crianças (e até os adultos) com outras histórias do mesmo quilate.
Os interesandos no livro podem entrar em contato com o autor pelo
email joaquim@fama ou pelo telefone 99741823

domingo, 4 de janeiro de 2009

ARTIGO DE JOSÉ EWERTON NETO


Para finalizar este domingo de muito sol e poeira, recorro ao artigo de meu carísimo amigo recém-conquistado José Ewerton Neto, que dento de alguns meses será empossado na Academia Maranhense de Letras, instituição para a qual foi eleito por seu trato gentil com as pessoas e com as palavras, além, é claro, de seu incontestável mérito literário.

Como ilustração, uso a capa do mais recente livro de Ewerton, o qual eu recomendo para uma leitura em silêncio e cheia de reflexão sobre o que cada página nos traz com relação a busca de nós mesmos.

O texto abaixo foi iniciamente publico em O Estado do Maranhão e está aqui reproduzido com a premissão do autor. Boa leitura a todos.



ASSIM REFULGE A POESIA


José Ewerton Neto, engenheiro,

autor de Ei, você conhece Alexander Guaracy?
Email: ewerton.neto@hotmail.com



“ Esse refulgir que mais parece um sonho...”
Machado de Assis





Em matéria de poesia todos somos suspeitos. De gostar em demasia, de repetir o que todos dizem, até de dizermos que não gostamos dessa ou daquela poesia. Se os poetas são fingidores, como dizia Fernando Pessoa, mais ainda seus leitores, porque sendo a poesia indissociável da expressão de um sentimento, a realização do leitor não está apenas no êxtase com a forma que o traduz, mas, principalmente, na sua identificação com o autor, quando descobre a expressão gloriosa (e próxima da catarse) do equivalente seu.
Por isso poucos se aventuram no terreno da precisa descoberta do
tesouro poético, eis que a poesia , muito mais que a prosa, por exemplo, é o terreno onde o gostar do que se lê é movido por paixões que disparam, junto com a emoção, diante deste ou daquele poema lido; muitas vezes de um verso simplesmente, e não na contemplação do livro como um todo - como ocorre com o romance.
Sendo feito de curtos-circuitos sentimentais tentando revestir-se de um prazer estético, a meu ver, o poeta, mesmo um grande poeta, dificilmente consegue manter em contínuo processo de alumbramento o fetiche com que magnetiza o leitor nesse ou naquele poema isoladamente. Quanto? Aqui a matemática não socorre. Julgo que uma identificação com 30 a 40 % dos poemas de um livro já seja capaz de deixar o leitor em estado de glória, suficiente para acreditar estar diante de um grande livro.
Esse talvez seja o grande problema da poesia brasileira atual : o de
identificar corretamente valores, onde já não emergem os ícones incontestáveis, como no passado. Fragmentária dentro da própria fragmentação da vida cotidiana, à mercê de espasmos que surgem aqui ou ali, não há por parte da crítica literária nacional a imparcialidade e a acuracidade necessária para enxergar, fora do ambiente das “panelinhas literárias” regionais, os centros onde vicejam a melhor poesia. Só isso explica que os suplementos de alcance nacional (raros) não façam menção mais freqüente aos grandes poemas que aqui em São Luis surgem aos borbotões. Como leitor, eis aqui um breve registro do que ultimamente li e gostei:
Em A morte de Ana Paula Usher, Augusto Cassas, poeta
consagrado nacionalmente, permanece fiel a seu estilo, bastante sutil e original na arte poética brasileira, de convivência da ironia e do sarcasmo com o lirismo Essa poesia, mais recente em sua obra, pode provocar alguma perturbação nos que o preferem de outros livros como República dos Becos e a Paixão Segundo Alcântara. O que se percebe, porém, em Cassas é a absorção espontânea de uma espécie de compromisso com um estilo rompedor de clichês, que, ao mesmo tempo em que causa impacto, flui naturalmente. Entre vários bons poemas do livro destaco os títulos A Cama, Um e O amor, resumos preciosos da dissolução dos espíritos no plano transcendental da fusão com o outro, que é o princípio do amor
Em Vozes de Hospício, Cunha Santos, também consagrado poeta, cunha (me perdoem a tentação do trocadilho ) já a partir do título do seu livro a sua concepção poética de uma linguagem densa e forte. São gritos simbólicos extraídos do caos e da degradação humana, que atordoam com um lirismo algumas vezes apaziguador, outras dilacerante, como aqueles em que vocifera “Não se rosna poesia assim, com quem bebe um cálice de sangue”. Não há chances para a felicidade fácil em seus versos , entre os quais prefiro os que fogem do tom panfletário, como os do poema acima citado Lexotan , Musa e Espaço.
Bioque Mesito, poeta vencedor do recente prêmio FUNC, parece buscar nos poemas de A Anticópia dos placebos...o espaço-tempo dos seus “dias em tecnicolor” em que na contemplação do banal cotidiano acaba contemplando a si mesmo. Não há um distanciamento crítico diante do que vê e sente, mas a intenção de flutuar na pulverização e no tédio dos tempos atuais, como num fluido disperso, em que a função de sua poesia é atomizar essa perplexidade para torná-la suavemente palpável. Destaco, para gosto pessoal, os poemas que tratam dos dilemas atemporais dentro dessas janelas como Comics, O tempo não depende..., Haste.
Eduardo Borges, em Susurros é um poeta que não teme os próprios sentimentos eis que, rapidamente, nos identificamos com a multidão de uivos paralelos aos que a gente traz no recôndito de nossas almas. À semelhança de hai-kais, as palavras iniciais agem apenas como desenhos (gaiolas?) para libertar um desfecho sentimental que é maior que o próprio poema como nos versos de Miragem, em que enxerga a overdose dos olhos de um morto no próprio sol que brilha e, assim, faz um resumo da vida humana, como o caminho sem volta da materialização de um sonho. São vários os poemas-resumo de um tudo que se decompõe em melancolia mas, ao mesmo tempo, se estende para além, através do simbolismo da poesia, como no poema acima citado, Omissão e Visão.
José Chagas um dos cem maiores poetas brasileiros do século, segundo o escritor e poeta José Neumanne, evoca Portugal num único poema e nos convida para fazer com ele uma grande travessia. Trata-se, logo se vê, de um poema-livro. Mas, se todo livro já é, em si, uma travessia, num poema-livro o poema é a ponte utilizada para trilharmos a viagem. Grandiosa e magnífica ponte, essa edificada por José Chagas, onde se socorrem de lirismo os alicerces que sustentam o caminhar do leitor pelos vãos mais profundos e valiosos da memória de um povo!

sábado, 3 de janeiro de 2009

A VIDA PEDE PASSAGEM


"Ai, desgraça de ser mãe, pobreza maior seria não ter filhos! (Mia Couto)




Minha intenção hoje era escrever sobre o mais recente livro do grande escritor moçambicano Mia Couto - Venenos de Deus, Remédios do Diabo. No entanto, uma pequenina joia de pouco mais de cinquenta centímetros e pouco mais de quatro quilos me fez mudar de ideia imediatamente.

Ela já era esperada há meses e meses, mas parece que sempre adiava a data de conhecer esse nosso ingrato mundo. No aniversário da mãe, 22 de dezembro, mandou um recado tímido, mas deixou claro que não estava disposta a compartilhar uma data tão especial com mais ninguém da família. No Natal, anunciou que sua vinda estava bem próxima. Não veio! Na passagem de ano, ensaiou passar o réveillon com os familiares dos quais só conhecia as vozes. Achou melhor deixar todos na espera! O aniversário do pai, 1º de janeiro, parecia um momento mais que apropriado para sua chegada... Mas ela não queria mesmo interromper as comemorações de ninguém!

Passadas as festas, no final de noite do segundo dia do ano, ela decidiu que já estava cansada do interno aconchego materno. Decidiu também verificar se aquelas vozes tantas vezes ouvidas correspondiam às suas expectativas. Esperou um pouco mais e, caprichosamente, se espreguiçou no ventre da mãe. Alheia à ansiedade dos parentes e à burocracia das maternidades, ela chegou à conclusão de que era chegada a hora. Mas ela é caprichosa e não quis vir ao mundo sem uma boa dose de trabalho que valorizasse sua presença. Esperou, esperou, esperou... Até que, logo após às oito da manhã, com o sol como astuto abre-alas, ela chegou para iluminar a vida de seus pais e de todos os seus familiares.

Sara veio ao mundo com (e como) o sol, para mostrar que um novo dia está nascendo, que um amanhã ainda virá, que há um futuro pela frente.

Sara está bem, nossa reduzida família está em festa e minha querida irmã está feliz com sua pequenina deusa de mãos pequeninas, bochechas enormes, pele rosada e choro possante. E se todos estão felizes, a literatura pode esperar. Os livros podem esperar. Mas a vida não pode ser deixada para depois, não pode ser procrastinada, não pode ser esquecida... Nunca!

Se, amanhã, minha irmã perceber que os problemas são enormes e que nem sempre a sorte lhe está sorrindo, ela pode ter a certeza de que tem uma família, uma filha e que tudo, todas as chagas, na hora certa, para sempre Sara!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O NOVO LIVRO DE HERBERT DE JESUS SANTOS


Para começar o ano muito bem, resolvi, como sempre faço, ler um livro. O escolhido foi Ofício de São Luís: Bernardo Coelho de Almeida (Coração em verso e prosa), de Herbert de Jesus Santos. Trata-se de um livro que já veio ao mundo premiado. Com ele, o autor conquistou o primeiro lugar no XXXI Concurso Cidade de São Luís, na categoria de jornalismo (Prêmio Bandeira Tribuzi, 2007). É um trabalho de investigação e de emoção que serve tanto para os inciantes quanto para os iniciados na vida e na obra do intelectual maranhense Bernardo Coelho de Almeida.

Com palavras simples, o autor do livro, o experiente jornalista e prosador Herbert de Jesus Santos, reconstitui algumas passagens da trajetória do cronista que carregou São Luís no coração e que a traduziu em várias passagens de uma obra que deixou saudade.

O trabalho em si já seria suficiente para o leitor ter uma ideia da dicção literária de Bernardo Coelho de Almeida, mas o autor do livro foi um pouco mais adiante e incluiu no volume alguns artigos do escritor homenageado - uma escolha criteriosa e que mostra bem o estilo vivaz e vibrante de BCA - e também textos e fragmentos de Arlete Nogueira, Nauro Machado, João Mohana, Alberico Carneiro e Josué montello, dentre outros, que atestaram as qualidades humanas e intelectuais de um homem que se preocupou não só com seu estilo de escrita, mas também com o respeito por seus contemporâneos.

Outro ponto alto do livro são as suas ilustrações. Rico em imagens, o trabalho se torna leve para os leitores e faz com que recordemos alguns momentos da vida cultural de nossa capital.

Ofício de São Luís: Bernardo Coelho de Almeida (Coração em verso e prosa), é um livro para ser lido sem pressa e com a convicção de que estamos em contato com diversos grandes nomes de nossas letras. Um excelente modo de começar um novo ano!

Mais que dois simples telefonemas

Um ano que termina bem tem que, obrigatoriamente, passar o bastão para outro que não pode decepcionar.
Meu 2008 terminou de forma agradável e sem sobressaltos, mas com grandes alegrias. Para começar, o poeta e editor Alberico Carneiro me presenteou com a publicação de meu artigo POESIA MARANHENSE HOJE, nas páginas do suplemento Guesa Errante. Não teria como não ficar agradecido...
No final da tarde, meu telefone tocou. Poderia ser apenas mais uma pessoa desejando-me um feliz 2009, mas não era. Era a minha ilustre escritora e amiga Arlete Nogueira parabenizando-me pelo artigo publicado no Jornal Pequeno. Sempre amável e gentil, Arlete elogiou a publicação do artigo e lembrou que a geração que está começando a despontar neste início de século, mas que já está cavando seu espaço há mais de dez anos é muito boa, estudiosa e criativa. Ela lembrou nomes como Bioque Mesito, Ricardo Leão e Antônio Ailton... Ela tem razão. Estes são, juntam,ente com outros, nomes que farão história em nossas letras em um futuro não muito distante.
2009 começou e, para não perder o ritmo, li logo meu primeiro livro do ano (no post seguinte falarei dele) e comemorei com a família o início de um novo momento.
No dia dois, para surpresa minha, recebo um outro telefonema. Desta feita é a dona Yvonne Montello, desejando-me um ano de muito sucesso e me parabenizando pelo livro Montello: O Benjamim da Academia. Ela me disse que ficou emocionada ao ler o livro que, segundo palavras dela "foi escrito seguramente com o coração". Sua voz denunciava uma forte emoção ao lembrar o campanheiro de décadas e que foi relembrado nas páginas de um livro que resgata sua luta por uma vaga na Academia Brasileira de Letras.
Para terminar este primeiro momento de 2009, trago a público este blog, que somado ao meu site, devem trazer algumas infomações sobre nossas letras. Cada livro maranhense lido será aqui comentado, como homenagem aos escritores que tanto lutam pelo sucesso de nossas letras.