PERDAS LITERÁRIAS
José Neres
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Juan Gelman |
O
ano de 2014 vem sendo extremamente cruel para com as letras. Mal passamos da
primeira metade do ano e já temos motivo para lamentar o passamento de diversos
escritores. Como nem todos os autores falecidos faziam parte do chamado cânone
literário, algumas mortes não tiveram cobertura da imprensa, mas mesmo assim
tiveram a ausência sentida por parte dos admiradores de suas obras.
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Gabriel García Màrquez |
Logo
no início do ano, faleceu o poeta argentino Juan Gelman, homem que viveu na
pele os horrores da ditadura e transformou o próprio sofrimento e a ausência dos
entes queridos em versos de excelente qualidade. Outro nome de ressonância
mundial que também fisicamente se calou foi o do colombiano Gabriel García Márquez,
o criador do universo mágico de Macondo e ganhador do prêmio Nobel de
Literatura. O sofrimento do autor de Cem Anos de Solidão foi amplamente
divulgado e sua morte causou comoção entre seus leitores e o público em geral.
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João Ubaldo Ribeiro |
A
literatura nacional perdeu também alguns escritores de grande importância. De
um dia para outro, perdemos o talento narrativo de João Ubaldo Ribeiro e o
pensamento crítico de Rubem Alves e da poesia de Ivan Junqueira. O primeiro era
conhecido por seus contos e romances extremamente bem elaborados e carregados
de humor, de fina ironia e de densidade social. Livros como Viva o Povo
Brasileiro, Sargento Getúlio e A Casa dos Budas Ditosos são bastante populares
e inscreveram o autor na constelação dos grandes romancistas brasileiros.
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Rubem Alves |
Rubem
Alves por sua vez foi um dos mais marcantes educadores do Brasil. Um pensador
na melhor acepção da palavra, sempre preocupado com os rumos da educação no
Brasil e com as relações entre a aprendizagem e o bem-estar físico e mental. A
obra desse educador, embora já seja bastante apreciada, ainda precisa ser mais
estudada e analisada, para que sua essência seja posta em prática.
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Ivan Junqueira |
Ivan
Junqueira, poeta e crítico literário, dono de grande erudição e de uma verve
poética inigualável, soube transformar tudo o que tocou em poesia, uma poesia
viva e que transbordou as fronteiras do eu para banhar-se nas águas da
universalidade. Junqueira partiu depois de prestar relevantes serviços à
cultura brasileira, seja pelo talento poético, seja pelo senso crítico que lhe
permitiu ser reconhecido ainda em vida como um dos grandes nomes das letras
brasileiras modernas.
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Ariano Suassuna |
Nem
bem os amantes da literatura se recuperavam do choque causado pela morte dos
escritores acima citados, os jornais anunciam o falecimento de Ariano Suassuna,
um dos mais populares autores da literatura contemporânea brasileira.
Reconhecido como um dos gênios das letras nacionais da metade do século XX e
início do século XXI, Suassuna deixou-nos obras que acabaram imortalizadas no
imaginário do povo, mesmo daquelas pessoas que não tiveram acesso a seus
livros, pois muitos de seus trabalhos foram adaptados para a TV e para o
cinema, como é o caso do Auto da Compadecida, um dos grandes sucessos da
dramaturgia nacional.
No
Maranhão também diversas perdas foram sentidas neste ano. A começar pelo
historiador, contista e cronista Wilson Pires Ferro, que logo no primeiro mês
cumpriu sua jornada no mundo terreno, deixando-nos como herança livros como Quando
eu era Pequenino e Depois que o Sol se Põe.
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José Chagas |
Outro
passamento bastante sentido foi o do cronista e porta José Chagas. Reconhecido
ainda em vida como um dos maiores literatos do Maranhão e muito apreciado por
seu público, seja por sua prosa, seja por seus versos magistralmente
construídos, Chagas será eternamente lembrado por livros como MaréMemória e os
Canhões do Silêncio, duas obras de extrema qualidade técnica e que demostram um
escritor maduro e consciente de seu papel como formador de opinião, sem abrir
mão da arrojada tessitura poética.
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Ubiratan Teixeira |
Ubiratan
Teixeira, jornalista, teatrólogo, cronista e ficcionista, foi outro nome que
deixou um vazio em nossas letras. Dono de um estilo inconfundível que
privilegiava as classes menos abastadas da sociedade, denunciando as mazelas
sociais e dos descasos para com a cultura do Estado, o Velho Bira, como também
era conhecido, imprimiu suas digitais nas letras não só do Maranhão, mas de
todo o Brasil, ao produzir livros como Vela ao Crucificado e o Dicionário de
Teatro, obra indispensável para quem aprecia as artes cênicas.
Menos
conhecido do grande público, mas admirado pelos amantes das letras, o prosador
Ariel Vieira de Moraes também partiu neste 2014. Mesmo fisicamente distante do
Maranhão há vários anos, a obra de Ariel deve ser considerada como uma das mais
sólidas de nossa literatura. Livros como O Anjo Modernista, Na Hora de Deus –
Amém e A Cobra Divina são verdadeiras obras-primas de um autor que ainda teria
muito a oferecer para nossa cultura.
Essas
perdas são irreparáveis. Mas fica o consolo de saber que esses intelectuais em
muito contribuíram para que nosso universo fosse mais belo, mais poético, mais
suave e infinitamente mais cheio das ricas alegorias criadas por esses homens
iluminados com o dom de transformar ideias em palavras, em magia e em vida.
Nosso
muito obrigado a todos eles.