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| Image de Anne Frank disponível na internet |
O DIÁRIO DE ANNE FRANK
(José Neres)
Semana passada não publiquei aqui. Estava cheio de tarefas e não sobrou tempo para ir além dos afazeres profissionais, dos diários eletrônicos, das bancas, das correções de provas e lançamentos de notas.
Para ser sincero, até iniciei um texto, mas tive que deixá-lo pela metade, diante de uma enxurrada de compromissos urgentes. Contudo, ao chegar no quarto de meu filho, um livro de sua vasta estante me chamou a atenção: O Diário de Anne Frank (Editora Record, 2014). Já havia visto diversas referências a esse livro, mas nunca tido o interesse de lê-lo.
Comecei a folhear aquele volume com 349 páginas e o estilo da autora logo chamou minha atenção. Uma prosa clara, elegante e recheada do que existe de mais importante em uma obra: a essência humana.
Aquela garota que viveu tão pouco deixou para a posteridade algumas lições de vida que só são encontradas em pessoas de espírito elevado. Ao longo do texto, ela faz com que o leitor se torne íntimo de toda uma gama de pessoas que viveram os horrores da II Guerra Mundial. Mas faz isso sem as pretensões de um pesquisador que busca causas e consequências. Em cada página, ela simplesmente vive e sobrevive. Tira das dificuldades a experiência necessária para fortalecer seu espírito, mesmo que para isso seu corpo tenha sido muitas vezes alquebrado pelas adversidades.
A sinceridade é uma das marcas mais pungentes do livro. O amor pelo pai. As dificuldades de relacionamento com a mãe. O distanciamento com a irmã mais velha. A paixão pelo colega de abrigo. As incertezas e o contexto histórico mostram que Anne Frank não era e não se via como uma super-heroína com o ânimo inquebrantável. Na verdade, sua fragilidade era a grande alavanca para sua força.
Os desejos físicos, as contrariedades, a fome, o desconhecimento sobre o próprio corpo e a vontade de aprender, mesmo diante de uma situação aparentemente incontornável, fazem com que aquela menina amadureça antes do tempo e passe a questionar tudo aquilo que lhe incomodava. Ela mesma tinha certeza de que esse perfil comportamental poderia ser-lhe prejudicial. Mas, diante de um incômodo duelo entre as aparências e a essência, ela optou por ser ela mesma.
Quase no final do Diário, deparei-me com uma das melhores páginas sobre Educação Sexual para a juventude. Em poucas palavras, aquela garota com aproximadamente uma década e meia de vida, demonstrou como é importante o diálogo dos adultos com os jovens. Todo de modo elegante, conciso e carregado de ressentimentos.
Valeu a pena ler cada palavra do livro.
Fiquei imaginando sobre a qualidade das obras que brotariam das mãos daquela mocinha que sonhava em ser jornalista e escritora. Mas ela não teve a oportunidade de ter uma vida normal. A ela tudo foi negado, inclusive a vida.
Ao concluir a leitura, resolvi escrever os versos que são reproduzidos abaixo.
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| Reprodução da capa do livro |
#AnneFrank
#Literatura
(José Neres)
Nem sempre dor, fome e medo têm nome
Às vezes, tornam-se rouco segredo
Que a cada dia nossos sonhos consome
Sem deixar de nos apontar um dedo
Indicando-nos que tudo o que some
Pode fazer parte de louco enredo
Que não controlamos e nos carcome
Em duvidosa paixão e triste medo.
Escondida, a vida dizia: tome
Nota. Transforme a escrita em brinquedo
Mas não pense em um dia ter renome.
Hoje suas palavras são rochedo
E teu diário leva teu nome: Anne!
Voz que desafia o eterno degredo…
São Luís, 05 de julho de 2026


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