segunda-feira, 31 de agosto de 2026

LITERATURA E IA

  ISNI: 0000000530697862

imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


OBRAS LITERÁRIAS?

(José Neres)

ISNI: 0000000530697862


Semana passada, conversamos um pouco sobre o uso das chamadas Inteligências Artificiais no cotidiano das pessoas. Volto hoje ao assunto, mas tocando em um tópico mais específico: o uso das IAs para elaboração de textos literários. 

Parece estranho, mas existem inúmeras pessoas que estão escrevendo poemas, contos, peças teatrais, romances e até publicando livros sem que nenhuma das palavras dessas “obras de arte” tenha sido escrita diretamente pelo “autor” ou “autora” que assina os trabalhos.

No intuito de saber como isso acontece, pedi à mais famosa e popular dessas inteligências artificiais que escrevesse um poema que simulasse o estilo do poeta curitibano Paulo Leminski. O resultado foi o seguinte:


a vida pede pressa
eu peço um café
a vida insiste em drama
eu finjo que é fé
no fim, tudo passa
menos a conta do café


Possivelmente, em um dia menos inspirado, Leminski poderia escrever algo assim. Caso esse poema estivesse em um livro em cuja capa houvesse o nome do poeta, possivelmente muitas pessoas acreditariam se tratar de um dos poemas desse autor, pois o trabalho com as palavras e o tom ácido e irônico característicos dele aparecem nos seis versos do poema. 

Contudo, os leitores mais acostumados com a obra de Paulo Leminski logo perceberiam que falta no poema algo que sai da esfera meramente técnica e entra no âmbito essencialmente humano: o poema até tem corpo, mas lhe falta a alma.

Esse tipo de exercício pode ser feito com diversos outros autores e o resultado será sempre parecido. Os pastiches literários elaborados por IA seguem um padrão generativo que mesclam o rastreamento de textos disponíveis na internet do/sobre o autor selecionado com as necessidades momentâneas do criador do prompt, como, por exemplo, a exigência do uso de determinadas palavras. (No exemplo citado, pedi que a palavra “vida” fosse utilizada obrigatoriamente.

Quando se faz isso apenas com finalidade lúdica e/ou educacional não vejo tantos problemas. Pode até ser divertido. Porém, tudo se torna mais complexo quando essas ferramentas são utilizadas com o fim deliberado de fazer o leitor crer que o pseudo autor possui um talento literário que visivelmente não tem.

Reportagens recentes mostram o aumento exponencial de livros gerados por Inteligência Artificial e comercializados como se fossem frutos exclusivamente do labor e do intelecto humano. 

Há, principalmente nas redes sociais, divulgações explícitas de empresas que prometem a elaboração de livros digitais em minutos, mediante determinado pagamento. A proposta é simples: “Diga o tema, as ideias básicas e o gênero do livro. Faça o pagamento. Espere o resultado e, em minutos, torne-se um talentoso romancista, poeta, cronista, contista ou expert em algum assunto”.

Parece piada, mas não é. Difícil até mesmo dizer como classificar esse atalho intelectual sem a presença do intelecto do hipotético e orgulhoso “escritor”.

Isso me faz lembrar o filme “Shortcut to Happiness” (rebatizado em português com o título O Julgamento do Diabo), no qual um escritor faz um pacto com o demônio para que seus livros façam sucesso. A diferença é que, no filme, o escritor tinha talento e sabia escrever. Apenas não tinha leitores. Já, em nossa realidade hipermoderna, ter talento e saber escrever são apenas meros detalhes dispensáveis e que até podem atrapalhar a carreira literária daquelas pessoas que nem mesmo têm uma alma para oferecer ao Diabo. 

A solução então é puxar um cartão de crédito/débito e fazer um pacto com a sedenta internet. E se esse “intelectual” não tiver dinheiro? Não tem problema, o Mefistófeles moderno tem também suas tentadoras versões gratuitas.

O bom de tudo é que esses "escritores" não precisam vender a alma para ninguem, pois, pelo menos aparentemente, em eles nem seus textos um dia tiveram uma que valesse a pena ser comprada 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

NUDES - Microconto

  ISNI: 0000000530697862

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


👀NUDES👀

José Neres 

Vazou uma foto íntima de um famoso político. A moça recebeu, salvou e ampliou, ampliou, ampliou...

Identificou a imagem, do pai, da mãe, do namorado, do irmão e de diversos amigos grudadinhos nos mágicos testículos... 

Mas cadê ela?... Ah, sim! Ali, no cantinho mais suado da foto.

Sorriu. 




segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Inteligência Artificial entre nós

 ISNI: 0000000530697862

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A NOSSA

José Neres 

Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-corporal?
Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.
Ó máquina, orai por nós.
(Cassiano Ricardo)


Nunca esse poema de Cassiano Ricardo (1895-1974) foi tão atual. Estamos transferindo para uma máquina tarefas que até pouco tempo eram exclusivamente humanas. Resultado: ficamos ainda mais mentalmente preguiçosos.

Quando nosso cérebro é desafiado, ele é capaz de encontrar soluções surpreendentes para os diversos problemas que permeiam nosso dia a dia. 

Porém, quando tudo já vem pronto, o cérebro tende a se acomodar e prosseguir com a naturalidade da lei do menor esforço.

É mais ou menos isso que vem ocorrendo com diversas pessoas que recorrem cotidianamente às chamadas Inteligências Artificiais para a solução de problemas aparentemente simples. 

A Inteligência Artificial pode ser uma excelente forma de auxiliar o ser humano na realização de tarefas complexas e que exijam o tratamento e o cruzamento de grandes quantidades de dados e de informações, podendo, inclusive, auxiliar no processo de aprendizagem. 

Contudo, há casos em que é primordial o uso da inteligência humana para evitar a dependência de sistemas mediadores que poderiam ser dispensáveis em situações nas quais bastaria o raciocínio lógico e aplicação de conhecimentos adquiridos ao longo da vida escolar.

Um exemplo disso está nos casos em que o educando recebe uma lista de atividades, copia ou fotografa as questões em dos diversos aplicativos, recebe a resposta final, mas não se preocupa com o processo que levou até ao resultado. Em casos assim, a pessoa pode até alcançar o objetivo de obter uma boa nota, contudo tal ação desprovida de planejamento não contribui para a ampliação dos conhecimentos. 

As atividades acadêmicas não objetivam apenas a uma bonificação em termos de nota, mas sim a levar o aluno a compreender todo um processo que culmine em uma resposta e que estabeleça uma sequência lógica de raciocínio, com aplicação de teorias e de exemplificações inspiradas na prática. Ou seja, cada atividade tem como um dos objetivos fortalecer toda uma gama de conhecimentos e de saberes que poderão ser aplicados quando forem requisitados.  

Há casos em que as pessoas partem do acesso às informações oferecidas por uma pesquisa em mecanismos de Inteligência Artificial e, a partir desses dados, conseguem estabelecer uma cadeia de causas e consequências que passa a constituir-se em parte de um conhecimento que se fortalece com a busca e compreensão de novas informações e de novos dados. 

No entanto, também há pessoas que se contentam com as respostas sugeridas pelos aplicativos e acabam perdendo a capacidade de questionar e de buscar variações de respostas em outras fontes a partir de contato com outras leituras e com a divergência/convergência de pensamentos. Em casos assim, o hipotético aprendiz acaba estagnado em uma situação que tem como base apenas o sistema de perguntas-respostas, sem a mediação do próprio pensamento, já que as respostas já chegam prontas e são aceitas como verdadeiras e incontestáveis. 

O uso das chamadas Inteligências Artificiais por parte de alunos, professores e demais atores da sociedade é um caminho sem volta, já que elas estão presentes até mesmo em lugares e suportes onde passam praticamente despercebidas. Contudo, é extremamente necessário compreender que a Inteligência Artificial deve ser vista como instrumento auxiliar e complementar às atividades humanas, e não como substituto integral do pensamento e das tomadas de decisão.

Antes de pensar em proibir o uso das Inteligências Artificiais é importante destacar que elas são bem mais aproveitadas quando utilizadas em conjunto harmônico com a nossa Inteligência Natural, devidamente alimentada por leituras e reflexões sobre nosso entorno. 

Antes de culpabilizar a Inteligência Artificial pelos problemas do mundo, seria bom fazer uma reflexão sobre o uso que estamos fazendo cotidianamente dessa ferramenta.


#MundoModerno

#InteligenciaArtificial


sábado, 15 de agosto de 2026

SONETO: DEPOIS

 ISNI: 0000000530697862

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 



DEPOIS…
(José Neres)

Depois da morte, que resta de nós?
Um silêncio, um vazio, um clima tenso?
Talvez um eco oco de nossa voz 
Ou marca de lágrima em algum lenço?

Só sei que o tempo é vento veloz
A apagar da vida o soprar intenso
A transformar o medo mais atroz
Em fumaça de perfumado incenso.

Então, se nada sabemos do Após,
Para que viver em falta de senso?
Para que essa fala em casca de noz?

Pois nós, na soma deste mundo imenso,
Somos poeiras, refugos e pós 
Sem tanto valor no Eterno Censo…

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

QUEM Vale MAIS?

ISNI: 0000000530697862

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


QUEM VALE MAIS?

José Neres 

Quem é mais importante? A mãe ou o pai? Não sei responder marcando apenas uma das opções. Acredito que os dois são muito importantes para a formação física, afetiva, moral e intelectual de um filho ou filha.

Mas…

Mas, para o comércio em geral, a mãe é muito mais importante e lucrativa que os papais. Ou será que não?

Voltemos alguns meses… mês de maio, Dia das Mães, lojas enfeitadas, shoppings com decorações especiais, flores e outros mimos. Restaurantes com reservas lotadas desde as semanas anteriores e filas na entrada. Mamães alegremente recebidas com um efusivo “Parabéns!”. Muitas vezes, música ao vivo, sorteio ou distribuição de brindes. Muitos dos frequentadores com embalagens coloridas para presentear a pessoa amada. Milhares de fotos e mensagens nas redes sociais… na playlist , músicas em homenagem às mães. Tudo lindo. Tudo perfeito. Parabéns!

Agosto. Segunda semana. Lojas abrem e fecham nos horários tradicionais. Atendentes com cara sisuda e o habitual mau-humor. Nenhuma lembrancinha. Raros parabéns. Restaurantes sem necessidade de reservas. Raramente se observa alguém entrar com um presente. Poucos presentes, muitas ausências! Nas redes sociais, várias mensagens também, muitas delas com referências e agradecimentos aos pais, mães e pães (mães que também desempenharam o papel do pai). Nada de playlist especial. Para quê? Bastam os barulhos dos talheres e o mastigar de algumas bocas abertas…

Certa vez, fiz essas observações à dona de um restaurante, no momento em que pagava a conta do Dia das Mães. Ela olhou para mim e disse que eu estava enganado e que, pelo menos naquele estabelecimento, o Dia dos Pais também era bastante comemorado e que até o cardápio era especial.

Esperei alguns meses e fiz questão de voltar no segundo domingo de agosto. Tudo normal. Nada que lembrasse uma data comemorativa. Ela, já esquecida da conversa de maio, disse que era um dia de movimento normal e que até pensou em colocar uma música ao vivo, mas os custos eram muito altos e não compensam. Voltei lá por mais dois anos consecutivos. Em maio e em agosto. As diferenças eram as mesmas. Parece que o lucro do Dia dos Pais não motiva nem mesmo gastar tempo com um “Parabéns!”

Ainda bem que existem vida, cortesia e amabilidade fora do comércio.

Papais e mamães agradecem… mas bem que os comerciantes e as equipes de marketing poderiam lembrar que país, mães, crianças, namorados e final de ano são datas que deveriam ser marcadas pelos variados tipos de amor. E o Amor (pelo menos o verdadeiro) se incomoda muito com (in)diferenças de tratamento...

Parabéns, pais!

Parabéns, mães!

Vocês são muito importantes para todos nós!

domingo, 9 de agosto de 2026

O SORRISO DE ZEUS

 ISNI: 0000000530697862

O SORRISO DE ZEUS

José Neres 


Meu pai mantinha o sorriso de Zeus
Mas acho só eu via isso, talvez
Por causa dos míopes olhos meus
Que só a ele viam com nitidez…

Sem chance de se despedir dos seus,
Ele somente se calou de vez
E se bazugou nos braços de Deus
Onde descansou em plena altivez…

As suas obras não ilustram museus 
Mas serão lembradas com solidez
Nas recordações de meus tantos eus 

Hoje, presente, em eterna mudez,
São ainda os vários conselhos seus
Que guiam minha pouca lucidez.




sexta-feira, 7 de agosto de 2026

SONETO DESMONTE

ISNI: 0000000530697862 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


DESMONTE
José Neres 

Poesias são pássaros que não 
Respeitam os limites do Horizonte,
Que se dividem entre fome e pão 
E, não sendo muro, almejam ser ponte…

Não querem poemas como prisão,
Só se alimentam em eterna fonte 
De onde jorra todo tipo de emoção 
A rolar por um profético monte.

A poesia jamais voa em vão 
Traz a leveza do rinoceronte 
Nas temidas garras do gavião.

Ela gruda em nós como simbionte
E nela nos tranca como em caixão 
E causa dentro de nós um desmonte…

São Luís, 07.08.2026.



domingo, 26 de julho de 2026

100 ROMANCES

 CEM ROMANCES

José Neres 

ISNI: 0000000530697862 

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


Cem bons romances da literatura brasileira que eu li


O problema de se publicar uma lista (do que quer que seja) é que sempre aparece alguém que deseja encontrar em nossa lista algo que ele gostaria de ter em sua própria lista. Não é justo!

Cada pessoa é um universo que segue por caminhos diferentes em praticamente tudo. Inclusive nas leituras e no consumo das demais formas de arte.

A lista a seguir é minha. Faz parte de minhas leituras ao longo de décadas e décadas. Claro que há omissões involuntárias, já que foi escrita de memória, com os únicos critérios de não usar mais de dois livros de um mesmo autor ou autora e de a obra pertencer à chamada literatura brasileira.

Aqui não existe preocupação com o cânone ou com os livros que os críticos consideram bons ou ruins. Trata-se apenas de uma experiência pessoal de leitura.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

ORGULHO E PRECONCEITO

 

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


ORGULHO E PRECONCEITO 

José Neres 

ISNI:0000000530697862 


I


Aquele orgulho que você trazia

Estampado em seu olhar e no peito 

Hoje já se perdeu na ventania 

Tornou-se rio de tórrido leito.


Da vida só levamos a alegria…

E você em nada jamais foi perfeito

Usava da galhofa e da ironia

Humilhava quem tinha algum defeito.


Falava que de ninguém dependia

Que tinha sido até grande prefeito 

Mas no bolso do povo a mão metia…


Agora, vivendo em plena agonia,

Percebe que nada mais tem jeito

Já não verá novo nascer de dia…


II


Morreu sem saber que cor não se pega 

E nem que todos nós somos iguais…

Quando às coisa do mundo alguém se apega,

Mal deixa de si alguns tristes sinais.


Ao pensar que só sua vida agrega

E que os outros são meros animais 

Afirmamos tudo que não se nega:

Nosso vil preconceito tão loquaz.


Preconceito é um diabo que nos cega

E que sempre nos leva para trás 

É gosma de quiabo que escorrega 


É bem triste playground de Satanás

É tal louco inferno que se encarrega 

De mostrar que somos meros mortais

São Luís, 07 de julho de 2026.

domingo, 5 de julho de 2026

O DIÁRIO DE ANNE FRANK

 

Image de Anne Frank disponível na internet 

O DIÁRIO DE ANNE FRANK 

(José Neres)

ISNI:0000000530697862 


Semana passada não publiquei aqui. Estava cheio de tarefas e não sobrou tempo para ir além dos afazeres profissionais, dos diários eletrônicos, das bancas, das correções de provas e lançamentos de notas. 

Para ser sincero, até iniciei um texto, mas tive que deixá-lo pela metade, diante de uma enxurrada de compromissos urgentes. Contudo, ao chegar no quarto de meu filho, um livro de sua vasta estante me chamou a atenção: O Diário de Anne Frank (Editora Record, 2014). Já havia visto diversas referências a esse livro, mas nunca tido o interesse de lê-lo. 

Comecei a folhear aquele volume com 349 páginas e o estilo da autora logo chamou minha atenção. Uma prosa clara, elegante e recheada do que existe de mais importante em uma obra: a essência humana.

Aquela garota que viveu tão pouco deixou para a posteridade algumas lições de vida que só são encontradas em pessoas de espírito elevado. Ao longo do texto, ela faz com que o leitor se torne íntimo de toda uma gama de pessoas que viveram os horrores da II Guerra Mundial. Mas faz isso sem as pretensões de um pesquisador que busca causas e consequências. Em cada página, ela simplesmente vive e sobrevive. Tira das dificuldades a experiência necessária para fortalecer seu espírito, mesmo que para isso seu corpo tenha sido muitas vezes alquebrado pelas adversidades.

A sinceridade é uma das marcas mais pungentes do livro. O amor pelo pai. As dificuldades de relacionamento com a mãe. O distanciamento com a irmã mais velha. A paixão pelo colega de abrigo. As incertezas e o contexto histórico mostram que Anne Frank não era e não se via como uma super-heroína com o ânimo inquebrantável. Na verdade, sua fragilidade era a grande alavanca para sua força. 

Os desejos físicos, as contrariedades, a fome, o desconhecimento sobre o próprio corpo e a vontade de aprender, mesmo diante de uma situação aparentemente incontornável, fazem com que aquela menina amadureça antes do tempo e passe a questionar tudo aquilo que lhe incomodava. Ela mesma tinha certeza de que esse perfil comportamental poderia ser-lhe prejudicial. Mas, diante de um incômodo duelo entre as aparências e a essência, ela optou por ser ela mesma. 

Quase no final do Diário, deparei-me com uma das melhores páginas sobre Educação Sexual para a juventude. Em poucas palavras, aquela garota com aproximadamente uma década e meia de vida, demonstrou como é importante o diálogo dos adultos com os jovens. Todo de modo elegante, conciso e carregado de ressentimentos. 

Valeu a pena ler cada palavra do livro. 

Fiquei imaginando sobre a qualidade das obras que brotariam das mãos daquela mocinha que sonhava em ser jornalista e escritora. Mas ela não teve a oportunidade de ter uma vida normal. A ela tudo foi negado, inclusive a vida.

 Ao concluir a leitura, resolvi escrever os versos que são reproduzidos abaixo. 

Reprodução da capa do livro 

#AnneFrank

#Literatura

ANEXO
(José Neres)

Nem sempre dor, fome e medo têm nome
Às vezes, tornam-se rouco segredo
Que a cada dia nossos sonhos consome
Sem deixar de nos apontar um dedo

Indicando-nos que tudo o que some
Pode fazer parte de louco enredo
Que não controlamos e nos carcome
Em duvidosa paixão e triste medo.

Escondida, a vida dizia: tome 
Nota. Transforme a escrita em brinquedo
Mas não pense em um dia ter renome.

Hoje suas palavras são rochedo 
E teu diário leva teu nome: Anne!
Voz que desafia o eterno degredo…

São Luís, 05 de julho de 2026

quinta-feira, 2 de julho de 2026

COVA RASA

 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


Como atualmente é preciso explicar o óbvio, é importante lembrar que o texto abaixo é fruto da ficção e da imaginação do autor sem reflexo na realidade.

COVA RASA
José Neres 
ISNI:0000000530697862 

I

Era uma noite fria de janeiro.
Mais um novo triste ano começava
Mas que podia ser o derradeiro
De uma triste vida que se arrastava.

Já que desde meu vagido primeiro 
Algo ruim de perto me mirava
Deixando bem claro que meu cruzeiro
Era nau que a nenhum porto chegava.

Cedo a vida me lançou vil morteiro 
Que levou mão materna que eu amava
A paterna transformou-se em vespeiro

Que de hora em hora me amaldiçoava…
Dos meus nem imagino o paradeiro…
Cuspo na treva que me iluminava!

II

Era uma noite fria de janeiro
Triste eu pela fria noite vagava
Quando ali se formou um nevoeiro
Eu a um palmo quase nada enxergava

De repente, aquele passado inteiro
Que há dezenas anos só me assombrava
Se pôs diante de mim por inteiro 
Com uma voz que tão fria vibrava:

“Filho - disse-me ele em tom zombeteiro -
Com bafo de enxofre que me atordoava
Matei tua mãe com golpe certeiro 

Pois a você nem a ela já não amava…”
Naquela fria névoa de janeiro
Eu, sorrindo, aquele corpo enterrava.

São Luís, 1⁰ de julho de 2026.

sábado, 13 de junho de 2026

Um encontro com João Mohana

 

Artigo 


José Neres, José Casanova e Tony Mohana - foto de Antônia Nilda Alves Cruz


UM ENCONTRO COM JOÃO MOHANA

José Neres 


Estava muito tempo sem ir a Bacabal.

Nas minhas habituais viagens a serviço, passava pela BR e seguia caminho. No máximo parava em algum restaurante, para depois seguir adiante.

Porém, em 2025, durante uma sessão da Academia Vianense de Letras, conheci o professor, escritor e ativista cultural José Casanova. Conversa vai, conversa vem e ele me perguntou da possibilidade de um dia eu ir a Bacabal para uma conversa sobre João Mohana.

Esse é o tipo de convite que não se recusa. A oportunidade veio agora por ocasião da II Semana João Mohana, realizada pela Academia Bacabalense de Letras, de 9 a 15 de junho de 2026.

Basicamente, eu iria reproduzir minha fala de um ano antes, mas para um outro público e com uma responsabilidade ainda maior. Afinal, o padre-escritor, que é um dos nomes mais representativos da prosa maranhense, é também uma das maiores personalidades nascidas em Bacabal.

Chegou o dia. 

A data marcada era um desafio para toda a equipe organizadora do evento: 12 de junho - não era apenas o Dia dos Namorados, mas também o segundo dia da Copa do Mundo e véspera da estreia do Brasil nesse campeonato de gigantescas proporções. Mas desafios existem para serem superados!

Logo na chegada, fui muito bem recebido pelo José Casanova e pelas professoras e acadêmicas Liduina Tavares e Maria Raimunda Lopes Costa. É aquele tipo de contato que por si só já paga qualquer sacrifício realizado. Mas quem disse que falar sobre literatura é algo sacrificante? É pura alegria que renova nossas energias!!!

Chegou a hora.

Diversos acadêmicos e acadêmicas da Academia Bacabalense de Letras compareceram ao evento. Na plateia, tive o prazer de contar também com a presença da professora e querida amiga Antônia Nilda Alves Cruz, que deixou seus afazeres para para prestigiar aquele momento cultural.

À mesa, além de mim e do mediador José Casanova, estava também Tony Mohana, que além de ser um intelectual respeitado, é sobrinho de João Mohana e fiel guardião da obra desse escritor.

Tony Mohana despertou o interesse dos presentes ao falar sobre passagens da vida do Autor de Inês e Pedro em Bacabal e para isso recorreu a fragmentos da memória e das lembranças de seu tio Ibrahim Mohana. Revelações praticamente inéditas invadiram o recinto e encantaram a plateia. Aplausos!

A mim, coube falar dos aspectos romanescos da obra de João Mohana, autor de dois romances de grande sucesso: O outro caminho e Maria da Tempestade. Evitando ao máximo chegar aos famigerados spoilers, chamei atenção para a a tessitura desses livros, dos aspectos paralelísticos dessas duas obras e não tive como não tocar no assunto do “Pescoço da Viúva”, tema que sempre desperta a imaginação do público.

Além da criatividade, Mohana tinha o domínio técnico da escrita literária e sabia prender a atenção dos leitores. Ele era dono de imenso cabedal de cultura e sabia mesclar seu vasto conhecimento científico com a necessária sensibilidade humanística na construção do cenário e das personagens que lhe brotavam das mãos.

Valeu a pena voltar a Bacabal. Valeu a pena conversar sobre a vida e a obra do grande escritor João Mohana.


Leia nosso artigo sobre João Mohana 

Leia nossa homenagem a João Mohana 


sexta-feira, 12 de junho de 2026

SONETO DOS NAMORADOS

 

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


SONETO DOS NAMORADOS

(José Neres)


Dizem que o amor fora de moda está.
Será brega suspirar pelos cantos?
Ou, de feliz, derramar doces prantos
ao beijar a amada ao som do luar?

E será vergonha de amor falar?
E tremer e gaguejar só de espanto
quando ela surge como por encanto
pra dizer que te viu no seu sonhar?

Não... Não façamos do amor mil tormentos
Cada gota de amor são sentimentos,
são beijos que respiram emoções.

Se beijar é só os lábios encostar,
o amor é muito mais que beijar
amar é o cruzar de dois corações.

terça-feira, 9 de junho de 2026

AMIZADE

 Soneto

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 



AMIZADE
José Neres

O cachorro sentia o odor do dono
Que para casa jamais voltaria
E ali enfrentava fome, frio e sono
Nas frestas do relento se escondia.

Sofria as mil dores de um abandono
Involuntário que tanto lhe doía 
Fosse inverno, primavera ou outono
Só de saudade o peito lhe tinia.

A fria lousa tornou-se seu trono
Perto daquela cruz ele latia
Convertendo lágrimas em carbono.

Eu vejo tudo isso e me impressiono…
Com aquela canina sinfonia
A clamar pelo falecido dono.

São Luís, 09.06.2026.