sexta-feira, 24 de julho de 2026

ORGULHO E PRECONCEITO

 

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


ORGULHO E PRECONCEITO 

José Neres 


I


Aquele orgulho que você trazia

Estampado em seu olhar e no peito 

Hoje já se perdeu na ventania 

Tornou-se rio de tórrido leito.


Da vida só levamos a alegria…

E você em nada jamais foi perfeito

Usava da galhofa e da ironia

Humilhava quem tinha algum defeito.


Falava que de ninguém dependia

Que tinha sido até grande prefeito 

Mas no bolso do povo a mão metia…


Agora, vivendo em plena agonia,

Percebe que nada mais tem jeito

Já não verá novo nascer de dia…


II


Morreu sem saber que cor não se pega 

E nem que todos nós somos iguais…

Quando às coisa do mundo alguém se apega,

Mal deixa de si alguns tristes sinais.


Ao pensar que só sua vida agrega

E que os outros são meros animais 

Afirmamos tudo que não se nega:

Nosso vil preconceito tão loquaz.


Preconceito é um diabo que nos cega

E que sempre nos leva para trás 

É gosma de quiabo que escorrega 


É bem triste playground de Satanás

É tal louco inferno que se encarrega 

De mostrar que somos meros mortais

São Luís, 07 de julho de 2026.

domingo, 5 de julho de 2026

O DIÁRIO DE ANNE FRANK

 

Image de Anne Frank disponível na internet 

O DIÁRIO DE ANNE FRANK 

(José Neres)

Semana passada não publiquei aqui. Estava cheio de tarefas e não sobrou tempo para ir além dos afazeres profissionais, dos diários eletrônicos, das bancas, das correções de provas e lançamentos de notas. 

Para ser sincero, até iniciei um texto, mas tive que deixá-lo pela metade, diante de uma enxurrada de compromissos urgentes. Contudo, ao chegar no quarto de meu filho, um livro de sua vasta estante me chamou a atenção: O Diário de Anne Frank (Editora Record, 2014). Já havia visto diversas referências a esse livro, mas nunca tido o interesse de lê-lo. 

Comecei a folhear aquele volume com 349 páginas e o estilo da autora logo chamou minha atenção. Uma prosa clara, elegante e recheada do que existe de mais importante em uma obra: a essência humana.

Aquela garota que viveu tão pouco deixou para a posteridade algumas lições de vida que só são encontradas em pessoas de espírito elevado. Ao longo do texto, ela faz com que o leitor se torne íntimo de toda uma gama de pessoas que viveram os horrores da II Guerra Mundial. Mas faz isso sem as pretensões de um pesquisador que busca causas e consequências. Em cada página, ela simplesmente vive e sobrevive. Tira das dificuldades a experiência necessária para fortalecer seu espírito, mesmo que para isso seu corpo tenha sido muitas vezes alquebrado pelas adversidades.

A sinceridade é uma das marcas mais pungentes do livro. O amor pelo pai. As dificuldades de relacionamento com a mãe. O distanciamento com a irmã mais velha. A paixão pelo colega de abrigo. As incertezas e o contexto histórico mostram que Anne Frank não era e não se via como uma super-heroína com o ânimo inquebrantável. Na verdade, sua fragilidade era a grande alavanca para sua força. 

Os desejos físicos, as contrariedades, a fome, o desconhecimento sobre o próprio corpo e a vontade de aprender, mesmo diante de uma situação aparentemente incontornável, fazem com que aquela menina amadureça antes do tempo e passe a questionar tudo aquilo que lhe incomodava. Ela mesma tinha certeza de que esse perfil comportamental poderia ser-lhe prejudicial. Mas, diante de um incômodo duelo entre as aparências e a essência, ela optou por ser ela mesma. 

Quase no final do Diário, deparei-me com uma das melhores páginas sobre Educação Sexual para a juventude. Em poucas palavras, aquela garota com aproximadamente uma década e meia de vida, demonstrou como é importante o diálogo dos adultos com os jovens. Todo de modo elegante, conciso e carregado de ressentimentos. 

Valeu a pena ler cada palavra do livro. 

Fiquei imaginando sobre a qualidade das obras que brotariam das mãos daquela mocinha que sonhava em ser jornalista e escritora. Mas ela não teve a oportunidade de ter uma vida normal. A ela tudo foi negado, inclusive a vida.

 Ao concluir a leitura, resolvi escrever os versos que são reproduzidos abaixo. 

Reprodução da capa do livro 

#AnneFrank

#Literatura

ANEXO
(José Neres)

Nem sempre dor, fome e medo têm nome
Às vezes, tornam-se rouco segredo
Que a cada dia nossos sonhos consome
Sem deixar de nos apontar um dedo

Indicando-nos que tudo o que some
Pode fazer parte de louco enredo
Que não controlamos e nos carcome
Em duvidosa paixão e triste medo.

Escondida, a vida dizia: tome 
Nota. Transforme a escrita em brinquedo
Mas não pense em um dia ter renome.

Hoje suas palavras são rochedo 
E teu diário leva teu nome: Anne!
Voz que desafia o eterno degredo…

São Luís, 05 de julho de 2026

quinta-feira, 2 de julho de 2026

COVA RASA

 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


Como atualmente é preciso explicar o óbvio, é importante lembrar que o texto abaixo é fruto da ficção e da imaginação do autor sem reflexo na realidade.

COVA RASA
José Neres 
I

Era uma noite fria de janeiro.
Mais um novo triste ano começava
Mas que podia ser o derradeiro
De uma triste vida que se arrastava.

Já que desde meu vagido primeiro 
Algo ruim de perto me mirava
Deixando bem claro que meu cruzeiro
Era nau que a nenhum porto chegava.

Cedo a vida me lançou vil morteiro 
Que levou mão materna que eu amava
A paterna transformou-se em vespeiro

Que de hora em hora me amaldiçoava…
Dos meus nem imagino o paradeiro…
Cuspo na treva que me iluminava!

II

Era uma noite fria de janeiro
Triste eu pela fria noite vagava
Quando ali se formou um nevoeiro
Eu a um palmo quase nada enxergava

De repente, aquele passado inteiro
Que há dezenas anos só me assombrava
Se pôs diante de mim por inteiro 
Com uma voz que tão fria vibrava:

“Filho - disse-me ele em tom zombeteiro -
Com bafo de enxofre que me atordoava
Matei tua mãe com golpe certeiro 

Pois a você nem a ela já não amava…”
Naquela fria névoa de janeiro
Eu, sorrindo, aquele corpo enterrava.

São Luís, 1⁰ de julho de 2026.

sábado, 13 de junho de 2026

Um encontro com João Mohana

 

Artigo 


José Neres, José Casanova e Tony Mohana - foto de Antônia Nilda Alves Cruz


UM ENCONTRO COM JOÃO MOHANA

José Neres 


Estava muito tempo sem ir a Bacabal.

Nas minhas habituais viagens a serviço, passava pela BR e seguia caminho. No máximo parava em algum restaurante, para depois seguir adiante.

Porém, em 2025, durante uma sessão da Academia Vianense de Letras, conheci o professor, escritor e ativista cultural José Casanova. Conversa vai, conversa vem e ele me perguntou da possibilidade de um dia eu ir a Bacabal para uma conversa sobre João Mohana.

Esse é o tipo de convite que não se recusa. A oportunidade veio agora por ocasião da II Semana João Mohana, realizada pela Academia Bacabalense de Letras, de 9 a 15 de junho de 2026.

Basicamente, eu iria reproduzir minha fala de um ano antes, mas para um outro público e com uma responsabilidade ainda maior. Afinal, o padre-escritor, que é um dos nomes mais representativos da prosa maranhense, é também uma das maiores personalidades nascidas em Bacabal.

Chegou o dia. 

A data marcada era um desafio para toda a equipe organizadora do evento: 12 de junho - não era apenas o Dia dos Namorados, mas também o segundo dia da Copa do Mundo e véspera da estreia do Brasil nesse campeonato de gigantescas proporções. Mas desafios existem para serem superados!

Logo na chegada, fui muito bem recebido pelo José Casanova e pelas professoras e acadêmicas Liduina Tavares e Maria Raimunda Lopes Costa. É aquele tipo de contato que por si só já paga qualquer sacrifício realizado. Mas quem disse que falar sobre literatura é algo sacrificante? É pura alegria que renova nossas energias!!!

Chegou a hora.

Diversos acadêmicos e acadêmicas da Academia Bacabalense de Letras compareceram ao evento. Na plateia, tive o prazer de contar também com a presença da professora e querida amiga Antônia Nilda Alves Cruz, que deixou seus afazeres para para prestigiar aquele momento cultural.

À mesa, além de mim e do mediador José Casanova, estava também Tony Mohana, que além de ser um intelectual respeitado, é sobrinho de João Mohana e fiel guardião da obra desse escritor.

Tony Mohana despertou o interesse dos presentes ao falar sobre passagens da vida do Autor de Inês e Pedro em Bacabal e para isso recorreu a fragmentos da memória e das lembranças de seu tio Ibrahim Mohana. Revelações praticamente inéditas invadiram o recinto e encantaram a plateia. Aplausos!

A mim, coube falar dos aspectos romanescos da obra de João Mohana, autor de dois romances de grande sucesso: O outro caminho e Maria da Tempestade. Evitando ao máximo chegar aos famigerados spoilers, chamei atenção para a a tessitura desses livros, dos aspectos paralelísticos dessas duas obras e não tive como não tocar no assunto do “Pescoço da Viúva”, tema que sempre desperta a imaginação do público.

Além da criatividade, Mohana tinha o domínio técnico da escrita literária e sabia prender a atenção dos leitores. Ele era dono de imenso cabedal de cultura e sabia mesclar seu vasto conhecimento científico com a necessária sensibilidade humanística na construção do cenário e das personagens que lhe brotavam das mãos.

Valeu a pena voltar a Bacabal. Valeu a pena conversar sobre a vida e a obra do grande escritor João Mohana.


Leia nosso artigo sobre João Mohana 

Leia nossa homenagem a João Mohana 


sexta-feira, 12 de junho de 2026

SONETO DOS NAMORADOS

 

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


SONETO DOS NAMORADOS

(José Neres)


Dizem que o amor fora de moda está.
Será brega suspirar pelos cantos?
Ou, de feliz, derramar doces prantos
ao beijar a amada ao som do luar?

E será vergonha de amor falar?
E tremer e gaguejar só de espanto
quando ela surge como por encanto
pra dizer que te viu no seu sonhar?

Não... Não façamos do amor mil tormentos
Cada gota de amor são sentimentos,
são beijos que respiram emoções.

Se beijar é só os lábios encostar,
o amor é muito mais que beijar
amar é o cruzar de dois corações.

terça-feira, 9 de junho de 2026

AMIZADE

 Soneto

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 



AMIZADE
José Neres

O cachorro sentia o odor do dono
Que para casa jamais voltaria
E ali enfrentava fome, frio e sono
Nas frestas do relento se escondia.

Sofria as mil dores de um abandono
Involuntário que tanto lhe doía 
Fosse inverno, primavera ou outono
Só de saudade o peito lhe tinia.

A fria lousa tornou-se seu trono
Perto daquela cruz ele latia
Convertendo lágrimas em carbono.

Eu vejo tudo isso e me impressiono…
Com aquela canina sinfonia
A clamar pelo falecido dono.

São Luís, 09.06.2026.