sábado, 2 de maio de 2015

DOIS VÍDEOS


MISTÉRIO NA CASA DE CULTURA

Resenha:

UM MISTÉRIO EM ITAPECURU

José Neres
(Professor, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras)

           
A distância entre as cidades ditas interioranas e a capital do cada Estado da Federação, não pode ser medida apenas em quilômetros ou em horas de viagem, mas também em uma espécie de vácuo no que diz respeito à produção cultural de cada município. Parece que há uma cortina ou barreira invisível que impede a troca de informações culturais entre as diversas regiões de um mesmo território. Desse modo, o que é feito em uma cidade parece não surtir nenhum efeito nas circunvizinhanças, assim como a produção intelectual da capital parece também não atingir as demais cidades do mesmo Estado.
            No caso do Maranhão como praticamente em todo o Brasil, as cidades que têm uma, às vezes, efervescente vida cultural, veem quase todos os esforços de seus produtores toldados por uma nuvem de descaso por parte da maioria das autoridades constituídas, de silêncio por parte da imprensa local e pela indiferença de um público-alvo que nem sempre atende aos desesperados clamores dos artistas locais.
            Por essas razões, e por muitas outras, possivelmente nem todos os leitores e até mesmo pesquisadores da literatura maranhense, não conhecem o pequeno romance “O Mistério da Casa de Cultura” publicado há pouco tempo pela jovem e talentosa escritora itapecuruense Samira Diorama da Fonseca.
            A trama do livro segue deliberadamente a trilha de mistério e investigação que anda tão em voga atualmente e que tem em Dan Brown um de seus principais ícones para uma nova geração de leitores que começa a tomar gosto pela leitura de textos literários. O corpo de um jovem é encontrado dentro da Casa de Cultura de Itapecuru, levando as pessoas da cidade e, principalmente, os amigos mais próximos do falecido a uma grande comoção. Poderia ser apenas mais um jogo de intrigas para tentar-se descobrir quem é o autor de um crime que ficou encoberto por uma hipótese de suicídio.
            Sem muito esforço o leitor logo é conduzido para a descoberta tanto do mandante como do executor do assassinato. Não reside aí o mistério de que fala o título do livro, mas sim nas motivações que levaram ao homicídio. Sutilmente, o leitor é conduzido para um passeio pela história e pelas ruas da cidade, conhecendo alguns seus principais pontos históricos, revisitando importantes, e, muitas vezes, esquecidas personagens, mas que foram vitais para a construção identitária do município e da história de seu povo.
            Para compor seu cenário literário, Samira Diorama mescla aventura, mistério, planos mirabolantes, busca de tesouros escondidos e até mesmo algumas – às vezes desnecessárias – incursões no campo da espiritualidade. De modo geral, a aparente fragilidade na construção de algumas personagens é compensada por um estilo ágil e por uma boa concatenação dos episódios, o que possibilita que a leitura seja feita de um fôlego e que o leitor também se sinta como mais um componente na trama em busca dos verdadeiros fatores que levaram à execução do jovem e curioso pesquisador.
            Utilizando a técnica de compor capítulos curtos e ágeis, a escritora consegue imprimir a seu texto a uma série de peripécias que irão culminar em um clímax, que pode até ser previsto pelos leitores mais experientes, mas que vem condimentado com temperos colhidos em nossa própria terra e com a cor local.

            Com seu romance, Samira Diorama da Fonseca passa a integrar um ainda incipiente grupo de jovens mulheres que vêm se dedicando à prosa de ficção em nosso estado. Essa ainda pouco estudada safra de mulheres ficcionistas já conta com nomes como Lorena Silva, Laura Barros, Heloísa Helena, Ahtange Ferreira,. Grupo esse que ainda contribuirá muito para as nossas letras.


TÍTULO: Mistério na Casa de CulturaAUTORA: Samira Diorama da FonsecaEDITORA: NelpaANO: 2013PÁGINAS: 162CATEGORIA: FICÇÃO INFANTO-JUVENIL

domingo, 4 de janeiro de 2015

NOVAS LUZES SOBRE A VIDA E A OBRA DE MARIANA LUZ

NOVAS LUZES SOBRE  MARIANA

José Neres

            Entrei em contato pela primeira vez com os versos de Mariana Luz por indicação do poeta Theotônio Fonseca, que me forneceu uma cópia xerografada do livro Murmúrios. Li os poemas e muito me impressionei com a dicção poética daquela escritora pouco lembrada em nossas letras. Baseado na leitura do livro, escrevi o artigo Os Murmúrios de Mariana, publicado no jornal O Estado do Maranhão em março de 2007.
Capa do livro de Jucey Santana
            Ri e reli o livro diversas vezes, mas raríssimas vezes tive o prazer de ler ou ouvir o nome dessa escritora em artigos, cursos ou palestras. Percebi que muitas pessoas, mesmo algumas diretamente envolvidas com a Literatura, desconheciam a existência daquela itapecuruense que brincava com as palavras de forma bastante lírica e competente. Parecia que a segunda mulher a ingressar na Academia Maranhense de Letras estava fadada ao esquecimento e que sua obra dialogaria para sempre apenas com o silêncio e com a indiferença.
            Foi então com um misto de alegria e surpresa que adquiri o livro Mariana Luz: Vida e Obra e Coisas de Itapecuru-Mirim, de autoria de Jucey Santos de Santana, bacharela em Direito, pesquisadora e membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes, e confessamente admiradora da obra de Mariana Luz.
            Trata-se de uma obra alentada, com mais de 450 páginas, mas que pode ser lida com facilidade, dada a leveza com que a autora traça o perfil biobibliográfico da poetisa biografada, jogando luzes sobre a vida e a obra de uma escritora que merece ter sua obra estudada e seus versos lidos e analisados pelas novas e pelas gerações.
            O livro de Jucey Santana encontra-se dividido em três partes. Na primeira, a escritora reúne o resultado de quatro anos e oito meses de pesquisas baseadas em documentos escritos e em depoimentos orais sobre diversos momentos da vida e da produção literária de Mariana Luz. Nesse capítulo do trabalho, o leitor acompanhará os percalços e as alegrias vividas pela poetisa, que passou por momentos de extrema necessidade financeira e que, mesmo reconhecida em vida por seu trabalho como professora e como escritora, enfrentou inúmeras dificuldades para publicar e divulgar seus trabalhos.
            A segunda parte do livro oferece ao leitor a oportunidade de entrar em contato direto com os poemas de Mariana Luz. Além de reproduzir Murmúrios, o único livro conhecido da poetisa, a pesquisadora reúne diversos outros trabalhos da escritora, inclusive trecho de seu discurso de posse na Academia Maranhense de Letras, a homenagem de seu sucessor na AML, Felix Aires, além de crônicas e uma peça teatral assinada pela poetisa. Chama também atenção nessa parte central do livro o resgate de algumas facetas menos conhecidas de Mariana Luz: seus cantos litúrgicos e as orações de cunho religioso.
            A terceira parte do volume, intitulada Coisas de Itapecuru-Mirim é um trabalho à parte e que poderia vir enfeixado em um outro volume sem prejuízo para o estudo sobre a autora de Murmúrios. Trata-se de um breve levantamento de situações ocorridas naquele município e que se não fossem recortadas e recontadas pela pesquisadora poderiam cair no vácuo do esquecimento.
            Possivelmente não faltará quem se levante para questionar os métodos de pesquisa e a estruturação do trabalho de Jucey Santana. Mas, no meu modo de ver, ela alcançou seu objetivo maior, que era resgatas das ondas do olvido a emblemática e até mesmo polêmica figura de Mariana Luz, oferecendo aos pesquisadores, admiradores ou mesmo curiosos da obra dessa poetisa oportunidade de um mergulho um pouco mais profundo do que a maioria dos trabalhos que já foram feitos sobre a autora.
            Seria bom se em cada município de nosso imenso Maranhão houvesse alguém disposto a empreender um estudo que resgatasse alguns de nossos valores esquecidos. Assim, nossa fortuna crítica seria bem maior do que a que temos hoje em dia.

PS: Agradeço também ao escritor, acadêmico, jornalista e amigo Benedito Buzar por me apresentar o livro comentado acima



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

TRISTES PERDAS PARA A LITERATURA

PERDAS LITERÁRIAS
José Neres


Juan Gelman
                O ano de 2014 vem sendo extremamente cruel para com as letras. Mal passamos da primeira metade do ano e já temos motivo para lamentar o passamento de diversos escritores. Como nem todos os autores falecidos faziam parte do chamado cânone literário, algumas mortes não tiveram cobertura da imprensa, mas mesmo assim tiveram a ausência sentida por parte dos admiradores de suas obras.
Gabriel García Màrquez
                Logo no início do ano, faleceu o poeta argentino Juan Gelman, homem que viveu na pele os horrores da ditadura e transformou o próprio sofrimento e a ausência dos entes queridos em versos de excelente qualidade. Outro nome de ressonância mundial que também fisicamente se calou foi o do colombiano Gabriel García Márquez, o criador do universo mágico de Macondo e ganhador do prêmio Nobel de Literatura. O sofrimento do autor de Cem Anos de Solidão foi amplamente divulgado e sua morte causou comoção entre seus leitores e o público em geral.
              
João Ubaldo Ribeiro
  A literatura nacional perdeu também alguns escritores de grande importância. De um dia para outro, perdemos o talento narrativo de João Ubaldo Ribeiro e o pensamento crítico de Rubem Alves e da poesia de Ivan Junqueira. O primeiro era conhecido por seus contos e romances extremamente bem elaborados e carregados de humor, de fina ironia e de densidade social. Livros como Viva o Povo Brasileiro, Sargento Getúlio e A Casa dos Budas Ditosos são bastante populares e inscreveram o autor na constelação dos grandes romancistas brasileiros.
               
Rubem Alves
Rubem Alves por sua vez foi um dos mais marcantes educadores do Brasil. Um pensador na melhor acepção da palavra, sempre preocupado com os rumos da educação no Brasil e com as relações entre a aprendizagem e o bem-estar físico e mental. A obra desse educador, embora já seja bastante apreciada, ainda precisa ser mais estudada e analisada, para que sua essência seja posta em prática.
             
Ivan Junqueira
   Ivan Junqueira, poeta e crítico literário, dono de grande erudição e de uma verve poética inigualável, soube transformar tudo o que tocou em poesia, uma poesia viva e que transbordou as fronteiras do eu para banhar-se nas águas da universalidade. Junqueira partiu depois de prestar relevantes serviços à cultura brasileira, seja pelo talento poético, seja pelo senso crítico que lhe permitiu ser reconhecido ainda em vida como um dos grandes nomes das letras brasileiras modernas.
               
Ariano Suassuna
Nem bem os amantes da literatura se recuperavam do choque causado pela morte dos escritores acima citados, os jornais anunciam o falecimento de Ariano Suassuna, um dos mais populares autores da literatura contemporânea brasileira. Reconhecido como um dos gênios das letras nacionais da metade do século XX e início do século XXI, Suassuna deixou-nos obras que acabaram imortalizadas no imaginário do povo, mesmo daquelas pessoas que não tiveram acesso a seus livros, pois muitos de seus trabalhos foram adaptados para a TV e para o cinema, como é o caso do Auto da Compadecida, um dos grandes sucessos da dramaturgia nacional.
               
No Maranhão também diversas perdas foram sentidas neste ano. A começar pelo historiador, contista e cronista Wilson Pires Ferro, que logo no primeiro mês cumpriu sua jornada no mundo terreno, deixando-nos como herança livros como Quando eu era Pequenino e Depois que o Sol se Põe.
           
José Chagas
     Outro passamento bastante sentido foi o do cronista e porta José Chagas. Reconhecido ainda em vida como um dos maiores literatos do Maranhão e muito apreciado por seu público, seja por sua prosa, seja por seus versos magistralmente construídos, Chagas será eternamente lembrado por livros como MaréMemória e os Canhões do Silêncio, duas obras de extrema qualidade técnica e que demostram um escritor maduro e consciente de seu papel como formador de opinião, sem abrir mão da arrojada tessitura poética.
               
Ubiratan Teixeira
Ubiratan Teixeira, jornalista, teatrólogo, cronista e ficcionista, foi outro nome que deixou um vazio em nossas letras. Dono de um estilo inconfundível que privilegiava as classes menos abastadas da sociedade, denunciando as mazelas sociais e dos descasos para com a cultura do Estado, o Velho Bira, como também era conhecido, imprimiu suas digitais nas letras não só do Maranhão, mas de todo o Brasil, ao produzir livros como Vela ao Crucificado e o Dicionário de Teatro, obra indispensável para quem aprecia as artes cênicas.
               
Menos conhecido do grande público, mas admirado pelos amantes das letras, o prosador Ariel Vieira de Moraes também partiu neste 2014. Mesmo fisicamente distante do Maranhão há vários anos, a obra de Ariel deve ser considerada como uma das mais sólidas de nossa literatura. Livros como O Anjo Modernista, Na Hora de Deus – Amém e A Cobra Divina são verdadeiras obras-primas de um autor que ainda teria muito a oferecer para nossa cultura.
                Essas perdas são irreparáveis. Mas fica o consolo de saber que esses intelectuais em muito contribuíram para que nosso universo fosse mais belo, mais poético, mais suave e infinitamente mais cheio das ricas alegorias criadas por esses homens iluminados com o dom de transformar ideias em palavras, em magia e em vida.
                Nosso muito obrigado a todos eles.


terça-feira, 13 de maio de 2014

José Chagas

LETRAS VIVAS: JOSÉ CHAGAS

José Neres


            As letras maranhenses contam com alguns monumentos literários que poderiam ser mais divulgados e que têm qualidades literárias suficientes para serem admirados em qualquer lugar do Brasil ou mesmo do exterior. Infelizmente, a falta de uma divulgação mais efetiva, de uma distribuição profissional das obras aqui editadas e de uma crítica especializada que leia e comente os livros com base em critérios mais teóricos que emocionais faz com que talentosos nomes que poderiam ser destacados nacionalmente acabem ficando restritos às nossas terras ou que não sejam conhecidos nem mesmo no rincão natal.

            Escritores como João Mohana, Bandeira Tribuzi, Ribamar Galiza, Fernando Moreira, Arlete Nogueira da Cruz, Aurora da Graça, Luís Augusto Cassas, José Ewerton Neto, Nauro Machado e Waldomiro Viana entre outros, poderiam ter seus trabalhos comercializados em âmbito nacional por grandes editoras, com suas produções sendo discutidas em escolas e academias, mostrando ao mundo valores que às vezes são esquecidos. Outro nome que mereceria um espaço maior para seus trabalhos é o poeta e cronista José Chagas, um dos mais talentosos e inventivos escritores da metade para o final do século XX e início do XXI.

            Nascido na Paraíba, mas radicado no Maranhão desde tenras datas, José Francisco das Chagas, ou mais simplesmente José Chagas, é o tipo de escritor que encanta e desorienta o leitor das primeiras às últimas páginas de seus livros. Mestre na arte de transformar meras palavras em obras de arte, o Poeta consegue transformar aparentes banalidades em versos de grande intensidade poética e carregados de metáforas que estão a serviço não apenas de uma estrutura formal, mas sim de um conteúdo que se desenvolve ao longo das páginas de seus diversos livros.

            José Chagas emprega em seus poemas as mais diversas formas literárias, desde os versos minuciosamente metrificados até aqueles em que a criatividade cede lugar à rigidez estrutural. Não importando a técnica utilizada, os poemas do autor de Os Telhados trazem sempre um apurado senso estético e uma criticidade que vai além daquilo que pode ser esperado em poemas que nem sempre buscam destrinçar a carga social de um povo ou de uma época.

            Muitos são os temas desenvolvidos por Chagas em seus versos, entre eles estão os relativos à infância, ao tempo, à cidade que o adotou como filho, à memória e às mazelas sociais que assolam o mundo. Diante de um quadro em que simples sussurros poderiam não surtir os efeitos desejados, o poeta solta a voz em versos altissonantes que muitas vezes fundem lamentos a gritos de revolta. O poeta parece ter consciência de que seus versos não são palavras soltas ao vento e que se perderão nos desvãos do tempo e da memória curta de um povo acostumado a ser violentado em seus direitos e permanecer calado diante das atrocidades de que é vítima. Na obra de José Chagas, as palavras são flores, mas também são armas.

            O silêncio social não faz parte do estro literário desse poeta e cronista que devotou grande parte de sua vida a observar e registrar os flashes de um cotidiano mutante. Seja em prosa, seja em versos, a literatura chaguiana é essencialmente voltada para o ser humano, buscando despertar nos leitores o interesse pelas coisas e pelos fatos mínimos, todavia vitais para as relações do homem com ele mesmo, com os outros e com os demais elementos de seu entorno. O grande interesse do Poeta não está no visível das mudanças circundantes, mas sim no inefável daquilo que parece banal para muitos e que passa despercebido diante dos olhos de quem não consegue enxergar  além das aparências.

            De certa forma, os poemas e as crônicas de José Chagas funcionam como uma espécie de lupa para ampliar detalhes e deixar mais visível um mundo que muitos fazem questão de não ver, mas que jamais deveria ser esquecido, pois é nele que vivemos e é dele que advêm todas as nossas dores, alegrias e angústia. E o mundo, filtrado pelo olhar e pelas palavras de um Poeta do nível de José Chagas, pode ser aterrorizantemente belo...   

(O Estado do Maranhão, 11 de maio de 2014)

sábado, 15 de março de 2014

UMA VAGA PARA ALUÍSIO

            José Neres
(Professor de Literatura)

Imagem retirada da reportagem da Mirante sobre o assunto

             Vários amigos me interpelaram sobre o que eu acho do fato de estarem transformando o
Casarão onde morou Aluísio Azevedo em um estacionamento rotativo. Fico triste, mas não surpreso...
Imagem retirada da reportagem da Mirante sobre o assunto
            É visível o descaso com que foi tratada nossa cidade ao longo dos anos. Vejamos: Os bustos dos escritores foram  e hoje se encontram recolhidos no Museu, sem previsão de volta; a escadaria da rua Humberto de Campos transformou-se em um mictório público; as fontes  são quase propriedade  particular de pedintes e/ou desocupados; nossas praias hoje são receptáculos de dejetos e de esgoto a céu aberto; a Praça Valdelino Cécio foi transformada em um reduto de uso e comercialização de drogas; o busto de Odorico Mendes foi roubado e possivelmente derretido para ter seu material vendido em um ferro-velho qualquer; as ruas são feudos de inescrupulosos guardadores de carro;  o calçamento da cidade é uma grande armadilha para transeuntes de qualquer idade; os casarões históricos estão entregues à própria sorte e às intempéries da natureza; nossas livrarias fecham as portas por falta de consumidores para um produto tido como luxo chamado livro; os becos são lugares perfeitos para assaltos e estupros, etc, etc, etc.
            Dessa forma jamais acreditei que o casarão de Aluísio fosse escapar a essa insanidade que ajuda destruir o que passamos séculos para conquistar. E tudo isso aconteceu e acontece bem diante de nossos olhos...
            Em qualquer lugar do mundo dito civilizado aquela casa seria um museu, um centro cultural, onde a memória e a obra de um dos maiores escritores do Brasil seriam preservadas, apreciadas e estudadas, mas isso não acontece e possivelmente nunca acontecerá.
Chegamos finalmente ao tempo em que o progresso atropela o passado e em que ter uma vaga para estacionar o carro é muito mais importante que conhecer um pouco de nós mesmos de nosso passado.

O pior é que em breve tudo isso será esquecido e nós mesmos, que hoje estamos tão revoltados com esse fato, sorridentes, pagaremos para deixar nosso veículo lá, pois para muita gente, um risco no carro dói muito mais que um arranhão na história.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ILHAVIRTUALPONTOCOM NÚMERO 21

Chegamos a este fim de ano com a volta do nosso Ilhavirtualpontocom, desta vez com entrevista com o poeta Carvalho Junior, comentários sobre o CD Palavra Acesa de José Chagas e sobre o livro Baratão 66, além da poesia de Francinete Braga Santos. Desejamos boa leitura a todos.

Quem quiser baixar ou ler em PDF, clique aqui

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

RAIMUNDO CORREIA: POESIA COMPLETA

RAIMUNDO CORREIA: POESIA COMPLETA
José Neres
(Professor
de Literatura)

            Raimundo Correia (1859–1911) parece ser um daqueles cultuados escritores que têm o nome lembrado em diversas obras de cunho crítico e/ou didático, que se eternizaram pelo talento e pela reprodução sistemática de dois ou três textos, mas que não conseguem transformar essa admiração em leitura atenta de sua obra.
            Em praticamente todos os livros didáticos utilizados pelos alunos do ensino médio há sempre alguns parágrafos situando o poeta maranhense entre os três mais importantes escritores do Parnasianismo brasileiro, ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. Geralmente há também nesses compêndios um esboço biobibliográfico do poeta, seguido da transcrição de alguns seus sonetos mais populares – quase sempre Mal Secreto, As Pombas ou A Cavalgada –, mas essas informações básicas nem sempre são suficientes para estimular nos estudantes a leitura de outras produções de Raimundo Correia.
            Mesmo que alguém se interessasse pela produção poética do autor de Primeiros Sonhos, teria dificuldades de encontrar no mercado livros que trouxessem mais textos desse poeta. E mesmo em uma busca na internet, os admiradores do escritor esbarrariam na repetição dos textos disponíveis para leitura, cerca de duas dúzias de poemas, quase sempre os sonetos mais conhecidos. Essa recorrência aos mesmos títulos pode levar alguém a pensar que Raimundo Correia fosse um escritor de poucas obras e de talento limitado, o que não é verdade.
            Recentemente, no entanto – pouco mais de um século depois da morte do poeta maranhense – chegou às livrarias um livro que tenta trazer de volta para o público leitor os poemas desse escritor que foi efusivamente elogiado por críticos do porte de Manuel Bandeira e João Ribeiro. Trata-se de “Raimundo Correia: Poesia Completa” (Café e Lápis Editora, 2012, 358 páginas), um livro que oferece ao leitor a oportunidade de entrar em contato com 325 poemas de Correia, trazendo também notas explicativas que podem ajudar a compreender alguns textos.
            Para aproximar ainda mais o leitor do sonetista parnasiano, Claunísio Amorim, responsável pela editoração, organização e revisão, além de escrever a apresentação do livro, não se limitou a reproduzir as centenas de poemas produzidos por Raimundo Correia, mas sim de também transcrever as apresentações e prefácios presentes nas primeiras edições das obras reunidas nesse volume.
            Uma das grandes qualidades de um trabalho como a edição de obra completa de um poeta é a oportunidade de entrar-se em contato diretamente com a produção do escritor, e não apenas com textos esparsos. Desse modo, o leitor pode chegar a algumas conclusões às quais não chegaria se ficasse apenas na leitura dos teóricos ou dos poemas soltos.
Uma das ideias solidificadas sobre Raimundo Correia e que pode ser questionada em uma leitura mais atenta de seus poemas é a que se refere ao negativismo que supostamente atravessa toda a sua obra. Embora fique evidente que o estilo do autor seja carregado de certa dose de pessimismo, pode-se notar também que, em variados momentos, ele despejava em seus versos um humor ácido, como, por exemplo, no poema “Ideia Entomológica”, no qual um pseudo-poeta, ao levar a mão à cabeça, no lugar de tirar idéia para um poema, só consegue encontrar um piolho; ou ainda no soneto “A Uma Cantora”, no qual o eu lírico se vê gravemente ferido pela voz de alguém que se diz cantora.
            Os versos de Raimundo Correia são bastante plásticos e, apesar de ficarem presos às formas parnasianas, trazem algumas imagens que mesclam densidade filosófica e crítica social, como ocorre no belíssimo poema intitulado “Diálogos”, no qual a terra, o trigo, a pedra e o ferro são personificados e não perdoam o homem pelas atrocidades cometidas ao longo dos tempos.

            Poesia Completa de Raimundo Correia é um livro para ser lido não apenas pelos apaixonados pelos versos do autor, mas também por aqueles que acreditam que toda a obra do poeta parnasiano se resume a apenas meia dúzia de poemas bem elaborados. Ele é muito mais que isso. É um dos maiores poetas que o Brasil já teve. E hoje, mais de um século após seu passamento, Raimundo Correia ainda demonstra ter muito a dizer em seu universo poético.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

WANDA CRISTINA

José Neres


           
Fonte da imagem: Internet
Na década de 80 do século passado, o professor e crítico literário Carlos Cunha, em seu livro Lâmpadas do Sol, escreveu que Wanda Cristina era uma escritora de raras qualidades artísticas e dona de uma imaginação que ia além do senso comum. Provavelmente, na época, muitas pessoas devem ter creditado essas observações à bondade de um crítico que, além de sempre haver lutado pela divulgação de novos talentos, tinha relações parentais com a escritora. No entanto, quem acompanhou ou acompanha a produção literária maranhense sabe que Carlos Cunha estava certo em sua apreciação.
            Cerca de uma década e meia após sua estreia em livro, quando não pairava mais nenhuma desconfiança sobre seu talento poético, Wanda Cristina volta a ser lembrada por outro grande crítico. Ela foi selecionada por Assis Brasil como uma das representantes da poesia maranhense do século XX. O romancista e crítico piauiense destaca a inventividade, o domínio da linguagem e o uso de formas poéticas diversificadas por parte da escritora, que tem cinco de seus poemas destacados na antologia.
            Em sua obra, Wanda Cristina não espera que o leitor abra o livro para entrar em contato com a poesia e com as metáforas. Logo na capa, ela já costuma fazer um trabalho de escolha lexical que leva o leitor a perceber que escolher um título não se trata de um mero artifício verbal, mas sim de um recurso poético que pode ser bem empregado por quem sabe que os jogos poéticos não se limitam à confecção dos versos e à busca desenfreada pelas rimas. Desse modo surgiram títulos como “Uma Cédula de Amor no meu Salário”, “Engraxam-se Sorrisos” e “Rede de Arame”.
            Embora seja mais conhecida por seus textos em verso, Wanda Cristina não se prendeu a apenas um gênero ou a uma forma. Ela, ao longo de sua trajetória literária, já se dedicou à prosa, ao texto teatral, à composição de letras de músicas, à pesquisa folclórica e a outros gêneros, além de dedicar-se ao magistério. Essas múltiplas atividades talvez tenham eclipsado um pouco o brilho da poetisa que, possivelmente ainda deve ter muitos textos inéditos esperando a oportunidade de virem à luz.
            As temáticas e estruturas trabalhadas pela autora de “Geofagia Ruminante no Sótão da Preamar” são variadas e vão desde situações cotidianas até incursões pela experiência concretista, com especial atenção aos aspectos sociais da realidade. Em diversos momentos de sua obra, Wanda Cristina deixa transparecer seu descontentamento com a as injustiças sociais e com os (des)rumos que o mundo vem tomando e que quase sempre não estão de acordo com o que seria desejável. Atenta aos elementos circundantes, a escritora colhe do dia a dia a matéria para seu trabalho com a palavra. Um acidente de trânsito, uma discussão banal, um cigarro, uma árvore... Tudo pode servir de tema para a poética dessa escritora que busca no cotidiano e dentro da essência das pessoas a matéria-prima que, após um burilamento com a linguagem, se transforma em Poesia.
            Em alguns de seus poemas, Wanda Cristina consegue amalgamar o tom de revolta com a consistência de um apurado trabalho de construção poética. É o caso do pequeno, mas contundente Aliteração, no qual, em apenas dez versos, a antiga concepção político-ideologia do Pão e Circo é mostrada e desnudada como força coercitiva da alienação do povo. Trata-se de um poema que ao mesmo tempo encanta o leitor pela bela construção e o faz pensar na forma como somos manipulados ao longo dos tempos.
            Adepta dos jogos de palavras, mas sem decair no mero experimentalismo fonético, e do engajamento literário, contudo sem recorrer ao panfletarismo militante, Wanda Cristina é o tipo de escritora que deve ser lida com calma, apreciando-se todas as nuances e matizes que fazem de cada um de seus textos uma pequena obra de arte.

            

quinta-feira, 16 de maio de 2013




PROGRAMAÇÃO
Dia 23.05.2013 (quinta-feira)
             Horário: 8h – CREDENCIAMENTO (Sala de apoio 01)
Local: CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS - CCH/UFMA
8h30 – MESA DE ABERTURA
            Composição: Prof. Dr. Jarbas Couto e Lima– Coordenador PGCult-UFMA
             Profa. Dra. Teresinha de Jesus Baldez e Silva (GELLD-DELER-NEPLiCI-UFMA)
             Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
  
Local: AUDITÓRIO “A” - “MÁRIO MEIRELLES” – CCH
 
10h15 – INTERVALO
10h30 MESA-REDONDA 1 – “Espaço toponímico do Centro Histórico de São Luís: memória e identidade” 
Composição:Profa. Dra. Teresinha de Jesus Baldez e Silva (GELLD- NEPLiCI -DELER-UFMA)
Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
Prof. Ms. Gersino dos Santos Martins (PGCult -DEART-UFMA)
12h às 14h30 – INTERVALO
14h30 MESA-REDONDA 2 – “A sustentabilidade ambiental no espaço maranhense”
Composição: Prof. Dr. Antônio Cordeiro Feitosa (DEGEO–NEPLiCI-UFMA)
                                         Profa. Ms. Andreia Marques (PGCult)
Moderador(a):Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
16h15 – INTERVALO

16h30 MESA-REDONDA 3 – “A memória das cidades: seu espaço, sua identidade”
Composição: Profa. Ms. Maria de Lourdes Lauande Lacroix
                                         Profa. Dra. Maria Cândida Seabra (UFMG)
Moderador(a):Profa. Dra. Teresinha de Jesus Baldez e Silva (GELLD-NEPLiCI-DELER-UFMA) 
18h – LANÇAMENTO DE LIVROS 
 
 
 
 
 
Dia 24.05.2013 (sexta-feira)
              Horário: 8h30 – MESA-REDONDA 4 – “Literatura maranhense: múltiplos olhares”
              Composição: Prof. Ms. José Ribamar Neres Costa(FAMA)
                                        Profa. Ms. Janete de Jesus Serra Costa (PGCult-UFMA)
                                        Susane Martins Ribeiro (Graduanda em Letras - FAMA)
              Local: AUDITÓRIO “A” - “MÁRIO MEIRELLES” – CCH
10h15 – INTERVALO
10h30 MESA-REDONDA 5 – “Aspectos da literatura maranhense”
Composição: Prof. Dr. José Dino Costa Cavalcante (GELLD-DELER-UFMA)
                          Profa. Ms. Dinacy Mendonça Correia (UEMA)
                          Profª.Esp.Samara Santos Araújo
                          Paloma Veras Pereira (Graduanda em Letras-UFMA)
                       
12h às 14h30 – INTERVALO
14h30 MESA-REDONDA 6 -“O espaço na literatura brasileira: memórias em prosa e poesia”
Composição: Flaviano Menezes da Costa (GELLD-PGCult)
                          Adeilson Marques (GELLD-PGCult) 
                          Narjara Mendes da Silva (GELLD-PGCult)
Moderador(a):Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
16h15 – INTERVALO
16h30 CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO: “CIDADE E MEMÓRIA: aproximação à poética de Ferreira Gullar”
            Conferencista: Prof. Dr. Samarone Marinho (Pós-Doutorando pela USP em Geografia Humana)
18h – ENTREGA DE CERTIFICADOS 
9h-CONFERÊNCIA DE ABERTURA - “Léxico Toponímico: documentação, memória e cultura”
Conferencista: Dra. Maria Cândida Seabra (UFMG)

domingo, 21 de abril de 2013

DA ARTE DE PERDER LIVROS



DA ARTE DE PERDER LIVROS
José Neres
          

         
            A regra é bem lógica e simples. Quer perder livros? Basta dedicar-se a não muito salutar tarefa de emprestá-los.
            Um livro, qualquer que seja ele, é tão importante que é capaz de mudar completamente até mesmo a noção de tempo e de espaço. Não! Não estou falando aqui do poder dos livros de levar os leitores para outros tempos ou a paragens alcançáveis apenas pela imaginação. Fala de algo mais real e mais facilmente comprovável.
É o seguinte: quando alguém precisa de um livro, raramente se dirige a uma livraria para comprá-lo. É mais fácil e cômodo pedi-lo emprestado a um incauto qualquer de boa fé. É esse o momento de fazer o teste que passo a descrever a partir  desta linha. Basta o dono do livro dizer que só ele sabe onde está o referido título, que mora longe e que só estará em casa a partir das dez ou onze horas da noite. Pronto. Como em um passe de mágica, relógio, convenções sociais e distâncias perdem a importância. Na hora marcada, por mais incômoda que seja; no endereço dado, por pior que seja o acesso a ele, o pedinte estará ali, com um sorriso no rosto, pedindo desculpas pelos inconvenientes, mas deixando bem claro que consultar aquela obra é questão de vida ou de morte. A visita costuma ser rápida, raramente o cidadão aceita passar da soleira da porta, tal é sua pressa.
A segunda parte do teste vem dias, semanas ou meses mais tarde. Uma vez feita a tão urgente consulta, a residência do dono do livro se torna extremamente distante; aquela pessoa que outrora se dispôs a ir a qualquer hora pegar a obra, de repente, não mais que de repente, como diria Vinícius de Moraes, percebe que não deve incomodar as pessoas altas horas da noite, domingos ou feriados tão simplesmente para entregar um mero livro; o número do telefone do proprietário do livro, que foi usado incessantes vezes para lembrar o título exato do volume, como que por encanto, desaparece da agenda do agora tão ocupado pedinte... E o tempo vai passando...
A terceira e última parte do teste vem em um encontro fortuito, quase acidental entre as duas partes. Geralmente, quem está com o livro não toca no delicado assunto e, quando instado a falar sobre uma possível devolução, alega falta de tempo, muito serviço, problemas de locomoção para lugares distantes e conclui dizendo que em breve, assim que sobrar um tempinho, fará uma visita com mais calma, para entregar o precioso objeto, etc, etc, etc.
Pronto. O teste está completo. Os livros, principalmente os emprestados têm o poder de relativizar aos extremos as noções de tempo, de espaço e de prioridade.
            O problema desse tipo de comprovação é que ela pode sair muito cara para quem decide investir em uma formação mais letrada. A cada experiência, alguns livros preciosamente raros participam de uma espécie de êxodo bibliográfico sem volta às estantes de origem. Além do valor pecuniário perdido, o amante das palavras escritas percebe aos poucos que os clarões das estantes mostram bem mais que uma hemorragia de celulose, escancarando aos olhos do pobre coitado a perda de anos e mais anos de busca  incessante a exemplares raros que  aos amados lares nunca mais retornarão. 
            É... esse é o tipo de arte que precisa ser combatida, antes que transforme benfeitores da palavra em seres egoístas especializados na arte de esconder a sete chaves seus pequenos tesouros de papel
Publicado originalmente em O Estado do Maranhão
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