segunda-feira, 20 de julho de 2009

Carlos Cunha


O GARIMPEIRO DE TALENTOS

José Neres

No Maranhão, ano após ano, dezenas de pessoas encantadas com os laivos poéticos que possuem (ou que julgam possuir) juntam suas economias e, por falta de acesso às grandes editoras, custeiam o sonho da publicação de um livro. A obra quase sempre circula apenas entre familiares e amigos do autor e, em pouco tempo, transforma-se em um monte de volumes esquecidos em um cômodo qualquer da casa.

A dificuldade de divulgar os livros publicados e a indiferença dos escassos leitores são dois dos obstáculos com os quais os escritores devem conviver quando decidem publicar seus primeiros trabalhos. A divulgação na mídia geralmente é mínima e a concorrência do lançamento de livros com outros tipos de diversão é, sem dúvida, desproporcional. Somando-se a isso, temos também a ausência de uma rede de distribuição dos livros, o que acaba transformando o autor em um dublê de autor e vendedor das obras. Além de todos esses entraves, ainda há em nossa terra a falta de uma crítica especializada que se debruce sobre as obras dos autores estreantes. Assim sendo, o livro nem bem é publicado e já se transformou em algo de um passado distante.

Nas últimas décadas, alguns intelectuais decidiram dedicar parte de seu tempo para estudar os valores literários que se dispunham a expor seus trabalhos ao público. Alguns livros conseguiram uma boa projeção, como é o caso de “A Poesia Maranhense do Século XX”, do piauiense Assis Brasil. Outros esforços acabaram caindo no esquecimento e hoje são raramente encontrados até mesmo para pesquisa, como é o caso de “A Atual Poesia do Maranhão”, de Arlete Nogueira e de alguns livros de Clóvis Ramos. Mas quem realmente deve ser visto como grande garimpeiro de talentos nascedouros foi Carlos Cunha.

Além professor, folclorista, poeta, acadêmico e pesquisador Carlos, Cunha foi um incansável defensor das letras maranhenses. Ao longo de décadas, ele se prontificou a estudar criticamente as obras que eram publicadas. Autores que começam a caminhada rumo ao mundo das letras não ficavam no esquecimento e tinham seus trabalhos esmiuçados pelo olhar sempre atento do velho mestre. Desse modo, no livro “As Lâmpadas do Sol”, (de 1980), já é possível encontrar estudos sobre Luís Augusto Cassas, Raimundo Fontenele, Roberto Kenard, Wanda Crisitina e Déo Silva, autores que somente alguns anos depois iriam ter seus nomes projetados para além dos limites da Ilha.

Atento a tudo o que acontecia no campo das letras maranhenses, Carlos Cunha, no mesmo livro, também estudava nomes como Bernardo Almeida, Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, José Maria Nascimento, Nauro Machado, Oswaldino Marques, Nascimento Moraes Filho, Lucy Teixeira e José Sarney, autores que já eram reconhecidos na época. Em outro livro, intitulado “No Porão da Eternidade” (de 1982), que não é totalmente voltado para a literatura, pois aborda personalidades também de outras áreas, o arguto crítico faz um passeio pela obra indianista de Gonçalves Dias; lembra o passamento de Erasmo Dias e analisa “Canção das Horas Úmidas”, o primeiro livro de poema de Arlete Nogueira da Cruz.

Anos antes, em 1974, o pesquisador maranhense já havia sido aclamado por seu importante trabalho “Poesia Maranhense Hoje/50 anos de poesia”, uma importante antologia de resgate dos poetas de nossa terra. Tais livros hoje são verdadeiras raridades, mas também são fontes para qualquer pessoa que se disponha a estudar a literatura maranhense.

Hoje, alguns anos após a morte do professor/poeta, sabemos que nem tudo o que foi garimpado por ele era ouro de verdade. Mas ele cumpriu com o seu dever de buscar pepitas de ouro onde outros só enxergavam um vazio literário.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

UM AUTOR MARANHENSE

WALDEMIRO VIANA
José Neres
(Professor e Escritor)


Quem não acompanha de perto a produção intelectual dos autores contemporâneos costuma imaginar que nossa literatura vive apenas de um passado glorioso. Quando tais pessoas se referem aos romancistas de nossa terra, costumam citar apenas os clássicos canonizados pelo tempo: Aluísio Azevedo, Coelho Neto, Graça Aranha e, quando muito, chegam a falar em João Mohana, José Louzeiro, José Sarney e Josué Montello. Esses pseudo-conhecedores das letras maranhenses certamente desconhecem alguns prosadores de grande talento que estão publicando, como é o caso de José Ewerton Neto, Ronaldo Costa Fernandes, Bento Moreira Lima, Arlete Nogueira, José de Ribamar Reis e alguns outros que se dedicam à difícil arte da narrativa longa.

Além dos romancistas acima citados, pode – e deve – ser lembrado também o nome de Waldemiro Viana, um dos mais talentosos escritores maranhenses do último quartel do século XX e do início deste novo milênio. Filho do ilustre intelectual Fernando Viana, Waldemiro herdou do pai muito mais que o sobrenome, herdou também o grande talento para trabalhar com as palavras e transformá-las em obra de arte.

Depois de brindar o público com os volteios picarescos do hoje cada vez mais raro “A questionável amoralidade de Apolônio Proeza”, o escritor trouxe à luz seu livro mais lido e mais comentado: “Graúna em Roça de Arroz”, um romance que merece todos os adjetivos elogiosos que já recebeu por parte da crítica. Não há como ler o livro sem se sentir dentro do turbilhão que envolve a vida de Marcolino e Celeste, os dois protagonistas da obra. A cada página, o leitor vai percebendo que as personagens mergulham em um abismo tramado pelo próprio destino e que dali não podem sair sem as sequelas e lacerações que marcarão para sempre seus corpos e suas almas. Capítulo a capítulo, o autor demonstra dominar a técnica narrativa e consegue prender seu público em um labirinto de surpresas capaz de despertar as mais diversas emoções.

As pessoas comuns são o assunto preferido do romancista maranhense. Ele não pretende, em suas obras, mostrar pessoas dotadas de poderes ou características que fujam à compreensão. É da simplicidade do cotidiano que ele retira o mote para suas produções, como pode muito bem ser atestado no bem-humorado “O Mau Samaritano”, obra que permite ser lida de um só fôlego por horas ininterruptas. Partindo de um fato inusitado, porém banal em nosso dia-a-dia, Waldemiro Viana consegue encaixar um bom número de interessantes episódios aparentemente isolados, mas que encontram ressonância no tronco principal da narrativa. Aos pouco, o que era um simples diálogo entre dois desconhecidos ganha dramaticidade e, oscilante entre o humor e perspectiva de uma tragédia, ganha novos e inesperados contornos.

Saindo do âmbito da narrativa, o escritor ludovicense, em seu mais recente livro, “Passarela do Centenário e Outros Perfis”, também prova que é um talentoso poeta. Em 47 sonetos, ele traça um pequeno retrato de seus confrades da Academia Maranhense de Letras e de outras personalidades. O livro pode ser visto com um pequeno álbum, no qual cada poema é um cromo colado na página com a perspicácia de um olhar sempre observador.

Enfim, entre poemas, romances e, certamente, muitos inéditos na gaveta, Waldemiro Viana é um desses homens que dignificam as terras maranhenses com o brilho de suas obras.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

UMA CHARGE


Recebi de minha dileta amiga Elaine Casale esta charge que demonstra muito bem as mudanças em nosso sistema educação e no familiar nas últimas décadas. Creio que a imagem não precisa de comentários.

domingo, 28 de junho de 2009

LEITURA E CINEMA










LER O LIVRO OU ASSISTIR AO FILME?

José Neres

A cena é mais ou menos a seguinte: o professor chega à sala de aula e recomenda (ou exige) a leitura de determinada obra literária. Os alunos, assombrados como se estivessem vendo um fantasma, começam a tentar dissuadir o mestre daquela tarefa insana. Uns alegam falta de tempo para ler. Outros, mesmo ainda desconhecendo o conteúdo do livro, dizem que a obra é muito chata. Todos trazem à tona a interminável crise econômica: “Livro é muito caro...” O professor, impassível e já acostumado com tais atitudes, mantém-se firme e determinado. Para acabar com a polêmica, o professor usa da frase mágica: “O livro vai cair na prova”.

Nada mais a fazer. O jeito é ler o maldito livro. Alguém sussurra lá no fundo da sala a frase salvadora: “Vou ver se já tem esse livro em DVD”. Alívio geral. Após o término das aulas, um bando invade a locadora mais próxima e, com o título do livro escrito na palma da mão ou em um papelzinho amassado, passa em revista prateleira por prateleira. Alguns alunos, menos dispostos a perder tempo, preferem logo abordar o atendente e fazer-lhe a pergunta: “tem o filme TAL”. Caso a resposta seja positiva, a sensação de alivio é imediata e os sorrisos brotam, desenhando em cada rosto um inegável ar de contentamento. Contudo, quando é um não que vem como resposta, é o ar de desespero que se apodera dos pobres infelizes.

Mas imaginemos apenas o caso em que a obra literária já tenha sido vertida para o cinema... De posse do DVD, o aluno (ou o grupo) sente-se vitorioso e muitíssimo inteligente. Está garantida a economia de tempo e de dinheiro. Para que gastar horas e horas diante de algumas páginas de um livro, tendo que forçar os neurônios e ainda recorrer aos dicionários, se em alguns minutos diante da televisão é possível ficar conhecendo toda a história contada pelo autor? Para que gastar dezenas de reais na compra de um livro que será lido, quando muito, apenas uma vez, se, com alguns poucos reais, é possível locar o filme? O problema está resolvido. Resta comprar a pipoca, os refrigerantes, reunir os amigos e, em uma sessão bastante divertida, conhecer o conteúdo de um livro e, depois, ganhar a liberdade para fazer o que quiser com a ilusão do dever cumprido.

É exatamente nessa sensação “do dever cumprido” que está um dos grandes equívocos e um dos grandes perigos dessa aparente facilidade de entrar em contato com textos literários sem recorrer à leitura dos livros. É preciso lembrar sempre que cinema e literatura não são termos sinônimos e, por melhor que seja um filme baseado em um texto literário, ele jamais conseguirá captar toda a inefável essência do texto escrito.

Como o trabalho literário trata geralmente a palavra de modo multifacético e impregna cada linha de um caráter plurissignificativo, deixa margens para diversas leituras e para múltiplas interpretações. Quando alguém leva para casa um filme baseado em um livro, estará entrando em contato não com o enredo original, mas sim com uma adaptação feita por alguém que leu o livro e que fez a chamada tradução intersemiótica, deixando, de forma consciente ou não, suas impressões e sua forma de ler o texto na versão levada para as telas.

Em prol de um dinamismo próprio do cinema, o diretor/roteirista procura o melhor meio de (re)contar a história e, para isso, em muitos casos, tem que alterar a obra original de forma bastante significativa. Claro que há filmes que tentam (e , às vezes, conseguem pelo menos em parte) manter certa fidelidade com relação à obra que lhe deu origem, mas mesmo assim, por se tratarem de duas linguagem distintas e que empregam métodos e dinâmicas diferentes, o trabalho audiovisual ainda não é capaz de substituir a contento a leitura do texto impresso.

Desse modo, os estudantes que acreditam que assistir a um filme baseado em um livro substitui a leitura da obra escrita estão equivocados. Mas não são poucos os alunos que, infelizmente, preferem viver apenas no irreal mundo dos enganos que parecem verdade.

domingo, 14 de junho de 2009

CINEMA MARANHENSE


ENTRE O RISO E O PRANTO

José Neres

A produção cinematográfica maranhense em média e longa metragem é, além de pequena, pouco divulgada. Por isso não deixa de chamar a atenção quando um jovem e talentoso cineasta como Cícero Filho consegue ter seus trabalhos divulgados além dos restritos círculos dos amantes da sétima arte e atinge outras camadas sociais com obras que não estejam ligadas à poderosa e praticamente imbatível indústria do entretenimento de massa.

Em um artigo publicado em O Estado do Maranhão, Joaquim Haickel, um de nossos premiados intelectuais voltados para as artes cinematográficas, rende-se, mas sem deixar de lado o rigor crítico, ao hoje bastante conhecido, visto e até pirateado “Ai, que vida!”, uma interessante comédia ambientada no eixo Piauí-Maranhão. O filme proporciona boas gargalhadas a quem se deixa levar pelas ironias do roteirista-diretor, pelas hilariantes caretas do prefeito e pela interpretação leve e até mesmo ingênua dos atores, que, mesmo dentro de um evidente amadorismo, esforçaram-se por fazer um trabalho que primasse pela qualidade possível dentro dos limitados recursos humanos e financeiros que ficam evidenciados na produção.

Mas a intenção de “Ai, que Vida!” vai além do riso fácil. Quem prestar atenção aos diálogos perceberá o tom crítico que permeia grande parte do filme. Na tela há um verdadeiro desfile de tipos humanos que não são apenas elementos de ficção, mas sim figuras encontráveis em qualquer noticiário ou mesmo em um rápido passar de olhos nas periferias de nossas cidades.

O sucesso da comédia alavancou a busca por outras produções do mesmo autor. Não é difícil, agora, no comércio informal, encontrar cópias de “Entre o Amor a Razão”, uma história capaz de levar as pessoas mais sensíveis às lágrimas e/ou a um profundo sentimento de revolta por causa das injustiças sociais descritas em aproximadamente uma hora e meia de projeção.

A miséria é a personagem invisível que permeia todo o filme. Ao lado de breves sopros de esperança, temos um vendaval de situações adversas a açoitar uma família unida pelo amor, mas irremediavelmente atolada em um charco de lama que sufoca quem tenta dele escapar. As sucessões de cenas trágicas deixam o espectador atormentado e sem esperança de um final feliz que lembre a velha história do “e foram felizes para sempre”.

Mesmo com o evidente intuito de levar as pessoas à catarse, Cícero Filho não deixa de lado seu tom irônico e os diálogos que destilam críticas sociais. Fica evidente no decorrer do filme que o que arrasta Cláudia, Elizeu e suas crianças para os pontos mais degradantes da existência humana não é apenas a óbvia constatação da pobreza econômica de uma região, mas também a falta de vontade política em resolver ou pelo menos amenizar os problemas de um povo sofrido. Possivelmente, uma das razões do sucesso de Cícero Filho é sua capacidade de dar, em suas produções, um pouco de voz a um povo que tanto sofre na mudez de uma dor que sufoca até mesmo os menores soluços de angústia.

Filmes como “Ai, que Vida!” e “Entre o Amor a Razão” servem para que as pessoas possam ver uma realidade que nos é tão familiar, mas para a qual não titubeamos em fechar os olhos ou virar o rosto. Pelo menos, no cinema ou na tela da TV, entre uma gargalhada e uma lágrima escorrendo pela face, não fechamos os olhos para essas tristes verdades.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

OCUPADO

Como ando meio ocupado, não estou alimentando o blog com a mesma frequência. Em breve, porém, voltarei a postar novos textos. Por enquanto, deixo a meus poucos, mas importantes leitores, essa canção dos Paralamas do Sucesso, que reflete muito bem meu momento atual.

CAPITÃO DA INDÚSTRIA

Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais

Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas

Eu acordo pra trabalhar
Eu durmo pra trabalhar
Eu corro pra trabalhar


Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu não vejo além da fumaça que passa
E polui o ar
Eu nada sei
Eu não vejo além disso tudo
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas

domingo, 24 de maio de 2009

BIOQUE MESITO


Com este artigo, iniciaremos uma série sobre os poetas maranhenses contemporâneos. Esperamos que um dia falar sobre literatura seja algo comum em nossa mídia. Mas enquanto isso não acontece, vamos tentando fazer a nossa parte.


POETAS DE HOJE: BIOQUE MESITO

José Neres

Quando Fábio Henrique Gomes Brito resolveu separar e depois juntar letras finais de seu nome de batismo, veio à luz o pseudônimo de Bioque Mesito, o autor de A inconstante Órbita dos Extremos (2001) e A Anticópia dos Placebos Existenciais (2008), ambas obras premiadas em concursos literários.

Mais preocupado mais com a essência poética do que com a mera forma do poema, Mesito transita livremente entre os versos soltos e a experiências com a linguagem e com as formas. Em muitos casos, o poeta utiliza-se de recursos gráficos e das associações entre imagens e palavras para transmitir suas ideias, suas críticas e suas impressões sobre o mundo. Isso pode causar estranheza a quem esteja acostumado tão somente com poemas rimados e metrificados com o rigor.

Como pode ser visto desde a escolha das palavras que dão nome aos livros, o interesse do poeta não é fazer poemas narrativos nem de críticas sociais explícitas a cada verso, embora o tom crítico seja visível em muitos momentos dos livros. O interesse maior da poesia de Bioque Mesito é a inquirição do humano, sem se preocupar, porém, em trazer respostas prontas, acabadas e definitivas. Na leitura dos poemas, é possível perceber-se que o eterno questionar(-se) a respeito do mundo ocupa um espaço significativo no estro do poeta. O aparente tom de confissão que permeia grande parte dos textos nem sempre está relacionado ao homem que escreve os poemas, mas, sem dúvida, está se dirigindo ao Homem, visto como entidade universal.

É possível identificar na poética de Bioque Mesito um olhar sempre atento às mais diversas realidades que circundam o ser humano. Como um flâneur a vagar pela inconsistente certeza das dúvidas, o eu lírico dos poemas afia seu olhar em direção ao infinito e ali vislumbra o vazio de seres anônimos que, ao mesmo tempo, podem ser ninguém ou cada um de nós.

A insatisfação é outro ponto a ser destacado nos poemas do jovem escritor. Ao longo das páginas, o leitor entra em contato com um sentimento de descontentamento com relação a tudo que gira na órbita de um nada que se considera digno de reconhecimento. Dessa forma, uma sensação de que o mundo está desconsertado, tão evidente em Camões, Drummond e em outros poetas de grande nível, volta remodelada nas palavras de um homem/poeta que demonstra estar insatisfeito até mesmo com a própria insatisfação, como se pode ser visto nos versos finais do livro de estréia de Bioque Mesito, quando traduz como queria que seu último poema fosse: “suave como borboletas/ no cio/ metade eterno por todo tempo/ metade eterno por insatisfeito.”

A obra de Bioque Mesito não exige uma leitura atenta e livre de preconceitos relativos à forma, às temáticas e às construções nem sempre comuns. As palavras espacializadas à Maiakovski podem até espantar um leitor pouco afeito aos versos menos tradicionais, contudo, em uma leitura mais atenta, ninguém poderá negar o belo trabalho que o poeta faz com a linguagem, em busca da essência humana que só a arte é capaz de traduzir.


domingo, 10 de maio de 2009

NOSSA LÍNGUA...

PALAVRAS MUTANTES

José Neres

Em uma época quem que mutantes invadem as telas das tevês e dos cinemas e inundam o imaginário de jovens e adultos com a ilusão de poderes além dos limites humanos, a maioria das pessoas, no afã de acompanhar as milionárias produções cinematográficas, esquece-se de que todos nós passamos por pequenas mutações no corpo, no vestuário, nos tratamentos cotidianos e, principalmente, na linguagem.

Uma língua é um elemento vivo que também evolui e que se transforma a cada minuto. Palavras e expressões que marcam uma geração podem facilmente ser esquecidas na década seguinte. Algumas pessoas se espantam com a velocidade com que o idioma assimila alguns vocábulos e com sua tendência a descartar elementos linguísticos que, à primeira vista, pareciam eternos e imunes às mudanças.

Mesmo que cause estranheza, essa evolução da língua é parte da eterna necessidade de renovação a que todos estão irremediavelmente atados. Não se trata, portanto, de dizer que uma língua está sendo destruída por seus falantes atuais ou que as “pessoas de antigamente” tinham mais cuidado com o vernáculo, ou, pior ainda, de preconizar que “os jovens estão matando o idioma” cada vez que falam. O que há, na verdade, é uma adequação da linguagem a uma época é às situações impostas pelo próprio cotidiano.

No entanto, mesmo as pessoas que tentam não recender um ranço de passadismo se veem vez ou outra espantadas com a mutação de algumas palavras que circulam com desenvoltura no vocabulário atual. Em alguns casos, o significado da palavra mutante em nada lembra a essência do estágio anterior da língua. Dessa forma, as mutantes citadas a seguir podem causar estranheza a quem não observe com cuidado as falas que ecoam nas ruas, nos shoppings e até nas escolas, mas já são bastante familiares aos ouvidos de todos nós.

O conhecidíssimo ato de NAMORAR de forma descompromissada teve diversas modificações e hoje pode ser encontrado na forma de FICAR, de PEGAR, de PASSAR O SAL e até mesmo de um estranhíssimo ESPOCAR, que suscitam frases interessantes como: “Estou espocando uma mina de tua rua” ou “Já passei o sal em tua prima”. Tudo muito romântico!

O sempre educado DESCULPE-ME está praticamente fora de uso e em seu lugar surge o enigmático FOI MAL, quase sempre dito de modo vago e com uma entonação arrastada que se prolonga no vazio do tempo.

Outra palavra que vem perdendo terreno no dia-a-dia é OBRIGADO, que, depois de décadas e mais décadas brigando para ter sua forma feminina usada de acordo com a norma culta, agora se vê definitivamente sufocada pelo sisudo VALEU.

Estruturas solidificadas como TCHAU, ATÉ LOGO, ESTOU INDO e VOU-ME EMBORA praticamente fundiram-se em uma forma extremamente contraditória e direta. Um simples, rápido e sintético FUI resolve todos os problemas sem precisar de explicações ou das convencionais despedidas.

Atualmente, poucos são os que convidam os amigos para um ANIVERSÁRIO, pois é mais prático convidá-los para o NÍVER, de preferência com poucas pessoas, para evitar gastos desnecessários e com uma vela em forma de interrogação, para preservar a discrição sobre a idade do dono da festa.

Alguns pequenos cacoetes da fala não se contentaram com as visíveis mutações, mas também se acasalaram e trouxeram à luz o famigerado TIPO ASSIM, que nada acrescenta à praticidade discursiva, mas que serve para enfeitar o vazio conteudístico de tanta gente que adora falar, mas que pouco tem a dizer.

A relação poderia se estender por páginas e mais páginas, pois em uma era de comunicação instantânea em que primos viram plimos (ou pliminhos) na internet, mutações como V6 (vocês), 4ever (do inglês forever/para sempre), ctz (com certeza) e qq (qualquer) começam a fazer parte do cotidiano dos falantes da língua e tendem a evoluir para outras formas ainda mais cifradas. Resta então a cada pessoa aprender a conviver com esses mutantes de maneira harmônica ou então viver em um quase isolamento lingüístico.

Um detalhe: não adiante abrir guerra contra os mutantes. Eles geralmente são bastante fortes e têm o poder de fazer parecer que tudo está como sempre esteve. Aparentemente, nada muda dentro da mudança eterna.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

LEITURA LEITURA E LEITURA


LEITURA COM CASTIGO

José Neres



É, infelizmente, uma constante em algumas escolas, quando um aluno, ou mesmo uma turma inteira, não se comporta de acordo com os ditames da instituição, que professores, coordenadores e até mesmo membros do corpo diretivo imponham uma penalidade a quem não esteja encaixado nas normas pré-estabelecidas.


As sanções são as mais variadas e vão desde advertências verbais até a expulsão sumária, passando por outras medidas corriqueiras, como exclusão do aluno da sala de aula, suspensão por determinado período ou até, por mais absurdo que pareça, castigos físicos. Contudo uma das punições mais corriqueiras e aparentemente sem grandes proporções é a que mais chama a atenção, por sua discutível aplicabilidade como método educativo: obrigar o educando a ler um livro ou a escrever uma redação como forma de castigo.


Ora, um dos papéis dos educadores, em todos os níveis de ensino e fomentar nos alunos a ideia de que ler é uma espécie de passaporte para a independência intelectual. Quando alguém é alfabetizado e consegue sair do simples decifrar de palavras para alcançar a dimensão do entendimento global dos textos e da realidade circundante, adquire uma poderosa ferramenta capaz de fazer da pessoa um cidadão mais cônscio de seus direitos e deveres. A produção escrita, por sua vez se transforma em um excelente mecanismo de divulgação das próprias ideias, seja para um grupo restrito, como na produção de cartas e pequenos documentos, seja para um público mais amplo, como ocorre nos escritos de cunho científico ou artístico ou ainda na divulgação de textos via internet.


Mas, impondo a leitura e a escrita com forma de castigo, qual a mensagem subliminar que a instituição escolar passa para seus educando? Agindo dessa forma, qual o incentivo que a escola deixa para o estudante que passa a ver nas palavras escritas um grande inimigo e não um aliado que irá acompanhá-lo ao longo de toda uma vida? Quantos alunos se sentirão inteiramente à vontade com um livro nas mãos enquanto as imagens de castigos antigos e recentes ainda fazem parte de suas mais traumáticas lembranças?


A escola, bem como a família e a sociedade em geral, têm a obrigação de fazer o possível e até o impossível para transformar meros frequentadores de aulas em leitores proficientes e capazes. Não pode ser negado ao educando o direito de caminhar com as próprias pernas e de seguir pelas tortuosas estradas da vida guiado pelo mapa das palavras escritas, com caminhos iluminados pelo farol do conhecimento adquirido após anos de estudos sistemáticos e pavimentados ao prazer das leituras escolhidas pelo próprio indivíduo, quando a passagem pelas salas de aula tiver se tornado uma doce lembrança dos bons tempos de aprendizado.


A leitura e a escrita devem virar fonte de aprendizagem e de prazer. Cada página deve ser devorada com a ânsia de saber o que virá a seguir. Casa palavra escrita deve trazer a essência de quem muito transpirou para transformar ideia, conhecimento e emoções em palavras que traduzam o que o autor sente ou sentiu. Claro que o papel da escola não é o de transformar todos em grandes escritores, mas nada impede que ela ofereça a todos os instrumentos necessários para o aluno pelo menos sonhar com isso.


No entanto, enquanto perdurar a concepção arcaica de que é possível castigar um aluno pondo a sua frente um livro para ser lido ou uma folha de papel em branco da qual sairá um texto, a educação com finalidade qualitativa e não apenas quantitativa estará sempre prejudicada e todos nós sairemos dessa árdua batalha pelo sucesso educacional como grandes perdedores.

domingo, 19 de abril de 2009

O DESEJADO




O desejado

José Neres


A meu amigo

e grande ator

Júlio César


A obsessão de um fazendeiro em encontrar um boi encantado e as consequências que podem advir de uma série de atos insanos servem de mote para a peça teatral O DESEJADO, que esteve em cartaz em nossa cidade neste fim de semana.

Com texto, muito bem adaptado, da obra do piauiense Francisco Pereira da Silva e uma direção segura e competente do conhecido ator César Boaes, a peça bafeja ares das grandes tragédias gregas e levanta questões que vão muito além de uma leitura superficial. O diretor e os atores foram felizes na simplicidade do cenário – uma boa amostra de que talento e criatividade podem suplantar possíveis dificuldades financeiras – e demonstraram segurança nas falas, com pouquíssimos momentos de vacilo, contudo, mesmo nesses raros momentos em que o texto pareceu engasgado na garganta ou na memória, todos souberam se portar com grande maestria.

Quem separou um espaço na agenda neste fim de semana para ir ao teatro certamente não se arrependeu e, sem dúvida, se divertiu e se emocionou bastante com a saga do patriarca que destroi bens e família em busca de uma quimera em forma de um temível boi bravo.

Para completar o espetáculo, a leveza da representação e as sutilezas cênicas foram trabalhadas de forma séria e lírica ao mesmo tempo, sem perder o foco do texto original e mesclando com equilíbrio os momentos trágicos e os cômicos.

Finalmente, como é bom ver pessoas de todas as idades no teatro em um finalzinho de domingo! Como é bom ver crianças, jovens, adultos e idosos lado a lado aplaudindo com as mãos e com o coração nossos talentosos atores e nosso inspirado diretor.

Aplauso a todos. Ao público pela escolha... e aos artistas, por oferecerem aos presentes um espetáculo de qualidade. Aplausos, aplausos, aplausos...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

MESTRE ANTÔNIO VIEIRA


VIEIRA: UMA VOZ, UM SILÊNCIO
José Neres



Fim de tarde. O Centro Histórico de São Luís começa a mudar de feição. Aos poucos, saem de cena os apressados homens de negócio e começam a desfilar pelas estreitas calçadas pessoas que aproveitam os últimos raios de sol para por a conversa em dia, sem preocupação com o correr dos ponteiros do relógio ou com as incertezas do amanhã. Nessa pequena multidão de amantes do por-de-sol do Centro Histórico há homens comuns, mulheres comuns, estudantes, poetas, desocupados e tantas outras pessoas. Mas um frequentador daquele ambiente de pura nostalgia poética chamava a atenção: um homem magro, negro, firme e singelo como sua própria história de vida carregava rumo à Banca do Dácio seu sorriso, seus “causos”, sua música e sua poesia. Seu nome era – e será para sempre – Antônio Vieira...

Mas não era apenas mais um Antônio ou mais um Vieira cercado de gente em uma praça que respira lembranças “dores e saudades”, era, sim, o Mestre Antônio Vieira, um homem que soube transformar palavras simples em versos carregados de poesia e de musicalidade. Talvez nem todos os transeuntes e freqüentadores habituais da Praia Grande tenham aproveitado a presença daquele homem que guardava em sua memória quase nove décadas de experiência, de alegrias e de atribulações, mas que geralmente guardava para si os momentos difíceis, para dividir com os amigos, companheiros ou meramente conhecidos a lucidez de seu sorriso tímido e generoso.

Como todo bom artista popular, Antônio Vieira tirava do cotidiano, de sua própria vivência de mundo e de situações aparentemente banais o motivo para suas composições. Como uma espécie de Midas pouco interessado em ouro, mas ávido de acordes e de musicalidade, o compositor maranhense transformava em versos, sons e ritmo aquilo que para pessoas comuns podia ser apenas mais um acontecimento. Desse modo, uma garota de cabelos crespos que manda alisá-los para depois pô-los no rolo se transformou no antológico “Na cabecinha da Dora”, uma receita caseira para melhorar o ânimo e ao mesmo tempo perfumar o corpo aparece na forma de “Banho Cheiroso” e os conselhos para um amigo que andava triste sem saber o que fazer da vida se metamorfosearam no conhecidíssimo “Tem quem queira”, a mais conhecida das músicas do saudoso Mestre.

Ao longo de aproximadamente setenta anos de vida artística, Vieira compôs mais de trezentas músicas, escreveu um livro de contos, cantou em parceria com diversos grandes nomes da MPB e da MPM, foi homenageado e reverenciado por inúmeras personalidades, mas, em sua simplicidade de homem do povo, não tentava esconder os percalços por que passou até ter seu nome projetado nos palcos do Brasil.

Pode-se ler, ouvir ou cantar a obra de Antônio Vieira por simples diversão ou para assimilar um pouco da espirituosidade de um homem que não teve vergonha de dizer que cometeu muitos erros, como pode ser visto em “A Pedra Rolou”, na qual, em tom confessional, ele declara: “eu também rolei no tempo / e ele muito me ensinou / o mundo rola no espaço / e também muito melhorou / e eu fui rolando com ele / e ele me desarestou”. Em outra música, como máximo de sua simplicidade vestida com a túnica da picardia, desejava transformar-se em uma cocada para adoçar a boca de “mulatas e loiras / morenas e negras”.

Hoje aquela cadeirinha da Banca do Dácio está vazia. O velho poeta já não conta seus infinitos “causos”. Quem pôde aproveitar alguns momentos da companhia do Mestre há de guardar na lembrança para sempre aquele sorriso meigo e aquela imagem de quem tanto demonstrou amor pela música e por sua terra natal. A pedra rolou, o tempo passou, Mestre Antônio Vieira Morreu, mas sua música ficou. Ficou nos Cds, na TV, em nossos ouvidos e até no silêncio da despedida.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

UM ARTIGO SOBRE MEU TRABALHO


É sempre bom tratar com pessoas inteligentes e estudiosas. Recentemente, a convite de minha estimada colega e amiga Honorina Carneiro, fui ministrar um curso de História Literária. Chegando ao local, deparei-me com algumas pessoas com quem havia perdido o contato e com outras com as quais o contato se iniciaria naquele exato momento. nesse último grupo estava a professora Iole Cutrim, que, como deve acontecer com todos os profissionais que se prezam, estava inscrita no curso para aprimorar seus conhecimentos.

Boa leitora e dona de um um bom cabedal de leitura, Iole colaborou ativamente com cada momento da disciplina e, ao final, quando foi pedido o último trabalho, resolveu escrever sobre minha modesta criação literária. repoduzo aqui, com todos os agradecimentos possível o texto de Iole Cutrim, um bom exemplo de sagacidade e acuidade leitora.


ACERTANDO AS CONTAS
Iole Cutrim Costa
(Professora da Rede Estadual de Ensino/Pós-Graduanda em Língua portuguesa e Literatura Brasileira pelo IESF)



Todas as vezes que temos necessidade de expor nossa opinião sobre qualquer assunto temos muitas dificuldades, mas quando vamos falar do que gostamos de verdade somos exagerados e nem um pouco modestos.Por isso falar de um escritor de que gosto na atualidade me faz ficar inundada de emoção, resolvi então desenvolver o meu trabalho em cinco tópicos:

Nunca tinha vivido uma experiência tão inusitada como esta de ser aluna de um escritor, por isso quando ele pediu que fizéssemos um trabalho para fechar a disciplina resolvi falar sobre ele, um Homem/Escritor ou um Escritor/Homem,é difícil separar um do outro, assim como é difícil fazer uma única análise de suas obras. Em 50 pequenas traições, por exemplo ele usa o humor para tratar das questões que envolvem os relacionamentos, por isso o leitor tem emoções diversas ao ler as abordagens feitas por ele,sem contar que a brevidade dos textos possibilita uma leitura agradável.


Então o que falar do estilo do meu agora escritor predileto: acho que ele é intenso quando escreve crônicas, poesias ou simplesmente retoma temas abordados ao longo dos anos na literatura, ou ainda dizer que dos Restos de Vidas Perdidas, dos Epigramas de Artur, com pitadas de 50 Pequenas traições, ou ainda relatos de um Montello: o Benjamim da Academia”,são textos e pretextos que traduzem a essência de um escritor Maranhense que deixa sua marca nos anais da literatura e prende a atenção daqueles que tem a sorte de ler seus escritos.


Realmente estou impressionada com acabei de ler, Os Epigramas de Artur e me veio à mente o seguinte pensamento: é uma obra Dinoneriana ou Neresdiniana,adorei os comentários dos Epigramas, preciso agora ler Estratégias para Matar um Leitor em Formação, com certeza em mim terá o efeito contrário.


Espero que em um futuro próximo a arte de escrever seja valorizada e que um escritor seja reconhecido em vida, afinal escrever não é nada fácil,ainda mais quando se desnuda os sentimentos ocultos e somos desmascarados,pois dentro de cada um de nós existem desejos que teimamos esconder-se. O livro Restos de Vidas Perdidas não poderia ter outro nome pois o autor ironicamente antes de cada crônica noticiada, escreve fragmentos de leis, salmos e dizeres que deveriam sair do papel e postos em prática. Os temas lidos no sumário nos dão a falsa idéia de que leremos algo singelo,entretanto, quando folheamos o Álbum de Recortes e desamarramos Os Laços de Família temos sede de Um Acerto de Contas, sem arrependimentos, sentimos o Inebriante Cheiro de Cola, que esconde o bom moço, Entre Paredes, da loucura, que deixa A marca de um beijos como a Vingança de uma Crônica de um futuro anunciado.

domingo, 5 de abril de 2009