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terça-feira, 12 de julho de 2011

PARA QUEM GOSTA DE SE APROPRIAR DE IDEIAS ALHEIAS...

A TRISTE PRÁTICA DO PLÁGIO
José Neres
(O Estado do Maranhão, 12 de julho de 2011)

Fonte da imagem: internet (sem plágio)
               Preguiça?  Deficiência intelectual? Busca de facilidades? Certeza de impunidade? Ingenuidade? Falta de orientação? Ou um atávico pendor para a prática de furtos generalizados em todos os graus? Não se sabe ao certo a gênese ou o DNA dos inúmeros plágios que infestam os trabalhos (?) acadêmicos em nossas universidades e faculdades.
               É preciso sempre lembrar que plágio escolar/acadêmico não é novidade. Ele vem desde o tempo em que os estudantes copiavam páginas e mais páginas de livros, revistas, enciclopédias e alegavam que o resultado daquela bricolagem era um trabalho digno de nota. Mas pelo menos podia-se dizer que, durante o ato de transcrever o texto, o aluno acabava assimilando parte do conteúdo e, dessa forma, havia algum tipo de aprendizagem.
Hoje, no entanto, com as inúmeras facilidades oferecidas pelo mundo virtual, os atos de localizar, selecionar, copiar e colar tornaram-se tarefas praticamente automáticas, que, em muitos casos, dispensam a leitura integral do texto. Em alguns cliques, uma pesquisa que levaria dias, semanas ou até mesmo meses, se solidifica em forma de texto. Há casos em que o plagiador faz uma montagem tão esmerada que é capaz de enganar até mesmo os mais atentos leitores. A maioria, porém, tudo que consegue fazer é  um Frankstein, no qual as partes não se encaixam. De qualquer modo, bem ou mal feito, esse tipo de texto não passa de plágio, de apropriação indébita de ideias, palavras e de trabalhos alheios.
As notícias de que alguns desses infratores foram pegos e, às vezes, desmoralizados acabam por alertar os plagiadores mais atentos, que, temerosos de que seus “trabalhos” sejam rastreados por ferramentas e programas específicos, tentam ludibriar os examinadores com substituição de palavras por sinônimos ou com inversão dos termos de algumas orações. Dessa forma, se o professor não ler com atenção o texto e se confiar tão somente nos recursos eletrônicos para a detecção de plágios, acabará chancelando com notas, às vezes, altíssimas a incompetência e a preguiça do “estudante”.
                O professor, quase sempre um semianalfabeto nas lides com os instrumentos tecnológicos, e, às vezes, também um emérito plagiador, é até capaz de ficar feliz com as notas obtidas por determinados alunos. Inocentemente, ele pode até pensar que a educação está melhorando, que aqueles estudantes estão assimilando melhor os conteúdos ensinados. Em outros casos, o mestre até percebe a enganação, mas, ou por não ter provas ou para não se indispor com os plagiadores, acaba compactuando com a situação.
                Contraditoriamente, nos casos em que o plágio é detectado e o(s) culpado(s) são chamados para uma conversa (quase sempre reservada), o que se vê não é uma atitude de vergonha por haver cometido um crime, nem o constrangimento de ter(em) sido pego(s) em uma situação delituosa, legal e moralmente condenável. O que se vê quase sempre são atos de revolta contra quem descobriu a fraude. A inversão de valores dos plagiadores chega ao extremo de deixar a impressão de que o crime não é apropriar-se do trabalho alheio, mas sim descobrir que isso foi feito. Diante das provas, o ódio geralmente é mais forte que a vergonha.
                Para piorar a situação, ainda há os casos de quem vende trabalhos prontos, quase sempre uma montagem grosseira de diversos textos. Quando na redação são detectadas as fontes, quase sempre o comprador, que se julgava esperto por adquirir um trabalho especialmente feito para aquela situação, descobre foi vítima de outros elementos ainda mais espertos, que jamais perderiam seu tempo fazendo pesquisas sérias para quem não sabe o que significa seriedade.
                Realmente não é possível saber de onde vem a motivação para plagiar. Mas não é tão difícil prever seus resultados: profissionais desqualificados que, possivelmente, diante de uma situação desafiadora, não terão capacidade de resolver nem mesmo os problemas mais simples. Trabalhos podem até ser comprados ou copiados, mas a competência é uma exclusividade de quem estuda. 

domingo, 25 de julho de 2010

MUNDO MODERNO

fonte da imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUnugzcLzwEm9VybH46yfgvjbNqVbiLrKQV17Wr2T6GXio2ybT8tOCTNSWtZqAbkmG4luNmsDxiEKrUZ54QWPQMeA2bH2P1xtbExQSoQENw4xC-OBqGF0b5iiSaPLnm9URFae17WaKuEQ/s1600/ideias.bmp


UMA TELA, UM TECLADO E A SOLIDÃO

José Neres


            O educador português Roberto Carneiro defende a ideia de que vivemos hoje o momento da morte do tempo e da distância. O sociólogo espanhol Manuel Castells lembra em seus trabalhos que estamos em uma sociedade em rede, com a internet tornando-se a cada dia mais importante na vida de todos. O pensador polonês Zygmunt Bauman alerta sobre a liquidez das relações na sociedade contemporânea. O que parece apenas um amontoado de teorias, sai do âmbito acadêmico e invade a cada dia nossa realidade e se torna evidente em todos os lares.
            Uma tevê enorme ocupa o lugar de destaque em nossa sala. As pessoas, mudas entre si, convergem o olhar rumo à tela iluminada. O silêncio de palavras parece não incomodar tanto as pessoas que, quando ligam o aparelho televisivo, parecem desligar automaticamente o senso crítico e convertem um entretenimento, que deveria ser momentâneo, em razão principal da vida.
            Em seu quarto, isolado da família e do mundo, um adolescente se diverte com as inúmeras possibilidades do videogame. A cada temporada, uma nova versão do jogo faz acender o desejo de atualizar um acervo que nunca satisfaz ao seu proprietário. Perdido no meio de milhões de cores e de imagens altamente elaboradas, o jovem não vê a vida passar, não percebe que não é apenas lá fora que o tempo está passando.
            Em outro cômodo da casa, um garoto, uma garota, um adulto ou mesmo uma pessoa que beira ou já frequenta chamada terceira idade, mantém uma animada conversa online com seus amigos virtuais. Às vezes, na solidão de um quarto, a pessoa conversa com alguém que esteve a seu lado o dia inteiro, mas não recebeu nem mesmo um simples bom dia. As amizades virtuais ganham a cada dia uma importância maior que o sorriso franco, um abraço fraterno ou um aperto de mão. A intermediação de um computador conectado à grande rede tem o poder de transformar pessoas frágeis em verdadeiras máquinas de conquista, de diálogos cifrados, nem sempre inteligíveis.
            Com a popularização dos computadores portáteis (netebooks e notebooks), os trabalhos inacabados, que antes ficavam no escritório, agora são levados a tiracolo para casa e chegam mesmo a dividir espaço com pratos, copos e talheres na mesa de jantar da família. As conversas do dia são substituídas pela mudez de quem se divide entre os alimentos e as tarefas que devem ser concluídas antes de outro turno de trabalho começar oficialmente. Tudo isso sem se dar conta de que hoje as jornadas laborais não têm mais começo nem fim, apenas um todo contínuo que se mistura com a própria noção do viver.
Imagem retirada da internet 

            No império do LCD, até as imagens fotográficas, que antes serviam para recordar os bons momentos da vida, agora têm como função principal alimentar as páginas de relacionamento. Mas não se trata apenas de uma substituição de suporte – do papel para o computador – e sim de uma narcisística mudança de atitude, em que a vida tem de ser exposta não apenas com o fim de mostrar por onde o dono do perfil passou, ou o que fez, mas sim para despertar o desejo ou a inveja em outros que não tiveram as mesmas oportunidades, que, por sua vez, respondem postando fotos que mostram que também estiveram onde o outro não pôde estar, e assim uma silenciosa batalha de imagens de desenrola no universo virtual.
            Nas páginas de relacionamento, o número de amigos virtuais torna-se um termômetro de uma popularidade que às vezes não tem correspondência no mundo real. Os mil e tantos “amigos” conquistados por uma simples mensagem pedindo para ser adicionado nem sempre estão disponíveis para ouvir (ou ler) as queixas e as dores de alguém trancando em um quarto e que nem sempre tem coragem de abrir a porta e conversar de verdade sobre seus anseios com as pessoas próximas.
            No mundo contemporâneo, no qual a instantaneidade se tornou o foco das relações, o homem conseguiu diminuir os espaços, modificou a noção de tempo e se conectou ao mundo por meio de aparelhos portáteis (de preferência sem fios), mas também entrou no paradoxo de sentir-se sozinho no meio de uma multidão de outros solitários sentados diante de uma tela.
E-mail: joseneres@globo.com


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Artigo


TRAGÉDIA NOSSA DE CADA DIA


José Neres



Eu não queria matar aquele homem. Juro que não queria! Tudo aconteceu de maneira tão rápida que só depois de um tempo foi que percebi o que havia acontecido. Mas uma coisa é certa: eu não queria matar ninguém. Sou uma vítima também.
Era um feriado. Desses que todo mundo aproveita para enforcar mais um dia de serviço, anulando os dias úteis para aproveitar e descansar ou cair na bebedeira. E foi essa tal de bebedeira que me levou a cometer um crime que jamais aconteceria, se o maldito álcool não tivesse sido consumido de maneira tão irresponsável.
Meu companheiro jamais saía sem mim. Silenciosa e discreta, eu sempre o acompanhava em todos os eventos. Desde uma simples festinha até um jogo de futebol, lá estava eu fielmente a seu lado, grudada em seu corpo a protegê-los dos muitos inimigos que ele acumulava com seu jeito truculento de ser. Comigo, ele sempre se sentia protegido, mais forte, mas homem. Invulnerável.
Eram raras as vezes em que ele me deixava no carro, descansando, sem ter nada o que fazer. Mas ele bebia muito e arrumava  muita confusão. Chegava mesmo a ser violento, super violento. Lembro-me de que por diversas vezes o tirei de brigas, servindo de escudo para que ele saísse ileso. Era até engraçado o medo que nós impúnhamos nas pessoas. Voltávamos para o carro e eu ficava a seu lado, quietinha, só ouvindo suas gargalhadas. Em casa, ele me levava para a cama, beijava-me várias vezes e dormia a meu lado, roncando alto, bem alto.
Dizem que antes de me conhecer ele era tranqüilo, incapaz mesmo de levantar a voz para alguém. Um verdadeiro lerdo. Muitas vezes era humilhado pelos valentões da rua ou da escola. Seus poucos amigos me culpavam pela brusca transformação. A família dele me detestava e fazia de tudo para nos separar. Mas não tinha jeito. Ele não sabia mais viver sem mim. Virei uma espécie de anjo da guarda para ele. Não nos separávamos nunca. Comigo por perto, ele deixava de ser um fracote e virava um homem respeitado, temido.
Naquele feriado fomos a uma festa. Como sempre eu estava ao lado dele. Dançamos bastante. Algumas vezes quase caí. Mas ele era cuidadoso comigo e me deixava sempre próxima a seu corpo. Se alguém tocava inadvertidamente em mim, ele me protegia, assim como eu o protegia na hora das confusões. Pequena e discreta, não incomodo ninguém, não sou de barulho e quase sempre passo despercebida nos lugares que frequentamos. Nasci para servir.
Pois bem, depois de beber e de dançar muito, ele foi aconselhado por conhecidos a voltar para casa e dormir. No começo, protestou, mas estava um tanto quanto cansado e decidiu seguir os conselhos. Morto de bêbado, pegou o carro e saiu cantando os pneus. O som alto e os constantes ziguezagues chamavam a atenção dos transeuntes. Eu estava quietinha ao lado dele. De repente, um forte barulho inundou a noite. Ele bateu na traseira de um carro. Depois de um palavrão, ele abriu a porta e foi tomar satisfação com o outro motorista. Um bate-boca terminou em agressão. Embora menor, o outro condutor estava sóbrio e era mais forte. Com o rosto sangrando e os lábios trêmulos, ele voltou para o carro e me puxou de modo agressivo.
Foi tudo muito rápido. Eu não queria fazer aquilo. Foi horrível. Disparei três vezes. O rapaz, a quem nunca havia visto antes, soltou um grito e caiu morto. Uma multidão furiosa se aproximava. Não entendi nada. Fui jogada no chão e só ouvi o barulho do motor que arrancava. Meu amigo parece ter esquecido a bebedeira e fugiu em disparada.
Eu não queria matar aquele homem. Juro que não queria! Uma coisa é certa: eu não queria matar ninguém. Sou apenas uma pistola que caiu nas mãos de um bêbado louco. Peço perdão à família daquele pobre que perdeu a vida de modo tão estúpido. Perdão!

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quinta-feira, 25 de março de 2010

JOMAR MORAES

O Maranhão e sua literatura devem muito a Jomar Moraes, o incansável pesquisador que dedicou parte de sua vida a resgatar algumas obras e alguns autores essenciais de nossa literatura. Em maio, o mestre completa 70 anos e aqui, antecipadamente, vai nossa homenagem.

terça-feira, 9 de março de 2010

ARTIGO

Temos aqui este artigo que saiu publicado na revista CPLP deste mês. Boa leitura!
Clique na imagempara aumentá-la.

segunda-feira, 8 de março de 2010

PARABÉNS ÀS MULHERES

Aqui vai minha homenagens às mulheres, nesse dia tão especial.
Clique na imagem para vê-la ampliada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

NOSSA BIBLIOTECA


Final de tarde... A Deodoro fervilha de gente. Cada pessoa anda muito mais dentro de si mesmo de seus problemas de que pelas esburacadas ruas do Pantheon. Em seus malabarismos diários entre a falta de calçamento digno e as poças de lama, mal dá tempo para erguer os olhos e procurar sinais de chuva no céu cinzento da Cidade. Parece que ninguém tem tempo para fixar os olhos no majestoso, mas combalido prédio que, para alguns, é um Centro do Saber; mas que, para uma multidão, não passa de um fétido mictório público a céu aberto.

Paro no meio da praça. Os poetas não mais estão ali para vigiar meus passos. Para compensar, hippies, camelôs de DVDs pirateados e um sem-número de pedintes enfeitam o cenário que outrora exalava sabedoria. Meus olhos se fixam nas paredes com pintura esmaecida pelo tempo e pelo descaso de todos. Mentalmente, entro na Biblioteca e folheio, um a um, os milhares de livros que tanto já contribuíram para o saber de meu povo. Eles que agora estão mudos, mas gritam silenciosamente de desespero, clamando que as portas sejam abertas, para que possam novamente sorrir com o brilho dos olhos das crianças. Algumas ali um dia descobrirão um mundo que vai além da tela do computador ou da televisão.

Viajo no tempo e me vejo caminhando entre as estantes e sentindo a textura da capa dos livros, sentindo o cheiro do conhecimento que emana dos volumes, dos jornais, das revistas... Um urubu sobrevoa o prédio, com se previsse sua morte iminente. Desperto para a realidade. O céu rapidamente escurece e as primeiras gotas de chuva, que parecem lágrimas escorrendo pelas gretadas paredes sem retoque. Sinto que a Casa chora de dor. Todos correm da chuva. Mas ela permanece ali. Firme no desejo de continuar vivendo. Firme no desejo de um dia ver-se livre dos horríveis compensados que a impedem de ser feliz.

Alguém esbarra em mim. Tenho que sair da chuva. A noite está chegando. Tenho certeza de que a noite cultural se prolongará por muito tempo. Sinto-me frágil, transparente, na impotência do nada poder fazer.

A tempestade cai, lavando as escadarias, que pelo menos até amanhã, estarão livres dos odores humanos...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

HORA DE ESCREVER


A FÓRMULA DA ESCRITA
José Neres
(O Estado do Maranhão, 02/12/2009)


É inimaginável que uma pessoa bem magra, ou beirando a obesidade mórbida, chegue para um instrutor de academia e exija que, antes de duas semanas, seu corpo esteja musculoso, modelado e pronto para uma exposição sem ou truques e recurso do photoshop. Da mesma forma, soa estranho um sujeito declaradamente sedentário contratar um campeão de corrida e pensar que em poucas semanas estará apto para sair de uma maratona com o prêmio de primeiro lugar. É também impossível alguém que nunca tenha entrado em uma piscina ou no mar tentar, com alguns escassos e irregulares momentos de treino, considerar-se apto a competir em uma piscina olímpica com adversários de alto nível e sair vitorioso... Então, por que será que algumas pessoas pensam que podem aprender a escrever de maneira proficiente em pouquíssimos dias e sem dedicar-se exaustivamente à prática da escrita?

Principalmente nos períodos que antecedem os concursos e vestibulares, milhares de candidatos a uma vaga nas universidades ou em cargos públicos que exigem domínio da produção textual invadem os cursos preparatórios e exigem que os professores de redação façam o milagre de transformar pessoas textualmente inativas em verdadeiros campeões da escrita.

Tais pessoas possivelmente acreditam que produzir bons textos não depende de esforço, de abnegação, de inúmeras horas de treino e de uma luta constante com as palavras. Quase sempre, quem acredita no milagre da escrita sem esforço detesta ser contrariado e não admite seus erros. Por essa razão, quem cultiva esse tipo de pensamento não aprende que cada folha amassada não é testemunha de uma derrota, mas sim a oportunidade de rever a tessitura da própria escrita e de aprender com as próprias falhas.

Não se apegar aos próprios textos como algo sagrado é uma das formas de refletir sobre a própria estrutura textual. Jogar no cesto de lixo ou na lixeira eletrônica algo que consumiu horas, dias, semanas ou meses, não deve ser visto como um ato de covardia, mas sim como um gesto de coragem diante da certeza de que tudo o que está escrito pode ser melhorado.

Geralmente os apressadinhos da escrita pedem conselho sobre o que devem fazer para melhorar seus textos. Mas não aceitam nenhuma das ideias que demandem disponibilidade temporal. Querem tudo para ontem e não estão interessadas em sugestões que incluam leitura atenta dos bons autores, consulta constante a dicionários, pesquisas sobre o assunto a ser tratado e, principalmente, uma grande dose de paciência. Decepcionadas com os conselhos recebidos, que fogem muito de suas expectativas, os esperançosos de um milagre passam a pedir dicas e macetes que sirvam para a “escrever qualquer texto”.

O interessante é que essas pessoas se zangam quando alguém diz que não existe uma fórmula mágica para transformar inércia, preguiça e a mera vontade de escrever em textos de boa qualidade. Mas quem a inventar será adorado por uma multidão eternamente agradecida.

domingo, 28 de junho de 2009

LEITURA E CINEMA










LER O LIVRO OU ASSISTIR AO FILME?

José Neres

A cena é mais ou menos a seguinte: o professor chega à sala de aula e recomenda (ou exige) a leitura de determinada obra literária. Os alunos, assombrados como se estivessem vendo um fantasma, começam a tentar dissuadir o mestre daquela tarefa insana. Uns alegam falta de tempo para ler. Outros, mesmo ainda desconhecendo o conteúdo do livro, dizem que a obra é muito chata. Todos trazem à tona a interminável crise econômica: “Livro é muito caro...” O professor, impassível e já acostumado com tais atitudes, mantém-se firme e determinado. Para acabar com a polêmica, o professor usa da frase mágica: “O livro vai cair na prova”.

Nada mais a fazer. O jeito é ler o maldito livro. Alguém sussurra lá no fundo da sala a frase salvadora: “Vou ver se já tem esse livro em DVD”. Alívio geral. Após o término das aulas, um bando invade a locadora mais próxima e, com o título do livro escrito na palma da mão ou em um papelzinho amassado, passa em revista prateleira por prateleira. Alguns alunos, menos dispostos a perder tempo, preferem logo abordar o atendente e fazer-lhe a pergunta: “tem o filme TAL”. Caso a resposta seja positiva, a sensação de alivio é imediata e os sorrisos brotam, desenhando em cada rosto um inegável ar de contentamento. Contudo, quando é um não que vem como resposta, é o ar de desespero que se apodera dos pobres infelizes.

Mas imaginemos apenas o caso em que a obra literária já tenha sido vertida para o cinema... De posse do DVD, o aluno (ou o grupo) sente-se vitorioso e muitíssimo inteligente. Está garantida a economia de tempo e de dinheiro. Para que gastar horas e horas diante de algumas páginas de um livro, tendo que forçar os neurônios e ainda recorrer aos dicionários, se em alguns minutos diante da televisão é possível ficar conhecendo toda a história contada pelo autor? Para que gastar dezenas de reais na compra de um livro que será lido, quando muito, apenas uma vez, se, com alguns poucos reais, é possível locar o filme? O problema está resolvido. Resta comprar a pipoca, os refrigerantes, reunir os amigos e, em uma sessão bastante divertida, conhecer o conteúdo de um livro e, depois, ganhar a liberdade para fazer o que quiser com a ilusão do dever cumprido.

É exatamente nessa sensação “do dever cumprido” que está um dos grandes equívocos e um dos grandes perigos dessa aparente facilidade de entrar em contato com textos literários sem recorrer à leitura dos livros. É preciso lembrar sempre que cinema e literatura não são termos sinônimos e, por melhor que seja um filme baseado em um texto literário, ele jamais conseguirá captar toda a inefável essência do texto escrito.

Como o trabalho literário trata geralmente a palavra de modo multifacético e impregna cada linha de um caráter plurissignificativo, deixa margens para diversas leituras e para múltiplas interpretações. Quando alguém leva para casa um filme baseado em um livro, estará entrando em contato não com o enredo original, mas sim com uma adaptação feita por alguém que leu o livro e que fez a chamada tradução intersemiótica, deixando, de forma consciente ou não, suas impressões e sua forma de ler o texto na versão levada para as telas.

Em prol de um dinamismo próprio do cinema, o diretor/roteirista procura o melhor meio de (re)contar a história e, para isso, em muitos casos, tem que alterar a obra original de forma bastante significativa. Claro que há filmes que tentam (e , às vezes, conseguem pelo menos em parte) manter certa fidelidade com relação à obra que lhe deu origem, mas mesmo assim, por se tratarem de duas linguagem distintas e que empregam métodos e dinâmicas diferentes, o trabalho audiovisual ainda não é capaz de substituir a contento a leitura do texto impresso.

Desse modo, os estudantes que acreditam que assistir a um filme baseado em um livro substitui a leitura da obra escrita estão equivocados. Mas não são poucos os alunos que, infelizmente, preferem viver apenas no irreal mundo dos enganos que parecem verdade.

domingo, 14 de junho de 2009

CINEMA MARANHENSE


ENTRE O RISO E O PRANTO

José Neres

A produção cinematográfica maranhense em média e longa metragem é, além de pequena, pouco divulgada. Por isso não deixa de chamar a atenção quando um jovem e talentoso cineasta como Cícero Filho consegue ter seus trabalhos divulgados além dos restritos círculos dos amantes da sétima arte e atinge outras camadas sociais com obras que não estejam ligadas à poderosa e praticamente imbatível indústria do entretenimento de massa.

Em um artigo publicado em O Estado do Maranhão, Joaquim Haickel, um de nossos premiados intelectuais voltados para as artes cinematográficas, rende-se, mas sem deixar de lado o rigor crítico, ao hoje bastante conhecido, visto e até pirateado “Ai, que vida!”, uma interessante comédia ambientada no eixo Piauí-Maranhão. O filme proporciona boas gargalhadas a quem se deixa levar pelas ironias do roteirista-diretor, pelas hilariantes caretas do prefeito e pela interpretação leve e até mesmo ingênua dos atores, que, mesmo dentro de um evidente amadorismo, esforçaram-se por fazer um trabalho que primasse pela qualidade possível dentro dos limitados recursos humanos e financeiros que ficam evidenciados na produção.

Mas a intenção de “Ai, que Vida!” vai além do riso fácil. Quem prestar atenção aos diálogos perceberá o tom crítico que permeia grande parte do filme. Na tela há um verdadeiro desfile de tipos humanos que não são apenas elementos de ficção, mas sim figuras encontráveis em qualquer noticiário ou mesmo em um rápido passar de olhos nas periferias de nossas cidades.

O sucesso da comédia alavancou a busca por outras produções do mesmo autor. Não é difícil, agora, no comércio informal, encontrar cópias de “Entre o Amor a Razão”, uma história capaz de levar as pessoas mais sensíveis às lágrimas e/ou a um profundo sentimento de revolta por causa das injustiças sociais descritas em aproximadamente uma hora e meia de projeção.

A miséria é a personagem invisível que permeia todo o filme. Ao lado de breves sopros de esperança, temos um vendaval de situações adversas a açoitar uma família unida pelo amor, mas irremediavelmente atolada em um charco de lama que sufoca quem tenta dele escapar. As sucessões de cenas trágicas deixam o espectador atormentado e sem esperança de um final feliz que lembre a velha história do “e foram felizes para sempre”.

Mesmo com o evidente intuito de levar as pessoas à catarse, Cícero Filho não deixa de lado seu tom irônico e os diálogos que destilam críticas sociais. Fica evidente no decorrer do filme que o que arrasta Cláudia, Elizeu e suas crianças para os pontos mais degradantes da existência humana não é apenas a óbvia constatação da pobreza econômica de uma região, mas também a falta de vontade política em resolver ou pelo menos amenizar os problemas de um povo sofrido. Possivelmente, uma das razões do sucesso de Cícero Filho é sua capacidade de dar, em suas produções, um pouco de voz a um povo que tanto sofre na mudez de uma dor que sufoca até mesmo os menores soluços de angústia.

Filmes como “Ai, que Vida!” e “Entre o Amor a Razão” servem para que as pessoas possam ver uma realidade que nos é tão familiar, mas para a qual não titubeamos em fechar os olhos ou virar o rosto. Pelo menos, no cinema ou na tela da TV, entre uma gargalhada e uma lágrima escorrendo pela face, não fechamos os olhos para essas tristes verdades.

domingo, 10 de maio de 2009

NOSSA LÍNGUA...

PALAVRAS MUTANTES

José Neres

Em uma época quem que mutantes invadem as telas das tevês e dos cinemas e inundam o imaginário de jovens e adultos com a ilusão de poderes além dos limites humanos, a maioria das pessoas, no afã de acompanhar as milionárias produções cinematográficas, esquece-se de que todos nós passamos por pequenas mutações no corpo, no vestuário, nos tratamentos cotidianos e, principalmente, na linguagem.

Uma língua é um elemento vivo que também evolui e que se transforma a cada minuto. Palavras e expressões que marcam uma geração podem facilmente ser esquecidas na década seguinte. Algumas pessoas se espantam com a velocidade com que o idioma assimila alguns vocábulos e com sua tendência a descartar elementos linguísticos que, à primeira vista, pareciam eternos e imunes às mudanças.

Mesmo que cause estranheza, essa evolução da língua é parte da eterna necessidade de renovação a que todos estão irremediavelmente atados. Não se trata, portanto, de dizer que uma língua está sendo destruída por seus falantes atuais ou que as “pessoas de antigamente” tinham mais cuidado com o vernáculo, ou, pior ainda, de preconizar que “os jovens estão matando o idioma” cada vez que falam. O que há, na verdade, é uma adequação da linguagem a uma época é às situações impostas pelo próprio cotidiano.

No entanto, mesmo as pessoas que tentam não recender um ranço de passadismo se veem vez ou outra espantadas com a mutação de algumas palavras que circulam com desenvoltura no vocabulário atual. Em alguns casos, o significado da palavra mutante em nada lembra a essência do estágio anterior da língua. Dessa forma, as mutantes citadas a seguir podem causar estranheza a quem não observe com cuidado as falas que ecoam nas ruas, nos shoppings e até nas escolas, mas já são bastante familiares aos ouvidos de todos nós.

O conhecidíssimo ato de NAMORAR de forma descompromissada teve diversas modificações e hoje pode ser encontrado na forma de FICAR, de PEGAR, de PASSAR O SAL e até mesmo de um estranhíssimo ESPOCAR, que suscitam frases interessantes como: “Estou espocando uma mina de tua rua” ou “Já passei o sal em tua prima”. Tudo muito romântico!

O sempre educado DESCULPE-ME está praticamente fora de uso e em seu lugar surge o enigmático FOI MAL, quase sempre dito de modo vago e com uma entonação arrastada que se prolonga no vazio do tempo.

Outra palavra que vem perdendo terreno no dia-a-dia é OBRIGADO, que, depois de décadas e mais décadas brigando para ter sua forma feminina usada de acordo com a norma culta, agora se vê definitivamente sufocada pelo sisudo VALEU.

Estruturas solidificadas como TCHAU, ATÉ LOGO, ESTOU INDO e VOU-ME EMBORA praticamente fundiram-se em uma forma extremamente contraditória e direta. Um simples, rápido e sintético FUI resolve todos os problemas sem precisar de explicações ou das convencionais despedidas.

Atualmente, poucos são os que convidam os amigos para um ANIVERSÁRIO, pois é mais prático convidá-los para o NÍVER, de preferência com poucas pessoas, para evitar gastos desnecessários e com uma vela em forma de interrogação, para preservar a discrição sobre a idade do dono da festa.

Alguns pequenos cacoetes da fala não se contentaram com as visíveis mutações, mas também se acasalaram e trouxeram à luz o famigerado TIPO ASSIM, que nada acrescenta à praticidade discursiva, mas que serve para enfeitar o vazio conteudístico de tanta gente que adora falar, mas que pouco tem a dizer.

A relação poderia se estender por páginas e mais páginas, pois em uma era de comunicação instantânea em que primos viram plimos (ou pliminhos) na internet, mutações como V6 (vocês), 4ever (do inglês forever/para sempre), ctz (com certeza) e qq (qualquer) começam a fazer parte do cotidiano dos falantes da língua e tendem a evoluir para outras formas ainda mais cifradas. Resta então a cada pessoa aprender a conviver com esses mutantes de maneira harmônica ou então viver em um quase isolamento lingüístico.

Um detalhe: não adiante abrir guerra contra os mutantes. Eles geralmente são bastante fortes e têm o poder de fazer parecer que tudo está como sempre esteve. Aparentemente, nada muda dentro da mudança eterna.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

LEITURA LEITURA E LEITURA


LEITURA COM CASTIGO

José Neres



É, infelizmente, uma constante em algumas escolas, quando um aluno, ou mesmo uma turma inteira, não se comporta de acordo com os ditames da instituição, que professores, coordenadores e até mesmo membros do corpo diretivo imponham uma penalidade a quem não esteja encaixado nas normas pré-estabelecidas.


As sanções são as mais variadas e vão desde advertências verbais até a expulsão sumária, passando por outras medidas corriqueiras, como exclusão do aluno da sala de aula, suspensão por determinado período ou até, por mais absurdo que pareça, castigos físicos. Contudo uma das punições mais corriqueiras e aparentemente sem grandes proporções é a que mais chama a atenção, por sua discutível aplicabilidade como método educativo: obrigar o educando a ler um livro ou a escrever uma redação como forma de castigo.


Ora, um dos papéis dos educadores, em todos os níveis de ensino e fomentar nos alunos a ideia de que ler é uma espécie de passaporte para a independência intelectual. Quando alguém é alfabetizado e consegue sair do simples decifrar de palavras para alcançar a dimensão do entendimento global dos textos e da realidade circundante, adquire uma poderosa ferramenta capaz de fazer da pessoa um cidadão mais cônscio de seus direitos e deveres. A produção escrita, por sua vez se transforma em um excelente mecanismo de divulgação das próprias ideias, seja para um grupo restrito, como na produção de cartas e pequenos documentos, seja para um público mais amplo, como ocorre nos escritos de cunho científico ou artístico ou ainda na divulgação de textos via internet.


Mas, impondo a leitura e a escrita com forma de castigo, qual a mensagem subliminar que a instituição escolar passa para seus educando? Agindo dessa forma, qual o incentivo que a escola deixa para o estudante que passa a ver nas palavras escritas um grande inimigo e não um aliado que irá acompanhá-lo ao longo de toda uma vida? Quantos alunos se sentirão inteiramente à vontade com um livro nas mãos enquanto as imagens de castigos antigos e recentes ainda fazem parte de suas mais traumáticas lembranças?


A escola, bem como a família e a sociedade em geral, têm a obrigação de fazer o possível e até o impossível para transformar meros frequentadores de aulas em leitores proficientes e capazes. Não pode ser negado ao educando o direito de caminhar com as próprias pernas e de seguir pelas tortuosas estradas da vida guiado pelo mapa das palavras escritas, com caminhos iluminados pelo farol do conhecimento adquirido após anos de estudos sistemáticos e pavimentados ao prazer das leituras escolhidas pelo próprio indivíduo, quando a passagem pelas salas de aula tiver se tornado uma doce lembrança dos bons tempos de aprendizado.


A leitura e a escrita devem virar fonte de aprendizagem e de prazer. Cada página deve ser devorada com a ânsia de saber o que virá a seguir. Casa palavra escrita deve trazer a essência de quem muito transpirou para transformar ideia, conhecimento e emoções em palavras que traduzam o que o autor sente ou sentiu. Claro que o papel da escola não é o de transformar todos em grandes escritores, mas nada impede que ela ofereça a todos os instrumentos necessários para o aluno pelo menos sonhar com isso.


No entanto, enquanto perdurar a concepção arcaica de que é possível castigar um aluno pondo a sua frente um livro para ser lido ou uma folha de papel em branco da qual sairá um texto, a educação com finalidade qualitativa e não apenas quantitativa estará sempre prejudicada e todos nós sairemos dessa árdua batalha pelo sucesso educacional como grandes perdedores.