sábado, 9 de maio de 2015
quinta-feira, 7 de maio de 2015
UM GRANDE ARTISTA MARANHENSE
NHOZINHO: O MÁXIMO NO MÍNIMO
José
Neres
Geralmente ficamos tão maravilhados
com a aparente grandeza das coisas que não percebemos que há beleza também em
detalhes às vezes imperceptíveis para os olhos de quem se acostumou a fixar-se
apenas no que parece deslumbrante. Da mesma forma, servimos como caixa de
ressonância a nomes nacional ou mundialmente conhecidos e silenciamos (ou nem
mesmo conhecemos) os valores artísticos e culturais de nossa própria terra.
Talvez por conta desse incômodo
silêncio a respeito dos talentos locais, o nome de Antônio Bruno Pinto
Nogueira, mais conhecido como Nhozinho, seja pouco lembrado, embora figure
entre os mais originais e importantes escultores da arte brasileira do século
XX.
Nascido em Cururupu, em 17 de maio
de 1904, Nhozinho desde a infância demonstrou inclinação para as artes que
exigiam atenção, perícia, precisão e habilidade. Mal começava a entrar na adolescência, porém,
começou a lutar contra uma doença degenerativa que deixaria seus membros
superiores e inferiores deformados e que, posteriormente, após a amputação de
ambas as pernas, iria condená-lo a locomover-se em um carrinho de madeira por
ele mesmo projetado e construído, mas que atendia às suas necessidades. Para
completar seu rol de provações, o artista ainda perdeu a visão do olho direito.
Mas essas tantas dificuldades não
impediram Antônio Bruno de produzir uma obra ímpar na história do artesanato
brasileiro. Na verdade, parece que as extremas dificuldades serviram de ânimo
para que o artista maranhense se superasse e evoluísse em seus trabalhos,
deixando de ser apenas mais um artesão habilidoso e impregnando suas obras de
motivos e temas da vida social e folclórica maranhense; saindo também do
estaticismo das peças para imprimir ideia de movimento a suas criações.
Dono de um estilo em que o
minimalismo na escolha do tamanho das peças contrastava com a profusão de
detalhes, Nhozinho se notabilizou também por registrar os tipos regionais, em
uma busca de reproduzir elementos representativos de seu povo e de sua época.
Observando-se atentamente as obras desse artista, muitas vezes com a
necessidade de uma lente de aumento, é possível perceber a riqueza de detalhes
e o desejo dele em eternizar em suas peças detalhes que passavam despercebidos.
De alguma forma, guardadas as proporções e respeitados os estilos, pode-se
dizer que Nhozinho registrou e esculpiu em buriti e outros suportes o dia a dia
da gente de sua época, tal qual o poeta latino Catullo imortalizou em palavras
o próprio cotidiano e as inquietações dos seus contemporâneos romanos. Em Roma,
Catullo decidiu esculpir sua época com palavras em suas famosas nugae. Séculos
depois, no Maranhão, Nhozinho optou por narrar em mínimas esculturas as
grandezas esquecidas de seu povo.
O artista faleceu em São Luís poucos
dias depois de completar seu septuagésimo aniversário, no dia 23 de maio de
1974. Como a maioria dos artistas populares, Nhozinho também teve seu trabalho
relegado ao olvido, mas aos poucos vem sido resgatado graças aos esforços de
pesquisadores como Zelinda Lima, que muito lutou pelo reconhecimento desse
artista, e de Roldão Lima, autor do livro “Vida e Arte de Nhozinho”, publicado
cinco anos após o passamento do escultor.
Mais recentemente o trabalho desse
fantástico artista tem despertado o interesse de intelectuais como, por
exemplo, Paulo Herkenhoff, Lélia Coelho Frota e Luciana Carvalho, todos
reconhecidos nacionalmente como alguns dos mais representativos estudiosos das
artes brasileiras.
Atualmente, boa parte da produção do
mestre maranhense pode ser visitada na casa-museu que leva seu nome (Rua
Portugal, 185, Centro Histórico). Sua
vida e sua obra também já renderam alguns artigos, exposições e livros, como
“Nhozinho: Imensas Miudezas”, que reúne trabalho de diversos pesquisadores. Mas
ainda há muito a ser descoberto e (re)avaliado na obra desse artista que
transformou deficiência em eficiência soube colocar o máximo de seu talento no
mínimo espaço necessário à realização de seus sonhos artísticos.
sábado, 2 de maio de 2015
UMA MONOGRAFIA ESPECIAL
Lembranças
Guardo com muito carinho uma cópia da monografia de conclusão do Curso de Letras de autoria de Silvia Amélia Franklin da Costa Morais, defendida em 2004 na Faculdade Atenas Maranhense, e orientado pela professora Elaine Raulino.
O trabalho intitulado A MULHER DE POTIFAR: UMA LEITURA DIALÓGICA foi a primeira e, que eu saiba, única monografia sobre meu trabalho literário.
Lembro-me que Silvia Amélia muito penou, pois havia muitas pessoas tentando dissuadi-la. Para tais pessoas, não valia a pena dispender tanto esforço para falar de um autor desconhecido. Sílvia Amélia lutou contra essa maré de pessimismo e, mesmo vindo de uma família de notáveis homens de letras, continuou firme na ideia de fazer o TCC sobre meu livro.
Lembro esse episódio para lembrar que os escritores novatos tendem a encontrar todas as portas fechadas. Tanto as portas dos meios de comunicação quanto a da cabeça de diversas pessoas que acreditam que o estudante não pode inovar nem buscar outras obras ou autores para estudar. Parece que só os clássicos têm espaço nos bancos escolares e das universidades.
Não concordo com isso. Acredito que há espaço suficiente para colocar lado a lado o clássico e o moderno e que quando alguém se propõe a escrever e publicar um livro, esse alguém não quer apenas ganhar dinheiro com a obra (o que seria uma ilusão maior ainda), mas sim ser lido e, se possível comentado.
Há muitos jovens escritores que ficaram felizes apenas em saber que uma pessoa, fora dos círculos de amizade ou do grupo familiar, leu aquele trabalho tão suado, vindo à luz à custa de tantos sacrifícios.
Hoje, mais de uma década depois, pego a monografia, folheio suas páginas e penso na coragem daquela mulher que não se curvou aos desejos alheios e que enfrentou uma banca para falar sobre um mundo literário ainda inexplorado. Penso também em quantas outras pessoas não já tentaram fazer trabalhos sobre outros tantos autores desconhecidos, que não puderam seguir adiante por falta de coragem, força ou incentivo...MISTÉRIO NA CASA DE CULTURA
Resenha:
UM MISTÉRIO EM ITAPECURU
José
Neres
(Professor,
escritor e membro da Academia Maranhense de Letras)
No caso do Maranhão como
praticamente em todo o Brasil, as cidades que têm uma, às vezes, efervescente
vida cultural, veem quase todos os esforços de seus produtores toldados por uma
nuvem de descaso por parte da maioria das autoridades constituídas, de silêncio
por parte da imprensa local e pela indiferença de um público-alvo que nem
sempre atende aos desesperados clamores dos artistas locais.
Por essas razões, e por muitas outras,
possivelmente nem todos os leitores e até mesmo pesquisadores da literatura
maranhense, não conhecem o pequeno romance “O Mistério da Casa de Cultura”
publicado há pouco tempo pela jovem e talentosa escritora itapecuruense Samira
Diorama da Fonseca.
A trama do livro segue
deliberadamente a trilha de mistério e investigação que anda tão em voga
atualmente e que tem em Dan Brown um de seus principais ícones para uma nova
geração de leitores que começa a tomar gosto pela leitura de textos literários.
O corpo de um jovem é encontrado dentro da Casa de Cultura de Itapecuru,
levando as pessoas da cidade e, principalmente, os amigos mais próximos do
falecido a uma grande comoção. Poderia ser apenas mais um jogo de intrigas para
tentar-se descobrir quem é o autor de um crime que ficou encoberto por uma
hipótese de suicídio.
Sem muito esforço o leitor logo é
conduzido para a descoberta tanto do mandante como do executor do assassinato. Não
reside aí o mistério de que fala o título do livro, mas sim nas motivações que
levaram ao homicídio. Sutilmente, o leitor é conduzido para um passeio pela
história e pelas ruas da cidade, conhecendo alguns seus principais pontos
históricos, revisitando importantes, e, muitas vezes, esquecidas personagens,
mas que foram vitais para a construção identitária do município e da história
de seu povo.
Para compor seu cenário literário,
Samira Diorama mescla aventura, mistério, planos mirabolantes, busca de
tesouros escondidos e até mesmo algumas – às vezes desnecessárias – incursões
no campo da espiritualidade. De modo geral, a aparente fragilidade na
construção de algumas personagens é compensada por um estilo ágil e por uma boa
concatenação dos episódios, o que possibilita que a leitura seja feita de um
fôlego e que o leitor também se sinta como mais um componente na trama em busca
dos verdadeiros fatores que levaram à execução do jovem e curioso pesquisador.
Utilizando a técnica de compor
capítulos curtos e ágeis, a escritora consegue imprimir a seu texto a uma série
de peripécias que irão culminar em um clímax, que pode até ser previsto pelos
leitores mais experientes, mas que vem condimentado com temperos colhidos em
nossa própria terra e com a cor local.
Com seu romance, Samira Diorama da
Fonseca passa a integrar um ainda incipiente grupo de jovens mulheres que vêm
se dedicando à prosa de ficção em nosso estado. Essa ainda pouco estudada safra
de mulheres ficcionistas já conta com nomes como Lorena Silva, Laura Barros,
Heloísa Helena, Ahtange Ferreira,. Grupo esse que ainda contribuirá muito para
as nossas letras.
TÍTULO: Mistério na Casa de CulturaAUTORA: Samira Diorama da FonsecaEDITORA: NelpaANO: 2013PÁGINAS: 162CATEGORIA: FICÇÃO INFANTO-JUVENIL
domingo, 4 de janeiro de 2015
NOVAS LUZES SOBRE A VIDA E A OBRA DE MARIANA LUZ
NOVAS LUZES SOBRE MARIANA
José Neres
Entrei em contato pela primeira vez
com os versos de Mariana Luz por indicação do poeta Theotônio Fonseca, que me
forneceu uma cópia xerografada do livro Murmúrios.
Li os poemas e muito me impressionei com a dicção poética daquela escritora
pouco lembrada em nossas letras. Baseado na leitura do livro, escrevi o artigo Os Murmúrios de Mariana, publicado no
jornal O Estado do Maranhão em março de 2007.
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| Capa do livro de Jucey Santana |
Ri e reli o livro diversas vezes,
mas raríssimas vezes tive o prazer de ler ou ouvir o nome dessa escritora em
artigos, cursos ou palestras. Percebi que muitas pessoas, mesmo algumas
diretamente envolvidas com a Literatura, desconheciam a existência daquela
itapecuruense que brincava com as palavras de forma bastante lírica e
competente. Parecia que a segunda mulher a ingressar na Academia Maranhense de
Letras estava fadada ao esquecimento e que sua obra dialogaria para sempre
apenas com o silêncio e com a indiferença.
Foi então com um misto de alegria e
surpresa que adquiri o livro Mariana Luz:
Vida e Obra e Coisas de Itapecuru-Mirim, de autoria de Jucey Santos de
Santana, bacharela em Direito, pesquisadora e membro da Academia Itapecuruense
de Ciências, Letras e Artes, e confessamente admiradora da obra de Mariana Luz.
Trata-se de uma obra alentada, com
mais de 450 páginas, mas que pode ser lida com facilidade, dada a leveza com
que a autora traça o perfil biobibliográfico da poetisa biografada, jogando
luzes sobre a vida e a obra de uma escritora que merece ter sua obra estudada e
seus versos lidos e analisados pelas novas e pelas gerações.
O livro de Jucey Santana encontra-se
dividido em três partes. Na primeira, a escritora reúne o resultado de quatro
anos e oito meses de pesquisas baseadas em documentos escritos e em depoimentos
orais sobre diversos momentos da vida e da produção literária de Mariana Luz. Nesse
capítulo do trabalho, o leitor acompanhará os percalços e as alegrias vividas
pela poetisa, que passou por momentos de extrema necessidade financeira e que,
mesmo reconhecida em vida por seu trabalho como professora e como escritora,
enfrentou inúmeras dificuldades para publicar e divulgar seus trabalhos.
A segunda parte do livro oferece ao
leitor a oportunidade de entrar em contato direto com os poemas de Mariana Luz.
Além de reproduzir Murmúrios, o único
livro conhecido da poetisa, a pesquisadora reúne diversos outros trabalhos da
escritora, inclusive trecho de seu discurso de posse na Academia Maranhense de
Letras, a homenagem de seu sucessor na AML, Felix Aires, além de crônicas e uma
peça teatral assinada pela poetisa. Chama também atenção nessa parte central do
livro o resgate de algumas facetas menos conhecidas de Mariana Luz: seus cantos
litúrgicos e as orações de cunho religioso.
A terceira parte do volume,
intitulada Coisas de Itapecuru-Mirim é um trabalho à parte e que poderia vir
enfeixado em um outro volume sem prejuízo para o estudo sobre a autora de
Murmúrios. Trata-se de um breve levantamento de situações ocorridas naquele
município e que se não fossem recortadas e recontadas pela pesquisadora
poderiam cair no vácuo do esquecimento.
Possivelmente não faltará quem se
levante para questionar os métodos de pesquisa e a estruturação do trabalho de
Jucey Santana. Mas, no meu modo de ver, ela alcançou seu objetivo maior, que
era resgatas das ondas do olvido a emblemática e até mesmo polêmica figura de
Mariana Luz, oferecendo aos pesquisadores, admiradores ou mesmo curiosos da
obra dessa poetisa oportunidade de um mergulho um pouco mais profundo do que a
maioria dos trabalhos que já foram feitos sobre a autora.
Seria bom se em cada município de
nosso imenso Maranhão houvesse alguém disposto a empreender um estudo que
resgatasse alguns de nossos valores esquecidos. Assim, nossa fortuna crítica
seria bem maior do que a que temos hoje em dia.
PS: Agradeço também ao escritor, acadêmico, jornalista e amigo Benedito Buzar por me apresentar o livro comentado acima
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
TRISTES PERDAS PARA A LITERATURA
PERDAS LITERÁRIAS
José Neres
| Juan Gelman |
O
ano de 2014 vem sendo extremamente cruel para com as letras. Mal passamos da
primeira metade do ano e já temos motivo para lamentar o passamento de diversos
escritores. Como nem todos os autores falecidos faziam parte do chamado cânone
literário, algumas mortes não tiveram cobertura da imprensa, mas mesmo assim
tiveram a ausência sentida por parte dos admiradores de suas obras.
| Gabriel García Màrquez |
Logo
no início do ano, faleceu o poeta argentino Juan Gelman, homem que viveu na
pele os horrores da ditadura e transformou o próprio sofrimento e a ausência dos
entes queridos em versos de excelente qualidade. Outro nome de ressonância
mundial que também fisicamente se calou foi o do colombiano Gabriel García Márquez,
o criador do universo mágico de Macondo e ganhador do prêmio Nobel de
Literatura. O sofrimento do autor de Cem Anos de Solidão foi amplamente
divulgado e sua morte causou comoção entre seus leitores e o público em geral.
| João Ubaldo Ribeiro |
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| Rubem Alves |
| Ivan Junqueira |
| Ariano Suassuna |
| José Chagas |
| Ubiratan Teixeira |
Essas
perdas são irreparáveis. Mas fica o consolo de saber que esses intelectuais em
muito contribuíram para que nosso universo fosse mais belo, mais poético, mais
suave e infinitamente mais cheio das ricas alegorias criadas por esses homens
iluminados com o dom de transformar ideias em palavras, em magia e em vida.
Nosso
muito obrigado a todos eles.
terça-feira, 13 de maio de 2014
José Chagas
LETRAS VIVAS: JOSÉ CHAGAS
José NeresAs letras maranhenses contam com alguns monumentos literários que poderiam ser mais divulgados e que têm qualidades literárias suficientes para serem admirados em qualquer lugar do Brasil ou mesmo do exterior. Infelizmente, a falta de uma divulgação mais efetiva, de uma distribuição profissional das obras aqui editadas e de uma crítica especializada que leia e comente os livros com base em critérios mais teóricos que emocionais faz com que talentosos nomes que poderiam ser destacados nacionalmente acabem ficando restritos às nossas terras ou que não sejam conhecidos nem mesmo no rincão natal.
Escritores como João Mohana, Bandeira Tribuzi, Ribamar Galiza, Fernando Moreira, Arlete Nogueira da Cruz, Aurora da Graça, Luís Augusto Cassas, José Ewerton Neto, Nauro Machado e Waldomiro Viana entre outros, poderiam ter seus trabalhos comercializados em âmbito nacional por grandes editoras, com suas produções sendo discutidas em escolas e academias, mostrando ao mundo valores que às vezes são esquecidos. Outro nome que mereceria um espaço maior para seus trabalhos é o poeta e cronista José Chagas, um dos mais talentosos e inventivos escritores da metade para o final do século XX e início do XXI.
Nascido na Paraíba, mas radicado no Maranhão desde tenras datas, José Francisco das Chagas, ou mais simplesmente José Chagas, é o tipo de escritor que encanta e desorienta o leitor das primeiras às últimas páginas de seus livros. Mestre na arte de transformar meras palavras em obras de arte, o Poeta consegue transformar aparentes banalidades em versos de grande intensidade poética e carregados de metáforas que estão a serviço não apenas de uma estrutura formal, mas sim de um conteúdo que se desenvolve ao longo das páginas de seus diversos livros.
José Chagas emprega em seus poemas as mais diversas formas literárias, desde os versos minuciosamente metrificados até aqueles em que a criatividade cede lugar à rigidez estrutural. Não importando a técnica utilizada, os poemas do autor de Os Telhados trazem sempre um apurado senso estético e uma criticidade que vai além daquilo que pode ser esperado em poemas que nem sempre buscam destrinçar a carga social de um povo ou de uma época.
Muitos são os temas desenvolvidos por Chagas em seus versos, entre eles estão os relativos à infância, ao tempo, à cidade que o adotou como filho, à memória e às mazelas sociais que assolam o mundo. Diante de um quadro em que simples sussurros poderiam não surtir os efeitos desejados, o poeta solta a voz em versos altissonantes que muitas vezes fundem lamentos a gritos de revolta. O poeta parece ter consciência de que seus versos não são palavras soltas ao vento e que se perderão nos desvãos do tempo e da memória curta de um povo acostumado a ser violentado em seus direitos e permanecer calado diante das atrocidades de que é vítima. Na obra de José Chagas, as palavras são flores, mas também são armas.
O silêncio social não faz parte do estro literário desse poeta e cronista que devotou grande parte de sua vida a observar e registrar os flashes de um cotidiano mutante. Seja em prosa, seja em versos, a literatura chaguiana é essencialmente voltada para o ser humano, buscando despertar nos leitores o interesse pelas coisas e pelos fatos mínimos, todavia vitais para as relações do homem com ele mesmo, com os outros e com os demais elementos de seu entorno. O grande interesse do Poeta não está no visível das mudanças circundantes, mas sim no inefável daquilo que parece banal para muitos e que passa despercebido diante dos olhos de quem não consegue enxergar além das aparências.
De certa forma, os poemas e as crônicas de José Chagas funcionam como uma espécie de lupa para ampliar detalhes e deixar mais visível um mundo que muitos fazem questão de não ver, mas que jamais deveria ser esquecido, pois é nele que vivemos e é dele que advêm todas as nossas dores, alegrias e angústia. E o mundo, filtrado pelo olhar e pelas palavras de um Poeta do nível de José Chagas, pode ser aterrorizantemente belo...
(O Estado do Maranhão, 11 de maio de 2014)
sábado, 15 de março de 2014
UMA VAGA PARA ALUÍSIO
José Neres
(Professor de Literatura)
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| Imagem retirada da reportagem da Mirante sobre o assunto |
Vários amigos me interpelaram sobre
o que eu acho do fato de estarem transformando o
Casarão onde morou Aluísio Azevedo
em um estacionamento rotativo. Fico triste, mas não surpreso...
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| Imagem retirada da reportagem da Mirante sobre o assunto |
É
visível o descaso com que foi tratada nossa cidade ao longo dos anos. Vejamos:
Os bustos dos escritores foram e hoje se
encontram recolhidos no Museu, sem previsão de volta; a escadaria da rua
Humberto de Campos transformou-se em um mictório público; as fontes são quase propriedade particular de pedintes e/ou desocupados;
nossas praias hoje são receptáculos de dejetos e de esgoto a céu aberto; a
Praça Valdelino Cécio foi transformada em um reduto de uso e comercialização de
drogas; o busto de Odorico Mendes foi roubado e possivelmente derretido para ter
seu material vendido em um ferro-velho qualquer; as ruas são feudos de
inescrupulosos guardadores de carro; o
calçamento da cidade é uma grande armadilha para transeuntes de qualquer idade;
os casarões históricos estão entregues à própria sorte e às intempéries da
natureza; nossas livrarias fecham as portas por falta de consumidores para um
produto tido como luxo chamado livro; os becos são lugares perfeitos para
assaltos e estupros, etc, etc, etc.
Dessa
forma jamais acreditei que o casarão de Aluísio fosse escapar a essa insanidade
que ajuda destruir o que passamos séculos para conquistar. E tudo isso aconteceu
e acontece bem diante de nossos olhos...
Em
qualquer lugar do mundo dito civilizado aquela casa seria um museu, um centro
cultural, onde a memória e a obra de um dos maiores escritores do Brasil seriam
preservadas, apreciadas e estudadas, mas isso não acontece e possivelmente
nunca acontecerá.
Chegamos finalmente
ao tempo em que o progresso atropela o passado e em que ter uma vaga para
estacionar o carro é muito mais importante que conhecer um pouco de nós mesmos
de nosso passado.
O pior é que em
breve tudo isso será esquecido e nós mesmos, que hoje estamos tão revoltados
com esse fato, sorridentes, pagaremos para deixar nosso veículo lá, pois para
muita gente, um risco no carro dói muito mais que um arranhão na história.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
ILHAVIRTUALPONTOCOM NÚMERO 21
Chegamos a este fim de ano com a volta do nosso Ilhavirtualpontocom, desta vez com entrevista com o poeta Carvalho Junior, comentários sobre o CD Palavra Acesa de José Chagas e sobre o livro Baratão 66, além da poesia de Francinete Braga Santos. Desejamos boa leitura a todos.
Quem quiser baixar ou ler em PDF, clique aqui
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
RAIMUNDO CORREIA: POESIA COMPLETA
RAIMUNDO
CORREIA: POESIA COMPLETA
José
Neres
(Professor
de Literatura)
Raimundo Correia (1859–1911) parece
ser um daqueles cultuados escritores que têm o nome lembrado em diversas obras
de cunho crítico e/ou didático, que se eternizaram pelo talento e pela
reprodução sistemática de dois ou três textos, mas que não conseguem
transformar essa admiração em leitura atenta de sua obra.
Em praticamente todos os livros
didáticos utilizados pelos alunos do ensino médio há sempre alguns parágrafos
situando o poeta maranhense entre os três mais importantes escritores do
Parnasianismo brasileiro, ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira.
Geralmente há também nesses compêndios um esboço biobibliográfico do poeta,
seguido da transcrição de alguns seus sonetos mais populares – quase sempre Mal Secreto, As Pombas ou A Cavalgada
–, mas essas informações básicas nem sempre são suficientes para estimular nos
estudantes a leitura de outras produções de Raimundo Correia.
Mesmo que alguém se interessasse
pela produção poética do autor de Primeiros Sonhos, teria dificuldades de
encontrar no mercado livros que trouxessem mais textos desse poeta. E mesmo em
uma busca na internet, os admiradores do escritor esbarrariam na repetição dos
textos disponíveis para leitura, cerca de duas dúzias de poemas, quase sempre
os sonetos mais conhecidos. Essa recorrência aos mesmos títulos pode levar
alguém a pensar que Raimundo Correia fosse um escritor de poucas obras e de
talento limitado, o que não é verdade.
Recentemente, no entanto – pouco
mais de um século depois da morte do poeta maranhense – chegou às livrarias um
livro que tenta trazer de volta para o público leitor os poemas desse escritor
que foi efusivamente elogiado por críticos do porte de Manuel Bandeira e João
Ribeiro. Trata-se de “Raimundo Correia: Poesia Completa” (Café e Lápis Editora,
2012, 358 páginas), um livro que oferece ao leitor a oportunidade de entrar em
contato com 325 poemas de Correia, trazendo também notas explicativas que podem
ajudar a compreender alguns textos.
Para aproximar ainda mais o leitor
do sonetista parnasiano, Claunísio Amorim, responsável pela editoração, organização
e revisão, além de escrever a apresentação do livro, não se limitou a
reproduzir as centenas de poemas produzidos por Raimundo Correia, mas sim de
também transcrever as apresentações e prefácios presentes nas primeiras edições
das obras reunidas nesse volume.
Uma das grandes qualidades de um
trabalho como a edição de obra completa de um poeta é a oportunidade de
entrar-se em contato diretamente com a produção do escritor, e não apenas com
textos esparsos. Desse modo, o leitor pode chegar a algumas conclusões às quais
não chegaria se ficasse apenas na leitura dos teóricos ou dos poemas soltos.
Uma
das ideias solidificadas sobre Raimundo Correia e que pode ser questionada em
uma leitura mais atenta de seus poemas é a que se refere ao negativismo que
supostamente atravessa toda a sua obra. Embora fique evidente que o estilo do
autor seja carregado de certa dose de pessimismo, pode-se notar também que, em
variados momentos, ele despejava em seus versos um humor ácido, como, por
exemplo, no poema “Ideia Entomológica”, no qual um pseudo-poeta, ao levar a mão
à cabeça, no lugar de tirar idéia para um poema, só consegue encontrar um
piolho; ou ainda no soneto “A Uma Cantora”, no qual o eu lírico se vê gravemente
ferido pela voz de alguém que se diz cantora.
Os versos de Raimundo Correia são
bastante plásticos e, apesar de ficarem presos às formas parnasianas, trazem
algumas imagens que mesclam densidade filosófica e crítica social, como ocorre
no belíssimo poema intitulado “Diálogos”, no qual a terra, o trigo, a pedra e o
ferro são personificados e não perdoam o homem pelas atrocidades cometidas ao
longo dos tempos.
Poesia Completa de Raimundo Correia
é um livro para ser lido não apenas pelos apaixonados pelos versos do autor,
mas também por aqueles que acreditam que toda a obra do poeta parnasiano se
resume a apenas meia dúzia de poemas bem elaborados. Ele é muito mais que isso.
É um dos maiores poetas que o Brasil já teve. E hoje, mais de um século após
seu passamento, Raimundo Correia ainda demonstra ter muito a dizer em seu
universo poético.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
domingo, 26 de maio de 2013
WANDA CRISTINA
José Neres
| Fonte da imagem: Internet |
Cerca
de uma década e meia após sua estreia em livro, quando não pairava mais nenhuma
desconfiança sobre seu talento poético, Wanda Cristina volta a ser lembrada por
outro grande crítico. Ela foi selecionada por Assis Brasil como uma das
representantes da poesia maranhense do século XX. O romancista e crítico
piauiense destaca a inventividade, o domínio da linguagem e o uso de formas
poéticas diversificadas por parte da escritora, que tem cinco de seus poemas
destacados na antologia.
Em
sua obra, Wanda Cristina não espera que o leitor abra o livro para entrar em
contato com a poesia e com as metáforas. Logo na capa, ela já costuma fazer um
trabalho de escolha lexical que leva o leitor a perceber que escolher um título
não se trata de um mero artifício verbal, mas sim de um recurso poético que
pode ser bem empregado por quem sabe que os jogos poéticos não se limitam à
confecção dos versos e à busca desenfreada pelas rimas. Desse modo surgiram
títulos como “Uma Cédula de Amor no meu Salário”, “Engraxam-se Sorrisos” e
“Rede de Arame”.
Embora
seja mais conhecida por seus textos em verso, Wanda Cristina não se prendeu a
apenas um gênero ou a uma forma. Ela, ao longo de sua trajetória literária, já
se dedicou à prosa, ao texto teatral, à composição de letras de músicas, à
pesquisa folclórica e a outros gêneros, além de dedicar-se ao magistério. Essas
múltiplas atividades talvez tenham eclipsado um pouco o brilho da poetisa que,
possivelmente ainda deve ter muitos textos inéditos esperando a oportunidade de
virem à luz.
As
temáticas e estruturas trabalhadas pela autora de “Geofagia Ruminante no Sótão
da Preamar” são variadas e vão desde situações cotidianas até incursões pela
experiência concretista, com especial atenção aos aspectos sociais da
realidade. Em diversos momentos de sua obra, Wanda Cristina deixa transparecer
seu descontentamento com a as injustiças sociais e com os (des)rumos que o
mundo vem tomando e que quase sempre não estão de acordo com o que seria
desejável. Atenta aos elementos circundantes, a escritora colhe do dia a dia a
matéria para seu trabalho com a palavra. Um acidente de trânsito, uma discussão
banal, um cigarro, uma árvore... Tudo pode servir de tema para a poética dessa
escritora que busca no cotidiano e dentro da essência das pessoas a
matéria-prima que, após um burilamento com a linguagem, se transforma em
Poesia.
Em
alguns de seus poemas, Wanda Cristina consegue amalgamar o tom de revolta com a
consistência de um apurado trabalho de construção poética. É o caso do pequeno,
mas contundente Aliteração, no qual, em apenas dez versos, a antiga concepção
político-ideologia do Pão e Circo é mostrada e desnudada como força coercitiva
da alienação do povo. Trata-se de um poema que ao mesmo tempo encanta o leitor
pela bela construção e o faz pensar na forma como somos manipulados ao longo
dos tempos.
Adepta
dos jogos de palavras, mas sem decair no mero experimentalismo fonético, e do
engajamento literário, contudo sem recorrer ao panfletarismo militante, Wanda
Cristina é o tipo de escritora que deve ser lida com calma, apreciando-se todas
as nuances e matizes que fazem de cada um de seus textos uma pequena obra de
arte.
Visite a página da escritora em http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=16679
quinta-feira, 16 de maio de 2013
PROGRAMAÇÃO
Dia
23.05.2013 (quinta-feira)
Horário: 8h – CREDENCIAMENTO (Sala
de apoio 01)
Local: CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS -
CCH/UFMA
8h30 – MESA DE ABERTURA
Composição: Prof.
Dr. Jarbas Couto e Lima– Coordenador PGCult-UFMA
Profa. Dra. Teresinha de Jesus
Baldez e Silva (GELLD-DELER-NEPLiCI-UFMA)
Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa
(GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
Local: AUDITÓRIO “A” - “MÁRIO MEIRELLES”
– CCH
10h15 – INTERVALO
Composição:Profa.
Dra. Teresinha de Jesus Baldez e Silva (GELLD- NEPLiCI -DELER-UFMA)
12h às 14h30 – INTERVALO
14h30 MESA-REDONDA 2 – “A
sustentabilidade ambiental no espaço maranhense”
16h15 – INTERVALO
16h30 MESA-REDONDA 3 – “A memória das
cidades: seu espaço, sua identidade”
18h – LANÇAMENTO DE LIVROS
Profa. Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
Prof. Ms. Gersino dos Santos Martins (PGCult -DEART-UFMA)
Composição: Prof.
Dr. Antônio Cordeiro Feitosa (DEGEO–NEPLiCI-UFMA)
Profa. Ms. Andreia
Marques (PGCult)
Moderador(a):Profa.
Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
Composição: Profa.
Ms. Maria de Lourdes Lauande Lacroix
Profa. Dra. Maria
Cândida Seabra (UFMG)
Moderador(a):Profa.
Dra. Teresinha de Jesus Baldez e Silva (GELLD-NEPLiCI-DELER-UFMA)
Dia
24.05.2013 (sexta-feira)
Horário: 8h30 – MESA-REDONDA 4 – “Literatura maranhense:
múltiplos olhares”
Composição: Prof.
Ms. José Ribamar Neres Costa(FAMA)
Profa. Ms. Janete de
Jesus Serra Costa (PGCult-UFMA)
Susane
Martins Ribeiro (Graduanda em Letras - FAMA)
Local: AUDITÓRIO “A” - “MÁRIO
MEIRELLES” – CCH
10h15 – INTERVALO
Composição: Prof. Dr. José Dino Costa Cavalcante (GELLD-DELER-UFMA)
Profa. Ms. Dinacy Mendonça Correia (UEMA)
Profª.Esp.Samara Santos Araújo
Paloma Veras Pereira (Graduanda em Letras-UFMA)
Composição: Flaviano
Menezes da Costa (GELLD-PGCult)
Adeilson Marques (GELLD-PGCult)
Narjara Mendes da Silva
(GELLD-PGCult)
Moderador(a):Profa.
Dra. Márcia Manir Miguel Feitosa (GELLD-PGCult-DELER-UFMA)
Conferencista: Prof. Dr. Samarone Marinho (Pós-Doutorando pela USP em Geografia
Humana)
9h-CONFERÊNCIA DE ABERTURA - “Léxico
Toponímico: documentação, memória e cultura”
Conferencista: Dra.
Maria Cândida Seabra (UFMG)
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