
SOBRE BREGANEJO BLUES
DOIS ROMANCES INFERNAIS
José Neres
O inferno, ou seus hipotéticos habitantes, é um dos temas recorrentes na literatura desde seus primórdios. Alguns escritores de excelente estirpe já se utilizaram passagens ambientadas no reino das trevas para a composição de suas obras. Nomes como Virgílio, Dante Alighieri, Gil Vicente, Guimarães Rosa e Jean Paul Sartre cravaram nas letras diversas concepções de como seria esse mundo desconhecido. Porém, mesmo sendo algo que povoa o inconsciente coletivo de povos das mais diversas origens, a temática do inferno ainda pode ser considerada um tabu, principalmente para quem põe os dogmas religiosos acima da tessitura literária.
Por se tratar de um assunto e de uma ambientação tão melindrosos, pode causar certa estranheza o fato de que dois romancistas maranhenses contemporâneo tenham, quase ao mesmo tempo, escolhido o inferno como espaço literário de suas narrativas que, ao mesmo tempo, trabalham uma refinada e sutil ironia, com boas doses de bom humor e com cenas que demonstram o domínio dos dois escritores com relação à técnica narrativa.
Quem se interessar pela temática tem à disposição duas obras bastante interessantes: “O Arquivista Acidental”, de Antônio Guimarães de Oliveira, e “O Infinito em Minhas Mãos”, de José Ewerton Neto. São dois romances que enveredam pelos campos do desconhecido, tendo como base os problemas e as dificuldades comuns a todos os habitantes da terra. Em ambas as obras, o leitor facilmente percebe que o interesse maior dos escritores não está em descrever o inferno, mas sim em mostrar que estar vivo pode não ser um privilégio tão grande assim.
Em “O Arquivista Acidental”, Antônio Guimarães traz a história de Arquimedes do Espírito Santo, um funcionário público que, habituado às lides burocráticas, requere a aposentadoria, mas morre na fila, antes de receber o benefício. Ao ser levado para o paraíso, ele dispensa a paz celestial e pede abrigo no inferno. A partir daí as peripécias se multiplicam e, rapidamente, o burocrata pacato, porém revoltado, vai se transformando em um temido, porém desastrado demônio.
Seguindo por um caminho paralelo, José Ewerton Neto cria Eunápio, um homem que mesmo sem grandes pecados, tem sua alma levada para o inferno. Contando com a sorte e com o péssimo caráter de pessoas tidas como idôneas, mas que só pensam no próprio bem, o novo demônio, agora com o nome de Vacele, envolve-se em um turbilhão de acontecimentos que o levarão a questionar as razões da própria existência.
Os dois escritores, cada um com seu estilo característico, acabam revivendo a velha máxima latina do “Ridendo castigat mores” (Rindo, castigam-se os costumes). Eles manejam com maestria a difícil arte de ironizar e de construir sutis alegorias a partir de situações cotidianas que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Em verdade, nos dois trabalhos, a imagem do inferno nada mais é do que um pano de fundo para ilustrar os mandos e desmandos que ocorrem cotidianamente em todas as esferas do poder.
Antônio Guimarães utiliza-se da astúcia de transformar um funcionário publico em diabo, com isso, deslinda todos os entraves burocráticos encontrados em uma repartição pública, seja ela no inferno, no céu ou na terra. Por sua vez, Ewerton Neto desnuda a trajetória que leva uma pessoa comum a ser tratada como ídolo, mesmo que sua alma esteja eivada de valores negativos, para isso ele, estrategicamente, centra as missões de seu demônio literário em três figuras tipificadas que transpiram falsidade e malícia: um político, um líder religioso e um autor de auto-ajuda.
No final da leitura dos dois romances, fica uma certeza: apesar das forças demoníacas que entravam as letras, nossos escritores ainda são capazes de transformar o enxofre infernal em prosa com divino sabor literário.
MERAS COMPARAÇÕES
José Neres
Algo que sempre me impressionou em nossa imprensa é o caderno de esportes. Ma-ra-vi-lho-so! Incrível como nossos jornais acompanham os eventos esportivos... Dependendo do horário em que termina a competição ou premiação esportiva, na edição seguinte do periódico, temos, estampados, em letras garrafais, os resultados, os nomes dos atletas mais destacados e fotos, muitas fotos... A equipe de esportes parece estar sempre preparada para os chamados furos de reportagem. Basta um atleta especular que mudará de clube e lá está a notícia em destaque, geralmente precedida de uma chamada na primeira página. Basta um craque da moda se pronunciar sobre determinado assunto que logo tal comentário é debatido, dissecado, esmiuçado por especialistas no assunto. Tudo em uma velocidade impressionante! Realmente, os cadernos de esporte mostram em suas páginas e entrelinhas toda a velocidade que a imprensa tem quando há um interesse em divulgar as notícias.
Por outro lado, sempre me causou tristeza e estranheza lentidão dos mesmos jornais quando se trata de comentar os eventos culturais locais. Excetuando-se os casos raros (raríssimos, na verdade), os periódicos sofrem de carência crônica de papel e de jornalistas para a cobertura de peças teatrais, lançamentos de livros, resenhas sobre as obras publicadas, divulgação de músicas e filmes que não façam parte do circuito das grandes distribuidoras, palestras, recitais... As páginas tidas como destinadas à cultura costumam ser descartadas aos primeiros sinais de crise econômica ou editorial e, a cada dia, emagrecem a olhos vistos, deixando a impressão de que não há notícias recentes, além daquelas que englobem a mercadológica e lucrativa indústria da cultura de massa.
Nada contra o esporte, o qual considero umas das melhores e mais saudáveis formas de inclusão social, mas se há verbas e profissionais disponíveis para os cadernos esportivos, para os luxuosos e coloridos encartes sobre atores, novelas e personalidades do meio televisivo, se há disponibilidade de espaço para as picuinhas amorosas de atores e atrizes, porque será que falta espaço tempo e dinheiro para falar de arte e de cultura? Será falta de patrocinador? Será falta de público consumidor? Ou será a tal da falta de vontade para com o que não trará lucro imediato? Perguntas sem resposta!
Para ilustrar o que foi dito nos parágrafos anteriores, relembro alguns fatos recentes. Horas depois da já tradicional premiação de “Atletas do Ano”, o Caderno de Esportes fazia uma síntese do acontecimento, detalhando a atuação de cada um dos ganhadores e com direito a um pôster que ocupava as páginas centrais do encarte. Semanas antes e um dia após a referida festa esportiva, houve a III Feira do Livro de São Luís e dois lançamentos coletivos das obras vencedoras do Concurso Literário Gonçalves Dias. Sinceramente não me lembro de ter encontrado em nossos jornais um destaque significativo para tais eventos. Não me recordo de ter visto uma cobertura aprofundada a respeito dos participantes da Feira ou dos lançamentos, nem mesmo de ter visto a fotos dos palestrantes ilustrando artigos relativos ao assunto.
Alguém poderia argumentar que os escritores reunidos não tinham renome nacional, que poucos eram conhecidos além dos limites da província natal. Mas essa ideia esbarra na constatação de que os atletas que tiveram ampla cobertura, com direito até a cupons para votação durante dias e dias, também não são conhecidos da maioria do público leitor dos jornais. Indicados por suas respectivas federações, alguns guerreiros do esporte saíram da premiação sobraçando o troféu, mas ainda continuavam e continuam com seus feitos praticamente desconhecidos até mesmo quem preencheu o formulário de votação sem ter noção sobre as reais habilidades dos concorrentes. Mesmo assim, auditório estava lotado, para o bem do esporte.
Por outro lado, na segunda parte do lançamento do Plano Editorial da SECMA, realizado no Museu Histórico e Artístico, mesmo com a presença da “nata intelectual”, como assinalou o Secretário Luís Bulcão, e de autoridades políticas, o público não foi suficiente para lotar o recinto. Também não me lembro de ter visto os escritores perfilados para uma foto oficial que fosse ilustrar as páginas centrais de um caderno cultural dos próximos dias.
Mas o importante é sempre ter em mente que Esporte e Cultura são essenciais para a formação de um povo e que, com ou sem divulgação, continuarão seus caminhos em busca da divulgação de seus valores.
OBS: É importante destaca o esforço do editor e escritor Alberico Carneiro, que em seu suplemento, tenta resenhar as obras publicadas nos eventos literários de nossa cidade.