Ouvindo Clayber Rocha
José Neres
Confesso o que é evidente. Sou um completo analfabeto no que diz respeito à prática musical. Não sei tocar um instrumento. Minha voz é desafinada e evito até mesmo bater palmas em aniversários de crianças com medo de que meu descompasso rítmico atrapalhe a evolução das palmas alheias. Mas ser analfabeto musical não é sinônimo de ter surdez melódica. Pelo contrário. Considero-me até bastante exigente com o que ouço. Não faço de meus pobres ouvidos um repositório de lixo mercadológico disfarçado de música.
Assim, com a um analfabeto das letras não lhe pode ser negado o direito de opinar sobre a beleza de um poema, de uma narrativa ou mesmo de comentar sobre o enredo de uma peça teatral, reservo-me o direito de apreciar a magnífica voz de um Emílio Santiago, o tom altissonante de uma Mercedes Sosa, a potência vocação de um Tim Maia, a magistral rouquidão de um Louis Armstrong, a simplicidade melódica de um Paulo Diniz, a energia de uma Alcione ou a sonora percussão de um Papete ou de um Hermeto Paschoal.
Também não posso deixar de admirar a capacidade musical de Clayber Rocha, esse jovem músico que dedilha o violão com a alma e que tira das cordas todos os ritmos possíveis e imagináveis. Não se trata, porém, apenas de uma pessoa com técnica e inspiração, Clayber também possui a capacidade de reunir em um mesmo CD um repertório de primeira linha e de intenso bom gosto.
Em sua nova obra, Clayber Rocha não se contenta em tocar e também solta a voz, cantando em francês, português, espanhol e inglês, o que ocorre apenas esporadicamente nos outros álbuns lançados anteriormente. Mas ele não deixa de lado sua marca mais conhecida: o talento com o violão. Às vezes, passa a impressão de que há dezenas de outros instrumentos compondo o cenário musical composto pelo intérprete, mas, para quem tem talento, uma voz e um violão tomam a dimensão de uma verdadeira orquestra.
Neste momento, escrevo ouvindo a interpretação de “Love me tender”, música que foi imortalizada na voz de Elvis Presley e que ganha um toque especial com o artista maranhense. Volto um pouco e me impressiono a virtuosa artística demonstrada em Carinhoso. Finalizo com as empolgantes notas de Yo Camelo, de Adriah Esteves, uma canção que faz bem a qualquer ouvido.
Como disse antes, sou um analfabeto musical, mas não sou surdo e gosto do que tem qualidade. Talvez o único defeito do CD seja que ele tenha uma curta duração e que na hora que começa a empolgar, acaba. Mas vale a pena.
Músicas do CD
1. Je L’aime à Mourir
2. Carinhoso
3. Corcovado
4. Pequena bailarina
5. Love me tender
6. Introduction / Asturias
7. Aquarela do Brasil
8. Ponteio
9. Yo Camelo
10. Mediterranean Sundace
