domingo, 30 de setembro de 2012

CAIS DA SAGRAÇÃO NO TEATRO


CAIS DA SAGRAÇÃO NO TEATRO
José Neres


                Na última quinta-feira do mês de setembro, centenas de pessoas tiveram o privilégio de assistir à peça Cais da Sagração, no Teatro Artur Azevedo. Adaptação do livro homônimo de Josué Montello, o espetáculo serviu para dar ao público uma noção geral do que a obra desse grande romancista maranhense.
                Algumas pessoas esperam ver no palco uma reprodução exata do que se passa nas páginas do livro. O que é impossível, pois são duas linguagens diferentes, que utilizam técnicas e estruturas também diferentes. O romance tem cenas que não foram exploradas pela peça, ao mesmo tempo em que algumas passagens da trama teatral ganharam mais projeção no palco que nas páginas do livro.
                Em aproximadamente uma hora e meia, os atores e atrizes reviveram a saga do polêmico mestre Severino, um homem simples, que carrega dentro de si toda uma gama de ideias e preconceitos que hoje podem soar estranhos, mas que representam muito bem a mentalidade do homem rústico do mar, principalmente se levarmos em consideração a época em que se passa a história.
                Na peça, adaptada por Michelle Cabral, o fluxo do tempo, que é uma das marcas do romance, foi explorando com competência, a partir do jogo cênico presente-passado. Um belo exemplo disso foi a transformação de Lourença, que, ao subir na escadaria do porto para esperar a volta de Severino, com um simples jogo e luzes e com a mudança de vestes, remoça e volta no tempo. A partir desse ponto, o que parecia ainda sem sentido começa a descortina-se com clareza aos olhos do público.
                É, aliás, a personagem Lourença (vivida por Diana Mattos) a responsável pelos melhores momentos da peça. Às vezes sem fala, mas com expressivos jogos de olhares e com marcante expressão facial, ela encantou a plateia com a docilidade de uma mulher que, de uma hora para outra, vê sua vida transformada pela noticia de que seu companheiro irá casar-se com uma meretriz da cidade. É Lourença o fio condutor da história. É ela quem acompanha todo o desenrolar do enredo e que vive os melhore e piores momentos da vida das demais personagens.
                Os demais autores se esforçaram para manter o ritmo e mesmo, vez ou outra, cometendo alguns deslizes, não comprometeram o trabalho e souberam dar vida às personagens, fazendo com que o público não se perdesse na trama. Cada um deles deu o máximo de si para viver personagens complexas e que deixavam as páginas do livro para finarem pés no palco.
                O cenário é um caso à parte. Ele demonstra que, mesmo com poucos recursos financeiros, a criatividade pode sobrepujar as dificuldades e trazer ao palco soluções inventivas e a relativo baixo custo, sem perda dos efeitos cênicos e sem prejuízos para o enredo. O cenário, com seus móveis brancos e seus tapumes, ao ser bem utilizado, transformou-se, sendo reutilizado em diversas cenas com objetivos diferentes, o que acabou dando volume ao espetáculo. Quase ao final do espetáculo, antológica cena da embarcação na tempestade, além de demonstrar o bom gosto de cenografia, serviu para elucidar, para quem não conhecia o texto do romance, os acontecimentos norteadores da trama.
                A peça, de modo geral o Cais da Sagração do teatro satisfaz. É um excelente espetáculo que possivelmente terá algumas rebarbas corrigidas em apresentações futuras. Toda a companhia está de parabéns. Se Josué Montello ainda estivesse entre nós, certamente ela seria o primeiro a levantar-se para aplaudir essa bela adaptação de sua obra.
A casa estava quase lotada, para felicidade de todos os amantes do teatro. O público, como sempre, continua com o péssimo hábito de deixar os aparelhos celulares ligados a alto volume, tirando, em alguns momentos a concentração dos atores, mas isso é algo que um pouco mais de atenção e uma pequena dose de boa educação pode resolver.

FICHA TÉCNICA: direção e cenário de Michelle Cabral (atriz e arte-educadora), elenco Cíntia Pessoa, Diana Mattos, Gilberto Martins, Jurandir Eduardo e Ricardo Torres. Figurinos e adereços de Jurandir Eduardo e iluminação de Nina Araújo.

 

terça-feira, 24 de julho de 2012

ILHAVIRTUALPONTOCOM Nº 15

Caros amigos/leitores

Chegamos ao décimo quinto número de nosso informativo virtual. Neste número você terá:
1) Entrevista com o professor e escritor Marcos Fábio Belo Matos
2) Sonetos de Abmael Lopes
3) Homenagem a Antônio Martins de Araújo
4) Poesia de Rosemary Rêgo
5) Artigo de José Neres

Para baixar o informativo em PDF, clique aqui

ou o visualize aqui

terça-feira, 3 de julho de 2012

ILHAVIRTUALPONTOCOM 14

Amigs, disponibilizamos para vocês o 14ª número do ILHAVIRTUALPONTOCOM, com novo aspecto gráfico e sempre muitos textos sobre nossa literatura. Neste número:
- Flaviano Menezes comenta o lançamento da nov edicão de O Guesa
- Irving Selassié traça um perfil biográfico de José Viana
- Entrevista com a poetisa Anna Elizandra
- Poema de Artur Azevedo
- Poesia de Dyl Pires

sábado, 16 de junho de 2012

CURSO COM LUÍZA LOBO

MINICURSO DE ÉPICA NA

LITERATURA BRASILEIRA
(TRANSCRITO DO SITE DA AML)

Pela professora Doutora Luiza Lobo, docente de pós-graduação na faculdade de Letras da UFRJ; da Academia Brasileira de Filosofia; correspondente da Academia Maranhense de Letras.
De 18 a 21 de junho de 2012, das 17:00 às 20:00 horas. Inscrições na Secretaria da Academia: Rua da Paz, n°84 – Centro. Certificados a quem tiver 75% de comparecimento. Taxa de inscrição, R$20,00.
EMENTA: dirigido ao público em geral, e especialmente a alunos do curso de Letras. Objetivo examinar os mais importantes escritores da Literatura Brasileira que escreveram epopeias, tais como Domingos Gonçalves de Magalhães. Será proposta uma comparação entre o Indianismo de Sousândrade os poemas épicos O Guesa, de Sousândrade e Os timbiras, de Gonçalves dias. Com base no conceito de Emil Staiger de que o épico existe como gênero ou como uma característica geral presente também noutros gêneros, será discutido o romance Iracema de José de Alencar, visando a definir da importância da épica cristã romântica neste autor assim como no poema O Guesa

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ilhavirtual 13

Está em suas mãos o 13º número do Ilhavirtualpontocom, os seguintes destaques:
- Resultado do I Concurso Papoético de Poesia
- Entrevista com Wilson Martins
- A Faca e o Rio
- Poema de Gonçalves Dias
- Convocação para Projeto Gonçalves Dias
- Curso na Academia Maranhense de Letras


Você pode baixar ou ler em PDF o informativo clicando AQUI, ou expandindo a imagem abaixo.


Boa leitura




segunda-feira, 28 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

CANTANDO NA CHUVA

Durante uma semana, postaremos pequenos poemas ilustrados sobre literatura, música, cinema...
Para começar bem a semana, este poeminha sobre um dos filmes mais bonitos de todos os tempos...


Amanhã teremos outra postagem...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

EXPOSIÇÃO: VISITEM

local: Hotel Mar e Sol (em São José de Ribamar)
data: de 12 a 15 de maio de 2012
Artista: Val Prazeres

Venham conhecer o talento dessa artista que leva para a tela e para a alma das pessoas ramalhetes de flores e pétalas de alegria...


terça-feira, 1 de maio de 2012

SONIA ALMEIDA


SONIA ALMEIDA: A ALEGÓRICA PENUMBRA DA PALAVRA

José Neres
Jornal Pequeno - Suplemento Guesa
Novembro de 2011

      A luta com a palavra é algo constante, seja para quem utiliza as diversas linguagens apenas com o intuito de comunicar-se no dia a dia, seja para quem faz da palavra seu objeto de estudo e/ou de trabalho. De modo geral, as pessoas não dão tanta  atenção ao poder que emana das palavras e acreditam que comunicar é a única função que interessa na lide diária com os vocábulos. Mas não é bem assim! Quem faz da palavra sua fonte de trabalho, dores ou prazeres sabe que por trás de cada palavra pode se esconder um universo de significações, um mundo de ramificações que não se esgotam na troca cotidiana de informações. A palavra pode ferir, mas também tem poder de curar. Exalta, mas também intimida. Palavra é vida, é sangue, é abstração, é realidade... é sonho...

      E é dentro dessa atmosfera de limite entre o sonho e a realidade, entre o concreto e o abstrato que se situa o poeta, o ser que tenta tirar das palavras o fluido vital para tentar inocular nas demais pessoas tanto as belezas da vida quanto as agruras e os sofrimentos dos demais seres que nem sempre estão preparados para conviver com o universo das metáforas. O poeta nem sempre tem consciência de que, ao pôr os signos no papel ou na tela de um computador, pode alterar para sempre a percepção de mundo de todos os que virão ler ou ouvir aqueles versos. Por isso as palavras são, além de fonte de prazer é uma ameaça constante  ao poder constituído e forma de transgressão das possibilidades apenas racionais.

      Sonia Almeida, membro da Academia Maranhense de Letras e uma das homenageadas na V Feira do Livro de São Luís, é uma dessas pessoas que todos os dias tenta extrair do cerne das palavras a razão de toda uma existência. Seja como professora de Língua Portuguesa, seja como pesquisadora da linguagem ou como poetisa, ela todos os dias navega nas águas nem sempre calmas das palavras e luta para fixar no papel aquilo que parece tão claro e simples na imaginação. Desde seu primeiro trabalho publicado – Alegorias –, quando a escritora ensaiava seus primeiros passos rumo a uma produção mais madura, Sonia Almeida já demonstrava que a palavra seria seu maior desafio e sua proteção ao mesmo tempo. Já em seu primeiro trabalho, Sônia Almeidachama a atenção para as palavras.



É a palavra que me faz querer.

Hoje escolho a primeira: viagem.

Vou várias vezes. Vestida  de palavras sou agora, de forma incontrolável, esse balão que some nas nuves.

Nua de mim mesma, desapareço para me encontrar.



      Anos depois da estreia, ao publicar Penumbra, livro que foi recebido com grande entusiasmo por Josué Montello, a poetisa, em pleno domínio da linguagem poética, deixava claro que escrever é uma forma de usufruir uma liberdade que ultrapassa os limites corpóreos e alcança a dimensão do inefável. No primeiro poema do livro, o eu lírico diz:



Coloco a palavra na asa do poema

e faço o que mais quero:

vou na asa das palavras,

voo na alma do verso

e, sempre, que preciso,

futuro nas (a)venturas do signo.



      Mas essa relação da palavra com a libertada não se limita ao poema de abertura do livro. Ela permeia o livro, atravessando todo o trabalho como se fosse uma linha invisível a ligar versos e idéias. No poema Libertação, a recorrência de um dístico marca o ritmo dessa interação entre o uso das palavras e o desejo de liberdade.



Lá vem a palavra

Arrastando mais uma liberdade.



Consciente de que o ato de escrever é fruto não só da imaginação, mas também de intensas leituras de autores modelares que são absorvidos ao longo dos anos de contato com os livros, Sonia Almeida faz uma grande homenagem àqueles que sedimentaram seu caminho rumo a uma formação letrada. Desse modo, o poema R(d)eferência é muito mais do que um amontoado de nomes de escritores de títulos de livros, torna-se uma espécie de guia de leitura para quem também deseje mergulhar na mais genuínas águas literárias.

Em Palavra Cadente, livro prefaciado por Lygia Bojunga Nunes, a escritora continua envolvida com a metalinguagem, porém de forma mais contida. Contudo a relação com a palavra continua como um imperativo dos versos. Metaforizando a imagem da lua como reflexo do próprio ser humano que se metamorfoseia ao longo de seus ciclos e, em suas constantes mudanças, interfere na própria natureza, a autora trabalha constante jogos de palavras, com alterações sutis na forma que demandam imensas alterações no significados das palavras. Na leitura de diversos poemas, pesquisadora da Língua não consegue se esconder por trás da poetisa. Uma voz sempre alerta às questões vernaculares aproveita-se da poesia para trabalhar tanto a essência metafórica dos versos quanto as relações semânticas que se alteram com breves permutas de fonemas, como no poema abaixo.

A estrela esclarece

quem vem de encontro,

quem vem ao encontro,

de encontro a mim.



a estrela esclarece

quem vem ao encanto,

vindo contra mim;



quem vem de encontro,

quem vem ao encontro,

quem vem ao encanto,

quem vem contra mim.



A palavra esclarece.



            Em outros poemas a relação palavra-vida toma ares de essência vital para a existência do Ser. Não se entrega ao leitor/ouvinte apenas os versos impressos em uma página. Entrega-se um pouco de quem pôs nas palavras o transpor das emoções para o papel,  como pode ser visto em um dos últimos poemas do livro.



E eu me entrego no verso

quando o meu verso lhe entrego,

porque a palavra é feita dessa vida

mas o que eu faço é uma vida de palavra.

(...)

Porque se eu quiser morrer,

o meu desejo é feito de palavra.

Se eu quiser viver, basta querer

E a palavra faz.



            Em Há Fogo no Jogo, os elementos lúdicos do início do livro são aos poucos substituídos por vigorosas imagens que podem até mesmo confundir o leitor menos atento. O trabalho com a linguagem novamente deixa entrever, pelas frestas dos versos, a professora de Língua Portuguesa em constante trabalho com as armadilhas do idioma. As figuras de linguagem se multiplicam nas páginas e convidam a uma reflexão mais apurada. O leitor tem que ler os versos e também concentrar-se nos aparentes vazios textuais, afinal:



O silêncio é o calar, mas nem sempre o não-dizer.

Da mesma forma que a cinza pode estar quente,

o gelo pode queimar.



Sonia Almeida trabalha em todos os seus livros uma grande alegoria do Ser ou pelo menos da busca do Ser. E essa busca passa não apenas pelo sentir, mas também pelo dizer, pelo pôr no papel as alegrias e angústias do dia a dia. Na obra dessa autora, o crepitar do fogo e das chamas não se perde, ele ilumina palavra cadentes e tira da penumbra o vazio da existência humana.

Para Sonia Almeida, a palavra e o poeta estão imbricados e formam um todo que pode até se esfacelar, mas que não se perde. Como ela mesma declara:



Sob a tutela da palavra,

O poeta se livra.

Sob a condição da palavra

O poeta se escraviza...

Sob o jugo do verso, o poeta se faz.

Sob a servidão do verbo, o poeta é.











OBRAS DA AUTORA

Produção individual

·         Alegoria (prosa poética, 1992)

·         Tribuzi, Bandeira Poética de São Luís (ensaio, 1996)

·         Penumbra (poemas, 1998, com segunda edição em 2003)

·         Palavra Cadente (poemas, 2001)

·         Aula de Redação: uma viagem transdisciplinar (ensaio didático, 2004)

·         Há fogo no jogo (poemas, 2005)

·         Escrita no ensino superior: a singularidade em monografias, dissertações e teses (ensaio acadêmico, 2011)



Produção em coautoria



·         Linguagem

·         Ler para aprender

·         Anotações sobre linguagem

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ilhavirtualpontocom nº 12

Caros amigos, 
Chegamos ao 12º número de nosso Ilhavirtualpontocom. Desta vez temos:
- Em perfil literário de Laura Amélia Damous, por Arlete Souza Menezes
- Entrevista com Claunísio Amorim, por Ricardo Miranda Filho
- Poesia de Ricardo Miranda Filho
- Cronica de José Luís Carvalho dos Santos
- Chamada para colaboração no Projeto Gonçalves Dias


Você pode baixar o informativo em PDF clicando aqui, ou lê-lo abaixo...









sexta-feira, 20 de abril de 2012

CAFÉ LITERÁRIO

O projeto Café Literário é uma excelente iniciativa da professora e escritora Ceres Costa Fernandes. Na última terça-feira de cada mês, poetas, prosadores, críticos e pesquisadores em geral se reúnem no Centro Cultural Odylo Costya, filho para uma conversa sobre arte, literatura ou outro assunto de interesse cultural. No dia 24 de abril, convidado especial é  Hildeberto Barbosa Filho, que é  "Professor, Poeta e Critico literário. Autor de inúmeros livros na área da literatura, envolvendo poesia, ensaios, críticas e jornais literários. Membro da Academia Paraibana e Letras e da Academia Paraibana de Filosofia. Possui doutorado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (2000), Mestrado em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1987), graduação em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (1983), graduação em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (1978). Atualmente é professor titular da Universidade Federal da Paraíba." (fonte: Lattes)

Na ocasião, o crítico literário falará sobre a obra de Nauro Machado.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CRÔNICA DE CERES COSTA FERNANDES

A pedido da professora e escritora Ceres Costa Fernandes, reproduzimo aqui sua crônica FOGO OU PARANOIA, publicada em O Estado do Maranhão em 15 de abril de 2012.


                             FOGO OU PARANÓIA 2
                         Ceres Costa Fernandes
                            O Estado do Maranhão, 15 de abril de 2012

               Não sei bem quando a paranoia de morrer queimada em um grande incêndio começou. Mas, com certeza, foi há bastante tempo. A paúra já estava em ação, quando minha filha mais velha, esportista tricampeã  do Colégio Dom Bosco, esforçada e valente, acumulava luxações e dores lombares e decidimos apelar a um famoso quiroprático visitante, venerável senhor, que atendia em casa de família amiga. Isso, seja dito,  após tentarmos os protocolos normais da medicina.
          Durante a sessão de desentorta, sem mais o quê, repentinamente, o profissional dirige um olhar ao fundo dos meus olhos e declara, sentenciosamente: A senhora tem mais de quatro mil anos!  Indignei-me, mulher nenhuma aceita uma sentença tão desfavorável sobre sua idade, ainda mais que, na época, eu ainda era jovem. Ele, sentindo o meu desconforto, explicou. Isso se deve ao fato de que a senhora já reencarnou muitas vezes. Campainhas soaram nos meus ouvidos, vai ver que meu medo de fogo vem de vidas passadas! Apresso-me em perguntar: em alguma vida passada morri queimada?  
     Preparo-me para a resposta.  Quem sabe eu teria sido Joana d’Arc ou uma das bruxas de Salém Ou, talvez, matrona romana, tenha torrado no incêndio de Roma imputado a Nero, ou mesmo no grande incêndio de Londres, o do século 17  – nem pensar em  aceitar reencarnar em papéis insignificantes na história da humanidade. Ele me diz, Não sei, não tenho acesso a esse tipo de informação. Murchei. Fiquei sem saber, mas desconfio que andei metida, sim, em algum incêndio em uma das minhas reencarnações.
      Se não, como explicar que, em todos os ambientes que adentro pela primeira vez, vou logo observando os aparatos contra incêndios: se há chuveirinhos no teto, extintores à mão, janelas prontas para um pulo, onde se situam as portas corta-fogo, as saídas de emergência, etc. E. ai, meu Deus, me preocupam ainda os tapetes e o excesso de cortinas; se o piso é de lajota ou de madeira...
       Os hotéis, esses aí, especialmente os europeus, os antigos, tão pequenos e graciosos, com escadas forradas de tapetes, paredes de tecido e piso encarpetado, me deliciam e me assustam. Estive em mais de um em que os corredores pareciam túneis de tecido. Nesses – além das providências já mencionadas –, não fico acima do quinto andar e, isso, só após conferir a quantidade de lençóis do quarto e me certificar se o comprimento deles – feita uma “teresa” –, dá para escapar pela janela dos fundos;
     Que me desculpem os felizes desavisados não atingidos por essa fobia, mas os meus companheiros de infortúnio me entendem e darão razão.
    Em vista do que foi dito, vou confessar-lhes o que muitas vezes me ocupa a mente em suas horas vadias (as tais da insônia nas madrugadas ou as da prisão em engarrafamentos): o crescimento vertical de São Luís. Faz pouco tempo, tínhamos apenas três edifícios na cidade antiga: o João Goulart, o Caiçara e o Edifício BEM. Agora, na cidade nova, o que se vê são muralhas de prédios. Com a liberação do gabarito – o céu é o limite –  temos prédios de quinze andares, sem contar os andares com salão de festas, garagens, academias e outros mimos. Espero que todos esses estejam equipados com tudo o que há de mais moderno em prevenção de incêndios, quem sabe até heliportos.
      Tentando fugir dos assaltos, nutro pretensões de me mudar de casa para um apartamento, a contragosto de toda a família, seja dito.  Seguindo a minha paranoia e para não sair da frigideira e cair no fogo – sem trocadilhos –, decidi me informar sobre as condições do nosso valente Corpo de Bombeiros. Não quero assustar ninguém, mas creio que a briosa guarnição não está suficientemente equipada para o atendimento desse crescimento vertiginoso de edifícios. Segundo colhi, as nossas escadas Magirus (duas) alcançam somente 30 e 36 metros, a altura de um edifício de mais ou menos sete andares, menos os andares extras de festas, garagens, jogos. Parece haver seis carros  em ação. Em um incêndio que devastou uma loja de 1,99, na COHAB, soube que a mangueira não funcionou.
   E os hidrantes? Dizem que há 80. Alguém sabe onde se encontram? Aqui, no Olho d’Água, nunca vi nenhum. Soube que há alguns no aeroporto do Tirirical. No Centro Histórico, conheço vários, não sei se ainda funcionam. Outro problema é que lá acontecem muitos dias sem água, digamos assim.
    Feitas as contas, acho que um apartamento até o quinto andar, com hidrante perto, janelas com sacadas grandes, rua larga de trânsito fácil (!) para o acesso dos carros de bombeiros, vai bem. Mesmo com esses requisitos, pretendo levar para lá escadas de corda, ganchos de ferro e outros equipamentos que tais. Talvez até um parapente...Aceito sugestões.
ceresfernandes@superig.com.br

sexta-feira, 6 de abril de 2012

ILHAVIRTUALPONTOCOM 11

Chegamos ao décimo primeiro número de nosso informativo sobre as letras maranhenses. Neste volume temos textos sobre Coelho Neto e Baial Ramos, além da poesia de Xavier de Carvalho. Clique aqui para ler ou baixar o informativo em PDF

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eva Chatel, uma prosadora


A PROSA CRÍTICA E REFLEXIVA DE EVA CHATEL

José Neres
(Professor de Literatura. Coordenador do projeto Sistema Literário Maranhense.)



            Uma das grandes angústias de quem se dedica às letras é a pergunta tantas vezes revisitada sobre a utilidade da arte literária. Muitas pessoas imediatistas querem que a literatura tenha obrigatoriamente uma utilidade prática no dia a dia; outras consideram que o ato de ler não deva ser visto unicamente como uma tarefa que busque um fim fora de si mesmo, mas admitem que a literatura e a leitura em geral são essenciais para a formação do ser humano. Há também quem defenda a ideia de que a literatura seja apenas um suporte para a manutenção das ideologias dominantes, de perpetuação no poder de elemento e instituições que usam as letras como forma de eternizarem-se como figuras hipoteticamente importantes. Também existe quem acredite ser a literatura um importante instrumento de libertação coletiva ou individual, servindo a palavra escrita como fonte de reflexão sobre os acontecimentos norteadores do destino da humanidade.
                Para que serve a literatura? Para ensinar? Para divertir? Para eternizar  ideologias? Para trazer à realidade as mirabolantes histórias que povoam o fértil imaginário de um escritor? Ou, quem sabe, como forma de ganhar dinheiro sentado diante de uma folha de papel ou da tela de um computador?  Contudo, diante da sensação de ser levado pelas aventuras de um romance, de ser embalado pelo ritmo cadenciado de um poema ou de vivenciar a essência humana nos diálogos de uma peça teatral, o questionamento sobre a utilidade da literatura se torna uma discussão sem muita importância.
            Durante o ato de leitura, a pessoa mergulha não apenas nas denotações e conotações expressas pelas palavras, mas sim em um processo de conhecimento do próximo e de autoconhecimento. Ninguém que leu com atenção um bom livro sai das páginas do texto da mesma forma que entrou. Sai transformado, mas crítico, mais atento e muito mais humano.
            E é isso o que acontece quando se chega à última linha de um dos contos de “Substantivo Próprio” ou ao final de um dos dezoito capítulos da novela “De Volta”, ambos de autoria de Eva Maria Nunes Chatel, experiente professora de língua e literatura que resolveu brindar seus alunos, colegas, admiradores e leitores com sua prosa bem articulada e cheia de densidade crítica e psicológica.
            Em Substantivo Próprio, que traz como subtítulo “Fábulas Humanas”, a autora optou pela narrativa curta, centrada em breves contos nos quais as mazelas humanas são tratadas de forma lírica e contundente ao mesmo tempo. As histórias aparentemente banais e que podem ser vivenciadas cada rua de uma cidade qualquer podem até parecer simples à primeira vista. Contudo essa aura de cotidiano é sempre quebrada com reflexões que saem do senso comum e alcançam as profundezas da alma humana, sem deixar de lado a preocupação com o bem-estar social, econômico, físico e moral das pessoas.
            Em cada conto, no total de catorze, Eva Chatel associa os acontecimentos narrados às características inerentes a um animal. Nessas verdadeiras fábulas humanas, uma mulher trabalhadeira como Josefa, que é humilhada por sua condição profissional e social, pode decidir continuar sendo considerada apenas uma peça na engrenagem da exploração pecuniária ou estudar com o intuito de sair da miséria econômica e, principalmente, conseguir ser respeitada como ser humano que é. Sua teimosia é metaforicamente comparada à de uma jumenta, que “é teimosa, mas sabe dar coices certeiros” (p. 35). Anastácia, em outro conto, mãe de diversas crianças, percebe que sua prole pode seguir o mesmo destino dos filhotes dos porcos, ou seja, podem ser destinados ao abate. Da mesma forma, seres humanos como Alberto, Damião, Margarida, Marcelo, Oliveira e todas as outras personagens parecem fadados ao fracasso, há,  contudo, nos contos um fio tênue de esperança, que pode vir em forma de educação ou de esforço próprio. Porém, de modo geral, as personagens da prosa de Eva Chatel são sempre seres que “suportam dores, calúnias e desprezo até a última de suas mortes, a qual não causa piedade em quase ninguém” (p. 80).
            Os contos têm como título o nome dos protagonistas e contam com ilustrações feitas pela própria autora. Todavia, embora os nomes individualizem as personagens, o que se percebe é que uma possível troca de nomes não alteraria a situação de nenhum desses elementos marginalizados pela sociedade. Mesmo com nome, todos eles não passam de seres anônimos levados por uma enxurrada de desilusões pessoais e de falta de políticas públicas que lhes tragam alento.
            Na novela “De Volta”, apesar da previsibilidade do desfecho, o leitor se vê preso em um emaranhado de temas que se multiplicam formando uma rede de discussões acerca da própria essência humana e de suas inúmeras ramificações. Utilizando-se do fato de a protagonista, uma senhora octogenária, estar em estado de coma, Eva Chatel aproveita-se dessa imobilidade corpórea para demonstrar como o ser humano é muito mais que um corpo, muito mais que matéria. Livre das amarras das limitações físicas, a narradora vai flanando por ambientes e situações aparentemente corriqueiras, mas que, quando vistas sob outro prisma, ganham densidade e podem servir de base para inúmeras reflexões acerca do homem, seus sentimentos, seus defeitos e virtudes.
            Um bom exemplo disso está no capítulo intitulado Das Necessidades, em que o olhar penetrante da narradora percorre lugares diversos e nota que “muitas pessoas necessitam de apetrechos materiais para se sentirem completas. O planeta poderá até não mais existir em função do acúmulo de poluição, mas ninguém aceita se desvencilhar de nenhum detalhe material que o coloque em vantagem em relação aos outros seres humanos” (p. 31). De forma lírica, mas sem perder de foco as mazelas que atravancam os caminhos do povo, a escritora mostra que as necessidades vão além do que é realmente podendo servir com algemas para quem coloca a matéria acima de tudo.
            Se a cada capítulo do livro o leitor nem sempre pode esperar uma surpresa ou uma reviravolta, é certo que ele encontrará matéria suficiente para mudar o modo de pensar sobre os detalhes aparentemente irrelevantes do cotidiano ou pelo menos para refletir a própria existência humana, pois a narrativa, como comenta o professor Dino Cavalcante na última capa do livro, “expõe, através de um jogo discursivo bem elaborado, as vísceras de uma sociedade cada vez mais individualista, mas materialista, mas capitalista, mas (sobretudo) cada vez mais carente de sentimentos humanos”.
            Com esses dois livros, Eva Maria Nunes Chatel, quase que sem querer, contribui para a resposta das questões levantadas no início deste artigo. Para que serve a literatura? Talvez para fazer o ser humano sentir-se cada vez mais Humano. E isso não pode ser considerado pouca coisa.