domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ilhavirtual9

Apresentamos nosso nono número do informativo literário Ilhavirtualpontocom. Para baixá-lo em PDF, clique aqui ou leia-o logo abaixo.

Neste número, há comentários sobre a música de Ary Otello, a prosa de Maria Firmina dos Reis, os conos de Bruno Tomé, além de uma poema de Rafaela Cristina Rocha sobre as mazelas de São Luís. Boa leitura a todos


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PAPOÉTICO


UM PAPO ÉTICO E POÉTICO
José Neres


Paulo Melo Sousa: fonte a imagem: internet
                As pessoas, em sua maioria, tendem a esperar que todas as ações saiam da iniciativa dos poderes constituídos. Com nem sempre há o interesse político de fazer algo pelo povo, essas pessoas acomodadas acabam paradas no tempo, na vã expectativa de que, em uma canetada oficial, todos os problemas sejam resolvidos. Como a mão que segura a caneta quase nunca faz o que a grande massa quer, todos ficam a ver navios, lanchas, trens, ônibus... lotados de incertezas.
                No entanto, outras pessoas percebem que para fazer algo nem sempre a subvenção pública é essencial ou imperativa e, com coragem, senso de oportunidade e muita, muita criatividade, conseguem dar vida nova ao que a maioria já julgava morto ou pelo menos em coma. Nesse segundo grupo, pode-se inserir o nome do poeta Paulo Melo Sousa, que, com uma visão de homem inteiramente voltado para a cultura, idealizou e pôs em prática o projeto Papoético, que acontece normalmente uma vez por semana.
                Recitais, lançamentos de livros, exibição de filmes, discussões filosóficas e exposição de ideias são algumas das muitas atividades que fazem desse projeto algo singular em nossa capital. Para começar, Paulo Melo Sousa encontrou um local que junta praticidade, música e poesia em poucos metros quadrados: O bar/sebo/livraria do Chiquinho, na Rua de São João. Logo na chegada, o visitante se encanta com a decoração que o fará voltar no tempo e com a acolhida do dono que vem abrir a porta e dar as boas vindas. Após subir as escadas, um mundo de livros, discos de vinil e de imagens, espera quem deseja alguns minutos mergulhado nem um rio de cultura e de diversão.
                Utilizando o e-mail e as informações boca a boca como principais formas de divulgação, o mentor do projeto consegue arregimentar as pessoas que frequentam o local. Nem sempre o público é grande, mas sem dúvida é sempre bastante atento às discussões levantadas no evento e dali podem surgir novas ideias e assuntos que irão além do senso comum e das discussões televisivas sobre as moças bonitas e os galãs fabricados pela mídia. A conversa ali costuma girar em outras esferas mais elevadas...

Nos encontros semanais, o público pode entrar em contato com o que é produzido nas artes contemporâneas maranhenses e brasileiras e ainda poderá encontrar com algumas pessoas que têm participação ativa na construção da cultura contemporânea. Na última quinta (16.02), o professor e cientista político Flávio Reis recepcionou dezenas de pessoas que foram prestigiar o lançamento do livro Guerrilhas, uma coletânea de artigos escritos na última década e que mantêm seu grau de atualidade por conta das temáticas escolhidas e da forma de abordar os assuntos
Quem for ao Papoético não irá se arrepender e perceberá logo que uma boa ideia pode ser levada à prática mesmo sem o apoio logístico das autoridades. E quem ganha com isso são os amantes das artes, que ganharam um elegante espaço para um papo que é sempre poético, mas sem perder o senso ético.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Semana de Arte Moderna


SEMANA DE ARTE MODERNA: 90 ANOS
José Neres



                Os momentos de ruptura com uma tradição já arraigada são essenciais para a renovação artística de um povo e para o aparecimento de novos valores e de novas concepções artísticas. No início do século XX, o Brasil passava por grandes mudanças políticas, econômicas e sociais, mas continuava atrelado à tradição no que dizia respeito às artes. As Vanguardas Europeias arregimentavam seus simpatizantes e começavam a dar seus primeiros frutos em terras brasileiras, contudo a maior parte da pequeníssima população letrada brasileira continuava adepta dos padrões clássicos.
            Por conta desse apego à tradição, autores de grande talento, como Lima Barreto e Augusto dos Anjos, que produziram obras de alto nível literário, não conseguiram projeção entre seus contemporâneos, que não viam com muita simpatia as inovações temáticas e linguísticas de autores não alinhados com o estilo preconizado pelo mundo acadêmico.
            Ainda no início do século XX, algumas atitudes isoladas tentavam quebrar as barreiras da tradição e mostrar para a população que as artes em geral podem ser representadas de formas diversas, que o diferente e o exótico também poderiam ser apreciados e que o Brasil precisava abrir-se para novas linguagens artísticas. Revistas e jornais alternativos apareciam e despareciam. Exposições de quadros e esculturas tentavam incutir no público um sopro renovador, mas os efeitos desses esforços eram atomizados por severas críticas que quase sempre desestimulavam os poucos que tentavam expor seus trabalhos aparentemente inovadores.
            Foi no início de 1922, mais exatamente no dias 13, 15 e 17 de fevereiro que, de modo mais ou menos organizado, os intelectuais insatisfeitos com os rumos das artes no Brasil conseguiram impor o golpe mais contundente em uma tradição que parecia querer se perpetuar. Nessa data histórica, há 90 anos, era realizadas a Semana de Arte Moderna, evento que deu início ao movimento modernista no Brasil.
            Logisticamente amparados e contando com anúncios rudimentares, porém eficientes para a época, ativistas culturais como Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira (que não pôde ir ao evento), Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Di Cavalcanti, Paulo Prado e muitos outros homens e mulheres preocupados com o atraso cultural do Brasil mudaram, com esse evento, a forma de ver, discutir e produzir arte.
            Mas como quase todos os participantes eram ainda muito jovens e com pouca ou nenhuma projeção nas artes, o grupo precisava de um nome forte que pudesse chancelar o evento e que também levasse público pelo menos para a palestra inicial. Coube ao escritor maranhense Graça Aranha esse papel de abrir a solenidade como a palestra “A Emoção Estética da Arte Moderna”, proferida no dia 13 de fevereiro daquele ano.
            Mas foi no segundo dia do evento, em 15 de fevereiro, uma quarta-feira, que ocorreram alguns dos momentos mais memoráveis da Semana. O público, não entendendo aquelas pinturas, esculturas, músicas a que os organizadores e palestrantes teimavam em chamar de arte, manifestava-se de forma agressiva, furiosa e até violenta, com vaias, palavras de baixo nível e inclusive tentativas de agressões físicas. Tudo piorou quando o poeta Ronald de Carvalho recitou o poema “Os Sapos”, escrito por Manuel Bandeira. Os refrões onomatopaicos que lembravam o coaxar dos anfíbios que davam nome ao texto incitaram o público a reagir com relinchos, miados, latidos e muitos gritos. Para a maioria dos visitantes, aquilo não poderia ser chamado de poesia. Era loucura! Provavelmente, boa parte dos presentes nem mesmo percebeu as ácidas críticas de Bandeira ao estilo parnasiano, que contava com muitos admiradores naquela época.  
            Nessa segunda noite de novidades e revoltas extremas, os ânimos só foram acalmados pela intervenção musical da pianista Guimar Novaes que, fugindo à proposta inicial da Semana, tocou composições de Chopin e Schumann. Para os exaltados manifestantes, aquilo sim era música, era arte de verdade. O restante não passava de aberrações sem a menor possibilidade de ser chamada de arte.
            No terceiro e último dia, as vaias escassearam... e o público também. Devidamente avisadas das “bizarrices” que aconteciam no Teatro Municipal de São Paulo, algumas pessoas que planejavam assistir aos últimos momentos do evento desistiram e o enceramento tinha tudo para ser tranquilo. Mas o calçado destoante de Heitor Villa-Lobos causou revolta. Segundo ele, aquela atitude tida como rebelde se devia muito mais à inflação causada por um calo que ao desejo de chocar os presentes.
            Terminada a Semana, durante dias ela ainda era motivo de polêmica. Muitas pessoas acusavam os organizadores de confundirem arte com manifestações explícitas de irresponsabilidade. Outras, raríssimas, consideram as ideias ali defendidas válidas e dignas de apreciação. Os jornais, em sua maioria, teciam comentários nada elogiosos aos participantes da S.A.M. , duvidando inclusive da sanidade daqueles jovens metidos a artistas.  Aparentemente o evento havia sido um fracasso, mas na prática ele marcou o início de uma nova era nas artes brasileiras.  A partir daqueles três dias alternados, o modo de pensar escultura, música, pintura, literatura e todas as demais representações artísticas foi drasticamente alterado. Não era mais apenas o padrão acadêmico que imperava. Ele começava a dividir espaço com novas técnicas e estruturas antes inimagináveis.
            Mesmo passadas nove décadas da semana que revolucionou as artes no Brasil, percebe-se que ela ainda é pouco estudada e pouco documentada. Embora nos últimos anos tenham surgidos alguns trabalhos sobre a Semana de Arte Moderna, ainda falta muito a ser esclarecido sobre esse evento e seus reflexos na cultura brasileira. Tentando preencher essa lacuna, Josué Montello coligiu uma coletânea de textos sobre o evento e o publicou, em 1994, sob o título de “O Modernismo na Academia: testemunhos e documentos”, uma leitura obrigatória para quem pretenda compreender as origens do movimento modernista.
            Por uma razão só explicável pela nossa histórica falta de memória para os acontecimentos culturais, a Semana de Arte Moderna, que tanto barulho causou e que fez tantas vozes serem ouvidas ao longo dessas décadas, completa seus noventa anos envolta em um incômodo silêncio, como se fosse apenas mais uma curiosidade nas páginas de um livro didático.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

LIVROS A MÃO CHEIA


TRÊS BOAS ESTREIAS
José Neres


            Em uma época em que o leitor de livros impressos começa a ser visto como um ser estranho e até mesmo anacrônico, sempre é bom saber que ainda há pessoas dedicando-se à produção de textos literários de bom nível e que se arriscam, mesmo contra a lógica mercadológica, a investir na produção e na divulgação de livros.
            Infelizmente, quase sempre o lançamento de um livro se transforma em um primeiro passo para o esquecimento de sua existência. Em nossa sociedade contemporânea, falta quem comente os novos autores e lhes dê estímulo para continuar na constante luta com versos e parágrafos. Como os trabalhos intelectuais publicados quase sempre caem no ostracismo, sem repercussão nem mesmo nos círculos de amizade, alguns escritores simplesmente desistem de publicar seus livros, deixando as gavetas cheias de originais, alguns de boa qualidade.
            Registremos aqui os trabalhos de três escritores estreantes de nossa terra. Seus livros foram publicados entre a metade de 2011 e o início de 2012, sendo, portanto, bastante recentes e quase desconhecidos da maioria do público leitor.
            Comecemos com a escritora Eva Maria Nunes Chatel, que publicou concomitantemente a novela “De Volta” e o livro de contos “Substantivo Próprio: Fábulas Humanas”.  No primeiro título, a autora faz um périplo pelas inusitadas visões de uma anciã em coma. Narrado em primeira pessoa pela protagonista, o livro não traz apenas uma história em vários breves capítulos, mas sim abre espaço para a reflexão do leitor a respeito da própria existência e da fragilidade da natureza humana. No outro livro, Eva Chatel, em contos curtos, metaforiza as mazelas humanas. Homens, mulheres, adultos e crianças são amalgamados às características de animais dentro de uma sociedade pretensamente civilizada, mas que nega às pessoas as condições de viver com dignidade.



            Saindo do campo da prosa de ficção e mergulhando na poesia, Carvalho Junior trouxe à luz o seu “Mulheres de Carvalho”, no qual o autor brinca de modo sério com as palavras, produzindo imagens poéticas de excelente qualidade. Suas temáticas são geralmente líricas, mas sem decair na pieguice sentimentalista tão comum nos poetas estreantes.  Com bom humor, Carvalho Junior trabalha temas que vão do sentimento amoroso não correspondido ao preconceito racial, passando por poemas telúricos em homenagem a sua cidade natal, um erotismo sutil e incursões pela metalinguagem. Tudo temperado com intenso trabalho com as palavras, a fim de tirar delas o máximo dos efeitos poéticos.
            Finalmente temos “Palavras ao Vento”, livro de Lindalva Barros, que com esse título estreia no mundo da poesia. Explorando a espacialização das palavras e os vazios entre os versos, a escritora esculpe em seus versos as antigas angústias do ser humano, com a solidão, a inexorável passagem do tempo e a inefabilidade da dor do existir e repetitiva rotina imposta pela vida. Seus versos são curtos, mas vigorosos, sem muita preocupação com a métrica ou com os esquemas rímicos tradicionais, porém carregados da essência humana, o que torna cada poema mais próximo ao leitor, já que a principal fonte de inspiração da autora é a complexa simplicidade da vida humana.
            Eva Chatel, Carvalho Junior e Lindalva Barros são apenas alguns dos nomes de autores que publicam seus livros e que transformam palavras em obras de arte. Felizmente não são nomes isolados em nossa terra. Há muitas outras pessoas produzindo bons textos e à espera de leitores que transformem páginas escritas em pedaços compartilhados da experiência humana.

CONTATO COM OS AUTORES E POSSÍVEL 
AQUISIÇÃO DO LIVRO

Os Livros de Eva Chatel podem ser adquiridos no seguinte no site da editora All Print

O livro de Carvalho Júnior pode ser adquirido pelo site da Café e Lápis Editora ou em contato com o próprio autor por seu blog

O livro de Lindalva Barros pode ser adquirido com a autora pelo seu e-mail ou por seu blog

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tom Jobim

Esse poema foi  publicado há mais de uma década, mas acredito que ainda tem muito a dizer sobre esse compositor e músico fantástico que nos deixou verdadeiras obras de arte.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

LIVRO DIGITAL GRATUITO




Caros amigos, estamos disponibilizando neste momento este livro sobre a vida e a obra de Adelino Fontoura, patrono da cadeira nº 1 da ABL, mas quase desconhecido do grande público. Além de um estudo sobre o poeta, nesse livro há também uma coletânea de poemas do escritor falecido precocemente.
Este livro é parte do projeto Sistema Literário Maranhense: Hipermídia e Hipertexto e pode ser encontrado também na versão impressa em bibliotecas, com a finalidade de divulgar as letras maranhenses.

AUTORES: José Neres, Jheysse Lima Coelho e Viviane Ferreira
NÚMERO DE PÁGINAS: 83


Quem quiser baixar o livro em PDF, clique AQUI.

Ou visualizar o trabalho abaixo.
Desejamos uma boa leitura a todos e bons momentos com a leitura desse poeta esquecido



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CAOS NO TRÂNSITO


ARMADURAS MODERNAS
José Neres


Aproveite e veja também o desenho animado que é citado no texto






 
            Ao folhear livros de História ou ao assistir a filmes sobre a Idade Média e sobre as arenas romanas, é possível que perceber que os homens que iam para as batalhas costumavam resguardar os corpos da melhor maneira possível. Armaduras, elmos, escudos, protetores de tórax e todos os apetrechos possíveis para proteger-se dos impactos com os adversários eram utilizados pelos guerreiros. A intenção maior era evitar que durante os combates os ferimentos causados pelas refregas ceifassem a vida dos lutadores. Ao mesmo tempo, toda essa proteção, juntamente com os equipamentos de ataques, era usada também para causar danos aos adversários.
            Hoje, muitos séculos após as Cruzadas e as batalhas pela vida e pela honra nas arenas, o homem continua na busca de algo que possa evitar seus ferimentos, mesmo que seja a custa de sérias lesões ou até mesmo da vida de outras pessoas. As armaduras tradicionais foram abandonadas e agora fazem parte do acervo de museus ou servem como parte da indumentária de filmes de época. Em seu lugar, apareceu algo bem mais moderno que teria como principal utilidade ajudar no deslocamento de pessoas e de cargas, mas que pode servir ao mesmo tempo como instrumento de defesa e de ataque, podendo evitar que o guerreiro contemporâneo tenha seu corpo estraçalhado, mas que pode inutilizar parcial ou permanentemente alguma pessoa desavisada que tenha o azar ou a imprudência de cruzar com o proprietário dessa armadura moderna em um momento de desatenção, imperícia ou de arrogância.  Essa nova arma de combate utilizada tanto por pessoas sérias e responsáveis quanto por boçais que não dão o maior valor à vida alheia é chamada veículo motorizado, podendo atender por diversos nomes: moto, carro, caminhão, ônibus...
            Os noticiários mais recentes não deixam dúvida de que a cada dia que passa o homem vem utilizando-se do carro como uma armadura protetora e como instrumento de combate em uma guerra urbana em que quase todos saem derrotados ou pelo menos lamentando a perda de um ente querido.
            Ao entrar em um carro, o cidadão comum parece ser tomando pela síndrome do Sr. Weeler, personagem criado por Walt Disney e representado pelo Pateta, que, ao ligar seu automóvel assume a postura de um monstro do trânsito, desrespeitando faixas, sinais e todas as regras da civilidade. Porém ao se ver novamente na condição de pedrestre, reclama da falta de educação dos demais condutores.
            Ao volante de um carro possante, o bom garoto do bairro pode ser convertido em um demônio irresponsável que faz zig-zag, entra pela contramão, vocifera contra quem cumpre a lei. O pai de família, ao ligar o carro, às vezes se transforma em um lunático que acredita ser sua pressa maior que a dos demais e põe em risco não somente a segurança de sua família, mas também a de todos os que estão a sua volta. O homem pequenino que mal consegue sustentar o peso do próprio corpo, quando está sentado diante da direção de seu carro sente-se como um gigante de músculos de aço capaz de tirar de sua frente todos aqueles que atravancam seu caminho. A delicada mulher, de sorriso encantador de modos educados, ao soltar o freio de mão e entrar no fluxo das avenidas, ou mesmo antes disso, sente-se senhora de todos os poderes do mundo e crê que pode ganhar tempo e encurtar distâncias à custa do pavor inoculado nos olho dos pedestres e dos demais condutores. Isso sem falar nas pessoas que jamais apresentaram uma capa de civilidade e aproveitam o carro para dar vazão a seus instintos criminosos.
            Os mortais gladiadores modernos vestem a armadura de metal revestida com a blindagem da impunidade ou pelo menos usam o capacete da intolerância e do descaso e fazem de cada rua uma arena, com corpos espalhados no asfalto ou na areia. Quando têm suas armaduras amassadas, confiscadas ou destruídas, compram uma nova e continuam matando sob o manto protetor das frágeis leis.

sábado, 31 de dezembro de 2011

ILHAVIRTUALPONTOCOM Nº 8

Amigos e amigas,

No apagar das luzes deste ano de 2011, disponibilizamos mais um exemplar do noso informativo ILHAVIRTUALPONTOCOM, para lê-lo em PDF, clique AQUI






domingo, 18 de dezembro de 2011


LER PELO PRAZER DE LER
José Neres
(O Estado do Maranhão, 18/12/2011)


Fonte da imagem: internet
            Ler é a chave para a aquisição de todo o conhecimento humano acumulado desde tempos imemoriais. Claro que além da leitura há diversas outras forma de aprender, no entanto ela é capaz de facilitar todo esse processo e de tornar menos tortuosos caminhos que nem sempre gostaríamos de trilhar.
            Mesmo em um momento histórico de constantes incertezas e de fluidez de relações e de costumes, o conhecimento não técnico e a experiência leitora parece estar perdendo terreno para atividades que tragam um retorno pecuniário, de preferência a curto ou, no máximo, a médio prazo. Dessa forma, foi gestada a ideia de que ler é perder tempo e que a nada leva.
            Ironicamente, em uma sociedade que valoriza a velocidade e a multiplicidade de eventos concomitantes, as ferramentas tecnologicamente mais avançadas exigem que o usuário tenha que ler, ler e ler. Porém esse tipo de leitura que busca informações, dados e meios de agilizar o tempo de resposta e de otimizar os processos de produção está inserido mais no âmbito da mecanização das relações que na saborosa busca do saber sem compromisso com os utilitarismos da vida contemporânea.
            Assim como os alimentos consumidos no dia a dia servem para nutrir nosso organismo, fornecendo-nos energia para as lides cotidianas, a leitura pode ser metaforicamente vista como uma das fontes de energia que manterá viva em cada ser humano a chama do desejo de aprender e de compartilhar experiências com o mundo que nos rodeia, fazendo com que nosso cérebro tenha seu estoque de informações constantemente renovado.
            Mas ler não é apenas correr os olhos por uma folha de papel ou pela tela de um computador. Ler vai muito além do ato mecânico de decodificar, palavras, frases e parágrafos. Há quem acredite também que a qualidade da leitura esteja diretamente relacionada com a quantidade de páginas lidas em determinado intervalo de tempo. Na verdade, o processo de aproveitamento do que foi lido nem sempre obedece à lógica preconizada pela matemática. Então, dessa forma, alguém pode ler pouco e ter um excelente aproveitamento das páginas lidas. Por outro lado, uma pessoa que tenha devorado com os olhos quilômetros de páginas talvez não tenha retido informações suficientes para dizer que realmente leu algo.
            No meio de uma selva oscura em que a quantidade tem se tornado bem mais requisitada que a qualidade, o prazer de ler parecer ter ficado também em segundo plano. Lê-se para uma prova. Lê-se para buscar uma informação urgente. Lê-se para lutar por uma promoção no emprego, para montar um aparelho eletrônico, para descobrir onde mora alguém... Todos os tipos de leitura são válidos e merecem os devidos aplausos. Mas a modalidade de leitura mais interessante é aquela descompromissada, livre de obrigações, sem interesse de produzir uma resenha ou de conquistar uma nota...
            Em pé, deitado, sentado ou mesmo andando, o mais eficiente tipo de leitura é aquele que se transforma em prazer a cada linha devorada e que é capaz de levar o leitor a sair de sua realidade e conhecer novos ambientes, nova idéias e a conviver o inesperado, com o inefável de novas descobertas. Quando a leitura se torna uma fonte de prazer constante e inesgotável, a pessoa descobre que ler pela simples vontade de ler é uma forma de viver.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SOBRE A FEIRA DO LIVRO


REPENSANDO A FEIRA
José Neres


         Com bastante atraso, a população ludovicense teve neste fim de ano mais uma edição da Feira do Livro. Com fraca (ou quase inexistente) decoração, sem a presença de grandes nomes da literatura nacional, a quinta edição da FELIS tem tudo para ser considerada a menos organizada e, talvez, a menos movimentada. A desculpa da greve dos policiais e a consequente insegurança da população para sair de casa não parece ser a mais plausível, já que os bares da capital continuavam lotados, com ou sem a presença de policiais nas ruas...
         O evento em si, nos primeiros momentos, contou apenas com a propaganda boca-a-boca entre as pessoas que vivem nos meios literários e algumas pessoas que passavam pela Praça Maria Aragão e viam os operários montando as tendas. Por sinal, até a hora da abertura do evento, nem todos os ambientes estavam prontos causando constrangimento aos visitantes, que tinha que tomar todo cuidado com os materiais soltos e que poderiam trazer perigo aos transeuntes.
         De modo geral, a V Feira do Livro teve acertos e erros. Dentre os acertos está a escolha dos homenageados (Aldo Leite, João do Vale, Sonia Almeida e Mário Meirelles) pessoas ligadas à arte, com um patrono (José Chagas) que merece todas as homenagens. No entanto o que novamente se viu é que essas homenagens praticamente se limitaram a algumas imagens e a nomes dados aos locais do evento. Seria bom que houvesse também mais palestras e circuitos de discussão sobre a obra dos homenageados, além de exposição de seus trabalhos, o que, infelizmente, não aconteceu.
         A comissão organizadora, ao distribuir os espaços deveria preocupar-se também com o conforto acústico dos palestrantes, visitantes e demais convidados, pois o que se viu foi uma disputa desleal entre escritores no espaço de lançamento de livros ou no Café Literário e os sons externos, que variavam ente o burburinho comum dos transeuntes, músicas e outras apresentações paralelas. Também não ficaram claros os critérios de distribuição dos ambientes climatizados. De um lado, havia espaços lotados, com pessoas se abanando com livros, jornais e revistas, e do outro, salas vazias devidamente climatizadas...
         O público, que andou sumido no início, reapareceu nos três primeiros dias, mas o interesse maior não parecia ser assistir às palestras, aos lançamentos de livros ou conhecer as novidades literárias. Muitos foram apenas para atualizarem seus perfis nos sites de relacionamento. Isso pode ser constatado pelo grande número de pessoas empunhando máquinas digitais e pelas poucas sacolinhas recheadas de livros. Para melhorar o volume de vendas, algumas promoções eram feitas, inclusive com o sorteio de um computador portátil e uma cesta de livros, além do adiamento do encerramento oficial do espaço destinado à comercialização dos, que ficará aberto até o dia 06, quando será inaugurada a Árvore de Natal, com a presença o Papai Noel – talvez só ele mesmo para trazer de presente um pouco de esperança para nossa gente!
         Os debates foram de bom nível, com palestrantes que se dispuseram a compartilhar um pouco de seus conhecimentos, de suas angústias e de suas experiências com o mundo das letras. Infelizmente o público andava meio arredio e quase sempre o palestrante falava para os próprio familiares ou para amigos que prestigiavam sua performance. Mas quem se aventurou a entrar em um dos espaços de lançamento de livro, palestra ou relato de experiência não se arrependeu e, certamente, aprendeu bastante naqueles minutos de interação cultural.
         Outro lado bom da história é ver crianças e jovens circulando entre livros. Se não compravam, pelo menos tinham contato direto com alguns escritores ou, no mínimo, se divertiam com o ambiente festivo do evento. Todos nós estamos torcendo para que no próximo ano todos os comentários sejam positivos ou então que as falhas, que sempre hão de existir, sejam suplantadas pela imensa quantidade de acentos. São Luís e sua população merecem esses momentos em que as artes em geral sejam o centro da atenção da cidade.