Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de agosto de 2011

CONTO: DIA DOS PAIS


Continuando a série de contos sobre datas especiais (infelizmente, por falta de tempo, não pude postar alguns, que virão ano próximo). Apresento a vocês nossocnto sobre o dia dos pais.

DIA DOS PAIS
 José Neres


                A notícia de que era pai veio com a mesma intensidade de um chute nos testículos. Ele jamais havia imaginado que aquela transa meio torta no muro do cemitério teria consequências tão drásticas. E ela nem era tão gostosa assim! Mas acidentes acontecem...
                A criança agora estava com sete anos. O exame de DNA era totalmente dispensável. Bastava olhar o garoto e ver as inúmeras semelhanças. Qualquer foto do pai com a mesma idade poderia ser confundida com a do filho que agora lhe era apresentado. Não tinha como não assumir a paternidade. A mãe da criança não pedia dinheiro, nem casa, nem nada. Apenas o nome dele no registro de nascimento. E uma visita vez ou outra. Era uma espécie de presente dado ao menino que sempre pedia para conhecer o pai.
                O encontro entre os três se deu em um shopping movimentado. Um pai, uma mãe, um filho... nenhuma família. Cumprimentou o garoto com um sorriso amável. O mesmo que ele oferecia a seus clientes na hora de fechar um negócio. Nada mais... Para a mãe, o olhar foi um pouco mais demorado. Ele estava bonita. Ganhou corpo e agora despertava um desejo carnal do qual não se lembrava e ter tido naquela fatídica noite. Aquele decote generoso e as pernas torneadas em nada lembravam aquela criatura esmilinguida que trincava os dentes para não gritar durante o prazer compartilhado naquela noite de São João.
                As diversas redes sociais de que ele participava foram decisivas no acompanhamento da vida do pai da criança. Ela sabia que ele estava noivo. Que o casamento seria dentro de alguns meses. Que a noiva era bonitona, rica e metida a modelo fotográfico... Tudo o que um perfil falso inserido na lista de amizades virtuais poderia mostrar. Ela estava bem informada. Ele ignorava até mesmo o nome dela. O menino levava o primeiro nome dele.
                Uma solução era reconhecer a criança. A noiva deveria entender tudo. Ela sabia que ele nunca fora santo. A outra solução era arrumar um jeito de limpar o próprio passado. Na semana seguinte seria o dia dos pais. Uma excelente oportunidade de pôr seus planos em prática. Tudo limpo. Tudo feito de modo rápido. A criança não tinha culpa do descuido dos dois.
                Uma desculpa qualquer e estava livre para passar parte do domingo dos pais com o filho. Na cabeça, o plano engrenava com maior convicção, não deixando que o pai aproveitasse o lanche, o sorvete, o parquinho. Olhava o menino e via os problemas do futuro. Via os recibos, as notas fiscais, as listas de livros... Não via felicidade. Só problemas.
                Mas o garoto era esperto, conversador, cheio de histórias para contar. Não parava de falar. O pai a nada ouvia, mas o menino se entusiasmava com a inédita figura paterna a seu lado. A felicidade inundava seus olhos. Era hora de voltar. O plano já tomava ares de solução imediata para todos os problemas. Hora e voltar. No carro, o menino insistia em ir no banco de trás. Argumentava com o pai usando os argumentos aprendidos na escola sobre regras de trânsito. Mas a vontade de ver o mundo pelo para-brisa foi mais forte. Para que cinto? Homem que é homem tem que andar livre... O menino sorriu. O pai era um herói que de nada tinha medo.
                Beijou a testa do filho. Duas lágrimas rolaram pela face. Colocou o cinto e segurança em si mesmo. Deu partida no carro e viu a sua frente a reta estrada que lhe traria algumas complicações, mas que o conduziria à liberdade. Um homem tinha que andar sempre livre. Acelerou o carro. Tinha um compromisso inadiável com algum dos postes que beiravam a estrada da vida.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

CONTO DE FIM DE ANO


FELIZ ANO NOVO
(José Neres)

- Ei rapaz, você por aqui!?! Quanto tempo!!!
- Pois é, voltei.
- Que tem feito da vida?
- O de sempre. Trabalhando como um burro de carga.
- Mas as últimas informações que tive suas eram muito boas. Estava morando na Europa, com um alto cargo em uma multinacional...
- É verdade, mas acabei de voltar. Vou gerenciar a filial da empresa aqui.
- Caramba, que maravilha! Fico feliz por você... Mas me conta, e como vai a vida sentimental?
- Na mesma de sempre. Depois da separação, ainda procuro a pessoa que preencherá meu coração.
- Entendo.
-E você? Soube que se casou e que tem dois filhos...
- Nossa, como você sabe disso? Estava tão longe daqui...
- Rapaz, você nem imagina o que se é capaz de saber com essa tal de internet. Vez ou outra faço uma visitinha virtual a meus amigos. Mas cadê sua esposa, seus filhos? Quero conhecê-los.
- Isso é fácil. Estão bem ali no restaurante. Imagina que só voltei ao carro para pegar a carteira e tive a sorte de encontrar você. Nunca esperava...

(...)

- Marisa, esse é meu grande amigo Marcello. Um amigo que não vejo faz muito tempo...
- Prazer, senhora. A senhora é realmente muito bonita. O Serginho falou muito bem da senhora. Esse deve ser o Pedrinho e essa mocinha linda deve ser a Sandrinha.
- Isso mesmo, são meus dois filhinhos amados. Mas querido, convide seu amigo para sentar. Vamos esperar a queima de fogos. Esse ponto aqui é o melhor de todos.
- Não se i se ele tem algum compromisso. Tem Marcello? Tem algum encontro marcado? Se não tiver, pode ficar conosco...
- Como eu disse, acabei de chegar e ainda não refiz os laços. Você é o primeiro conhecido que encontro e...
- Então está decidido. Vamos pedir champanhe para comemorar esse reencontro.
- Um brinde a sua família!
- Um brinde ao ano novo!
- Um brinde ao nosso reencontro!

(...)

- Foi uma bela passagem de ano. Obrigado a vocês. Nossa as crianças estão caindo de sono... Acho que é hora de eu deixar vocês voltarem para casa. Depois os convido para um jantar, mas dessa vez eu pago...
- Que nada! Rachamos a conta...
- Marisa, foi um prazer conhecer a felizarda que fisgou o Serginho...
- Prazer foi todo meu... Por falar nisso, Marcello, onde você deixou seu carro?
- lá no início da avenida. Rodei bastante atrás de uma vaga. Mas parece que todo mundo resolveu vir para cá hoje...
- Querido, não vamos deixar esse rapaz tão simpático andar tudo isso. Faça o seguinte. Leve-o até o carro dele, que nós esperamos aqui...
- Você é que manda, querida.
- Tchau, Marisa, foi um prazer. Quando as crianças acordarem, dê um beijo em cada um por mim.
- Ok. Feliz Ano Novo.
- Volto já já, querida...

(...)

- Bela família a sua. Parabéns.
- Tive sorte...
- Mereceu. Sempre foi um homem admirável... Ah, ali está meu carro. Pode me deixar aqui mesmo... Volte rápido, sua mulher e seus filhos estão esperando...
- Ainda temos alguns minutos. Quero aproveitá-los a seu lado...
- Serginho...
- Marcello...
- Um beijo... como nos velhos tempo...
- Como nos velhos tempos...

(...)

- Tchau... Feliz Ano Novo...
- Já tem o endereço do hotel onde estou morando... Espero você. Tchau...
- Pode deixar... Feliz Ano Novo...
- Tenho certeza que será um ano especial....

Fonte da imagem: INTERNET



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

UM CONTO DE NATAL


FONTE DA IMAGEM: internet


UM CONTO DE NATAL
José Neres

Noite Feliz, noite feliz
Hó Senhor, Deus do amor
Pobrezinho nasceu em Belém (x2)
Eis na lapa Jesus, nosso bem
Dorme em paz, ó Jesus
Dorme em paz, ó Jesus

         Ele ainda se lembrava do sabor do caríssimo champanhe Francês com que brindaram o último Natal. O ano anterior fora maravilhoso. Farto. Perfeito. Em alguns segundos, ele recordou o ar de felicidade da esposa, quando abriu o embrulho e se deparou com o colar cravejado de brilhantes. Esboçou um breve sorriso ao trazer à memória a cara de susto da filha que, dentro da caixa que continha o desejado celular de última geração, encontrou também um envelope com as passagens para a Europa. O filho do meio estava radiante com a quantidade de jogos eletrônicos que recebera. Nem ligou para as roupas caríssimas que estavam nos outros pacotes... O caçula brincava com os inúmeros brinquedos. Todos estavam felizes naquela noite. Cada filho se isolou em seu quarto, enquanto a esposa compensava com gemidos o presente recebido.
         Mas, meses depois, uma crise desceu sobre a empresa. As dívidas se acumulavam e os credores protestavam por fax, e-mail, telefone e, pior, por intermédio de oficiais de justiça...
         A filha teve de voltar mais cedo da viagem. O celular caríssimo já estava fora de moda e já não tinha um plano ilimitado, mas sim créditos mensais, de preferência com bônus. Os jogos e brinquedos foram deixados de lado. O colar acabou, juntamente com outras jóias recebidas em outras datas festivas, penhorado na Caixa Econômica Federal...

Então é Natal, pro enfermo e pro são.
Pro rico e pro pobre, num só coração.
Então bom Natal, pro branco e pro negro.
Amarelo e vermelho, pra paz afinal.
Então bom Natal, e um ano novo também.
Que seja feliz quem, souber o que é o bem.
Então é Natal, o que a gente fez?
O ano termina, e começa outra vez.
E Então é Natal, a festa Cristã.
Do velho e do novo, o amor como um todo.
Então bom Natal, e um ano novo também.
Que seja feliz quem, souber o que é o bem.

         A Voz da cantora Simone inundava o carro. Os presentes deste ano eram bem mais modestos: Um passeio pelo shopping, um lanche em um fast food, uma sessão de cinema e brincadeiras no parquinho eletrônico. Essa a festa possível.
         No banco de trás, a filha, emburrada por não receber um novo celular, olhava a monótona paisagem. Os garotos, como sempre, brigavam. O casal seguia calado. Só a voz da Simone reinava ali.
         Após o lanche, chegou a vez do passeio pelas lojas superlotadas. Pela primeira vez a esposa disse uma frase tão comum aos pobres mortais: “estou só olhando...”
         Não havia mais ingresso para o filme que queriam. O que foi bom, pois sobraria mais dinheiro para os jogos. Depois comprariam um DVD no camelô, era mais barato e mais prático.
         Começaram os joguinhos no parque. A princípio, tudo estava sem graça. Depois, cada ponto se convertia em brilhos no olhar. O brilho evoluiu para abraços e os gritos de vitória envolviam não só a família, como também os demais frequentadores do parquinho. Todos os problemas se esvaneciam diante da cumplicidade de múltiplos olhares.
         Na volta para casa. A Simone vinha muda. Não precisavam mais dela. As conversas animadas preenchiam aquelas cinco vidas.
         Em casa, brindaram com refrigerante e, à meia-noite, trocaram sorrisos e abraços. Os filhos estavam felizes. Nunca esperavam que naquele Natal ganhariam um Pai de presente.
         No quarto, a sós, marido e mulher se despiram das máscaras e, nus, se presentearam com a essência do amor verdadeiro. Nesse Natal, ele aprendeu que gemidos de prazer são bem melhores que gemidos de gratidão.
         O veneno comprado no dia anterior acabava de perder sua utilidade.
        

quarta-feira, 28 de julho de 2010

CONTOS EM DUAS LETRAS

 Na falta do que fazer, surgem algumas brincadeiras com a linguagem, como, por exemplo, os dois continhos que seguem. Espero que gostem...
 

VIRGEM VIOLENTADA
 José Neres

Fonte imagem: http://surtocoletivo.files.wordpress.com/2009/08/abuso_sexual1.jpg?w=250&h=383
          
  - Vô Valdemar, Vitório violentou Virgínia!
            - Viche! Verdade, Valberto ?
            - Verdade verdadeira, vovô! Vicente viu.
            - Vamos ver. Vizinhança vem vindo. Vamos, Valberto.
            - Vamos, vovô!...

---------------x-------------------

            Várias vezes, Vovô Valdemar vira Virgínia varrendo varanda. Vestidinho vermelho, velhinho... Vendendo vitalidade. Virgínia valorizava virgindade, vivia vangloriando-se: “Vivo virgem, valorizo-me.”
            Verdadeiro voyeur, Vitório vigiava Virgínia. Violentava-a visualmente. “Vou ver Virgínia varrendo. Voltarei.”
            Vicente, vagabundo velhaco, vaticinou: “Vai violentá-la. Vou ver, vou ver...” Vicente viu.
            Vestidinho vermelho, Virgínia varria varanda. Vitório vinha vindo. Virgínia virou-se, viu Vitório violentamente vencê-la, virá-la, violentar-lhe ventre virgem, verter vertiginoso vômito viril.
            Vicente viu Virgínia vestir velhíssimo vestido vermelho. Virgínia Voltou. Vicente viu vidro. Viu veneno. Viu Virgínia, vermelha, vomitar verde vômito. Vicente viu vida vazia.



COLEGAS
José Neres

Célio Costa conheceu Cristiane Castro comprando calcinhas. Começaram conversando, combinaram comer camaroada. Comeram. Conversaram. Conquistaram-se. Começaram comprar coisas: copos, colheres, colchas, cobertores, cama...
Casa comprada, casaram-se.
Célio Costa começou comparar Cristiane Castro com Carlinha, colega conversadeira, comprometida com Carlos Custódio, cognominado Carlão, conhecido comerciante carioca. Carlão comercializava cocaína, crak, canabis...
Carlão começou com ciúmes.
Célio comentou com Carlinha. Carla contrapôs:
- Como ciúmes? Carlão confiava cegamente.
Contudo Carlão considerando-se corno, convocou curriola, combinou castrar Célio, caso confirmasse corneação.
Começou caçada.
Célio Costa conversava com colegas, comia codorna. Comemorava campeonato com cerveja, cachaça, conhaque. Chegou Carlão com canalhada. Carlinha conversava com Célio.
Correria.
Célio cai. Carlão com cutelo corta-lhe calça. Célio chora. Com calma, Carlos Custódio corta-lhe caroços.
Chega Cristiane. Corajosa, corre contra Carlão. Chora. Curva-se, chora:
- Covarde, covarde, castrou Célio, covarde!
Carlão corre.
Célio, castrado, chorava.

domingo, 28 de março de 2010

LIVRO GRATUITO

Agora você pode baixar gratuitamente nosso livro 
50 PEQUENAS TRAIÇÕES em PDF.
Basta você clicar AQUI
Pronto, basta esperar o arquivo abrir.
Você pode lê-lo ou baixá-lo para seu computador
Para fazer o download e salvar em seu computador, basta clicar no ícone que lembra um disquete.

Em breve disponibilizaremos também o já esgotado NEGRA ROSA E OUTROS POEMAS.
Vote em nossa enquete

Um abraço

sábado, 21 de fevereiro de 2009

OS CONTOS CRUÉIS DE BRUNO TOMÉ FONSECA


Acabo de reler (sim, de reler mesmo, pois esse trabalho merece ser lido e relido) os originais de CONTOS CRUÉIS, livro de estreia de Bruno Tomé Fonseca. Não sei quando será lançado o livro, mas espero que seja em breve, pois as letras maranhenses carecem de prosadores de talento que engrossem nossas fileiras literárias.

São apenas sete contos, a maioria com narração em primeira pessoa, mas que trazem em comum personagens angustiadas e que buscam desesperadamente encontrar um motivo para continuar a própria existência. Ironicamente, o autor coloca no mesmo patamar de tédio e de angústia, um escritor de best sellers, uma lésbica abandonada pela parceira, um advogado em crise existencial, um músico cheio de frustrações e duas bactérias que mantém um diálogo ao mesmo tempo filosófico a respeito da própria existência e da possibilidade de haver vida além do “túnel úmido”.

O desejo de conhecer o mundo e ao mesmo tempo de (re)conhecer-se como parte integrante das sempre contraditórias insanidades do mundo; a certeza de alcançar seus objetivos plenamente e a busca desesperada por algo que possa encher o vazio do viver são as marcas essenciais dos CONTOS CRUÉIS de Bruno Tomé Fonseca. Os leitores mais acostumados com as narrativas contemporâneas não deixarão de identificar nos contos algumas pinceladas de leituras de Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Dalton Trevisan... e voltando um pouco mais no tempo, de Franz Kafka, Charles Bukowski e Roberto Arlt, mas sem tentativa de imitação, mas apenas de inspiração técnica e temática.

Esperemos que o livro seja editado e chegue às mãos de quem aprecia a literatura contemporânea. Alguns contos podem chocar leitores mais sensíveis, mas isso é bom, pois, às vezes é preciso lembrar ao mundo que além das rosas e dos jardins há também o esterco, os porcos e as bactérias.