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terça-feira, 18 de outubro de 2011

UBIRATAN TEIXEIRA

UBIRATAN TEIXEIRA EM SEU 
DIÁRIO DE CAMPO
José Neres


            Em seus oitenta anos de vida, Ubiratan Teixeira tem sido admirado como fecundo cronista, talentoso prosador, excelente crítico e notável teatrólogo. Todas essas características podem ser atestadas pelos diversos prêmios recebidos ao longo de uma vitoriosa trejetória de luta com as palavras escritas e, principalmente, pela leitura de sua vasta produção intelectual, que vai desde textos curtos para jornais até bem elaboradas obras de ficção, passando também por um livro voltado para o público infanto-juvenil e pelo essencialíssimo Dicionário de Teatro.

            Mas além de todos esses predicados acima mencionados,Ubiratan Teixeira deve ser visto também com importante testemunha dos principais acontecimentos culturais ocorridos no Maranhão desde a segunda metade do século XX até este início de século XX. Mas ele não se limitou a ser mais uma testemunha da história a guardar os episódios nas retinas e na memória. Ele tomou a decisão de compartilhar esse momentos com seus seus inúmeros leitores. Com isso, o conjunto de crônicas e artigos de UT pode servir de base para pesquisas ou para uma leitura mais aprofundada dos diversos momentos culturais cobertos pelo autor em seus textos semanais.

            Como o texto de jornal parece já nascer com data marcada para morrer, e o periódico que hoje está cheio de novidades será amanhã utilizado para inúmeros outros fins, que quase nunca têm relação com a leitura, a solução encontrada pelos cronistas para dar perenidade a seus textos é enfeixá-los em forma de livro. Foi isso que fez Ubiratan Teixeira, que reuniu 80 de suas crônicas/ensaios em um livro significativamente intitulado “Diário de Campo”  (Ética Editora, 2010).

            Teatro, exposições, artes plásticas, música, literatura e todo um universo cultural que gira em torno de São Luís e do Maranhão como um todo, mas que quase sempre é relegado a um segundo plano no olhar das autoridades e das pessoas em geral, contituem o epicentro dessa obra em que Ubiratan Teixeira mostra que ser testemunha da História não é sinônimo de ser passivo. Em cada página, o leitor entra em contato com importantes momentos de nossa cultura, com eventos que hoje são apenas lembranças (ou nem isso mais) na combalida memória de um povo que fecha os olhos para seus valores,  com nomes essenciais para o desenvolvimento das artes nas terras de Gonçalves Dias.

            Em 252 páginas de um livro que pode ser lido de um só fôlego ou saboreado aos poucos, sem preocupação com a ordem dos textos, o experiente cronista “passeia” pelo mundo das artes e conduz o leitor pelas encruzilhadas nem sempre bem iluminadas de nossa cultura. Dono de um estilo característico, que mescla um tom coloquial com boa dose de crítica e um olhar arguto sobre situações praticamente invisíveis para quem não está envolvido com o quase sempre desprezado mundo das artes, Ubiratan Teixeira não se omite de deixar suas impressões acerca dos fatos retratados, e isso dá um sabor especial aos textos, que deixam de ser meras observações e podem ser lidos como fragmentos de pensamentos de um dos mais privilegiados observadores de eventos que quase sempre são vistos apenas em sua superfície.

            “Diário de Campo” é um livro leve e denso ao mesmo tempo. Leve pela linguagem, pelo estilo do autor, que sabe pesar muito bem em cada crônica/ensaio bom humor e a acidez de um olhar crítico. Denso por tratar de temas que exigem reflexão a cada parágrafo e por deixar evidente que um assunto tão importante quanto a cultura quase sempre e deixado de lado em um Estado que deveria valorizar mais quem produz ou investe em arte.

quarta-feira, 23 de março de 2011

COELHO NETO

COELHO NETO: DA FAMA AO ESQUECIMENTO
(O Estado do Maranhão,  23 de março de 2011)
Jheysse Lima Coelho
José Neres

            Henrique Maximiano Coelho Neto (1864-1934) é um dos mais prolíficos escritores da literatura brasileira. Dono de uma copiosa produção literária, que vai do conto ao romance, passando pela poesia, pelo teatro e por outros gêneros, o intelectual maranhense nascido em Caxias teve seus momentos de glória do final do século XIX até as primeiras décadas do século XX, quando seu nome era aclamado pelos amantes das letras.
            Ao longo de sua carreira, Coelho Neto galgou todos os degraus da fama e do sucesso. Foi eleito, por voto popular, Príncipe dos Prosadores Brasileiros, tornou-se membro fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras, sendo também o primeiro brasileiro indicado para um Prêmio Nobel de Literatura, além de conquistar o mercado editorial no Brasil e em Portugal, país no qual sua obra teve excelente recepção. Admirado por uma multidão, Coelho Neto teve ainda em vida todas as glórias que poderiam ser destinadas a um homem de letras, mas décadas após a sua morte, teve quase todo o seu trabalho relegado ao ostracismo e acabou ficando mais conhecido na historiografia literária por sua riqueza vocabular e por seus giros sintáticos do que pela arquitetura e pela inventividade de seus textos.
No romance “A Conquista”, publicado em 1899, Coelho Neto abordou, principalmente através das personagens Anselmo e Ruy Vaz, a marginalização que os escritores sofriam naquela época. Além de ser indiscutivelmente uma crítica à sociedade, o romance também não deixa de conter uma curiosidade: será que há ali uma espécie de premonição para o que viria acontecer posteriormente com o até então quase incontestado escritor? Certamente, Coelho Neto não imaginaria que isso poderia acontecer-lhe, logo com ele, que era o autor mais festejado de seu tempo, uma espécie de best-seller da época. Mas o parecia improvável aconteceu e nos dias atuais Coelho Neto é um nome raramente citado nas academias e nem mesmo pronunciado pela maioria dos jovens, que desconhecem a produção literária desse escritor maranhense.
Torna-se muito simplista, porém, afirmar que o autor de “Banzo”, “O Morto” e “A Capital Federal” não seja lido na atualidade apenas por não ser mais um romancista mercadologicamente atrativo, por não estar na lista dos livros mais vendidos, por não ultrapassar a tiragem de milhões de exemplares ou por não ter suas obras transformadas em filmes Hollywoodianos. Claro que todo esse marketing seria válido e até influenciaria na mudança do horizonte de expectativas dos hipotéticos leitores. Entretanto não foi essa a principal causa da marginalização da obra de Coelho Neto.
O pesquisador Eliezer Bezerra, em seu livro sobre o prosador maranhense, denominou esse movimento de rejeição à obra coelhonetiana de onda modernista e comenta que uma campanha de apagamento da importância literária de Coelho Neto foi desenvolvida por algumas pessoas (denominadas pelo ensaísta de pseudomodernistas) incapazes e ambiciosas por glória sem esforço. Historiadores literários como Antônio Soares Amora e Massaud Moisés, por outro lado, apontam como causas principais do esquecimento do autor de “Miragem” a irregularidade de sua obra e os exageros no uso do vernáculo, o que poderia dificultar o acesso das novas gerações aos trabalhos do escritor
O fato é que Coelho Neto tem seus méritos e, assim como todos os demais escritores da época, meu contribuiu para o engrandecimento a nossa história literária. Livros como “A Conquista”, “Turbilhão”, “Rei Negro” e “Sertão” são algumas das obras de Coelho Neto que ainda podem despertar o interesse dos leitores da atualidade, mas, infelizmente raramente são encontrados nos catálogos das editoras e nas prateleiras de livrarias e bibliotecas, o que se torna mais um obstáculo na tentativa diminuir a concepção de que Coelho Neto é um escritor sem importância para a atualidade.

sábado, 5 de junho de 2010

NOVO LIVRO DE WALDEMIRO VIANA

A TARA SOB A TOGA
José Neres


            Criar uma obra literária a partir de um acontecimento histórico é sempre uma tarefa que exige muito cuidado por parte do escritor, que pode deixar o livro com ranço de puro historicismo sem valor estético ou descaracterizar totalmente o fato que serviu de base para a narrativa e fugir completamente do enredo original, criando uma versão quase que totalmente desvinculada do modelo adotado.
            Por outro lado há também os interesses do público leitor. Algumas pessoas querem transformar Literatura em registro fidedigno da História e não se conformam com as liberdades criativas do ficcionista que, livre das amarras da cientificidade, não tem compromisso com a verdade, precisando apenas manter uma coerência interna para com os episódios apresentados. Há quem pegue um romance, não para se deleitar com o valor artístico da obra, mas sim para apontar possíveis falhas históricas do autor. Mas também há pessoas que se sentem lesadas quando a narrativa literária fica muito colada aos acontecimentos já conhecidos e de domínio público. Tais leitores geralmente alegam que o papel do escritor é oferecer um outro olhar dos fatos, e não apenas reproduzir fontes documentais com roupagem literária.
            Buscar um equilíbrio entre a força criativa da ficção e o respeito a um roteiro já traçado pela veracidade dos fatos, entre o estilo individual e as expectativas dos leitores não é uma tarefa fácil. Mas foi o que conseguiu o escritor maranhense Waldemiro Viana, em seu mais recente romance “A Tara e a Toga”, que traz de volta às letras o conhecido crime cometido pelo desembargador Pontes Visgueiros contra sua amante Mariquinhas.
            O livro, além de presentear o leitor com uma narrativa ágil e envolvente, traz também belíssimas ilustrações assinadas pelo artista Jesus Santos, que, com seu talento já tantas vezes reconhecido, conseguiu captar a essência da narrativa e traduzir em traços e cores os momentos capitais do romance.
            Possivelmente usando como fonte de pesquisa o livro “O caso Pontes Visgueiro: um erro judiciário”, de Evaristo de Moraes e outras obras sobre o famoso caso, Waldemiro Viana reconstrói o cenário da época do crime, imiscui personagens à trama, reconstitui diálogos que poderiam ter acontecido, arquiteta situações que costuram o romance e tempera tudo com boas doses de sarcasmo, erotismo e de suspense. E ainda aproveita para homenagear alguns amigos e confrades que aparecem sutilmente em alguns momentos na trama.
            Algumas cenas do romance são antológicas, como, por exemplo, o momento em que, cego de paixão, o desembargador vai ao Largo dos Remédios e lá encontra sua amada nos braços de outro. A fúria toma conta do velho magistrado que, vendo-se traído, toma satisfações de sua protegida e desce aos mais baixos degraus da escala humana, vivendo, em um curtíssimo intervalo de tempo, sensações que vão do ódio profundo à vergonha de ver a própria família a presenciar seu vexame, passando também pela humilhação de ter sua vida íntima exposta em público, pelo desespero de conviver com a impotência física e moral e, ao mesmo tempo pela certeza da dependência dos vícios e dos prazeres carnais proporcionados pela infiel amante. A cena final do livro também é carregada de ironia e de uma pitada de bom humor, sem perder o foco da narrativa.
            Outra cena muito importante e que terá significativo valor para o desfecho da obra é a da estada de Pontes Visgueiro no Piauí. Os episódios se encaixam de modo perfeito e divertem o leitor com o canhestro casal que se forma a partir de um encontro fortuito. O contraste entre a decadência física do desembargador e suas atitudes de incorrigível conquistador demonstra a habilidade do romancista em oscilar entre o trágico e o cômico com a mesma destreza.
            Muito mais que narrar uma história tantas vezes contata e recontada e que já faz parte do conhecimento público, Waldemiro Viana aproveitou as quase duas centenas e meia de páginas do livro para traçar um perfil psicológico das duas personagens centrais. No entanto, o desembargador é o que recebe maior atenção na construção da personalidade. Sua figura caricata desperta no leitor um misto de pena e riso. O ridículo, em várias passagens da obra, serve como contraponto do drama existencial vivido por um homem dividido entre a sisudez da toga e as alegrias de poder realizar suas taras, não importando o preço a ser pago no balanço final.
            Com mais esse livro, Waldemiro Viana presta um importante serviço aos admiradores de sua obra, da boa literatura e  até mesmo àquelas pessoas que querem apenas divertir-se com as efemérides de nossa História.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


NAURO MACHADO, O ENSAÍSTA

José Neres


Quando se fala em Nauro Machado, vem logo à mente de muitas pessoas a figura do poeta de versos inusitados que condensa em cada poema um universo de imagens e que transfigura seu mundo interior (e também o circundante) em metáforas alheias ao óbvio da versificação vazia de conteúdos. Algumas pessoas chegam mesmo a afirmar que o poeta de “Campo se Base” é um escritor hermético e inacessível em suas produções literárias. Os admiradores veem em Nauro Machado o toque do gênio que foge às convenções formais e que sempre procurou imprimir suas digitais em cada página escrita. Mas poucos se lembram que além de grande poeta, Nauro Machado é também um ensaísta de excelente estirpe.


Dono de um conhecimento de poesia que vai além do provincianismo, o escritor vez ou outra publica em jornais suas impressões acerca das obras lidas e, em trabalhos de extensões variadas, demonstra um grande grau de erudição associada a um aguçado olhar crítico. Assim como em sua poética, também em sua produção voltada para o estudo de outros autores, Nauro Machado não deixa que o superficialismo tome conta de suas palavras. Isso exige do leitor uma atenção maior ao se deparar com alusões a obras e autores nem sempre conhecidos da boa parte do público.


Recentemente relançado, o livro “As Esferas Lineares” traz uma excelente amostragem do senso crítico do grande escritor maranhense. Analisando com total coerência e com grande acuidade intelectual a obra de quatro dos principais expoentes da poesia e da prosa maranhense do século XX, Nauro Machado não fica no simples achismo nem no superficialismo de quem tateia um terreno desconhecido. Muito pelo contrário. Ele se mostra extremamente seguro ao comentar os principais traços estéticos e estilísticos de Bandeira Tribuzi, José do Nascimento Moraes, José Chagas e Erasmo Dias.


No primeiro ensaio, intitulado “Tribuzi, Bandeira Lírica do Amor Social”, Machado faz um passeio pela poética do autor de “Breve Memorial de um Longo Tempo”, analisando alguns de seus temas recorrentes e mostrando como o grande poeta tecia suas metáforas em busca das imagens poéticas que saltavam de cada um de seus poemas.


Logo depois, há um ensaio um pouco mais longo sobre “A Escrita Polêmica de José do Nascimento Moraes”, no qual analisa o estilo combativo do autor de “Vencidos e Degenerados”. Além de fazer um corte esquemático na produção de Nascimento Moraes, Nauro aproveita para situá-lo ao lado de outros grandes prosadores e poetas que também deixaram suas marcas nas letras nacionais.


Ao investir na análise da produção artística de José Chagas, Machado constrói um dos mais completos e elucidativos textos sobre o autor de “Os Canhões do Silêncio”. Nesse ensaio, os admiradores do poeta paraibano, que traz o Maranhão na alma e nos versos, poderão ter uma visão panorâmica, porém bastante ampla do uni(verso) recriado nas palavras de Chagas.


No último ensaio do livro, Nauro Machado dá um mergulho no passado da Cidade e resgata a figura de Erasmo Dias. Mesclando episódios marcantes da vida do escritor, que se fundem com a própria história da cidade, o texto é capaz de despertar um misto de sentimentos por parte de quem vivenciou ou não a complexa relação entre Erasmo Dias e sua época, que não está tão distante assim.


Em suma, “As esferas Lineares” de Nauro Machado giram em torno não apenas de autores e de obras, mas sim resgatam e eternizam a poeticidade de quatro homens que traduzem ou traduziram em palavras os gritos silenciosos que ecoarão durante muito tempo pelas estreitas ruas de uma cidade que sangra versos, que chora esquecimentos, mas que jamais deixa de jorrar por meio de suas pedras de cantaria o mágico encanto das palavras.

sábado, 30 de janeiro de 2010

PROSA DE RICARDO LEÃO

OS DENTES ALVOS DE RADAMÉS

José Neres


“Faz algum tempo que concluí meu delito. Não se trata, contudo, de mais um crime, realizado às pressas, como tantos outros. A minha obra é, com efeito, um consumado objeto de arte. Eu a executei com toda a perícia, argúcia e artimanhas necessárias, todos os cuidados e aparatos possíveis, as luzernas acesas, enquanto combatia o alvo silêncio dos urinóis.(...) Muitos de meus inimigos estão à espreita, à espera de um deslize, qualquer, por mais insignificante que pareça, a fim de capturar-me e conduzir-me aos verdugos do castelo”

É com esse intrigante e convidativo solilóquio que Ricardo Leão inicia seu livro Os Dentes Alvos de Radamés, uma das obras vencedoras do concurso literário promovido pelo Governo do Estado do Maranhão.

A princípio, em um mero folhear de páginas e em leituras rápidas de trechos aleatórios, alguém pode pensar que se trata de um romance, de uma novela ou de uma coletânea de contos que giram em torno de temáticas que vão de crises existenciais a busca de soluções para corriqueiros problemas mundanos, passando por uma infinidade de outros assuntos, sempre centrados na angústia e/ou nas psicoses humanas.

Contudo, em uma leitura mais atenta, fica bem claro que o livro não pode ser facilmente encaixado nos gêneros literários mais tradicionais. Nos vinte e quatro capítulos que compõem o livro, quase todos compostos de um único parágrafo, o narrador conduz o leitor pelas furtivas veredas de um mistério que se potencializa ou se esvai de acordo com os interesses que se ocultam a cada linha.

Fisgado pelas primeiras palavras do texto, o leitor começa a devorar as páginas do livro em busca de explicações sobre qual foi o crime cometido, sobre quem são os inimigos que se escondem nas sombras das palavras. Experiente no uso da linguagem literária, Ricardo Leão investe no jogo de mostrar escondendo e de esconder mostrando. Dessa forma, traça um percurso narrativo cheio de peripécias, mas com um objetivo centrado na dubiedade comportamental das personagens.

De forma proposital, o autor parte da fluidez das incertezas e vai sedimentando com dúvidas e armadilhas o trajeto a ser percorrido rumo às respostas. O ponto de chegada é certamente uma incógnita planejada. No caminho, em meio a estratégicas digressões e profundos mergulhos nos sempre perigosos mares de erotismo e sensualidade, está a construção de um texto arquitetado na certeza das incertezas de um experimentalismo amadurecido pelos anos de contato com as páginas de grandes escritores como Poe, Borges, Eco, Hoffmann, Kafka, Cortázar e outros.

Porém se engana quem pensar que as atitudes experimentalistas do livro são meros pastiches de autores lidos. Muito pelo contrário, Ricardo Leão imprime suas digitais em cada página de sua narrativa e constrói as personagens com a segurança necessária para despertar no leitor os mais diversos sentimentos com relação às situações expostas a cada página de uma abra que exige atenção e cuidado por parte do leitor.

Os Dentes Alvos de Radamés é um livro para ser lido com calma, sem preocupação com o chegar ao final simplesmente para pô-lo na contabilidade dos livros lidos. Ele deve ser degustado página a página, sem preconceito com relação à linguagem às vezes chocante para leitores mais puritanos, e sem a preocupação acadêmica de encaixá-lo em um estilo ou em um gênero específico. É um livro para ser lido com os olhos e mente totalmente abertos.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

LENITA ESTRELA DE SÁ

LENITA: CONTOS DE UMA ESTRELA

José Neres


Depois de encantar o público com poemas, peças teatrais e obras voltadas para o público infanto-juvenil, sempre demonstrando competência e compromisso com as letras, a escritora Lenita Estrela de Sá, com a publicação do livro “Cinderela de Berlim e outras Histórias”, investe também no campo da narrativa curta.

O livro, que é composto de sete contos, foi um das obras premiadas no Plano Editorial Gonçalves Dias. Logo na leitura do primeiro texto, que dá nome ao volume como um todo, pode-se perceber que a autora não está interessada em fazer de sua narrativa um foco de ilusões banais e frívolas. Não! O que ela pretende – e consegue ao longo das páginas – é, a partir de situações aparentemente corriqueiras, mostrar um pouco da dura realidade enfrentada cotidianamente por pessoas que lutam a cada nascer de sol pela sobrevivência.

As personagens dos contos de Lenita Estrela de Sá são geralmente pessoas que vivem a angústia da própria existência. De modo lírico e cru ao mesmo tempo, a escritora faz desfilar pelas páginas de seu livro um conjunto de elementos que podem facilmente ser encontrados nas ruas de qualquer cidade do mundo dito como civilizado.

O fato de as narrativas serem ambientadas em São Luís não interfere no tom universalizante dos textos, pois basta riscar o nome da cidade e ignorar as referências históricas e geográficas que os conflitos retratados se encaixam em variados outros ambientes e sociedades. Isso acontece porque a carga psicológica e a densidade narrativa retratadas em cada conto superam em muito as meras questões regionalistas.

Adultério, sofrimento, preconceito racial, pobreza e crise existencial são alguns dos temas abordados por Lenita Estrela em seu livro. Mesmo o título remetendo à hipótese de um conto de fadas, as histórias não buscam uma solução simplista ou mágica para os problemas apresentados. Na verdade o que há em cada texto é uma janela aberta para que o leitor possa olhar dentro da casa, da vida e da intimidade de cada uma das personagens. Todas elas escondem, por trás de fachadas envernizadas por sorrisos ambíguos, uma essência de dor e de sofrimento.

O que fica visível na leitura dos contos é que as personagens do livro são sempre angustiadas e, mesmo quando conseguem uma projeção econômica, vivem presas a fantasmas do presente e do passado. É o caso do Moreira, dono de uma bela casa, carro de luxo e é bem empregado, mas que vive atormentado pela insana competição com um colega de serviço e pela perda traumática de seu filho, afogado na piscina que serviria como símbolo de ostentação para a família burguesa.

No geral, os contos de “Cinderela de Berlim e outras Histórias” são bem elaborados e trazem um desfecho brusco, cortante. Eles se assemelham a uma lâmina afiada, prestes a decepar os braços da inércia e do comodismo, com o intento de, nesse choque entre ficção e realidade, despertar o senso crítico de um leitor que queira ir além da percepção das obviedades impostas por uma leitura superficial da própria realidade.

Com esse livro, Lenita comprova, mais uma vez, que é uma das brilhantes estrelas dessa bela constelação de escritores contemporâneos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Recomendo a leitura


SOBRE BREGANEJO BLUES
José Neres


Uma das coisas boas de nossa literatura atual é a grande quantidade de livros que são publicados mensalmente. O lado ruim disso tudo é a falta de tempo para acompanhar o que está sendo produzido por nossos escritores contemporâneos. Para tentar sanar um pouco desse problema, temos que recorrer às sugestões de quem realmente entende do assunto.

Duas pessoas bastante ligadas às letras me recomendaram, quase ao mesmo tempo, a leitura de Breganejo Blues, do jovem escritor maranhense Bruno Azevedo. Como a recomendação veio nada mais nada menos que de José Ewerton Neto e de Hagamenom de Jesus, não pensei duas vezes antes de entrar na Livraria Atenas e comprar o livro.

Li o livro de uma sentada, pois ele nos deixa fazer isso sem a sensação de estar perdendo tempo. A hi´stória em si não tem novidade. É até um tanto quanto previsível. Mas o inusitado das situações e a forma como foi narrada merecem destaque.

Para começar, é bom lembrar que o autor não está nem mesmo um pouco preocupado com a onda do politicamente correto. Isso dá um sabor especial à obra, ao fazer com que o vocabulário usado (que será contestado por muitos leitores) tenha uma razão de ser e vá muito além de um modismo pós-moderno. E esse desapego às questões politicamente corretas, associado a algumas excelentes tiradas, deixam o leitor preso ao enredo, mesmo com as muitas digressões - estratégicas - que aparecem ao longo do livro.

As tomadas cinematográficas deixam o texto bastante ágil, embora possam desnortear um leitor menos acostumado a esse tipo de narrativa. Por outro lado, a fusão da literatura com outros elementos da cultura pop, juntando diversos ritmos em uma balada que tem uma sonoridade própria, foi uma boa idéia, uma vez que saiu do tradicionalismo tão constante em nossas narrativas.

Outro detalhe que chama a atenção no livro é a aparente salada que serve de liga para a argamassa textual: uma dupla sertaneja, um detetive/taxista especializado em encontrar cornos, um transexual, Tex Willer, Kabão, Choperia Marcelo e mais uma porção de elementos que aos poucos vão se encaixando em uma sequência divertida e irônica ao mesmo tempo.

A ironia, por sinal, é a marca principal da obra. Essa ironia começa desde a contra-folha-de-rosto, quando o copyright se vê substituído pelo copyleft, até a última página, com o alerta para a curiosidade de alguns leitores para a composição gráfica do livro.

Em suma, Breganejo Blues é um bom livro. Merece ser lido sem compromisso e sem uma preocupação com questões teóricas.

domingo, 20 de dezembro de 2009

LENDO ROMANCES


DOIS ROMANCES INFERNAIS


José Neres


O inferno, ou seus hipotéticos habitantes, é um dos temas recorrentes na literatura desde seus primórdios. Alguns escritores de excelente estirpe já se utilizaram passagens ambientadas no reino das trevas para a composição de suas obras. Nomes como Virgílio, Dante Alighieri, Gil Vicente, Guimarães Rosa e Jean Paul Sartre cravaram nas letras diversas concepções de como seria esse mundo desconhecido. Porém, mesmo sendo algo que povoa o inconsciente coletivo de povos das mais diversas origens, a temática do inferno ainda pode ser considerada um tabu, principalmente para quem põe os dogmas religiosos acima da tessitura literária.

Por se tratar de um assunto e de uma ambientação tão melindrosos, pode causar certa estranheza o fato de que dois romancistas maranhenses contemporâneo tenham, quase ao mesmo tempo, escolhido o inferno como espaço literário de suas narrativas que, ao mesmo tempo, trabalham uma refinada e sutil ironia, com boas doses de bom humor e com cenas que demonstram o domínio dos dois escritores com relação à técnica narrativa.

Quem se interessar pela temática tem à disposição duas obras bastante interessantes: “O Arquivista Acidental”, de Antônio Guimarães de Oliveira, e “O Infinito em Minhas Mãos”, de José Ewerton Neto. São dois romances que enveredam pelos campos do desconhecido, tendo como base os problemas e as dificuldades comuns a todos os habitantes da terra. Em ambas as obras, o leitor facilmente percebe que o interesse maior dos escritores não está em descrever o inferno, mas sim em mostrar que estar vivo pode não ser um privilégio tão grande assim.

Em “O Arquivista Acidental”, Antônio Guimarães traz a história de Arquimedes do Espírito Santo, um funcionário público que, habituado às lides burocráticas, requere a aposentadoria, mas morre na fila, antes de receber o benefício. Ao ser levado para o paraíso, ele dispensa a paz celestial e pede abrigo no inferno. A partir daí as peripécias se multiplicam e, rapidamente, o burocrata pacato, porém revoltado, vai se transformando em um temido, porém desastrado demônio.

Seguindo por um caminho paralelo, José Ewerton Neto cria Eunápio, um homem que mesmo sem grandes pecados, tem sua alma levada para o inferno. Contando com a sorte e com o péssimo caráter de pessoas tidas como idôneas, mas que só pensam no próprio bem, o novo demônio, agora com o nome de Vacele, envolve-se em um turbilhão de acontecimentos que o levarão a questionar as razões da própria existência.

Os dois escritores, cada um com seu estilo característico, acabam revivendo a velha máxima latina do “Ridendo castigat mores” (Rindo, castigam-se os costumes). Eles manejam com maestria a difícil arte de ironizar e de construir sutis alegorias a partir de situações cotidianas que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Em verdade, nos dois trabalhos, a imagem do inferno nada mais é do que um pano de fundo para ilustrar os mandos e desmandos que ocorrem cotidianamente em todas as esferas do poder.

Antônio Guimarães utiliza-se da astúcia de transformar um funcionário publico em diabo, com isso, deslinda todos os entraves burocráticos encontrados em uma repartição pública, seja ela no inferno, no céu ou na terra. Por sua vez, Ewerton Neto desnuda a trajetória que leva uma pessoa comum a ser tratada como ídolo, mesmo que sua alma esteja eivada de valores negativos, para isso ele, estrategicamente, centra as missões de seu demônio literário em três figuras tipificadas que transpiram falsidade e malícia: um político, um líder religioso e um autor de auto-ajuda.

No final da leitura dos dois romances, fica uma certeza: apesar das forças demoníacas que entravam as letras, nossos escritores ainda são capazes de transformar o enxofre infernal em prosa com divino sabor literário.