terça-feira, 18 de outubro de 2011
UBIRATAN TEIXEIRA
quarta-feira, 23 de março de 2011
COELHO NETO
(O Estado do Maranhão, 23 de março de 2011)
sábado, 5 de junho de 2010
NOVO LIVRO DE WALDEMIRO VIANA
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Quando se fala em Nauro Machado, vem logo à mente de muitas pessoas a figura do poeta de versos inusitados que condensa em cada poema um universo de imagens e que transfigura seu mundo interior (e também o circundante) em metáforas alheias ao óbvio da versificação vazia de conteúdos. Algumas pessoas chegam mesmo a afirmar que o poeta de “Campo se Base” é um escritor hermético e inacessível em suas produções literárias. Os admiradores veem em Nauro Machado o toque do gênio que foge às convenções formais e que sempre procurou imprimir suas digitais em cada página escrita. Mas poucos se lembram que além de grande poeta, Nauro Machado é também um ensaísta de excelente estirpe.
sábado, 30 de janeiro de 2010
PROSA DE RICARDO LEÃO
OS DENTES ALVOS DE RADAMÉS
José Neres
“Faz algum tempo que concluí meu delito. Não se trata, contudo, de mais um crime, realizado às pressas, como tantos outros. A minha obra é, com efeito, um consumado objeto de arte. Eu a executei com toda a perícia, argúcia e artimanhas necessárias, todos os cuidados e aparatos possíveis, as luzernas acesas, enquanto combatia o alvo silêncio dos urinóis.(...) Muitos de meus inimigos estão à espreita, à espera de um deslize, qualquer, por mais insignificante que pareça, a fim de capturar-me e conduzir-me aos verdugos do castelo”
É com esse intrigante e convidativo solilóquio que Ricardo Leão inicia seu livro Os Dentes Alvos de Radamés, uma das obras vencedoras do concurso literário promovido pelo Governo do Estado do Maranhão.
A princípio, em um mero folhear de páginas e em leituras rápidas de trechos aleatórios, alguém pode pensar que se trata de um romance, de uma novela ou de uma coletânea de contos que giram em torno de temáticas que vão de crises existenciais a busca de soluções para corriqueiros problemas mundanos, passando por uma infinidade de outros assuntos, sempre centrados na angústia e/ou nas psicoses humanas.
Contudo, em uma leitura mais atenta, fica bem claro que o livro não pode ser facilmente encaixado nos gêneros literários mais tradicionais. Nos vinte e quatro capítulos que compõem o livro, quase todos compostos de um único parágrafo, o narrador conduz o leitor pelas furtivas veredas de um mistério que se potencializa ou se esvai de acordo com os interesses que se ocultam a cada linha.
Fisgado pelas primeiras palavras do texto, o leitor começa a devorar as páginas do livro em busca de explicações sobre qual foi o crime cometido, sobre quem são os inimigos que se escondem nas sombras das palavras. Experiente no uso da linguagem literária, Ricardo Leão investe no jogo de mostrar escondendo e de esconder mostrando. Dessa forma, traça um percurso narrativo cheio de peripécias, mas com um objetivo centrado na dubiedade comportamental das personagens.
De forma proposital, o autor parte da fluidez das incertezas e vai sedimentando com dúvidas e armadilhas o trajeto a ser percorrido rumo às respostas. O ponto de chegada é certamente uma incógnita planejada. No caminho, em meio a estratégicas digressões e profundos mergulhos nos sempre perigosos mares de erotismo e sensualidade, está a construção de um texto arquitetado na certeza das incertezas de um experimentalismo amadurecido pelos anos de contato com as páginas de grandes escritores como Poe, Borges, Eco, Hoffmann, Kafka, Cortázar e outros.
Porém se engana quem pensar que as atitudes experimentalistas do livro são meros pastiches de autores lidos. Muito pelo contrário, Ricardo Leão imprime suas digitais em cada página de sua narrativa e constrói as personagens com a segurança necessária para despertar no leitor os mais diversos sentimentos com relação às situações expostas a cada página de uma abra que exige atenção e cuidado por parte do leitor.
Os Dentes Alvos de Radamés é um livro para ser lido com calma, sem preocupação com o chegar ao final simplesmente para pô-lo na contabilidade dos livros lidos. Ele deve ser degustado página a página, sem preconceito com relação à linguagem às vezes chocante para leitores mais puritanos, e sem a preocupação acadêmica de encaixá-lo em um estilo ou em um gênero específico. É um livro para ser lido com os olhos e mente totalmente abertos.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
LENITA ESTRELA DE SÁ
LENITA: CONTOS DE UMA ESTRELA
José Neres
Depois de encantar o público com poemas, peças teatrais e obras voltadas para o público infanto-juvenil, sempre demonstrando competência e compromisso com as letras, a escritora Lenita Estrela de Sá, com a publicação do livro “Cinderela de Berlim e outras Histórias”, investe também no campo da narrativa curta.
O livro, que é composto de sete contos, foi um das obras premiadas no Plano Editorial Gonçalves Dias. Logo na leitura do primeiro texto, que dá nome ao volume como um todo, pode-se perceber que a autora não está interessada em fazer de sua narrativa um foco de ilusões banais e frívolas. Não! O que ela pretende – e consegue ao longo das páginas – é, a partir de situações aparentemente corriqueiras, mostrar um pouco da dura realidade enfrentada cotidianamente por pessoas que lutam a cada nascer de sol pela sobrevivência.
As personagens dos contos de Lenita Estrela de Sá são geralmente pessoas que vivem a angústia da própria existência. De modo lírico e cru ao mesmo tempo, a escritora faz desfilar pelas páginas de seu livro um conjunto de elementos que podem facilmente ser encontrados nas ruas de qualquer cidade do mundo dito como civilizado.
O fato de as narrativas serem ambientadas em São Luís não interfere no tom universalizante dos textos, pois basta riscar o nome da cidade e ignorar as referências históricas e geográficas que os conflitos retratados se encaixam em variados outros ambientes e sociedades. Isso acontece porque a carga psicológica e a densidade narrativa retratadas em cada conto superam em muito as meras questões regionalistas.
Adultério, sofrimento, preconceito racial, pobreza e crise existencial são alguns dos temas abordados por Lenita Estrela em seu livro. Mesmo o título remetendo à hipótese de um conto de fadas, as histórias não buscam uma solução simplista ou mágica para os problemas apresentados. Na verdade o que há em cada texto é uma janela aberta para que o leitor possa olhar dentro da casa, da vida e da intimidade de cada uma das personagens. Todas elas escondem, por trás de fachadas envernizadas por sorrisos ambíguos, uma essência de dor e de sofrimento.
O que fica visível na leitura dos contos é que as personagens do livro são sempre angustiadas e, mesmo quando conseguem uma projeção econômica, vivem presas a fantasmas do presente e do passado. É o caso do Moreira, dono de uma bela casa, carro de luxo e é bem empregado, mas que vive atormentado pela insana competição com um colega de serviço e pela perda traumática de seu filho, afogado na piscina que serviria como símbolo de ostentação para a família burguesa.
No geral, os contos de “Cinderela de Berlim e outras Histórias” são bem elaborados e trazem um desfecho brusco, cortante. Eles se assemelham a uma lâmina afiada, prestes a decepar os braços da inércia e do comodismo, com o intento de, nesse choque entre ficção e realidade, despertar o senso crítico de um leitor que queira ir além da percepção das obviedades impostas por uma leitura superficial da própria realidade.
Com esse livro, Lenita comprova, mais uma vez, que é uma das brilhantes estrelas dessa bela constelação de escritores contemporâneos.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Recomendo a leitura

SOBRE BREGANEJO BLUES
domingo, 20 de dezembro de 2009
LENDO ROMANCES
DOIS ROMANCES INFERNAIS
José Neres
O inferno, ou seus hipotéticos habitantes, é um dos temas recorrentes na literatura desde seus primórdios. Alguns escritores de excelente estirpe já se utilizaram passagens ambientadas no reino das trevas para a composição de suas obras. Nomes como Virgílio, Dante Alighieri, Gil Vicente, Guimarães Rosa e Jean Paul Sartre cravaram nas letras diversas concepções de como seria esse mundo desconhecido. Porém, mesmo sendo algo que povoa o inconsciente coletivo de povos das mais diversas origens, a temática do inferno ainda pode ser considerada um tabu, principalmente para quem põe os dogmas religiosos acima da tessitura literária.
Por se tratar de um assunto e de uma ambientação tão melindrosos, pode causar certa estranheza o fato de que dois romancistas maranhenses contemporâneo tenham, quase ao mesmo tempo, escolhido o inferno como espaço literário de suas narrativas que, ao mesmo tempo, trabalham uma refinada e sutil ironia, com boas doses de bom humor e com cenas que demonstram o domínio dos dois escritores com relação à técnica narrativa.
Quem se interessar pela temática tem à disposição duas obras bastante interessantes: “O Arquivista Acidental”, de Antônio Guimarães de Oliveira, e “O Infinito em Minhas Mãos”, de José Ewerton Neto. São dois romances que enveredam pelos campos do desconhecido, tendo como base os problemas e as dificuldades comuns a todos os habitantes da terra. Em ambas as obras, o leitor facilmente percebe que o interesse maior dos escritores não está em descrever o inferno, mas sim em mostrar que estar vivo pode não ser um privilégio tão grande assim.
Em “O Arquivista Acidental”, Antônio Guimarães traz a história de Arquimedes do Espírito Santo, um funcionário público que, habituado às lides burocráticas, requere a aposentadoria, mas morre na fila, antes de receber o benefício. Ao ser levado para o paraíso, ele dispensa a paz celestial e pede abrigo no inferno. A partir daí as peripécias se multiplicam e, rapidamente, o burocrata pacato, porém revoltado, vai se transformando em um temido, porém desastrado demônio.
Seguindo por um caminho paralelo, José Ewerton Neto cria Eunápio, um homem que mesmo sem grandes pecados, tem sua alma levada para o inferno. Contando com a sorte e com o péssimo caráter de pessoas tidas como idôneas, mas que só pensam no próprio bem, o novo demônio, agora com o nome de Vacele, envolve-se em um turbilhão de acontecimentos que o levarão a questionar as razões da própria existência.
Os dois escritores, cada um com seu estilo característico, acabam revivendo a velha máxima latina do “Ridendo castigat mores” (Rindo, castigam-se os costumes). Eles manejam com maestria a difícil arte de ironizar e de construir sutis alegorias a partir de situações cotidianas que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Em verdade, nos dois trabalhos, a imagem do inferno nada mais é do que um pano de fundo para ilustrar os mandos e desmandos que ocorrem cotidianamente em todas as esferas do poder.
Antônio Guimarães utiliza-se da astúcia de transformar um funcionário publico em diabo, com isso, deslinda todos os entraves burocráticos encontrados em uma repartição pública, seja ela no inferno, no céu ou na terra. Por sua vez, Ewerton Neto desnuda a trajetória que leva uma pessoa comum a ser tratada como ídolo, mesmo que sua alma esteja eivada de valores negativos, para isso ele, estrategicamente, centra as missões de seu demônio literário em três figuras tipificadas que transpiram falsidade e malícia: um político, um líder religioso e um autor de auto-ajuda.
No final da leitura dos dois romances, fica uma certeza: apesar das forças demoníacas que entravam as letras, nossos escritores ainda são capazes de transformar o enxofre infernal em prosa com divino sabor literário.