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segunda-feira, 5 de abril de 2010

POEMAS DE DESAMOR - Livro gratuito


Este pequenino livro foi publicado em 2003. Nunca foi comercializado, apenas distribuído aos meus amigos mais próximos. Agora, sete anos depois, ele está disponivel no mundo virtual.
Clique AQUI e baixe o livro para seu computador.
Um abraço.
Continue votando no próximo livro a ser liberado gratuitamente

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

LENITA ESTRELA DE SÁ

LENITA: CONTOS DE UMA ESTRELA

José Neres


Depois de encantar o público com poemas, peças teatrais e obras voltadas para o público infanto-juvenil, sempre demonstrando competência e compromisso com as letras, a escritora Lenita Estrela de Sá, com a publicação do livro “Cinderela de Berlim e outras Histórias”, investe também no campo da narrativa curta.

O livro, que é composto de sete contos, foi um das obras premiadas no Plano Editorial Gonçalves Dias. Logo na leitura do primeiro texto, que dá nome ao volume como um todo, pode-se perceber que a autora não está interessada em fazer de sua narrativa um foco de ilusões banais e frívolas. Não! O que ela pretende – e consegue ao longo das páginas – é, a partir de situações aparentemente corriqueiras, mostrar um pouco da dura realidade enfrentada cotidianamente por pessoas que lutam a cada nascer de sol pela sobrevivência.

As personagens dos contos de Lenita Estrela de Sá são geralmente pessoas que vivem a angústia da própria existência. De modo lírico e cru ao mesmo tempo, a escritora faz desfilar pelas páginas de seu livro um conjunto de elementos que podem facilmente ser encontrados nas ruas de qualquer cidade do mundo dito como civilizado.

O fato de as narrativas serem ambientadas em São Luís não interfere no tom universalizante dos textos, pois basta riscar o nome da cidade e ignorar as referências históricas e geográficas que os conflitos retratados se encaixam em variados outros ambientes e sociedades. Isso acontece porque a carga psicológica e a densidade narrativa retratadas em cada conto superam em muito as meras questões regionalistas.

Adultério, sofrimento, preconceito racial, pobreza e crise existencial são alguns dos temas abordados por Lenita Estrela em seu livro. Mesmo o título remetendo à hipótese de um conto de fadas, as histórias não buscam uma solução simplista ou mágica para os problemas apresentados. Na verdade o que há em cada texto é uma janela aberta para que o leitor possa olhar dentro da casa, da vida e da intimidade de cada uma das personagens. Todas elas escondem, por trás de fachadas envernizadas por sorrisos ambíguos, uma essência de dor e de sofrimento.

O que fica visível na leitura dos contos é que as personagens do livro são sempre angustiadas e, mesmo quando conseguem uma projeção econômica, vivem presas a fantasmas do presente e do passado. É o caso do Moreira, dono de uma bela casa, carro de luxo e é bem empregado, mas que vive atormentado pela insana competição com um colega de serviço e pela perda traumática de seu filho, afogado na piscina que serviria como símbolo de ostentação para a família burguesa.

No geral, os contos de “Cinderela de Berlim e outras Histórias” são bem elaborados e trazem um desfecho brusco, cortante. Eles se assemelham a uma lâmina afiada, prestes a decepar os braços da inércia e do comodismo, com o intento de, nesse choque entre ficção e realidade, despertar o senso crítico de um leitor que queira ir além da percepção das obviedades impostas por uma leitura superficial da própria realidade.

Com esse livro, Lenita comprova, mais uma vez, que é uma das brilhantes estrelas dessa bela constelação de escritores contemporâneos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Recomendo a leitura


SOBRE BREGANEJO BLUES
José Neres


Uma das coisas boas de nossa literatura atual é a grande quantidade de livros que são publicados mensalmente. O lado ruim disso tudo é a falta de tempo para acompanhar o que está sendo produzido por nossos escritores contemporâneos. Para tentar sanar um pouco desse problema, temos que recorrer às sugestões de quem realmente entende do assunto.

Duas pessoas bastante ligadas às letras me recomendaram, quase ao mesmo tempo, a leitura de Breganejo Blues, do jovem escritor maranhense Bruno Azevedo. Como a recomendação veio nada mais nada menos que de José Ewerton Neto e de Hagamenom de Jesus, não pensei duas vezes antes de entrar na Livraria Atenas e comprar o livro.

Li o livro de uma sentada, pois ele nos deixa fazer isso sem a sensação de estar perdendo tempo. A hi´stória em si não tem novidade. É até um tanto quanto previsível. Mas o inusitado das situações e a forma como foi narrada merecem destaque.

Para começar, é bom lembrar que o autor não está nem mesmo um pouco preocupado com a onda do politicamente correto. Isso dá um sabor especial à obra, ao fazer com que o vocabulário usado (que será contestado por muitos leitores) tenha uma razão de ser e vá muito além de um modismo pós-moderno. E esse desapego às questões politicamente corretas, associado a algumas excelentes tiradas, deixam o leitor preso ao enredo, mesmo com as muitas digressões - estratégicas - que aparecem ao longo do livro.

As tomadas cinematográficas deixam o texto bastante ágil, embora possam desnortear um leitor menos acostumado a esse tipo de narrativa. Por outro lado, a fusão da literatura com outros elementos da cultura pop, juntando diversos ritmos em uma balada que tem uma sonoridade própria, foi uma boa idéia, uma vez que saiu do tradicionalismo tão constante em nossas narrativas.

Outro detalhe que chama a atenção no livro é a aparente salada que serve de liga para a argamassa textual: uma dupla sertaneja, um detetive/taxista especializado em encontrar cornos, um transexual, Tex Willer, Kabão, Choperia Marcelo e mais uma porção de elementos que aos poucos vão se encaixando em uma sequência divertida e irônica ao mesmo tempo.

A ironia, por sinal, é a marca principal da obra. Essa ironia começa desde a contra-folha-de-rosto, quando o copyright se vê substituído pelo copyleft, até a última página, com o alerta para a curiosidade de alguns leitores para a composição gráfica do livro.

Em suma, Breganejo Blues é um bom livro. Merece ser lido sem compromisso e sem uma preocupação com questões teóricas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

COMENTÁRIO


MERAS COMPARAÇÕES

José Neres

Algo que sempre me impressionou em nossa imprensa é o caderno de esportes. Ma-ra-vi-lho-so! Incrível como nossos jornais acompanham os eventos esportivos... Dependendo do horário em que termina a competição ou premiação esportiva, na edição seguinte do periódico, temos, estampados, em letras garrafais, os resultados, os nomes dos atletas mais destacados e fotos, muitas fotos... A equipe de esportes parece estar sempre preparada para os chamados furos de reportagem. Basta um atleta especular que mudará de clube e lá está a notícia em destaque, geralmente precedida de uma chamada na primeira página. Basta um craque da moda se pronunciar sobre determinado assunto que logo tal comentário é debatido, dissecado, esmiuçado por especialistas no assunto. Tudo em uma velocidade impressionante! Realmente, os cadernos de esporte mostram em suas páginas e entrelinhas toda a velocidade que a imprensa tem quando há um interesse em divulgar as notícias.

Por outro lado, sempre me causou tristeza e estranheza lentidão dos mesmos jornais quando se trata de comentar os eventos culturais locais. Excetuando-se os casos raros (raríssimos, na verdade), os periódicos sofrem de carência crônica de papel e de jornalistas para a cobertura de peças teatrais, lançamentos de livros, resenhas sobre as obras publicadas, divulgação de músicas e filmes que não façam parte do circuito das grandes distribuidoras, palestras, recitais... As páginas tidas como destinadas à cultura costumam ser descartadas aos primeiros sinais de crise econômica ou editorial e, a cada dia, emagrecem a olhos vistos, deixando a impressão de que não há notícias recentes, além daquelas que englobem a mercadológica e lucrativa indústria da cultura de massa.

Nada contra o esporte, o qual considero umas das melhores e mais saudáveis formas de inclusão social, mas se há verbas e profissionais disponíveis para os cadernos esportivos, para os luxuosos e coloridos encartes sobre atores, novelas e personalidades do meio televisivo, se há disponibilidade de espaço para as picuinhas amorosas de atores e atrizes, porque será que falta espaço tempo e dinheiro para falar de arte e de cultura? Será falta de patrocinador? Será falta de público consumidor? Ou será a tal da falta de vontade para com o que não trará lucro imediato? Perguntas sem resposta!

Para ilustrar o que foi dito nos parágrafos anteriores, relembro alguns fatos recentes. Horas depois da já tradicional premiação de “Atletas do Ano”, o Caderno de Esportes fazia uma síntese do acontecimento, detalhando a atuação de cada um dos ganhadores e com direito a um pôster que ocupava as páginas centrais do encarte. Semanas antes e um dia após a referida festa esportiva, houve a III Feira do Livro de São Luís e dois lançamentos coletivos das obras vencedoras do Concurso Literário Gonçalves Dias. Sinceramente não me lembro de ter encontrado em nossos jornais um destaque significativo para tais eventos. Não me recordo de ter visto uma cobertura aprofundada a respeito dos participantes da Feira ou dos lançamentos, nem mesmo de ter visto a fotos dos palestrantes ilustrando artigos relativos ao assunto.

Alguém poderia argumentar que os escritores reunidos não tinham renome nacional, que poucos eram conhecidos além dos limites da província natal. Mas essa ideia esbarra na constatação de que os atletas que tiveram ampla cobertura, com direito até a cupons para votação durante dias e dias, também não são conhecidos da maioria do público leitor dos jornais. Indicados por suas respectivas federações, alguns guerreiros do esporte saíram da premiação sobraçando o troféu, mas ainda continuavam e continuam com seus feitos praticamente desconhecidos até mesmo quem preencheu o formulário de votação sem ter noção sobre as reais habilidades dos concorrentes. Mesmo assim, auditório estava lotado, para o bem do esporte.

Por outro lado, na segunda parte do lançamento do Plano Editorial da SECMA, realizado no Museu Histórico e Artístico, mesmo com a presença da “nata intelectual”, como assinalou o Secretário Luís Bulcão, e de autoridades políticas, o público não foi suficiente para lotar o recinto. Também não me lembro de ter visto os escritores perfilados para uma foto oficial que fosse ilustrar as páginas centrais de um caderno cultural dos próximos dias.

Mas o importante é sempre ter em mente que Esporte e Cultura são essenciais para a formação de um povo e que, com ou sem divulgação, continuarão seus caminhos em busca da divulgação de seus valores.

OBS: É importante destaca o esforço do editor e escritor Alberico Carneiro, que em seu suplemento, tenta resenhar as obras publicadas nos eventos literários de nossa cidade.

domingo, 29 de novembro de 2009

III FEIRA DO LIVRO DE SÃO LUÍS


Quase sempre sou abordado com perguntas sobre a Feira do Livro. Este é o primeiro ano em que participo apenas como visitante, o que me dá uma visão bastante ampla do evento. Como sempre, há os pontos positivos e os negativos. Mas sempre é preciso que se veja que não é fácil organizar um evento com essas dimensões. Temos certeza de que as falhas serõa sanadas na próxima edição e e que os acertos serão ampliados.

A Seguir estão nossas impressões a respeito do evento.



GULLAR PERDIDO NA FEIRA

José Neres


Eis que chega ao fim a III Feira do Livro de São Luís, um evento que já se tornou parte importante do calendário cultural da capital maranhense e que sempre é muito aguardado pelos amantes da literatura e mesmo por quem simplesmente aproveita a ocasião para passear pelos corredores repletos de livros.

Nesta edição, o patrono da Feira foi o poeta, crítico, teatrólogo, roteirista e tradutor Ferreira Gullar, um dos maranhenses mais respeitados nos círculos intelectuais do país. Um escritor que merece todas as homenagens possíveis.

Logo ao chegar à Feira, os visitantes se deparavam com gigantescas reproduções de livros do autor, com um imenso painel e com um amplo auditório em homenagem ao poeta. A expectativa tomava conta dos visitantes. Uma monitora simpática entregava o livreto contendo a programação oficial do evento. Os admiradores de Gullar devoravam as páginas do folheto procurando as palestras e comunicações a respeito do homenageado. Decepção! Parece que as homenagens se limitavam à estrutura física da Feira e a uns raríssimos e pouco destacados momentos de debate sobre o trabalho do autor do Poema Sujo.

Todos já sabiam que o Gullar em pessoa não estaria presente à III Feira do Livro de São Luís, mas havia a esperança de que sua ausência física fosse compensada com debates sobre suas obras, com exposições sobre sua carreira e com discussões a respeito da produção de uma dos maiores poetas do Brasil contemporâneo. Mas isso não aconteceu!

Por alguma razão, os estudiosos da obra de Ferreira Gullar tiveram pouco espaço para apresentação de seus trabalhos. Todos sentiram a falta de uma mesa-redonda, que discutisse as diversas facetas da produção intelectual do escritor, e das provocações e comentários que certamente surgiriam por parte dos não-admiradores da obra gullariana. Para compensar um pouco a falta de debates sobre o patrono da Feira, o sempre incansável Alberico Carneiro, além de fazer uma palestra sobre “A Luta Corporal e o Crime na Flora”, distribuiu uma edição especial do Guesa Errante, contendo uma entrevista concedida por Gullar a Euclides Moreira Neto.

Público e Mídia

Com todo evento de grande porte, na III Feira do Livro de São Luís houve diversos pontos positivos e negativos. Novamente o antigo ditado que diz que Santo de casa não faz milagre parece que se comprovou. Os autores da terra não conseguiram fazer o milagre da multiplicação de público e quase sempre contaram com um espaço repleto de lugares vazios. No Café Literário, por exemplo, os escritores convidados falavam para parentes e amigos mais próximos, pois o restante do público ou se contentava a dar uma espiadela pelo vidro ou passava indiferente pelo local. O mesmo aconteceu em outros espaços, com palestrantes que se viram obrigados a transformar a fala preparada para um grande público em um pequeno círculo de bate-papo.

Com relação à mídia, há os problemas de sempre. Um espaço (não grande, mas pelo menos há) para os palestrantes com um nome destacado e um silêncio total para os conferencistas locais que, muitas vezes, como sempre comenta o escritor Ubiratan Teixeira, são encaixados na anônima categoria de Outros nas reportagens. Isso se torna visível quando uma atriz global sem (pelo menos por enquanto) projeção no mundo das letras é muito mais lembrada na imprensa, com constantes chamadas para sua palestra e para o lançamento de sua obra, do que José Louzeiro, que, com suas cinco dezenas de livros publicados, não teve a divulgação merecida.

Louzeiro, por sinal, foi um dos pontos positivos da Feira. Muito simpático e atento, transitou pelos diversos espaços do evento e foi bastante presente em várias atividades. Da mesma forma foi muito bom ver Nauro Machado relançando suas Esferas Lineares, Antônio Guimarães cercado de pessoas pedindo autógrafo e tantos outros escritores circulando pelos corredores. Outro ponto positivo foi que, no já citado Café Literário, este ano os autores convidados tiveram liberdade para falar livremente, sem a incômoda interferência de mediadores que limitavam o tempo de fala.

A III Feira do Livro de São Luís chega a seu fim, mas seus momentos e efeitos – positivos e negativos – ainda irão ecoar por várias semanas, a próxima edição. Quando comparações e discussões voltarão à tona.

domingo, 25 de outubro de 2009

7ª SALIMP


LIVROS EM FESTA NO SALÃO

José Neres



O grande poeta Castro Alves dizia em um de seus poemas que “bendito é o que semeia livros, livros à mão cheia e manda o povo pensar...” E ele tinha razão. Semear livros é uma das formas mais eficientes de transformar o árido solo da ignorância em um fértil terreno de cultivo da Palavra e das ideias. Durante muito tempo, investir em livros era atitude de pessoas muito ricas ou de quem tivesse muito tempo a perder. Hoje, felizmente, isso está mudando e investir em cultura deixou de ser um ônus para tornar-se alavanca para o progresso.

Tendo como uma das finalidades o fomento à semeadura da palavra escrita para um povo que não estava acostumado a manusear livros, surgem as chamadas feiras de livros, que, muito mais que um comércio de obras, tornaram-se, aos poucos, ponto de encontro de intelectuais e oportunidade de aparecimento de novos talentos.

O Maranhão, estado conhecido pelo seu apego às questões literárias, ficou, por razões diversas, alheio essa valorosa contribuição cultural que pode ser dada pelas feiras e encontros voltados para a circulação dos livros, nos últimos anos tem despertado para esse nicho que estava esquecido, mas que apresenta boas perspectivas de crescimento. Hoje, já podemos contar com eventos do nível do Festival Geia de Literatura, que reúne anualmente, em São José de Ribamar, milhares de pessoas dispostas a manterem um contato mais próximo com os escritores maranhenses; a Feira do Livro de São Luís, que logo em suas duas primeiras edições se solidificou como um dos grandes eventos literários do País; e a Salimp, o Salão do Livro de Imperatriz, que, em sua sétima edição, deixa bem claro que nada deixa a dever para os demais eventos nacionais.

Organizada pela Academia Imperatrizense de Letras, em parceria com os governos municipal e estadual, a Salimp traz para os cidadãos de Imperatriz e para os visitantes a oportunidade de entrar em contato com escritores de renome nacional e, ao mesmo tempo, tomar conhecimento do que é produzido pelos intelectuais locais. O público teve a oportunidade de ver reunidas, em um mesmo local, personalidades como Nauro Machado, Sebastião Moreira Duarte, Edmilson Sanches, Agostinho Noleto Arlete Nogueira, Arnaldo Monteiro, Weliton Carvalho e Adalberto Franklin, escritores que já têm um a história no campo das letras, ao lado de uma geração mais jovem que começa a escrever seu nome em um possível panteon ainda a ser formado e solidificado, como é o caso de Ariston de França, Allanna Sanches, Ricardo Caval, Phellipe Duarte e outros jovens escritores que lançaram suas obras durante o evento.

Como o papel do Salão é também o de inocular no corpo e na alma dos mais jovens o gosto pela leitura e despertar o interesse pelo livro, os colégios também contribuíram levando estudantes das mais diversas faixas etárias para um passeio pelos corredores repletos de obras, de palavras, e de sonhos. É sempre interessante ver auma filinha de meninos e meninas, devidamente monitorados por seus professores, circulando entres os stands e arregalando os olhos a cada descoberta de um mundo de tinta e de papel. Certamente o contato mais efetivo com os livros, com leitores e com os escritores deixará marcas positivas na cabeça dessas crianças que, em breve, estarão também produzindo seus textos artísticos.

Outro detalhe interessante da 7ª Salimp foi a transmissão ao vivo de palestras e lançamentos de livros pela rede mundial de computadores. Com isso, quem estava impossibilitado de comparecer ao Centro de Convenções de Imperatriz, poderia acompanhar as falas dos palestrantes em qualquer lugar do mundo, o que serviu como elemento essencial para a divulgação do evento além das limitações do espaço.

Então, se semear livros e informações é motivo para bendizer alguém, Imperatriz, seu povo e os organizadores do Salão do Livro estão de parabéns e merecem todos o parabéns, pela valorização da leitura. Esperemos também que a oitava edição seja ainda melhor e com um público ainda mais ávido de informações

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

UM ÓTIMO LIVRO



Carinho é algo que não tem explicação. Recebemos e damos carinho todos os dias. Mas alguns são mais marcantes, como o que recebo de Arlete Nogueira e de Nauro Machado todas as vezes que os vejo. E como retribuir carinho? Só com carinho. Como são dois grandes escritores, retribuo cada palavra com outras palavras, analisando suas obras. Já escrevi sobre Nauro algumas vezes - inclusive neste blog - e agora faço um breve e singelo estudo sobre Litania da Velha, a obra magna de Arlete Nogueira. Sei que o texto não está à altura desse livro maravilhoso, mas é o que posso fazer.




ETERNA LITANIA

José Neres

Uma velha mendiga, combalida pela miséria, pelas sevícias do tempo e pelas agruras de uma vida inteira de dores e amarguras, atravessa a cidade em busca da sobrevivência. Um mero pedaço de pão endurecido transforma-se em um banquete diante da fome que a corrói. Uma moeda de qualquer valor é vista como verdadeira fortuna. A mendiga passa quase invisível diante de olhos que teimam em enxergar apenas um lado da realidade. A velha senhora, aos poucos, vai perdendo as forças e percebe que seus últimos instantes se aproximam. Uma chuva torrencial leva para longe os parcos pertences da mulher, suas esperanças, seus sonhos e até sua história.

A cena acima descrita poderia servir de enredo para uma notícia de página de jornal, ou para uma conversa de esquina, quem sabe para ilustrar uma palestra sobre direitos humanos... Mas nas hábeis e poéticas mãos de Arlete Nogueira da Cruz, esse pequeno fragmento de vida ganhou a dimensão de poesia e veio à luz com pertinente título de Litania da Velha, um dos mais interessantes e contundentes exemplos de como engajamento social e lirismo, palavras e imagem podem conviver pacificamente nas páginas de um livro sem a necessidade de o autor cair na mera verborragia sentimental, ou no puro panfletarismo de caráter político. Não! Em Litania da Velha, o que há poesia em seu mais alto grau e um laborioso trato com a linguagem, para tirar de cada vocábulo a seiva poética que permite ao artista dizer muito com poucas palavras.

Utilizando pouco mais de meia centena de estrofes, todas em formato de dísticos bastante longos, Arlete Nogueira consegue, no ritmo de cada verso, reproduzir para o leitor o cansaço que se apodera da protagonista a cada passo dado rumo a seu inexorável destino. A cada ladeira vencida ou a cada esquina dobrada, o peso do viver se multiplica e o corpo da mendiga se verga à certeza de que já lhe é impossível suportar as injustiças do mundo e os inúmeros descasos sociais que espreitam os menos favorecidos em cada esquina e em cada decisão tomada.

Ao longo das páginas, o leitor vai percebendo que, como tudo no poema, a imagem da velha é também uma grande metáfora utilizada pela arguta autora para fazer suas denúncias subliminares. Aos poucos a mendiga e a cidade por onde ela vaga entram em processo de fusão, e, metaforicamente, transformam-se em um amálgama em que o sofrimento de uma se reflete na dor da outra, e a decadência da mulher é o prenúncio do abandono pelo qual passa a cidade.

De um modo bastante singelo, Arlete Nogueira deixa a seus leitores a mensagem de que da mesma forma que uma velha mendiga aparentemente insignificante morre à vista de todos (cidadãos comuns e autoridades), a cidade também está agonizante e ninguém se move para socorrê-la ou para tentar salvá-la do acelerado processo de decomposição física, histórica e moral. Tal mensagem pode ser percebida não apenas pelo elegante jogo de metáforas utilizado pela escritora, mas também pelas ilustrações que acompanham o texto. As fotografias tiradas por Edgar Rocha, Raimundo Guterres e Wílson Marques dialogam com o poema e reforçam as relações entre o desrespeito aos seres humanos e o depauperamento das edificações que guardam também nossa história

Litania da Velha é um livro para ser lido de uma só vez, mas que exige uma pausa em cada final de verso. Uma pausa para reflexão, pois, como em uma eterna litania, a história se repete dia-a-dia e nós não nos damos conta de que caminhamos de cabeça baixa e olhos suplicantes rumo ao nosso próprio fim.


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

HAGAMENON DE JESUS

Hagamenon é um poeta/ensaísta que merece todas as homenagens,por isso escrevi este modesto artigo sobre seu livro de Estreia. Não posso deixar de agradecer ao Alberico Carneiro, editor do Guesa Errante, pelo espaço que me tem concedido em seu suplemento. (Clique na imagempara ampliá-la)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

EMPRESTE-ME UM LIVRO...

Escrevi este texto há uns dois ou três anos, mas ele continua atual. Basta observar a realidade.


DA ARTE DE PERDER LIVROS

José Neres

A regra é bem lógica e simples. Quer perder livros? Basta dedicar-se a não muito salutar tarefa de emprestá-los.

Um livro, qualquer que seja ele, é tão importante que é capaz de mudar completamente até mesmo a noção de tempo e de espaço. Não! Não estou falando aqui do poder dos livros de levar os leitores para outros tempos ou a paragens alcançáveis apenas pela imaginação. Fala de algo mais real e mais facilmente comprovável.

É o seguinte: quando alguém precisa de um livro, raramente se dirige a uma livraria para comprá-lo. É mais fácil e cômodo pedi-lo emprestado a um incauto qualquer de boa fé. É esse o momento de fazer o teste que passo a descrever a partir desta linha. Basta o dono do livro dizer que só ele sabe onde está o referido título, que mora longe e que só estará em casa a partir das dez ou onze horas da noite. Pronto. Como em um passe de mágica, relógio, convenções sociais e distâncias perdem a importância. Na hora marcada, por mais incômoda que seja; no endereço dado, por pior que seja o acesso a ele, o pedinte estará ali, com um sorriso no rosto, pedindo desculpas pelos inconvenientes, mas deixando bem claro que consultar aquela obra é questão de vida ou de morte. A visita costuma ser rápida, raramente o cidadão aceita passar da soleira da porta, tal é sua pressa.

A segunda parte do teste vem dias, semanas ou meses mais tarde. Uma vez feita a tão urgente consulta, a residência do dono do livro se torna extremamente distante; aquela pessoa que outrora se dispôs a ir a qualquer hora pegar a obra, de repente, não mais que de repente, como diria Vinícius de Moraes, percebe que não deve incomodar as pessoas altas horas da noite, domingos ou feriados tão simplesmente para entregar um mero livro; o número do telefone do proprietário do livro, que foi usado incessantes vezes para lembrar o título exato do volume, como que por encanto, desaparece da agenda do agora tão ocupado pedinte... E o tempo vai passando...

A terceira e última parte do teste vem em um encontro fortuito, quase acidental entre as duas partes. Geralmente, quem está com o livro não toca no delicado assunto e, quando instado a falar sobre uma possível devolução, alega falta de tempo, muito serviço, problemas de locomoção para lugares distantes e conclui dizendo que em breve, assim que sobrar um tempinho, fará uma visita com mais calma, para entregar o precioso objeto, etc, etc, etc.

Pronto. O teste está completo. Os livros, principalmente os emprestados têm o poder de relativizar aos extremos as noções de tempo, de espaço e de prioridade.

O problema desse tipo de comprovação é que ela pode sair muito cara para quem decide investir em uma formação mais letrada. A cada experiência, alguns livros preciosamente raros participam de uma espécie de êxodo bibliográfico sem volta às estantes de origem. Além do valor pecuniário perdido, o amante das palavras escritas percebe aos poucos que os clarões das estantes mostram bem mais que uma hemorragia de celulose, escancarando aos olhos do pobre coitado a perda de anos e mais anos de busca incessante a exemplares raros que aos amados lares nunca mais retornarão.

É... esse é o tipo de arte que precisa ser combatida, antes que transforme benfeitores da palavra em seres egoístas especializados na arte de esconder a sete chaves seus pequenos tesouros de papel.