terça-feira, 12 de outubro de 2010

INSPIRAÇAO NORDESTINA

Com o objetivo de ajudar aos vestibulandos, disponibilizo aqui um breve estudo sobre o livro INSPIRAÇÃO NORDESTINA, de Patativa do Assaré.
Espero que seja útil...



A INSPIRAÇÃO NORDESTINA DE PATATIVA
José Neres


      Uma das poucas vantagens de um vestibular feito de acordo com os moldes mais tradicionais é a possibilidade que ele oferece ao estudante de entrar em contato com obras literárias e filosóficas que dificilmente seriam lidas, caso não fossem indicadas como leitura prévia obrigatória para uma prova de concurso.
      Este ano, os candidatos a uma vaga nos cursos da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA – terão de ler o Sermão do Bom Ladrão, do Padre Antônio Vieira; A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado; e a segunda parte do livro Inspiração Nordestina, do poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, conhecido literariamente como Patativa do Assaré, um dos mais significativos nomes da poesia popular brasileira.

Patativa: um homem do campo

      Nascido em 05 de março de 1909, na cidade de Assaré, cerca de 500 quilômetros de Fortaleza,  no seio de uma família bastante pobre, Antônio Gonçalves da Silva ao oito anos perdeu o pai e teve de trabalhar na roça para ajudar no sustento da família. O fato de haver frequentado apenas alguns meses de escola, o suficiente para ser alfabetizado, não foi obstáculo para que o garoto deixasse de lado o gosto pelos versos populares e pelo ritmo cadenciado dos poemas cantados pelos repentistas que faziam sucesso na época.
      Ainda rapazinho, encantado com o poder melódico das palavras, Antônio começou a recitar poemas em festas de amigos e familiares. Não demorou muito para ele ser apelidado de Patativa, por causa da melodia de seus versos, que eram comparados ao canto do pássaro de mesmo nome.
      Em 1956, Patativa do Assaré publicou seu primeiro livro, intitulado Inspiração Nordestina. O livro depois foi republicado em 1967, acrescido de alguns novos poemas. Depois vieram outras obras, como, por exemplo, Cante lá que eu canto cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Aqui tem coisa (1994), Digo e não peço segredo (2001), além de diversas antologias publicadas em vida ou postumamente.
      Patativa do Assaré foi reconhecido ainda em vida como grande poeta e recebeu diversos prêmios por sua obra, inclusive cinco títulos de Doutor Honoris Causa, sendo também estudado em diversos trabalhos universitários e em ensaios de críticos renomados.
      O reconhecimento nacional, porém não veio por meio de seus livros, mas sim por causa de um de seus poemas – Triste Partida – que foi cantado por Luís Gonzaga. A partir desse episódio, o nome de Patativa começou a chamar atenção também nos meios acadêmicos. Mesmo conhecendo o sucesso, o poeta jamais deixou o contato com sua terra natal e com seu povo. Ele faleceu, em 2002, aos 93 anos, na mesma cidade em que nasceu

Patativa: um homem de poesia
     
      O que de imediato chama a atenção na poesia de Patativa do Assaré é sua forte tendência à oralidade. Aproveitando-se de suas origens humildes, o poeta utiliza com maestria a licença poética e trabalha a voz do homem do sertão em seus versos, sem esquecer a musicalidade, que é outra marca de sua poesia.
      Ao se apresentar ao público, Patativa se mostra com um poeta da roça, rude, com poucos estudos e vindo de família pobre, como pode ser visto no fragmento abaixo extraído da primeira parte de Inspiração Nordestina:

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.
(...)
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

      Esse apego às origens sertanejas aparece em outros poemas, como é o caso do famoso Cante lá, que eu canto cá, no qual ele mostra as diferenças entre um poeta criado na cidade, com acesso à educação e aos luxos urbanos e outro que teve sua educação tirada do convívio com o campo. Como em uma longa resposta a um desafio, Patativa mostra as qualidades inerentes ao poeta do campo:

Poeta, cantô de rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá. 
Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem. 

      Para terminar o poema, ele pede que o poeta da cidade se contente em ficar no lugar onde foi criado, pois tudo o que tem na zona urbana tem, mesmo que de forma diferente, no campo. 

O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.
Aqui findo esta verdade
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá.
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá que eu canto cá. 

      É interessante notar que o uso de expressões regionalistas e das aparentes falhas gramaticais não tiram a beleza rítmica do poema e ainda confere ao leitor ou ouvinte a sensação de ouvir a voz de um homem do campo em seu interminável diálogo sobre as qualidades da  vida longe das cidades, em uma espécie de fugere urbem com sotaque nordestino.
      Outra característica que faz parte da poética de Patativa do Assaré é sua tendência a fazer críticas sociais. Consciente de que literatura não é apenas expressão de uma beleza idealizada, o poeta aproveita a cadência de seus versos para fazer denúncias sociais e críticas ao que julga errado. Isso pode ser visto em grande parte da obra do autor de Aqui tem coisa, mas se torna mais pungente em Triste Partida e em seu ABC do Flagelo, no qual as letras do alfabeto referem-se ao sofrimento do povo. De modo bastante poético, Patativa leva o leitor a refletir sobre as condições no Nordeste, sobre a seca que mata o gado e espanta o trabalhador, levando-o para longe de sua terra natal. Nas letras B  e J do poema, reproduzidas a seguir, é possível perceber o tom de lamento que permeia o texto inteiro.


B — Berra o gado impaciente
     reclamando o verde pasto,
     desfigurado e arrasto,
     com o olhar de penitente;
     o fazendeiro, descrente,
     um jeito não pode dar,
     o sol ardente a queimar
     e o vento forte soprando,
     a gente fica pensando
     que o mundo vai se acabar.

J — Já falei sobre a desgraça
     dos animais do Nordeste;
     com a seca vem a peste
     e a vida fica sem graça.
    
Quanto mais dia se passa
     mais a dor se multiplica;
     a mata que já foi rica,
     de tristeza geme e chora.
     Preciso dizer agora
     o povo como é que fica.

      A crítica às injustiças sociais, como foi dito anteriormente, também faz parte do repertório desse poeta que era ao mesmo tempo lírico e contundente em suas palavras. No longo poema Terra é Naturá, ele condena o latifúndio e praticamente implora por uma reforma agrária, deixando claro que a intenção do trabalhador rural não é igualar-se ao coronel latifundiário, mas sim ter condição de sustentar a família e poder usufruir daquilo que deveria ser um bem coletivo: o direito à terra e a um lugar para trabalhar. Mas antes de fazer seu pedido, o poeta metaforiza as qualidades intrínsecas da terra, que é vista como algo belo, mágico e essencial ao mesmo tempo:

Esta terra é como o vento,
O vento que, por capricho
Assopra, às vez, um momento,
Brando, fazendo cuchicho.
Ôtras vez, vira o capêta,
Vai fazendo piruêta,
Roncando com desatino,
Levando tudo de móio
Jogando arguêro nos óio
Do grande e do pequenino.

       Depois de dar ao texto um tom telúrico e lírico, Patativa muda o foco e passa a, nas últimas estrofes, exigir um direito que é negado ao trabalhador rural: o de ser dono da própria terra:

Não invejo o seu tesôro,
Sua mala de dinhêro
A sua prata, o seu ôro
O seu boi, o seu carnêro
Seu repôso, seu recreio,
Seu bom carro de passeio,
Sua casa de morá
E a sua loja surtida,
O que quero nesta vida
É terra pra trabaiá.

Iscute o que tô dizendo,
Seu dotô, seu coroné:
De fome tão padecendo
Meus fio e minha muié.
Sem briga, questão nem guerra,
Meça desta grande terra
Umas tarefa pra eu!
Tenha pena do agregado
Não me dêxe deserdado
Daquilo que Deus me deu.

      A temática dos “causos” contados pelos caboclos do sertão aparece também na poesia de Patativa dos Assaré, principalmente no poema Uma do Diabo, que narra, no ritmo cadente do cordel, a história de Mané Gibão, um homem que dizia de nada ter medo. Mesmo todo mundo avisando que o demônio aparecia pelas redondezas em forma de um grande bode, o rapaz desdenhava das pessoas, dizendo que aquilo era apenas conversa do povo. Tudo muda quando ele se vê cara a cara com o demônio e busca a proteção da imagem do Padre Cícero. Com o bom humor que lhe é peculiar, o poeta mostra como ficou o valentão após o demônio ter ido embora:

Eu senti grande miora,
Vendo o bicho se afastando
E saí estrada a fora
Com as perna bambeando.
E eu não nego nada não,
Nem que façam mangação
Eu não vou escondê nada
Dos aperto que passei
Quando em casa cheguei
A calça tava moiada

Ter que partir da própria terra, que é um tema recorrente em toda a obra poética de Patativa do Assaré, aparece também nos belos poemas A tristeza mais triste e Lamentos de um nordestino, nos quais o homem é afastado do rincão natal por causa das condições adversas ocasionadas pela seca que assolava o nordeste.
O pungente tom de tristeza pode ser percebido logo na primeira estrofe de cada um dos poemas acima citados:

Neste mundo não existe
Uma tristeza mais triste
Igual à separação
Do caboclo nordestino
Que viajou sem destino
Deixando o caro torrão
(A Tristeza mais triste)

Eu sou sertanejo das terras do Norte,
Mas a negra sorte me fez arribar.
Hoje vivo ausente,
Sem ver minha gente,
O  meu sol ardente
E o meu branco luar

Ai quem me dera voltar
Ai quem me dera voltar
Ao meu lar!
(Lamentos de um nordestino)


Para ler Patativa do Assaré

            Ler Patativa do Assaré é uma tarefa fácil e bastante prazerosa, mesmo em caso de ser uma leitura obrigatória para uma prova de vestibular. Mas o aluno inteligente logo verá que, durante o contato com o livro, ele não estará estudando apenas literatura, mas também História, Geografia, Língua Portuguesa, Filosofia e Sociologia, além de estar se preparando para a redação. Os temas trabalhados pelo poeta, como reforma agrária, coronelismo, saudade, medo, ambição e a relação entre campo e cidade podem ser explorados em provas das mais diversas disciplinas.
            Para ler a segunda parte do livro – a que foi indicada pela UEMA – candidato deve despir-se de todos os preconceitos linguísticos e ter a certeza de estar lendo um poeta que foge aos padrões, tanto com relação à linguagem, quanto à forma de apresentar os temas abordados.
            Porém, mesmo em uma época em que as pessoas apresentam grandes dificuldades na leitura de textos poéticos, os versos de Patativa podem ser saboreados de maneira lúdica e pragmática ao mesmo tempo.






sábado, 9 de outubro de 2010

GERALDO CALIMAN

O PAI DA PEDAGOGIA SOCIAL NO BRASIL
José Neres
(O Estado do Maranhão, 20 de setembro de 2010)

Em um primeiro contato com a Pedagogia Social, alguém pode pensar que se trata de algo romântico, oriundo de quem deseja salvar o mundo sem atentar para os inúmeros obstáculos que poderão ser encontrados durante o percurso que vai da teoria à prática. No entanto, realizar milagres ou esperar que estes aconteçam, como forma de sanar os problemas detectados em uma comunidade ou em grupo de risco, não é o objetivo maior da Pedagogia Social, que é uma ciência e, como tal, tem seus suportes teóricos e metodológicos.

Em termos gerais, a PS está preocupada com o ser humano em sua dimensão de conflito e/ou risco social, buscando formas de compreender e tentar sanar problemas como violência, uso de drogas, delinqüência e demais situações de risco. E embora a nomenclatura possa até ser nova, os problemas são antigos e estão sempre em busca de quem possa pelo menos minimizá-los.

Ao longo de toda a História da humanidade, sempre houve discussões a respeito do papel e da interferência do educador nos aspectos concernentes à formação social das pessoas. Pensadores como Platão, Hegel, Kant, Beccaria e Pestalozzi já demonstravam em seus textos preocupações com o desenvolvimento social da educação, não apenas nos aspectos informativos, mas também no âmbito da formação global do indivíduo. Contudo, é só a partir da segunda metade do século XX que esses estudos ganharam projeção e começaram a ser sistematizados, principalmente com as iniciativas de Paul Natorp e depois com os estudos de Hans Uwe Otto, Bernd Fichtner e Jorge Camors, entre outros pesquisadores que se dedicaram ou se dedicam ao assunto.

No Brasil, os trabalhos relativos à Pedagogia Social são ainda mais recentes. Atualmente, são diversos os estudiosos que se dedicam à compreensão do processo educacional pelo viés social, como é o caso de Antônio Carlos Gomes da Costa, Maria Stela Santos Graciani, Roberto da Silva, João Clemente Souza Neto, Rogério Moura e Maria da Glória Gohn. Porém quem pode ser considerado o introdutor desses estudos no Brasil é o professor ítalo-brasileiro Geraldo Caliman, que, em 1988, publicou o livro “Desafios, riscos e desvios”, considerado pelos estudiosos no assunto como o marco inicial da Pedagogia Social em terras brasileiras.

Geraldo Caliman, atualmente professor da Universidade Católica de Brasília, é um homem que dedicou sua vida aos estudos, à Igreja e às causas sociais. Graduou-se em Pedagogia (pela Faculdade Dom Bosco) e em Teologia (pela PUC-MG), depois foi para a Itália, onde fez curso de especialização em Filosofia, mestrado, doutorado e pós-doutorado pela Universitá Pontificia Salesiana, instituição na qual ocupou vários cargos docentes e administrativos. Mas a grande quantidade de títulos não tornou o professor um homem que se limitasse a transmitir seus vastos conhecimentos em sala de aula e se pôs em campo, trabalhando diretamente com o público que era objeto de suas pesquisas, ou seja, com pessoas em situação de risco social.

Ao voltar para o Brasil, Caliman percebeu que o país ainda não havia despertado para o estudo de algumas situações de risco em que jovens e adultos estavam envolvidos. Começou então a produzir trabalhos voltados para a divulgação e sistematização dos elementos norteadores da PS, estudos estes já bastante avançados na Europa e na América do Norte. Incompreendido a princípio, pois suas concepções iam de encontro a diversos dogmas arraigados na formação de muitos educadores que ainda não conheciam essa linha de estudo, o professor perseverou e conseguiu arregimentar alguns seguidores que disseminaram suas idéias pelo país.

Unindo teoria à prática, o pesquisador elaborou vários projetos e comandou diversas pesquisas voltadas para a compreensão e possível solução de alguns problemas como tóxico-dependência, jovens em situação de risco, marginalização, trabalho infanto-juvenil, formação de gangues, entre outros temas de grande relevância social. Para atingir um público formador de opinião e que disseminasse as novas teorias, o pesquisador publicou diversos artigos e livros, como, por exemplo, Os Paradigmas da exclusão social e Desvio social e delinquência juvenil, alguns de seus trabalhos mais recentes.

Hoje, cerca de duas décadas depois de aportar no Brasil, a Pedagogia Social começa a ganhar reforço de outros pesquisadores que vêem nesse estudo um caminho para diminuir o incômodo fosso que exclui uma parcela importante da sociedade brasileira. E Geraldo Caliman é visto não apenas com um pioneiro, mas como o verdadeiro pai dessa tendência no Brasil.

domingo, 3 de outubro de 2010

JORNADA TÁBUA DE PAPEL

 
 
Com o intuito de promover uma salutar discussão em torno da literatura produzida por autores maranhenses, a Café & Lápis Editora realizará, no dia 06 de novembro de 2010 (sábado), no Auditório Che Guevara/Sindicato dos Bancários (Rua do Sol – Centro) em São Luís, a Jornada Tábua de Papel – Literatura Maranhense, com a participação de professores universitários e escritores, que palestrarão sobre variadas temáticas. Ao final do evento, será lançado o livro coletânea TÁBUA DE PAPEL: ESTUDOS DE LITERATURA MARANHENSE, organizado pelo escritor e professor José Neres, reunindo artigos de dez autores. 
 
Capa do livro - lançamento: 06.11.2010
 
 
INSCRIÇÕES (a partir de 06 de setembro – terça-feira):
Local:
• Livraria Athenas (Rua do Sol – Centro);
• Livraria Prazer de Ler (CCH – UFMA);
• Faculdade Athenas Maranhense (Local a ser definido).
Valor (ÚNICO):
R$ 20,00 (Certificado – 10h + Livro Coletânea)

INFORMAÇÕES:
Tel: (98) 3082-8871 (Germana ou Claunísio)
E-mail:
cafelapis.editora@gmail.com
Blog: cafelapiseditora.blogspot.com 
PROGRAMAÇÃO:
08:15 h - Credenciamento

09:00 h – Abertura

09:20 h - 11:00 h - Mesa 1: Literatura e formação da identidade de um povo
Antonia Nilda Alves Cruz
Maria das Neves Oliveira e Silva Azevedo
Núbia Costa Bastos
Dinacy Mendonça Corrêa

11:10 h – 12:00 h – Palestra: Artur Azevedo e a comédia no Brasil
Dino Cavalcante

14:00 h - 15:40 h - Mesa 2: Literatura Maranhense: do clássico ao contemporâneo
Flaviano Menezes da Costa
Joaquim de Oliveira Gomes
Natércia Moraes Garrido
Rosely Maria Ribeiro Néri Saldanha

15:50 h - 16:50 h - Conferência de encerramento: Gullar: de São Luís para o mundo José Neres

17:00 h - Lançamento Coletânea “Tábua de Papel: estudos de Literatura Maranhense”
Entrega de certificados e livros
Coquetel de Encerramento

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

LANÇAMENTO DE LIVRO

Caros amigos, no dia 1º de outibro, a partir das 19 horas, na Livraria Leiamundo, haverá o lançamento do mais recente livro do escritor Wilson Marques. Quem puder, compareça! Vale a pena!!!!!

domingo, 26 de setembro de 2010

SECRETARIADO EXECUTIVO


SECRETARIADO: 25 ANOS DE SUCESSO
José Neres & Lindalva Barros
 

            Embora seja bastante antiga, remetendo inclusive à época dos escribas, no Brasil, foi somente a partir de 30 de setembro de 1985, com a aprovação da Lei nº 7.377, depois modificada pela Lei nº 9.261, de 10 de janeiro de 1986, que o profissional de secretariado teve sua situação regulamentada.
            Durante muito tempo, era comum acreditar-se que para exercer a função de secretário ou secretária bastava saber atender ao telefone, servir água ou cafezinho e, principalmente, ter rosto e corpo bonitos. Hoje, no entanto, as pessoas já começam a ter consciência de que competência e preparo técnico/acadêmico são elementos essenciais para quem deseje ingressar nessa carreira, que é uma das mais promissoras do mercado.
            É muito difícil imaginar, atualmente, um profissional de secretariado que aja de maneira passiva dentro de uma empresa, apenas acatando ordens sem pensar em saídas mais eficientes para os problemas enfrentados no dia a dia de uma instituição. O perfil moderno desse profissional exige que ele esteja atento às mudanças do mercado, atualizado com as novas técnicas de administração e gerenciamento de situações que anteriormente eram passadas diretamente para o imediato superior, sem a menor interferência do(a) secretário(a).
            Com a exigência de formação superior para exercer a profissão, a atividade secretarial deixou de ser vista como uma tarefa técnica, mecânica e repetitiva, passando a ter maior importância dentro da organização interna e externa de uma instituição pública ou privada. Com uma visão holística da realidade circundante, o(a) secretário(a) passou da categoria de simples serviçal de escritório à condição de gestor adjunto de diversos setores da instituição à qual presta serviço e não são raros os casos em que assume  responsabilidade extras em situações de emergência.
            No Maranhão, o curso superior em Secretariado Executivo demorou bastante a chegar e foi implantado graças aos esforços conjuntos de José de Ribamar Fiquene e Zenira Massoli Fiquene, proprietários de uma instituição de ensino superior, de Dalti Calvert Sousa, um dos ícones do secretariado no Estado e da professora Nilzenir de Lourdes Ribeiro Almeida, atual presidenta do Sindicato da classe e a primeira professora do Curso no Maranhão com diploma superior em Secretariado.
            O Curso, que recentemente completou dez anos de funcionamento, já formou aproximadamente mil profissionais e foi homenageado pelos Correios com um selo comemorativo pela passagem da primeira década de atuação. Constantemente adaptando-se às necessidades de um mercado cada vez mais exigente e que começa a impor a formação superior como condição essencial para a contratação de secretários e secretárias, o curso de Secretariado Executivo Bilíngue foi inicialmente coordenado pela professora Ester Rátis de Santana e depois pelas professoras Lígia Saraiva e Evelin Leite Kantorski e é atualmente dirigido por Conceição de Maria Moura Ferreira, secretária executiva de grande experiência na área administrativa e na educacional.
            Depois de muita luta, o profissional de secretariado finalmente começa a ser reconhecido como parte de extrema importância nas complexas engrenagens de uma instituição de qualquer porte. E agora, vinte e cinco anos após a regulamentação da profissão, a cada dia prova que pode fazer a diferença neste exigente e cada vez mais moderno mundo de negócios.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

AGUARDEM... TÁBUA DE PAPEL

Com o intuito de promover uma salutar discussão em torno da literatura produzida por autores maranhenses, a Café & Lápis Editora realizará, no dia 06 de novembro (sábado), no Auditório Che Guevara/Sindicato dos Bancários em São Luís, a Jornada Tábua de Papel – Literatura Maranhense, com a participação de professores universitários e escritores, que palestrarão sobre variadas temáticas.

Ao final do evento, será lançado o livro coletânea TÁBUA DE PAPEL: ESTUDOS DE LITERATURA MARANHENSE, organizado pelo escritor e professor JOSÉ NERES, da Faculdade Atenas Maranhense, reunindo artigos de dez autores. 
Capa provisória do livro

Em breve, locais de inscrições e programação completa.

Aguardem!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

O FALAR MARANHENSE

Aqui está nosso artigo publicado na revista Conhecimento Prático Língua Portuguesa.
A revista já está nas bancas

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

GULLAR... SEMPRE GULLAR

Não consigo negar nem esconder minha admitação pela obra de Ferreira Gullar. Sou fã de toda a obra desse poeta que conseguiu sair dos limites da própria província e, com o poder de suas palavras, alcançou os mais altos postos da literatura brasileira.
Hoje o Poeta completa 80 anos e, como forma de homenagem, republico este artigo que saiu há muitos anos na Revista De Repente, do Piauí, com algumas modificações. Em breve, uma versão mais ampliada e consistente deste estudo saíra no livro Tábua de papel, a ser editado pela Café e Lápis Editora.



GULLAR: O CORDELISTA
José Neres


fonte: Internet: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBl4vaGkKYSz5ez41vnyp7wrnEWd-CtxKy0YI-ZTjIidxx_7FFsjcajk-AJsMZ_m9oedgqsI9cN31QcApCG-cjJVacva-bnILEMU5Vze03M0Di8ryQA9yi2taSqH-uByHoJfYL8da1vCI/s1600/ferreira+gullar.jpg
            Não há menor dúvida de que Ferreira Gullar é um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Com dezenas de livros publicados, o poeta maranhense é conhecido pela crítica e pelo leitor geral por seu tom que mescla o lírico ao social e por denunciar os desmandos dos governantes, separando muito bem, na relação de status quo quais são os dominantes e quais são os dominados. Tal atitude valeu-lhe anos de exílio e inúmeros poemas, como pode muito bem ser comprovado na leitura do livro Rabo de Foguete, sua autobiografia literária publicada no final de 1998.
            Visto por Vinícius de Moraes como “o último grande poeta brasileiro”, Gullar é dono de uma alentada obra, que vai de poemas a ensaios, passando por peças teatrais, prosa experimental, roteiro para telenovelas e séries de televisão, traduções e crônicas. Mas é sem dúvida seu livro, Poema Sujo, escrito durante os anos de chumbo da censura brasileira, a sua maior realização literária.  O crítico piauiense Assis Brasil compara a obra magna de Gullar a uma espécie de nova Canção do Exílio das letras nacionais.
 Conhecido também por seu estilo independente, o poeta partiu de textos de caráter parnasiano, atingiu a aura modernista e investiu em atitudes vanguardistas, brigando com o grupo concretista e trazendo à luz o movimento Neo-Concreto. E, entre 1962 e 1967, publicou, numa grande demonstração de engajamento político (que aparece também  em obras anteriores às datas citadas com outros matizes) quatro romances de cordel, com os seguintes  títulos: João Boa-Morte – Cabra Marcado pra Morrer; Quem Matou Aparecida; Peleja de Zé da Molesta com Tio Sam e História de um Valente.
            Embora a produção cordelística de Ferreira Gullar tenha sido relegada a um segundo plano até mesmo pelos estudiosos de sua obra, ela merece ser lida e relida, pois apresenta versos de boa qualidade e com grande carga de abordagem social. No início da saga de João Boa-Morte, o poeta adverte que o caso:

Sucedeu na Paraíba
mas é uma história banal
em todo aquele nordeste
Podia ser em “Sergipe,
Pernambuco ou Maranhão
Que todo cabra da peste
Ali se chama João
Boa-Morte, vida não

            João é um trabalhador rural que, após desafiar o Coronel Benedito, o dono das terras em que trabalha, se vê ameaçado de morte e é obrigado a deixar a região. Em todos os lugares aonde chega pedindo emprego, João é tratado com desdém, pois o antigo patrão já havia declarado que ninguém poderia contratá-lo, sob pena de sofrer retaliações. Com a mulher e os seis filhos, o herói da narrativa vaga sem perspectiva de alimentar sua família. Finalmente, após a morte de um dos filhos, por inanição, decide matar a mulher e as demais crianças  e cometer suicídio. Quando vai cometer o crime, é encontrado por Chico Vaqueiro, “um lavrador como ele sem dinheiro”, que faz parte da Liga que luta contra os latifundiários. O caboclo diz a João:

O inimigo da gente
é o latifundiário
Que submete nós todos
a esse cruel calvário
(...)
É contra aquele inimigo
que nós devemos lutar.
Que culpa têm os seus filhos?
Culpa de tanto penar?
Vamos mudar o sertão
Pra vida deles mudar.

            Saindo do campo e indo para a cidade, ou melhor, para a favela, mas sem mudar o enfoque da exploração do homem pelo homem, o poeta escreve o cordel Quem Matou Aparecida, subtítulado História de uma favelada que ateou às vestes. O Poema traz a vida e morte de uma moça que:

Que não teve glória, nem fama
de que se possa falar.
Não teve nome distinto:
criança brincou na lama,
fez–se moça sem ter cama
nasceu na Praia do Pinto,
morreu no mesmo lugar.

            Aparecida sai da favela e vai trabalhar como doméstica na residência de uma família rica. Envolta em um turbilhão de acontecimentos, a adolescente é seduzida pelo patrão e é descoberta pela patroa, que a acusa de roubo. Grávida, vai parar na cadeia, onde sofre as maiores humilhações possíveis. Depois de muito sofrimento, conhece o operário Simão, que trabalhava muito, mas ganhava “tão pouco/ que mal dava pra comer”. Vão morar juntos. O rapaz envolve-se em uma greve e é preso pela Repressão. Assim como muitas vítimas da ditadura, Simão desaparecer e nunca mais volta para o “barraco esburacado” onde morava com sua companheira. Sem alimento, a criança morre, no desespero, a mãe, com apenas 15 anos, “derramou álcool na roupa/ para logo fogo acender”. Surgem então os questionamentos Quem Matou Aparecida/ “Por que há ricos e pobres?”. Vindo depois a resposta:

Quem ateou fogo ás vestes
Dessa menina infeliz
Foi esse mundo sinistro
Que ela nem fez nem quis
- Que deve ser destruído
pro povo viver feliz.

            No terceiro cordel temos Zé da Molesta, “Um Zé franzino/ nascido no Ceará/ mas cantador como ele/ no mundo inteiro não há”. Numa típica alegoria, Gullar põe Zé da Molesta como sinônimo do povo brasileiro, sofrido, mas inteligente e improvisador. Para opositor, temos o Tio Sam, um estereótipo da cultura americana, arrogante e dominador, impondo seus desejos pela força. Desafiado pelo americano, o nordestino foi parar no prédio da ONU, para provar, que mesmo pobre, muito vale e que sua pobreza ocorrer em virtude dos constantes saques que os Estados Unidos promovem no Brasil. Rendido no embate, o norte-americano apela pela força bruta de seu poderio bélico e econômico, e o brasileiro tem de fugir dali para continuar com a vida. No desespero, o poderoso Tio Sam:

Gritou: “Chega de conversa,
Que estou desmoralizado!
Desliguem a televisão,
Deixem o circuito cortado,
Mobilizem os fuzileiros,
Quero ver esse ‘cabra’ amarrado.
Vamos lhe cortar a língua
Pra ele ficar calado.

            Finalmente, temos a História de um Valente, que traz a saga de Gregório Bezerra, um “filho de pais camponeses” que sai de Pernambuco e se torna soldado. Deixa o exército e ingressa no PCB, participa da revolta de 35, vai preso, é torturado, e depois tornar-se deputado, mas perde o mandato quando o Partido Comunista é posto na ilegalidade. Já sexagenário volta para cadeia. O poeta termina os versos conclamados e alertando:

Gregório está na cadeia.
Não basta apenas louvá-lo.
O que a ditadura espera
É a hora de eliminá-lo.
Juntemos nossos esforços
Para poder libertá-lo,
Que o povo precisa dele
Pra em sua luta ajudá-lo.

            É importante notar que em todos os seus cordéis, Ferreira Gullar procura soluções marxistas para os problemas enfrentados no Brasil. Para ele só há um modo de salvar o que temos: a luta de classes, através de uma revolução. Logicamente, as idéias defendidas pelo escritor, bem como as propostas por ele dadas não agradaram ao “Governo”, que, na época, o considerou uma ameaça.
            Interessante perceber também que somente agora parece que os leitores estão entrando em contato com os cordéis de Gullar. Mesmo que os textos fizessem parte das várias edições de Toda Poesia, acabavam servindo mais como uma curiosidade que como fonte de leitura e de estudo. Recentemente os textos foram reunidos em um livro chamado Romances de Cordel, uma edição que valorizou os textos, pois os tirou do conjunto geral e ressaltou a beleza individual de cada narrativa em cordel. Hoje os poemas podem também ser lidos na belíssima edição de Poesia Completa, Teatro e Prosa, da Nova Aguilar Editora, organizada pelo professor Antônio Carlos Secchin.
            Mesmo o próprio poeta dizendo que os poemas de tom dominante político são pobres, não podemos negar que a coragem de mostrar uma outra face do País em um momento tão melindroso já é o suficiente para imortalizar um escritor. E, inteligentemente, Gullar escolheu uma forma popular para trabalhar um tema que a todos interessa: a liberdade. Ao contrário do que alguns críticos pensam, o cordel não empobreceu a obra de Ferreira Gullar, pelo contrário, fê-la tornar-se mais rica, densa e humana.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

NÃO PERCAM!!!!



A CAFÉ E LÁPIS EDITORA a todos para participar conosco da I Jornada Pergaminho Maranhense: desafios da pesquisa em História do Maranhão, a ser realizada no dia 04 de setembro (sábado), no Auditório do Sindicato dos Bancários (Rua do Sol, Centro - São Lu-is - MA). Com a seguinte programação, que inclui o Lançamento da Coletânea Pergaminho Maranhense (vol. 1):
Programação da I Jornada Pergaminho Maranhense:
08:30 h - Credenciamento
09:30 h - Abertura

10:00 – 11:30 h - Mesa 1: Memória, Identidade e Literatura
Participantes: Ms. Dinacy Mendonça Corrêa (Letras –UEMA);

Esp. Jeane Carla Oliveira de Melo (Mestranda Cultura e Sociedade – UFMA);
Esp. Marcelo de Sousa Araújo (Mestrando Cultura e Sociedade – UFMA);

Ms. Régia Agostinho da Silva (História – UFMA).
13:30 – 15 h - Mesa 2: Política, Economia e Movimentos Sociais

Participantes: Dr. Baltazar Macaíba de Sousa (Ciências Sociais – UFMA);
Esp. Marivânia Melo Moura (Especialista História do Maranhão);

Dra. Marize Helena de Campos (História – UFMA).
15:30 – 16:30 h - Conferência de encerramento

Preservação e inserção: uma leitura de imagens
Dra. Júlia Constança Pereira Camêlo (História – UEMA)

17 h - Lançamento Coletânea Pergaminho Maranhense: estudos históricos
Café de Encerramento
As inscrições para o evento ainda podem ser feitas nos seguintes locais:
- Livraria Athenas - Rua do Sol, Centro;
- Livraria Prazer de Ler - CCH - UFMA, Campus do Bacanga.

Sobre os valores:
- R$ 12,00 (somente Certificado - carga horária: 10h);
- R$ 20,00 (Certificado + Livro "Pergaminho Maranhense (vol.1)").

Para os não inscritos no evento, o livro será vendido no lançamento ao valor de R$ 20,00.


Não deixem de participar!

Outras informações:

blog: cafelapiseditora.blogspot.com
Tel: (98) 3082-8871 (Germana ou Claunísio)

NOSSA LITERATURA

A LITERATURA INFANTO-JUVENIL NO MARANHÃO – PARTE IV
José Neres


            Um dos grandes obstáculos encontrados pelos escritores maranhenses é a falta de condições de escoamento de sua produção artístico-cultural. Como não há um sistema profissional de produção e de distribuição de livros, o autor torna-se, ao mesmo tempo, escritor, revisor, editor, patrocinador, divulgador e vendedor dos próprios trabalhos. Funções para as quais nem sempre está preparado ou tem disponibilidade de tempo. Isso faz com que a algumas obras de boa qualidade não atinjam o público-alvo. A falta de suplementos culturais que comentem, resenhem e divulguem a produção literária é outro percalço que contribui para o desânimo dos autores com relação ao alcance de seus trabalhos.
            Tais problemas de divulgação trazem como consequência imediata a ausência das obras nas prateleiras das livrarias. Quem tem o desejo de ler os autores maranhenses esbarra na dificuldade de encontrar as obras à venda. No caso da literatura infanto-juvenil isso se torna bastante evidente também pelo fato de a quase totalidade dos escritores dedicados a esse gênero não terem suas obras adotadas pelas escolas e serem praticamente desconhecidos no próprio Estado em que nasceram ou que adotaram como lar.
            Mesmo com tantos obstáculos, alguns escritores tentam vencer as barreiras da falta de espaço na mídia e nas escolas e produzem textos que muito têm a dizer ao público a que se destinam. É o caso de Josué Costa, poeta, teatrólogo e ator, que reuniu doze de seus textos teatrais em um volume intitulado “Comédias para rir e aprender”, um livro em que o riso e a seriedade de informações úteis sobre vícios, saúde e relações familiares se mesclam de forma equilibrada. Alguns esquetes, como os protagonizados pela Turma do Gueto, são altamente educativos e, a partir do humor, discutem problemas como alimentação inadequada, uso de drogas nas escolas, noções e higiene e outras situações que precisam ser discutidas na escola e na família. O livro, ricamente ilustrado, destina-se a pessoas de todas as idades, embora algumas peças tenham seu conteúdo aproveitado com maior intensidade por quem já tenha discernimento suficiente para perceber as ironias presentes nos diálogos.
            A talentosa e experiente Lenita Estrela de Sá percorre com a mesma desenvoltura os caminhos da literatura tida como adulta e as tortuosas veredas dos textos infanto-juvenis. Em “A Filha de Pai Francisco”, a escritora retoma a conhecida temática do auto do bumba-meu-boi, mas dá uma roupagem diferente ao conflito principal, introduzindo novas personagens e discutindo situações que vão além do desejo de comer a língua do boi. Em outra obra – “A Lagartinha Crisencrise” – o universo da angústia das transformações físicas e comportamentais por que passam todos os seres humanos são metaforizados pela história da lagartinha ansiosa por tornar-se borboleta.
            Joaquim de Oliveira Gomes, com seu livro de estreia, “O Jabuti que falava inglês”, não se preocupa apenas em contar a breve passagem do menino Pedrinho por uma região na qual ele é o estrangeiro e, portanto, o deslocado no meio de uma língua e de uma cultura diferentes. O jabuti que serve de título ao livro, não se limita a ser intérprete do menino, mas também é o elo entre aspectos culturais tão diversos e o elemento mediador entre os diversos temas suscitados pela obra: amizade, deslocamento cultural, aprendizagem e respeito pelo que há de diferente nas pessoas que se aproximam em busca de conforto e de solidariedade.
            Infelizmente, as edições limitadas e o pouco incentivo a divulgação dificultam o acesso do leitor ao mundo mágico criado por Lucas Baldez em sua “Viagem ao Mundo da Imaginação”; às fantasias imagéticas de Tácito Borralho, em “Gibi, o menino que não sabia voar”; às irônicas metáforas de Lio Ribeiro, no alegórico “O Sumiço do Rei”; à amizade surreal criada por Suely Moura de Oliveira, no seu livro “Juliana”; e a tantos outros livros que se tornaram raridades nas estantes de nossas bibliotecas e de nossas livrarias

domingo, 29 de agosto de 2010

NOSSA LITERATURA


A LITERATURA INFANTO-JUVENIL NO 

MARANHÃO – III
(O Estado do Maranhão, 26 de agosto de 2010)
José Neres

            Nos últimos anos, o autor maranhense que mais tem se destacado na publicação de obras destinadas ao público infanto-juvenil é Wilson Marques. Não apenas pela quantidade de obras publicadas, mas também pela qualidade de seus textos e pela evidente presença de um projeto literário que visa levar para os leitores iniciantes um pouco da história de São Luís e do Estado como um todo, com suas lendas, folclore e personalidades mais destacadas.
            Em sua escrita, Wilson Marques consegue equilibrar os aspectos ficcionais da narrativa com elementos que fazem parte da história ou do imaginário popular do povo maranhense. Dessa forma, ele consegue despertar a curiosidade do jovem leitor que, após o contato inicial com o livro, pode sentir-se motivado para pesquisar sobre as curiosidades deixadas ao longo das páginas. Livros como “Touchê: uma aventura pela cidade dos azulejos”, “Touchê: uma aventura em noite de São João”, “Quem tem medo de Ana Jansen?” e “Touchê e o segredo da serpente encantada”, entre outros, são essenciais para despertar nos jovens o interesse pela história e pelas lendas do Maranhão, tornando-se excelentes aliados dos educadores na tarefa de levar às novas gerações, de forma lúdica e didática ao mesmo tempo, um pouco da identidade cultural do povo maranhense.
            Pensando em um público mais amadurecido, Wilson Marques também investiu na série “O Maranhão também tem História”, na qual pontos estratégicos da História do Maranhão são narrados em uma linguagem acessível. Os livros podem ser lidos apenas com uma perspectiva lúdica ou podem servir como fonte de consulta para trabalhos escolares.
            Outro escritor que, apesar de pouco divulgado, tem uma boa produção de obras infanto-juvenis é Gilmar Pereira, que nasceu em Tocantins, mas que vive em Imperatriz desde seu primeiro ano de vida. Recentemente, o escritor Lançou “O Camaleão que queria ser gente e outras fábulas”, uma coletânea de histórias que trabalham temas bastante atuais como poluição ambiental, culto ao corpo, solidariedade e descobertas juvenis. Tudo em uma linguagem carregada de alegorias, em que os animais funcionam como personagens tipificadas, representando pequenos grupos que são facilmente identificáveis durante a leitura.
            Gilmar Pereira vem há mais de uma década dedicando-se à formação de leitores com seus textos metafóricos e sociais ao mesmo tempo, como é o caso de “O menino e a Lagosta e outras peripécias”, “A bela amortecida e outros contos”, “Contos de menino e de menina e de velho também” e “Canção para dormir e outros contos”. Em suas narrativas fica claro o desejo de divertir e ensinar ao mesmo tempo, mas sem precisar recorrer ao mero moralismo e sem tratar o jovem leitor como figura passiva diante dos textos.
            Reconhecido por sua habilidade por tratar temas polêmicos e por levar para o mundo ficcional fatos verídicos que frequentaram  as páginas policiais de jornais, José Louzeiro – o criador do romance-reportagem de cunho policial no Brasil – consegue levar o público infanto-juvenil para um universo de suspense e de aventura. Alguns de seus livros, como “Ritinha Temporal”, “A Gangue do beijo” e “O bezerro de ouro” são adotados como livros paradidáticos em diversas regiões do país e são constantemente reeditados. Não são, contudo, obras para quem ainda tateia no mundo das palavras escritas, mas sim para leitores (jovens ou adultos) com certo grau de proficiência e que já desenvolveram a habilidade de relacionar a ficção com a realidade circundante.
            Autores como Wilson Marques, Gilmar Pereira e José Louzeiro mostram que é possível produzir obras de boa qualidade técnica e temática. Mas eles não são os únicos com essa habilidade, pois há ainda muitos outros escritores que, mesmo sem divulgação publicam trabalhos de bom nível, conforme veremos no próximo artigo.