NHOZINHO: O MÁXIMO NO MÍNIMO
José
Neres

Talvez por conta desse incômodo
silêncio a respeito dos talentos locais, o nome de Antônio Bruno Pinto
Nogueira, mais conhecido como Nhozinho, seja pouco lembrado, embora figure
entre os mais originais e importantes escultores da arte brasileira do século
XX.
Nascido em Cururupu, em 17 de maio
de 1904, Nhozinho desde a infância demonstrou inclinação para as artes que
exigiam atenção, perícia, precisão e habilidade. Mal começava a entrar na adolescência, porém,
começou a lutar contra uma doença degenerativa que deixaria seus membros
superiores e inferiores deformados e que, posteriormente, após a amputação de
ambas as pernas, iria condená-lo a locomover-se em um carrinho de madeira por
ele mesmo projetado e construído, mas que atendia às suas necessidades. Para
completar seu rol de provações, o artista ainda perdeu a visão do olho direito.
Mas essas tantas dificuldades não
impediram Antônio Bruno de produzir uma obra ímpar na história do artesanato
brasileiro. Na verdade, parece que as extremas dificuldades serviram de ânimo
para que o artista maranhense se superasse e evoluísse em seus trabalhos,
deixando de ser apenas mais um artesão habilidoso e impregnando suas obras de
motivos e temas da vida social e folclórica maranhense; saindo também do
estaticismo das peças para imprimir ideia de movimento a suas criações.
Dono de um estilo em que o
minimalismo na escolha do tamanho das peças contrastava com a profusão de
detalhes, Nhozinho se notabilizou também por registrar os tipos regionais, em
uma busca de reproduzir elementos representativos de seu povo e de sua época.
Observando-se atentamente as obras desse artista, muitas vezes com a
necessidade de uma lente de aumento, é possível perceber a riqueza de detalhes
e o desejo dele em eternizar em suas peças detalhes que passavam despercebidos.
De alguma forma, guardadas as proporções e respeitados os estilos, pode-se
dizer que Nhozinho registrou e esculpiu em buriti e outros suportes o dia a dia
da gente de sua época, tal qual o poeta latino Catullo imortalizou em palavras
o próprio cotidiano e as inquietações dos seus contemporâneos romanos. Em Roma,
Catullo decidiu esculpir sua época com palavras em suas famosas nugae. Séculos
depois, no Maranhão, Nhozinho optou por narrar em mínimas esculturas as
grandezas esquecidas de seu povo.

Mais recentemente o trabalho desse
fantástico artista tem despertado o interesse de intelectuais como, por
exemplo, Paulo Herkenhoff, Lélia Coelho Frota e Luciana Carvalho, todos
reconhecidos nacionalmente como alguns dos mais representativos estudiosos das
artes brasileiras.
Atualmente, boa parte da produção do
mestre maranhense pode ser visitada na casa-museu que leva seu nome (Rua
Portugal, 185, Centro Histórico). Sua
vida e sua obra também já renderam alguns artigos, exposições e livros, como
“Nhozinho: Imensas Miudezas”, que reúne trabalho de diversos pesquisadores. Mas
ainda há muito a ser descoberto e (re)avaliado na obra desse artista que
transformou deficiência em eficiência soube colocar o máximo de seu talento no
mínimo espaço necessário à realização de seus sonhos artísticos.
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