domingo, 20 de dezembro de 2009

LENDO ROMANCES


DOIS ROMANCES INFERNAIS


José Neres


O inferno, ou seus hipotéticos habitantes, é um dos temas recorrentes na literatura desde seus primórdios. Alguns escritores de excelente estirpe já se utilizaram passagens ambientadas no reino das trevas para a composição de suas obras. Nomes como Virgílio, Dante Alighieri, Gil Vicente, Guimarães Rosa e Jean Paul Sartre cravaram nas letras diversas concepções de como seria esse mundo desconhecido. Porém, mesmo sendo algo que povoa o inconsciente coletivo de povos das mais diversas origens, a temática do inferno ainda pode ser considerada um tabu, principalmente para quem põe os dogmas religiosos acima da tessitura literária.

Por se tratar de um assunto e de uma ambientação tão melindrosos, pode causar certa estranheza o fato de que dois romancistas maranhenses contemporâneo tenham, quase ao mesmo tempo, escolhido o inferno como espaço literário de suas narrativas que, ao mesmo tempo, trabalham uma refinada e sutil ironia, com boas doses de bom humor e com cenas que demonstram o domínio dos dois escritores com relação à técnica narrativa.

Quem se interessar pela temática tem à disposição duas obras bastante interessantes: “O Arquivista Acidental”, de Antônio Guimarães de Oliveira, e “O Infinito em Minhas Mãos”, de José Ewerton Neto. São dois romances que enveredam pelos campos do desconhecido, tendo como base os problemas e as dificuldades comuns a todos os habitantes da terra. Em ambas as obras, o leitor facilmente percebe que o interesse maior dos escritores não está em descrever o inferno, mas sim em mostrar que estar vivo pode não ser um privilégio tão grande assim.

Em “O Arquivista Acidental”, Antônio Guimarães traz a história de Arquimedes do Espírito Santo, um funcionário público que, habituado às lides burocráticas, requere a aposentadoria, mas morre na fila, antes de receber o benefício. Ao ser levado para o paraíso, ele dispensa a paz celestial e pede abrigo no inferno. A partir daí as peripécias se multiplicam e, rapidamente, o burocrata pacato, porém revoltado, vai se transformando em um temido, porém desastrado demônio.

Seguindo por um caminho paralelo, José Ewerton Neto cria Eunápio, um homem que mesmo sem grandes pecados, tem sua alma levada para o inferno. Contando com a sorte e com o péssimo caráter de pessoas tidas como idôneas, mas que só pensam no próprio bem, o novo demônio, agora com o nome de Vacele, envolve-se em um turbilhão de acontecimentos que o levarão a questionar as razões da própria existência.

Os dois escritores, cada um com seu estilo característico, acabam revivendo a velha máxima latina do “Ridendo castigat mores” (Rindo, castigam-se os costumes). Eles manejam com maestria a difícil arte de ironizar e de construir sutis alegorias a partir de situações cotidianas que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Em verdade, nos dois trabalhos, a imagem do inferno nada mais é do que um pano de fundo para ilustrar os mandos e desmandos que ocorrem cotidianamente em todas as esferas do poder.

Antônio Guimarães utiliza-se da astúcia de transformar um funcionário publico em diabo, com isso, deslinda todos os entraves burocráticos encontrados em uma repartição pública, seja ela no inferno, no céu ou na terra. Por sua vez, Ewerton Neto desnuda a trajetória que leva uma pessoa comum a ser tratada como ídolo, mesmo que sua alma esteja eivada de valores negativos, para isso ele, estrategicamente, centra as missões de seu demônio literário em três figuras tipificadas que transpiram falsidade e malícia: um político, um líder religioso e um autor de auto-ajuda.

No final da leitura dos dois romances, fica uma certeza: apesar das forças demoníacas que entravam as letras, nossos escritores ainda são capazes de transformar o enxofre infernal em prosa com divino sabor literário.





sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

COMENTÁRIO


MERAS COMPARAÇÕES

José Neres

Algo que sempre me impressionou em nossa imprensa é o caderno de esportes. Ma-ra-vi-lho-so! Incrível como nossos jornais acompanham os eventos esportivos... Dependendo do horário em que termina a competição ou premiação esportiva, na edição seguinte do periódico, temos, estampados, em letras garrafais, os resultados, os nomes dos atletas mais destacados e fotos, muitas fotos... A equipe de esportes parece estar sempre preparada para os chamados furos de reportagem. Basta um atleta especular que mudará de clube e lá está a notícia em destaque, geralmente precedida de uma chamada na primeira página. Basta um craque da moda se pronunciar sobre determinado assunto que logo tal comentário é debatido, dissecado, esmiuçado por especialistas no assunto. Tudo em uma velocidade impressionante! Realmente, os cadernos de esporte mostram em suas páginas e entrelinhas toda a velocidade que a imprensa tem quando há um interesse em divulgar as notícias.

Por outro lado, sempre me causou tristeza e estranheza lentidão dos mesmos jornais quando se trata de comentar os eventos culturais locais. Excetuando-se os casos raros (raríssimos, na verdade), os periódicos sofrem de carência crônica de papel e de jornalistas para a cobertura de peças teatrais, lançamentos de livros, resenhas sobre as obras publicadas, divulgação de músicas e filmes que não façam parte do circuito das grandes distribuidoras, palestras, recitais... As páginas tidas como destinadas à cultura costumam ser descartadas aos primeiros sinais de crise econômica ou editorial e, a cada dia, emagrecem a olhos vistos, deixando a impressão de que não há notícias recentes, além daquelas que englobem a mercadológica e lucrativa indústria da cultura de massa.

Nada contra o esporte, o qual considero umas das melhores e mais saudáveis formas de inclusão social, mas se há verbas e profissionais disponíveis para os cadernos esportivos, para os luxuosos e coloridos encartes sobre atores, novelas e personalidades do meio televisivo, se há disponibilidade de espaço para as picuinhas amorosas de atores e atrizes, porque será que falta espaço tempo e dinheiro para falar de arte e de cultura? Será falta de patrocinador? Será falta de público consumidor? Ou será a tal da falta de vontade para com o que não trará lucro imediato? Perguntas sem resposta!

Para ilustrar o que foi dito nos parágrafos anteriores, relembro alguns fatos recentes. Horas depois da já tradicional premiação de “Atletas do Ano”, o Caderno de Esportes fazia uma síntese do acontecimento, detalhando a atuação de cada um dos ganhadores e com direito a um pôster que ocupava as páginas centrais do encarte. Semanas antes e um dia após a referida festa esportiva, houve a III Feira do Livro de São Luís e dois lançamentos coletivos das obras vencedoras do Concurso Literário Gonçalves Dias. Sinceramente não me lembro de ter encontrado em nossos jornais um destaque significativo para tais eventos. Não me recordo de ter visto uma cobertura aprofundada a respeito dos participantes da Feira ou dos lançamentos, nem mesmo de ter visto a fotos dos palestrantes ilustrando artigos relativos ao assunto.

Alguém poderia argumentar que os escritores reunidos não tinham renome nacional, que poucos eram conhecidos além dos limites da província natal. Mas essa ideia esbarra na constatação de que os atletas que tiveram ampla cobertura, com direito até a cupons para votação durante dias e dias, também não são conhecidos da maioria do público leitor dos jornais. Indicados por suas respectivas federações, alguns guerreiros do esporte saíram da premiação sobraçando o troféu, mas ainda continuavam e continuam com seus feitos praticamente desconhecidos até mesmo quem preencheu o formulário de votação sem ter noção sobre as reais habilidades dos concorrentes. Mesmo assim, auditório estava lotado, para o bem do esporte.

Por outro lado, na segunda parte do lançamento do Plano Editorial da SECMA, realizado no Museu Histórico e Artístico, mesmo com a presença da “nata intelectual”, como assinalou o Secretário Luís Bulcão, e de autoridades políticas, o público não foi suficiente para lotar o recinto. Também não me lembro de ter visto os escritores perfilados para uma foto oficial que fosse ilustrar as páginas centrais de um caderno cultural dos próximos dias.

Mas o importante é sempre ter em mente que Esporte e Cultura são essenciais para a formação de um povo e que, com ou sem divulgação, continuarão seus caminhos em busca da divulgação de seus valores.

OBS: É importante destaca o esforço do editor e escritor Alberico Carneiro, que em seu suplemento, tenta resenhar as obras publicadas nos eventos literários de nossa cidade.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

TRÊS POEMINHAS




Na falta do que fazer, brinco com as palavras..............

sábado, 5 de dezembro de 2009

UM EXCELENTE PROSADOR

A CORTANTE PROSA DE JOE ROSA
José Neres


É comum ver-se em filmes e/ou documentários a cena em que uma pessoa, deitada em uma cama, apresenta o corpo marcado por linhas que facilitarão o trabalho do profissional encarregado de proceder à cirurgia. Aos poucos, o bisturi rasga o tecido e o sangue aflora à pele. Anestesiado, o paciente parece não sentir a dor e, depois, a ferida é costurada. Em seu lugar restará apenas uma pequena e às vezes imperceptível cicatriz.

Na literatura, há também escritores que conseguem tecer seus textos com a mesma destreza e precisão com que um habilidoso cirurgião faz suas incisões nos corpos dispostos a sua frente. No trabalho de tais escritores, cada linha é um corte; Cada parágrafo, uma sutura. Mas, em muitos casos, a intenção do artista não é disfarçar as cicatrizes sociais, mas sim expô-las. É o que faz, por exemplo, o escritor mineiro radicado no Maranhão, Joe Rosa.

Dono de um estilo que traz as marcas das obras pós-modernas, que prezam pela agilidade narrativa e pelo ritmo cinematográfico, Joe Rosa publicou um volume de poesia intitulado “Nem Tanto”, dois romances: “O Gosto Amargo da Cereja” e “Sol para Quartos Mofados”, além do livro de contos “Um Brinde aos 40”. Em seus livros voltados para a prosa de ficção fica claro que o interesse do autor é fazer um corte com precisão cirúrgica em alguns aspectos da sociedade, usando como anestesia o sarcasmo e boas doses da mais pura ironia.

Em “O Gosto Amargo da Cereja”, o autor traz à cena uma discussão sobre a AIDS. Tal tema, nas mãos de um escritor inexperiente, poderia descambar para um mero panfletismo dogmático e sem profundidade artística. No entanto, Joe Rosa, conduzindo habilmente um enredo que mescla momentos de tensão com situações capazes de levar o leitor a boas gargalhadas, ao mesmo tempo em que alerta sobre os perigos da silenciosa doença, também desmistifica a noção de grupo de risco. Inteligentemente, ele coloca como protagonista um homem culto, com formação superior, casado, heterossexual e detentor de conhecimentos da área médica, mas que, aos se deparar com a ameaça de estar infectado pelo vírus HIV, é tomado pelo Pânico e se envolve em uma rede de mentiras. A mensagem ultrapassa o limite das linhas e das entrelinhas, deixando claro que todos nós podemos passar pela mesma desesperadora situação.

No outro romance, “Sol Para Quartos Mofados”, uma profusão de temas, como velhice, prostituição, adultério, ganância, violência, vingança e religiosidade, gravitam em torno do núcleo narrativo. O autor utiliza uma técnica bastante apurada que o leva a dividir a história geral em dois pólos aparentemente isolados, mas que confluem formando um conjunto bastante harmônico, uma verdadeira bifurcação de micronarrativas desaguando em uma macronarrativa bastante articulada. No final, as partes se encaixam perfeitamente dentro de um sistema que pode parecer estranho para quem não está acostumado com as narrativas mais modernas.

No volume de contos, Joe Rosa não esconde suas influências literárias e também demonstra saber caminhar também pelas trilhas da narrativa curta. Trata-se de um livro bem construído que, à moda de Rubem Fonseca, João Antônio e Plínio Marcos, disseca o cotidiano de pessoas comuns, que buscam um significado para a própria existência.

Não importa o livro escolhido para começar a ler Joe Rosa. Em qualquer um deles os fãs da literatura encontrarão motivos para mergulhar nas outras obras do autor e, quem sabe, se, nesse mergulho, não encontrem a marca de alguma cicatriz do próprio passado.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

HORA DE ESCREVER


A FÓRMULA DA ESCRITA
José Neres
(O Estado do Maranhão, 02/12/2009)


É inimaginável que uma pessoa bem magra, ou beirando a obesidade mórbida, chegue para um instrutor de academia e exija que, antes de duas semanas, seu corpo esteja musculoso, modelado e pronto para uma exposição sem ou truques e recurso do photoshop. Da mesma forma, soa estranho um sujeito declaradamente sedentário contratar um campeão de corrida e pensar que em poucas semanas estará apto para sair de uma maratona com o prêmio de primeiro lugar. É também impossível alguém que nunca tenha entrado em uma piscina ou no mar tentar, com alguns escassos e irregulares momentos de treino, considerar-se apto a competir em uma piscina olímpica com adversários de alto nível e sair vitorioso... Então, por que será que algumas pessoas pensam que podem aprender a escrever de maneira proficiente em pouquíssimos dias e sem dedicar-se exaustivamente à prática da escrita?

Principalmente nos períodos que antecedem os concursos e vestibulares, milhares de candidatos a uma vaga nas universidades ou em cargos públicos que exigem domínio da produção textual invadem os cursos preparatórios e exigem que os professores de redação façam o milagre de transformar pessoas textualmente inativas em verdadeiros campeões da escrita.

Tais pessoas possivelmente acreditam que produzir bons textos não depende de esforço, de abnegação, de inúmeras horas de treino e de uma luta constante com as palavras. Quase sempre, quem acredita no milagre da escrita sem esforço detesta ser contrariado e não admite seus erros. Por essa razão, quem cultiva esse tipo de pensamento não aprende que cada folha amassada não é testemunha de uma derrota, mas sim a oportunidade de rever a tessitura da própria escrita e de aprender com as próprias falhas.

Não se apegar aos próprios textos como algo sagrado é uma das formas de refletir sobre a própria estrutura textual. Jogar no cesto de lixo ou na lixeira eletrônica algo que consumiu horas, dias, semanas ou meses, não deve ser visto como um ato de covardia, mas sim como um gesto de coragem diante da certeza de que tudo o que está escrito pode ser melhorado.

Geralmente os apressadinhos da escrita pedem conselho sobre o que devem fazer para melhorar seus textos. Mas não aceitam nenhuma das ideias que demandem disponibilidade temporal. Querem tudo para ontem e não estão interessadas em sugestões que incluam leitura atenta dos bons autores, consulta constante a dicionários, pesquisas sobre o assunto a ser tratado e, principalmente, uma grande dose de paciência. Decepcionadas com os conselhos recebidos, que fogem muito de suas expectativas, os esperançosos de um milagre passam a pedir dicas e macetes que sirvam para a “escrever qualquer texto”.

O interessante é que essas pessoas se zangam quando alguém diz que não existe uma fórmula mágica para transformar inércia, preguiça e a mera vontade de escrever em textos de boa qualidade. Mas quem a inventar será adorado por uma multidão eternamente agradecida.

domingo, 29 de novembro de 2009

III FEIRA DO LIVRO DE SÃO LUÍS


Quase sempre sou abordado com perguntas sobre a Feira do Livro. Este é o primeiro ano em que participo apenas como visitante, o que me dá uma visão bastante ampla do evento. Como sempre, há os pontos positivos e os negativos. Mas sempre é preciso que se veja que não é fácil organizar um evento com essas dimensões. Temos certeza de que as falhas serõa sanadas na próxima edição e e que os acertos serão ampliados.

A Seguir estão nossas impressões a respeito do evento.



GULLAR PERDIDO NA FEIRA

José Neres


Eis que chega ao fim a III Feira do Livro de São Luís, um evento que já se tornou parte importante do calendário cultural da capital maranhense e que sempre é muito aguardado pelos amantes da literatura e mesmo por quem simplesmente aproveita a ocasião para passear pelos corredores repletos de livros.

Nesta edição, o patrono da Feira foi o poeta, crítico, teatrólogo, roteirista e tradutor Ferreira Gullar, um dos maranhenses mais respeitados nos círculos intelectuais do país. Um escritor que merece todas as homenagens possíveis.

Logo ao chegar à Feira, os visitantes se deparavam com gigantescas reproduções de livros do autor, com um imenso painel e com um amplo auditório em homenagem ao poeta. A expectativa tomava conta dos visitantes. Uma monitora simpática entregava o livreto contendo a programação oficial do evento. Os admiradores de Gullar devoravam as páginas do folheto procurando as palestras e comunicações a respeito do homenageado. Decepção! Parece que as homenagens se limitavam à estrutura física da Feira e a uns raríssimos e pouco destacados momentos de debate sobre o trabalho do autor do Poema Sujo.

Todos já sabiam que o Gullar em pessoa não estaria presente à III Feira do Livro de São Luís, mas havia a esperança de que sua ausência física fosse compensada com debates sobre suas obras, com exposições sobre sua carreira e com discussões a respeito da produção de uma dos maiores poetas do Brasil contemporâneo. Mas isso não aconteceu!

Por alguma razão, os estudiosos da obra de Ferreira Gullar tiveram pouco espaço para apresentação de seus trabalhos. Todos sentiram a falta de uma mesa-redonda, que discutisse as diversas facetas da produção intelectual do escritor, e das provocações e comentários que certamente surgiriam por parte dos não-admiradores da obra gullariana. Para compensar um pouco a falta de debates sobre o patrono da Feira, o sempre incansável Alberico Carneiro, além de fazer uma palestra sobre “A Luta Corporal e o Crime na Flora”, distribuiu uma edição especial do Guesa Errante, contendo uma entrevista concedida por Gullar a Euclides Moreira Neto.

Público e Mídia

Com todo evento de grande porte, na III Feira do Livro de São Luís houve diversos pontos positivos e negativos. Novamente o antigo ditado que diz que Santo de casa não faz milagre parece que se comprovou. Os autores da terra não conseguiram fazer o milagre da multiplicação de público e quase sempre contaram com um espaço repleto de lugares vazios. No Café Literário, por exemplo, os escritores convidados falavam para parentes e amigos mais próximos, pois o restante do público ou se contentava a dar uma espiadela pelo vidro ou passava indiferente pelo local. O mesmo aconteceu em outros espaços, com palestrantes que se viram obrigados a transformar a fala preparada para um grande público em um pequeno círculo de bate-papo.

Com relação à mídia, há os problemas de sempre. Um espaço (não grande, mas pelo menos há) para os palestrantes com um nome destacado e um silêncio total para os conferencistas locais que, muitas vezes, como sempre comenta o escritor Ubiratan Teixeira, são encaixados na anônima categoria de Outros nas reportagens. Isso se torna visível quando uma atriz global sem (pelo menos por enquanto) projeção no mundo das letras é muito mais lembrada na imprensa, com constantes chamadas para sua palestra e para o lançamento de sua obra, do que José Louzeiro, que, com suas cinco dezenas de livros publicados, não teve a divulgação merecida.

Louzeiro, por sinal, foi um dos pontos positivos da Feira. Muito simpático e atento, transitou pelos diversos espaços do evento e foi bastante presente em várias atividades. Da mesma forma foi muito bom ver Nauro Machado relançando suas Esferas Lineares, Antônio Guimarães cercado de pessoas pedindo autógrafo e tantos outros escritores circulando pelos corredores. Outro ponto positivo foi que, no já citado Café Literário, este ano os autores convidados tiveram liberdade para falar livremente, sem a incômoda interferência de mediadores que limitavam o tempo de fala.

A III Feira do Livro de São Luís chega a seu fim, mas seus momentos e efeitos – positivos e negativos – ainda irão ecoar por várias semanas, a próxima edição. Quando comparações e discussões voltarão à tona.

domingo, 22 de novembro de 2009

SER PROFESSOR


UMA FRASE INFELIZ E SEUS QUESTIONAMENTOS
José Neres




Tenho e sempre tive muito orgulho de ter abraçado o magistério e de te a ele me dedicado de corpo, alma, papel e caneta nas últimas duas décadas. Até hoje nunca tive o menor motivo para lamentar o fato de ser professor. Adoro o que faço!


Por gostar muito de minha profissão e por fazer de tudo para honrá-la a cada minuto de minha atividade docente, sempre me preocupo com algumas situações cotidianas e observo atentamente comentários que parecem isolados, mas que podem esconder uma ideia bem maior. É por isso que me chamou a atenção uma frase dita por um colega à saída de uma escola, na semana passada.


A frase/depoimento do professor pode ser dividida em três momentos. Em dois deles, a mensagem é altamente positiva. Já no último há muito para ser questionado (e lamentado!).
Ele começa lembrando seu pai: “Meu pai é um verdadeiro herói. Nunca teve preguiça de trabalhar para sustentar a família”. Logo depois retorna à figura paterna com total admiração: “Ele, mesmo sem ter freqüentado escola, formou sete filhos. Todos nós temos hoje curso superior.” Finalmente, em tom de lamento, em um contrito mea culpa, desabafa:

Se hoje eu sou professor, a culpa não foi dele. Foi minha, que não me dediquei mais aos estudos...”

Depois de um silêncio e das despedidas, dirigiu-se para seu carro e foi embora, deixando para trás apenas alguns questionamentos.


1. Será que seu descontentamento é com a profissão ou com seu desempenho profissional?
2. Será que ele sente vergonha de ser professor, ou de estar professor sem se sentir devidamente preparado para a profissão?
3. Será que ele passa para seus alunos todo esse desânimo com relação à profissão?
4. Será que ele se assume como professor quando está distante da escola e dos colegas ou inventa uma outra profissão para se sentir satisfeito?
5. Será que ele seria um bom profissional em outra área de atuação, se, como ele mesmo disse. “tivesse se dedicado mais aos estudos”?
6. Será que ele já percebeu que seus bens materiais (carro, casa...) são resultados de seu trabalho em sala de aula, ou será que ele tem outra profissão e ministra aula apenas por diletantismo?
7. Será a questão financeira a única causa de ele ainda estar em sala de aula?
8. Será que não seria um momento de “dedicar-se um pouco mais aos estudos” e procurar outra profissão que fosse, para ele, mais digna e dignificante?
9. Qual seria a profissão a que ele se dedicaria, se não fosse a do magistério?
10. Quais seriam as profissões de seus irmãos?
11. Será que o pai não sente o menor orgulho da profissão do filho?
12. Será que, financeiramente, ele é o que menos recebe entre os irmãos?
13. Será?... Será?... Será?... Dúvidas... Dúvidas... Dúvidas...

Nenhuma resposta.


Mas, ao entrar em sala de aula, horas depois, algumas certezas vieram à minha cabeça: “Estou aqui porque gosto”, “Sou professor porque estudei (e muito!) para exercer minha profissão” e, principalmente, “Pessimismo não é algo contagioso”.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

REDAÇÃO

Este artigo saiu no Jornal Pequeno, no início deste ano de 2009. Com a chegada do Enem, creio que ele ainda possa ser bastante útil.


DEZ DICAS DE REDAÇÃO
José Neres


O vestibular se aproxima. E com ele voltam à tona todas as dúvidas e angústias relativas à prática de redação.
Mesmo considerada um dos grandes terrores na vida de um candidato a uma vaga na Universidade, a redação é constantemente relegada a um segundo plano na vida do estudante. O vestibulando, quase sempre, costuma protelar ao máximo a prática textual e deixar para a última hora a preocupação com a parte escrita de sua formação.
A seguir, apresentamos dez pequenas dicas a respeito da redação voltada para o vestibular. A maioria dos comentários, porém, seve para qualquer pessoa que aprecie a arte de escrever.
1. Usar um vocabulário simples, mas não simplório – Algumas pessoas pensam que escrever bem é usar palavras difíceis e exagerar nos volteios sintáticos. Mas isso não é verdade. O bom texto tem de ser compreensível e claro desde o início até o fim, evitando ao máximo as ambigüidades, as palavras supérfluas e as estruturas desnecessárias. É inútil usar palavra eruditas fora de seu contexto ou com sentido forçado. Geralmente, usar “palavras difíceis é apenas um modo de tentar esconder a falta de profundidade argumentativa.
2. Usar corretamente a norma culta – As universidades não estão muito interessadas em saber se seus futuros alunos cultivam pendores artísticos para a prosa ou para a poesia, mas elas têm, sim, interesse em saber se os pretendentes aos cursos oferecidos dominam (ou pelo menos conhecem) os mecanismos básicos da norma padrão. Então, quem se propõe a escrever – com qualquer que seja o objetivo – deve está sempre atento a aspectos gramaticais como ortografia, pontuação, regência, concordância e acentuação gráfica.
3. Saber argumentar – Não adianta muito o texto estar isento de falhas gramaticais se seu conteúdo apresenta argumentos frágeis e sem consistência. Algumas pessoas preocupam-se apenas com a aparência física e gramatical da redação, esquecendo-se de criar estratégias discursivas que convençam o leitor e o levem a acreditar nas abordagens defendidas pelo autor do texto, bons argumentos são essenciais para dar vida à dissertação.
4. Concatenar as ideias – Além de ter bons argumentos, é sempre importante saber organizá-los em uma sequência racional que leve o leitor a compreender a mensagem do autor com exatidão. É comum, infelizmente, vestibulandos escreveram seus argumentos de forma desordenada e com isso transformaram o texto em um amontoado de informações sem conexão lógica.
5. Conter a emotividade – Alguns temas polêmicos costumam levar o estudante a se comportar mais como um torcedor do que como um analista da situação observada. O excesso de emotividade costuma levar o redator a escrever de forma apaixonada e esquecer que a dissertação exige uma análise racional sobre o tema. É melhor deixar para extravasar as emoções após o resultado do vestibular.
6. Ser coerente - Em um texto dissertativo, as ideias devem estar interligadas de modo a evitar as contradições e não deixar que o leitor fique perdido no meio de informações vagas e desarticuladas com relação à realidade. Dois bons exemplos de incoerência em texto dissertativos são o caso do aluno que queria provar que “a falta de desemprego é um dos maiores problemas do Brasil contemporâneo”, e do outro que teimava em dizer que “no Brasil, milhões de crianças morrem de fome a cada minuto”. Muito exagero!
7. Respeitar os padrões éticos – Nem tudo o que se pensa deve ser exposto na redação do vestibular. O candidato não deve atropelar a ética em seus textos, deve sempre respeitar os direitos autorais de suas citações e nunca inventar números e dados apenas para dar aparência de informatividade a seus textos. Recentemente, em uma prova de vestibular, um aluno propôs que, para acabar com a falta de órgãos para transplante, o governo matasse os presidiários e retirasse deles as partes que pudessem ser doadas. Ele violentou a ética e a cidadania e ficou, justamente, reprovado!
8. Evitar o senso comum – O vestibulando deve sempre investir o tempo livre em leituras, com o objetivo de fazer um lastro de informações e, ao mesmo tempo, incrementar o vocabulário. Quem não tem um razoável arsenal de leitura quase sempre cai na tentação de ficar apenas no senso comum em suas argumentações, de repetir ideias alheias sem questionar e de ficar na superficialidade do tema proposto.
9. Jamais fugir ao tema proposto e à tipologia indicada – As universidades definem a tipologia que querem, geralmente a dissertação, e propõem uma temática sobre a qual deve ser elaborado o texto. O dever o candidato é escrever dentro do tema proposto e de acordo com a tipologia estipulada. Sair disso equivale a ser eliminado.
10. Atentar ao tempo disponível – A redação é apenas uma das provas do vestibular e, junto com ela, há uma quantidade exagerada de questões que também devem ser resolvidas. O estudante deve treinar bastante antes do dia do concurso, para, quando chegar a hora, ter segurança e escrever o texto dentro do tempo estipulado, sem entrar em conflito com as demais provas do dia.
Além das dez dicas acima, é sempre importante, como já foi dito, o estudante ler o tempo todo, para estar sempre atualizado e para não ser pego de surpresa em um dos dias mais importantes e tensos de toda a sua vida.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

NOSSA REALIDADE


A PRESENÇA AUSENTE
José Neres




Por um desses inexplicáveis paradoxos que oscilam entre os mais altos graus de criatividade e o extremo senso de oportunismo, acabamos criando em nosso combalido sistema educacional o fenômeno da presença ausente.

A situação pode ser facilmente comprovada em qualquer uma das inúmeras salas de aula dos diversos níveis de educação. Como há muito tempo a figura do professor não é mais essencial para o andamento das aulas, sendo mesmo, em alguns casos, até considerada dispensável ou obsoleta, outro elemento tomou o lugar de honra nas aulas: a folha de chamada, que também atende pelo nome de lista de freqüência.

Em uma sociedade que cada vez mais evidencia a supremacia da certificação em detrimento da comprovação do saber é natural que haja a proliferação de algumas frases estapafúrdias como as seguintes: “Professor, não poderei vir na próxima aula, mas não se esqueça de botar minha presença.”,“Se eu não vier na próxima semana, vou levar falta?”, “Professora, tenho que ir ao casamento de uma amiga. Não posso perder essa festa, mas eu não posso levar falta, viu?”, “Professor! Não é possível! Como é que eu tenho tanta falta? O senhor tem que passar um trabalho para retirar minhas faltas...”, “Professora, já falei com a direção, a senhora tem que passar umas atividades para justificar minhas ausências, pois ganhei uma viagem num concurso e vou passar um mês viajando com meu namorado... Mas não passe nada muito complexo, pois tenho que aproveitar a viagem com meu Love”.

Como se vê, o único fator de importância nas “justificativas” dadas é a certeza da presença na lista de chamada. A preocupação com a aprendizagem, com os assuntos que serão estudados é praticamente nula, ou seja, não importa o que aconteça na sala de aula, desde que o nome do “estudante” esteja devidamente registrado em uma folha de papel.

Há também os casos em que o aluno está fisicamente presente em todas as aulas, mas, como entidade intelectual e participativa, está tão ausente quanto os que, por algum motivo, não puderam (ou não quiseram) comparecer. Geralmente tal aluno aproveita os horários de aula para por as conversas em dia, paquerar as colegas ou ainda para aprender a usar todos os recursos oferecidos pelo aparelho celular recentemente adquirido. Em suma, ele está presente, mas sua vontade de estudar está ausente (e bem distante!).

Não podem ser esquecidas as intermináveis idas ao banheiro, a incontrolável sede (só de líquidos, nunca de conhecimento) que obriga o aluno a sempre sair da aula, os atrasos constantes na chegada e os intermináveis pedidos para sair mais cedo. No caso das universidades e faculdades, há também aquele tipo de “estudante” que se especializa em deixar seus pertences nas cadeiras e sair para aproveitar o tempo pelos corredores ou no barzinho mais próximo. Mas, na hora da chamada, ele, invariavelmente, está lá, falando alto, para marcar sua presença.

Desse modo, o que se nota é que há muitas pessoas ávidas por um título. Algumas delas se matriculam, ou são matriculadas, na esperança, não de uma aprendizagem sólida ou de uma formação consistente, mas sim com o desejo de que suas ausências não sejam notadas e que ainda por cima sejam premiadas com um certificado que comprove sua presença na estatística dos alunos diplomados.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

LUÍS AUGUSTO CASSAS

POETAS DE HOJE: LUÍS AUGUSTO CASSAS

José Neres

Dono de uma vasta produção literária que já conta com quase duas dezenas de títulos, Luís Augusto Cassas é um poeta de grandes recursos estilísticos e que já conseguiu imprimir uma dicção poética própria em sua obra.

Em 1981, Cassas publicou seu livro de estreia, República dos Becos, que foi muito bem acolhido pelos leitores e pela crítica especializada. Logo no prefácio deste primeiro trabalho, Josué Montello advertia que era preciso guardar o nome do novo escritor, porque não se tratava “de um simples poeta”, mas sim “de um excelente poeta (...) com uma personalidade nítida, bem marcada, desde o momento que se iniciou nas letras.” Depois vieram tantos outros livros e dezenas de estudos e ensaios sobre a poética do autor de Rosebud, que já tem, hoje, uma alentada fortuna crítica sobre seus trabalhos.

Atualmente, depois de muito esforço e perseverança no manejo com as palavras e na divulgação de seus trabalhos, Cassas já conquistou um espaço no cenário literário maranhense e, embora ainda não tenha seu trabalho devidamente reconhecido na própria terra, caminha a passos largos para deixar seu nome gravado em paragens que vão além do regional.

A temática desenvolvida por Cassas em sua produção poética é ampla e atinge uma variada gama de eixos que se bifurcam e se entrecruzam na formação de um todo orgânico em que as partes aparentemente isoladas são valorizadas e acabam se encaixando nas linhas principais desenvolvidas a cada trabalho. Além de preocupar-se com a temática central de cada livro, Cassas também não descura da linguagem e, consciente de que escrever é também brincar com o idioma, tece interessantes jogos de palavras, como o seguinte, retirado de Shopping de Deus & a Alma do Negócio, no qual a palavra NÓS adquire múltiplas significações:

Somos feitos de nós,

Nós na garganta,

Nós no peito,

Nós nas tripas,

Múltiplos nós,

Todos os nós

Todos nós,

Nós, todos.

Porém os recursos estilísticos do poeta vão além da repetição vocabular com multiplicidade semântica, ele também se vale de outros artifícios como ou uso de parênteses, desmembramento de palavras, espacialização de termos e uso de símbolos, como ocorre no mesmo livro acima citado, quando, para representar a constante presença do dinheiro na vida das pessoas, utiliza o cifrão repetidas vezes em substituição ao S, alcançando o efeito desejado.

o dinheiro é um deu$ terrível

que go$ta de $er adorado face a face

e paga à vi$ta o$ $eu$ milagre$

condecorando os vivo$ com moeda$ na língua

pra ab$olvê-lo$ da ferrugem do $ol do$ mi$erávei$.

Mas engana-se quem pensa que a poética de L. A. Cassas é composta apenas por jogos vocabulares. Ele, além de valorizar a forma, também se preocupa com o conteúdo de seus poemas. Em um passeio pela produção do poeta maranhense é possível encontrar diversas temáticas recorrentes, como, por exemplo, misticismo, telurismo, crítica social, erotismo, apego às raízes familiares e um constante ar de descontentamento com a realidade circundante. Mas, qualquer que seja a abordagem escolhida pelo poeta, fica sempre claro que o centro de sua obra é o ser humano, com todos os seus caracteres positivos e/ou negativos.

A preocupação de Cassas com o Homem, seja no campo espiritual, seja no âmbito físico-material evidencia-se em todos os livros do poeta, pois a essência humana é uma das marcas mais profundas e visíveis de toda a sua produção literária. Não importa se o tema central é a criança abandonada, o idoso humilhado, a mulher como objeto de amor e de prazer, ou mesmo uma pedra, sempre o poeta está interessado em por o ser humano com suas angústias, dores e alegrias no foco do poema.

Também chama atenção o grau de ironia com que o autor de A paixão Segundo Alcântara trata seus temas. O olhar ácido do autor não perdoa as injustiças sociais nem o descaso com que a cidade geralmente é tratada. Já em seu primeiro livro, Cassas imprime suas digitais de observador irônico da realidade circundante. No poema Parábola, por exemplo, ele consegue transformar o que acontece no dia-a-dia em um uma pequena peça de arte que traduz as contradições facilmente encontradas na dúbia realidade em que vivemos. Criaturas anônimas saem da Igreja após uma missa, mas a cabeça de cada um não está somente em Cristo, e sim nos problemas sociais que atormentam todos os trabalhadores que lutam por pedaço de chão para abrigar a família.

PARÁBOLA

Domingo de Ramos

eles vestem a fatiola engomada nas dobras

e voltam contritos e triunfais com um ramo nas mãos.

Um ramo colhido na melhor palmeira da paróquia

e bento na igreja santificada do bairro.

Seguem puros para casa? Não.

Planejam uma nova invasão no Coradinho.

Há quem considere Luís Augusto Cassas um poeta contraditório e que vaga de temática em temática em busca de algo indefinível. Mas o próprio poeta não esconde esse caráter errante, pois, assim como Mário de Andrade dizia claramente ser “trezentos, trezentos e cincoenta...”, o poeta maranhense também tem certeza de que dentro dele habita uma multidão de seres diferentes e ao mesmo tempo complementares, conforme ele mesmo escreveu no primeiro poema de seu livro de estreia:

Habitam comigo, há anos,

no quarto escuro de mim,

dividindo o aluguel

dessas trinta e três vértebras

(...)

um estudante de Letras

um boêmio que recita

Lorca; um funcionário público

que sofre dores nos rins;

um cozinheiro que frita

ovos às três da manhã;

um advogado, que no fórum

advoga o mundo do imundo;

um conquistador barato

sem lábia e brilhantina;

e um poeta de esquina,

que por vergonha de ofício

não quer se ver declamado

em reuniões sociais.

Então, se o próprio poeta admite ser múltiplo e multifacetado, resta ao leitor buscar a voz interior que se destaca em cada poema, em cada livro. Desse modo, em alguns momentos, temos o poeta metafísico que se cólica acima dos elementos materiais e busca e eu e o outro dentro de um vazio existencial. Em outros momentos, destaca-se a voz do homem que ama sua cidade, mas que não consegue fechar os olhos para os problemas que nela são encontrados. Às vezes o que se destaca nos versos é a presença do voraz leitor que marca, nas páginas dos livros encontros com seus escritores preferidos. E muitos outros seres que habitam o mesmo ser podem ser encontrados nas páginas de Cassas. Mas eles não vêm de forma organizada, cada um em seu livro, não, eles muitas vezes fazem reuniões em uma mesma página, o que confunde o leitor menos afeito a esse estilo diferenciado do autor.

O leitor logo percebe que Cassas tem o evidente interesse de colher poesia de tudo o que o rodeia. Pedras transformam-se em poesia. A Cidade é poesia revisitada página a página. Para nada perder, até fome, miséria, lixo e podridão metamorfoseiam-se em poemas... Mas essa metamorfose constante não deseja esconder a realidade, mas sim torna-se um recurso para torná-la mais evidente aos olhos das pessoas.

Em alguns momentos, o poeta aproxima seus textos de versículos bíblicos e, misturando o sagrado e o profano a seus recursos poéticos-estilísticos-irônicos, consegue alguns efeitos imagéticos que, apesar de aparentemente repetitivos, mostram um poeta inventivo e que parece ter encontrado seu caminho nas tortuosas veredas da poesia. No fim, entre ironias, inusitados jogos de palavras e uma profunda consciência do fazer poético, fica a lição de que:

Engano o homem

ser animal político

por definição.

O homem

é animal poético

em pleno verão.