sexta-feira, 20 de março de 2009

UM ADEUS

O ÚLTIMO ATO
José Neres




A vida é uma grande peça de teatro com múltiplas personagens, cenários infinitos e um texto às vezes longo, às vezes curto, mas sempre cheio de surpresas. Porém, por melhor e mais cheio de peripécias que seja o enredo, ele sempre assume contornos de tragédia nas cenas finais. Ou pelo menos de um drama sempre esperado, mas, sempre que possível, protelado.


Não. Não estou escrevendo sobre teatro, mas sim sobre um homem que trazia o teatro no coração. Escrevo sobre uma pessoa que durante sua não muito longa vida representou diversos papéis, sempre com a devida competência. Quase sempre era professor, mas também era excelente cozinheiro, talentoso ator, competente diretor teatral e, principalmente, um amigo sempre bem humorado e cheio de frases de efeito e de palavras que alegravam a todos.


No dia dezenove de março, nosso amigo Antônio José Moscoso Maia terminou a última cena do último ato de sua vida. Foram tantos atos, tantas cenas, tantos momentos em tantos cenários que nem mesmo ele seria capaz de lembrar-se de todos eles.


Moscoso era uma pessoa tão especial que mesmo na ausência estava presente. Inúmeras vezes ele não pôde comparecer a algum evento. Contudo, nós, seus amigos de todas as horas, nos divertíamos contando ou recontando muitos de seus casos, quase sempre hilariantes. Mas havia a certeza de que horas depois ele também estaria gargalhando conosco. Hoje essa certeza acabou.
Seus chistes, suas tiradas, suas brincadeiras e seu jeitão estabanado, seus indefectíveis

suspensórios e, infelizmente, suas constantes baforadas de cigarro eram suas características mais comentadas. No entanto, ele era bem mais que esses meros detalhes. Era um ser humano capaz de sofrer com o sofrimento dos amigos e incapaz de dividir as próprias dores, para não preocupar quem estivesse a seu lado.


Moscoso era um homem gentil vestido com uma invisível capa de sisudez que só enganava quem não tinha coragem de se aproximar para aproveitar o bom-humor que emanava de suas incontáveis histórias.


E tais histórias agora serão recontadas por nós que ainda estamos atuando em nossas peças individuais. E elas irão ecoar ainda por muitos e muitos anos em nossas conversas, em nossas lembranças.


Nesta última cena, quando o som cavo da terra ecoa na lápide e quando o silêncio só é quebrado pelos soluços de saudade, não há risos nem palmas, há sim, saudade, muitas saudades, infinitas saudades!

quarta-feira, 18 de março de 2009

PEQUENA CRÔNICA


AULA...
José Neres


A todos os meus colegas professores e
aos dois ou três seres estranhos que teimam em aprender
.




A aula começa. Toca um celular. Uma revista da Avon passa de mão em mão. As conversas são postas em dia. Um rapazinho conecta o fone de ouvido a seu mp4 e relaxa ao som de sua música preferida. Tudo é tão importante! Tudo é tão mais importante que o assunto da aula!... Tudo é tão mais importante que o conhecimento!... Diante da turma apática para o saber, o professor, num monólogo sem interlocutores derrama seu tão suado conhecimento para dois ou três seres estranhos que teimam em aprender.

Já foi feita a chamada? Olhos seguem atentamente os ponteiros do relógio. Uma mensagem é enviada para o namorado. Vou sair mais cedo. Vem me buscar. Te amo. Para prazer do mestre, as duas ou três figuras estranhas fazem algumas perguntas pertinentes ao assunto. Algumas questões são bem inteligentes, outras nem tanto, mas pelo menos servem para tirar do ar aquele ranço de monólogo.

O ônibus vai passar... A chamada ainda não foi feita... Acho que minha namorada já está lá embaixo me esperando... O pobre professor, com o olhar perdido, busca o brilho do entendimento nos olhos dos alunos, mas só encontra o opaco cinza da indiferença. Olha para o relógio e vê que o tempo passou. Olha para a turma e sente que seu tempo passou. Olha para o mundo e vê que os tempos mudaram...

Fim de horário. Metade da turma já está longe. A outra metade se prepara para não utilizar aquilo que não quis aprender. Todos nadam contra a correnteza do saber, buscando como tábua de salvação um diploma inflado com a certeza do nada ser.

Amanhã teremos outra aula...

domingo, 15 de março de 2009

UMA ENTREVISTA

Poucos minutos atrás, eu estava apagando alguns arquivos antigos do computador, quando encontrei uma entrevista cujas perguntas me foram enviadas por e-mail por alunos de uma das muitas escolas de nossa Capital. Os alunos, educadamente, pediram-me que respondesse às questões, de preferência no mesmo dia, mas não disseram qual a escola em que estudavam. Também apenas se identificaram com o primeiro nome. Ao abrir a caixa de mansagem, às 22:00 horas, deparei-me com as perguntas e, como era caso de "extrema urgência", respondi na mesma hora. Nunca mais entraram em contato para comunicar qual foi o resultado da atividade, mas pelo menos enviaram um outro e-mail agradecendo.


Como disse no início, eu ia apagar a esntrevista da memória do computador... Mas resolvi postá-la aqui para eum tiver paciência para lê-la.




1-Você nasceu em qual cidade?

Nasci na cidade de São José de Ribamar, no dia 17 de fevereiro de 1970. Com alguns dias de vida, fui levado para Brasília e, depois, para Goiás, onde praticamente fui criado, na cidade de Luziânia, bem próxima a Brasília.

2-Quando você se descobriu poeta?

Para ser sincero, eu nunca me descobri Poeta, nem mesmo me considero poeta, mas sim apenas alguém que vez ou outra tenta fazer alguns versinhos. Mas tenho uma excelente relação com a poesia, ela me ajuda a entender o mundo, ou pelo menos tentar.

3-Você tem livros lançados? Quais são?

Tenho oito livros publicados. O nono sairá no dia 10 de outubro na II Feira do Livro de São Luís. Os títulos são (1) “Negra Rosa & Outros Poemas”, que é o primeiro e que tem duas edições esgotadas; (2) “A Mulher de Potifar”, reunião de duas peças teatrais de minha autoria; (3) “Versos de Desamor”, um pequeno livro que trazem poemas sobre desilusões; (4) “Estratégias para Matar um Leitor em Formação”, livro de caráter mais pedagógico que discute o papel da escola na formação de leitores; (5) “Restos de Vidas Perdidas”, um conjunto de contos que mostram a crua realidade das pessoas; (6) “50 Pequenas Traições”, contos bem cursos sobre adultérios em todos os sentidos. Além desses seis individuais, há mais dois me parceria com o escritor e amigo Dino Cavalcante, a saber: (7) Os Epigramas de Artur, um estudo sobre a poesia de Artur Azevedo; e “O Discurso e as Idéias”, coletânea de estudos sobre literatura e linguagem em geral.
Participo também de umas nove antologias fora do estado, escrevi aproximadamente uns 100 (cem) artigos para jornais e revistas
O nono livro a ser lançado se chama “Montello: o Benjamim da Academia”, um estudo sobre os bastidores da eleição de Josué Montello para a Academia Brasileira de Letras, em 1954.

4-Você já participou de festival de poesia. Se sim, obteve êxito ?

Nos moldes desses que temos no Maranhão, o Poemará, nunca participei, por ser tímido e por não concordar com o tipo de proposta que é apresentada. Mas já participei de Concurso e fui premiado no Rio de Janeiro (editora Litteris), no Rio Grande do Sul (Instituto da Poesia Internacional), Aqui no Maranhão (Prêmio Odylo Costa Filho, de contos) e novamente no Rio de Janeiro (Academia Brasileira de Letras)



5-Você se classifica um poeta contemporâneo(em sua forma de escrever)

Como disse antes, não me considero poeta. Mas quando escrevo poemas não sigo muito as normas da contemporaneidade. Ainda gosto dos versos metrificados, dos sonetos, dos Hai-cais e das estruturas mais tradicionais. Porém, quando escrevo contos, sigo a linha contemporânea, seguindo o estilo de Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Marcelo Rubem Paiva.



6-Qual o poeta maranhense o inspirou?

Gosto de ler todos os poetas, não só os maranhenses. Mas não tenho como negar a importância da obra de Ferreira Gullar em minha formação intelectual. Li tudo o que ele escreveu. Outros nomes a quem sempre recorro são José Chagas (paraibano que adotou o Maranhão), Bandeira Tribuzi e Nauro Machado.



7- A escola de poetas maranhenses esta com uma (safra) boa?

O Maranhão, atualmente, não tem uma “escola de poetas”, mas a safra de novos escritores é boa. Temos sempre novos nomes surgindo e alguns sobreviverão pelo talento nato e pelas releituras que fazem das obras de diversos escritores. Bons exemplos disso são Rosemary Rego, Antônio Ailton, Ricardo Leão, Bioque Mesito e outros...

8-São Luis ainda é a “Atenas brasileira”?

Não. Isso é coisa de um passado nostálgico e nem teria mais sentido hoje. O mundo e diferente, bastante globalizado, sem espaço para essa denominação.

quinta-feira, 5 de março de 2009

MULHER MODERNA DESEJA



Minha homenagem a todas as mulheres




MULHER MODERNA DESEJA...


José Neres


Neste mês de março, quando se comemora uma data especialmente dedicada à Mulher – talvez uma forma de esconder os séculos e mais séculos de opressão, de desrespeito e de preconceito para com o sexo feminino – ela, a Mulher, sem deixar de cuidar da família, sem descuidar da aparência nem do intelecto, e sem abdicar de sua sensibilidade e de sua atenção aos mínimos detalhes do mundo que a circunda, pode finalmente expor seus anseios e desejos.
Desse modo, a mulher moderna deseja:
1. Um companheiro de mãos firmes e fortes, que faça uso de sua força não para torturas e espancamentos, mas sim para ajudar nas tarefas do lar e, nos momentos mais íntimos, transformar a força em suaves carícias.

2. Pernas fortes e delineadas, não para mera satisfação visual dos homens, mas como forma de sustentar-se nas longas jornadas de mãe, esposa e profissional, que muitas vezes exigem horas e mais horas de árduo trabalho, de luta incessante por um futuro melhor.
3. Uma educação de qualidade, que sirva como passaporte para a independência intelectual, profissional e financeira, para não precisar depender do dinheiro do companheiro que, em muitos casos, só aparece à custa de muita humilhação.

4. Amigos e amigas sinceros que saibam ouvir queixas, consolar em momentos de tristeza, oferecer o ombro e enxugar lágrimas, mas que também saibam sorrir, dar uma amistosa bronca quando necessário e dizer verdades que só podem ser ditas a quem se ama.
5. Sucesso profissional, não como boba competição com os homens, mas como afirmação de que competência não distingue raça, credo, idade, nem sexo.

6. Felicidade. Mas não a felicidade egoísta que visa apenas ao bem próprio, mas que fica alheia ao bem comum. A Mulher moderna sabe que a felicidade não é totalmente aproveitada se o que impera é a certeza de que todos a seu redor sofrem.

7. Harmonia familiar, pois os problemas familiares são grandes entraves na busca de uma vida tranquila e feliz. Nenhuma mulher se sentirá totalmente feliz sabendo que seus entres queridos sofrem ou que não estão bem.
8. Fim da violência em todos os níveis. Há a consciência de que as guerras, os conflitos urbanos e as inúmeras torturas domésticas são cânceres sociais que corroem a vida de todos e só trazem dores e sofrimentos a todos, homens e mulheres, indistintamente.

9. Um futuro melhor e mais digno. Todos sabem que os momentos são efêmeros e que a alegria de hoje pode ser a lágrima de amanhã, por isso a Mulher consciente de sua condição de cidadã do mundo pensa também no uso responsável do meio ambiente, na preservação dos espaços comuns e planeja um mundo cada vez melhor. Hoje somos nós que ocupamos este espaço, amanhã ele será de nossos filhos. E todos querem o melhor para sua prole, hoje e sempre.

Mas, acima de tudo, nessa nova era, a Mulher moderna não só deseja, como também exige de toda a sociedade algo primordial: respeito. Respeito em todos os sentidos e de todos os modos, pois, sem o mínimo de respeito não vale a pena sacrificar-se tanto pelo bem de toda a humanidade.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

ARTIGO





Este artigo foi publicado há alguns meses no Jornal O Estado do Maranhão e fala sobre nossa falta de leitura. Esperemos que esse quadro melhore o mais rápido possível. (clique no artigo para ampliá-lo)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

UM ADEUS A NASCIMENTO MORAIS FILHO

NASCIMENTO MORAIS FILHO



A Natércia, amiga estimada que sei que sofre por este momento.






Enquanto escrevo estas poucas linhas, é sepultado no cemitério do Gavião o corpo do poeta, pesquisador e ativista ambiental Nascimento Moraes Filho. Falecido na manhã de ontem (21/02), aos 86 anos, o escritor deixa em seus leitores a sensação de vazio, mas de certeza de que ele fez o melhor que pôde na defesa da cultura maranhense, do meio-ambiente, da poesia e dos valores éticos.

Além de grande poeta, um dos melhores de sua geração, Nascimento Morais Filho também deixou sua marca na historiografia literária maranhense ao redescobrir o talento de Maria Firmina dos Reis. Graças a ele e a seus esforços, hoje o Maranhão pode ler a obra da matriarca de nossas letras. Mas este não é o único débito que o Maranhense tem com esse brilhante escritor e pesquisador.

Defensor incansável dos valores de sua terra, o pesquisador também se debruçou sobre as trovas maranhenses esparsas em jornais do século XIX. Estudou também nomes como Frutuoso Ferreira, Estevão Rafael de Carvalho e Ladislau Henrique Maciel da Silva Aranha.

Dono de um estilo poético voltado para o social e para a defesa dos oprimidos, Nascimento Morais Filho era o típico escritor que não se calava diante das injustiças sociais e que encontrava nos versos as armas necessárias para mostrar que algo pode ser feito pelo bem da população, como pode ser visto no fragmento que ilustra o final desta postagem.

Nascimento Morais Filho é um daqueles nomes que só fizeram bem às letras e à evolução da pesquisa no Maranhão. Esperemos que seu nome não fique esquecido das gerações futuras e que suas obras possam ser lidas por jovens e adultos em futuras edições, um modo de preservar a memória desse homem que tanto lutou para que nossa terra tivesse sua própria memória.


ALGUMAS OBRAS DE NASCIMENTO MORAIS FILHO

Clamor da Hora Presente (poesia)
Azulejos (poesia)
Esfinge do Azul (poesia)
Pé-de-Conversa (pesquisa)
Cancioneiro Geral do Maranhão (pesquisa)
Esperando a Missa do Galo (pesquisa + coletânea)
Maria Firmina dos Reis – Fragmentos de uma vida (pesquisa)
Úrsula (edição fac-similar do romance de Maria Firmina dos Reis)
Cantos à Beira Mar (edição fac-similar do livros de Maria Firmina dos Reis
)


FRAGMENTO DE CLAMOR DA HORA PRESENTE

Ai de vós, Industriais da Miséria e da Injustiça!
Ai de vós
que desperdiçais em vossa lauta mesa
a comida que roubais da boca dos meus irmãos!
Ai de vós
que transformais em vinho de vossa adega
o sangue que sugais dos meus irmãos!

Ai de vós
que transformais em sons de “long play”
os soluções e os ais de meus irmãos!
Ò vós
que céus enegreceis de tantos crimes,
levantai-vos de vossa prostração!
- É outra vossa crença! É outro vosso culto!
- As vossas oblações ofendem a Deus,
Ó vós
que celebrais a Missa Negra da Miséria
e da Injustiça

FONTE: Clamor da Hora Presente – Edição Internacional, São Luís, 1992. pág. 31)


sábado, 21 de fevereiro de 2009

OS CONTOS CRUÉIS DE BRUNO TOMÉ FONSECA


Acabo de reler (sim, de reler mesmo, pois esse trabalho merece ser lido e relido) os originais de CONTOS CRUÉIS, livro de estreia de Bruno Tomé Fonseca. Não sei quando será lançado o livro, mas espero que seja em breve, pois as letras maranhenses carecem de prosadores de talento que engrossem nossas fileiras literárias.

São apenas sete contos, a maioria com narração em primeira pessoa, mas que trazem em comum personagens angustiadas e que buscam desesperadamente encontrar um motivo para continuar a própria existência. Ironicamente, o autor coloca no mesmo patamar de tédio e de angústia, um escritor de best sellers, uma lésbica abandonada pela parceira, um advogado em crise existencial, um músico cheio de frustrações e duas bactérias que mantém um diálogo ao mesmo tempo filosófico a respeito da própria existência e da possibilidade de haver vida além do “túnel úmido”.

O desejo de conhecer o mundo e ao mesmo tempo de (re)conhecer-se como parte integrante das sempre contraditórias insanidades do mundo; a certeza de alcançar seus objetivos plenamente e a busca desesperada por algo que possa encher o vazio do viver são as marcas essenciais dos CONTOS CRUÉIS de Bruno Tomé Fonseca. Os leitores mais acostumados com as narrativas contemporâneas não deixarão de identificar nos contos algumas pinceladas de leituras de Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Dalton Trevisan... e voltando um pouco mais no tempo, de Franz Kafka, Charles Bukowski e Roberto Arlt, mas sem tentativa de imitação, mas apenas de inspiração técnica e temática.

Esperemos que o livro seja editado e chegue às mãos de quem aprecia a literatura contemporânea. Alguns contos podem chocar leitores mais sensíveis, mas isso é bom, pois, às vezes é preciso lembrar ao mundo que além das rosas e dos jardins há também o esterco, os porcos e as bactérias.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

UMA RESENHA DE FLAVIANO



Flaviano e Mariane estão lutando para divulgar as letras maranhenses. No blog www.maranharte.blogspot.com, eles vão tecendo palavras e cumprindo com um papel que seria de todos os que gostam do Maranhão, mas que, infelizmente, poucos levam a sério.

No espaço abaixo, reproduzo uma resenha de Flaviano a respeito de meu mais recente livro, Montello: O Benjamim da Academia. Agradeço a ele e, mesmo sem permissão transcrevo aqui o trabalho







RESENHA

Flaviano Menezes
Graduando do curso de Filosofia (UFMA)

O livro Montello: O Benjamim da Academia, de José Neres (professor de Literatura da UFMA e autor de Os epigramas de Artur, em parceria com o professor Dino Cavalcante, de 2000; Estratégias para matar um leitor em formação (2005); 50 pequenas traições (2007), dentre outros) é a princípio dirigido ao público que gosta de literatura e principalmente deseja saber como um escritor consegue a “imortalidade” da Academia Brasileira de Letras. Nesse caso, seguiremos os últimos passos percorridos pelo maranhense Josué Montello até ingressar na tão almejada Casa de Machado de Assis.


José Neres não se apresenta como um pesquisador que se preocupa em parecer “sofisticado”, procurando sempre um termo pomposo para aparentar ser mais acadêmico, algo que acontece em demasia em nossas atuais, eruditas e entediantes obras bibliográficas. A análise sobre como o autor de Os tambores de São Luis conseguiu em 1954 a cadeira que outrora pertenceu ao também maranhense Artur Azevedo é menos acadêmica do que outras obras desse gênero e talvez por isso torna-se uma vantagem lê-la, isso porque, a finalidade da obra parte exatamente da preocupação de um pesquisador em apresentar os fatos, sendo ele próprio um observador, com notas necessários, mas sem aqueles dispensáveis comentários tendenciosos.

Josué Montello nasceu em São Luís, em 21 de agosto de 1917. Estudou na escola Modelo Benedito Leite, onde fez o curso primário, e posteriormente no Liceu Maranhense. Ainda no Liceu dirigiu A Mocidade, onde publicou seus primeiros trabalhos literários. Ingressa na Sociedade Literária Cenáculo Graça Aranha e começa a colaborar nos principais jornais da cidade (Folha do Povo e O Imparcial). Ao mudar-se para Belém do Pará, consegui publicar seu livro de estréia e aos dezoito anos torna-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Muda-se novamente, agora para o Rio de Janeiro, em 1938 e integra o grupo de intelectuais “Dom Casmurro”, colaborando com esse periódico e outros jornais da capital. Em 1939, aos vinte dois anos de idade estava na Academia Brasileira de Letras lendo seu artigo “A índole da língua e a frase de Machado de Assis” e iniciando uma aspiração que só conseguia concretizar quinze anos mais tarde: a de ser um imortal das letras brasileiras.


O livro de José Neres começa esclarecendo porque Montello já se mostrava um acadêmico antes mesmo de adentrar com o fardão naquele templo das letras e como era querido pelos outros escritores e até pelos críticos literários, como o discordante Agrippino Grieco, que, em nota sobre a eleição de Montello para a Academia declarou essa pérola; “Isto não é novidade, o Montello é acadêmico desde a escola primária.


A política interna da Academia, as expectativas, a candidatura, as cartas de pedido de voto, o auxílio indispensável de Viriato Corrêa, a votação e a vitória de Montello para a cadeira de número vinte e nove são alguns dos assuntos desvendados por Neres nesse necessário e instigante trabalho de pesquisa, trabalho este que se utiliza também de cartas, notas de jornais e fotos do momento mais glorioso que um escritor pode almejar. Em suma: um livro muito bem escrito, em linguagem acessível e que, sem grandiloquências, dá uma lição de como apresentar um grande escritor para uma nova geração de leitores (e pesquisadores) que está se formando no Maranhão.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

DOIS POEMAS




Hoje não tem comentários, apenas dois poemas para nosso domingo!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

UM POEMA PARA COMEÇAR O DIA


Para começar esta quinta-feira, coloco um pequeno poema. A cada dia me dedico menos aos versos, pelo menos como autor, mas mergulho intensamente neles na condição de leitor sempre apaixonado por todos os tipos de arte.



SILÊNCIO
José Neres


O silêncio é a arma
dos sábios e dos loucos.
O silêncio ilumina muitos,
mas guia bem poucos.

O silêncio é o grito
eterno da Morte
que grita ao vento
o destino e a sorte.

O silêncio é meu olhar
de moribundo eterno.
O silêncio é o crepitar
deste meu inferno.

O silêncio é a comunhão
de dois amantes
que se encontram, mas
não se entendem como antes
.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

COMO VAI NOSSA CIDADE?


Este texto foi escrito há alguns anos, quando se aproximava um dos aniversários de São Luís. Não tive a oportunidade de publicá-lo em jornais (acho que não interessaria a nenhum deles). Encontrei-o em um arquivo e agora decido postá-lo aqui no espaço democrático do blog. Desejo uma boa leitura leitura a quem se aventurar a lê-lo!





LAMENTOS DE UMA DAMA ABANDONADA
José Neres




Hoje, aproximando-se as comemorações de mais um aniversário, eu, bem longe das badalações, volto minha enrugada face rumo ao passado e contemplo, com os olhos cheios de lágrimas, a magnitude de minha história em contraste com a miséria de meu presente.

Muito rica fui. Usei as mais belas vestes vindas da Europa. Conheci centenas de homens ilustres, quase todos se renderam aos meus encantos, e alguns, mais talentosos, encheram páginas e mais páginas de versos em minha homenagem. Várias mulheres suspiravam ao me conhecer e não foram poucas as que, sorrindo ou em prantos, declaravam-se apaixonadas por mim. Eu, vaidosa, aceitei as oferendas de todos, sem distinção de sexo. Nunca parava para analisar com quem estava flertando, de quem se tratava ou quais eram seus outros interesses. Amei a todos com a mesma intensidade com pensei que era amada.

Em minhas inúmeras casas, cujas paredes foram erguidas à base de cal, pedra óleo de baleia, muitas lágrimas e muito suor de escravos, inúmeras mortes foram tramadas, centenas de golpes foram planejados e muitos inocentes foram aprisionados, sem direito a voz ou defesa e, muitas vezes, sem direito a um último banho de sol ou um último pedido.

Confesso que para muitos fui mãe, irmã, esposa e ardorosa amante, mas que para outros fui apenas um cruel e frio carrasco. Só agora, com a sabedoria adquirida com o sofrimento, vejo que muitos daqueles a quem maltratei também me amavam, porém de outro modo. Eles tentavam corrigir meus defeitos e curar-me de meus tantos vícios. Fui cega e vi em cada crítica um inimigo a ser eliminado. Ah! Quantos inocentes maltratei e quantos bandidos protegi!

Acreditei, durante muito tempo, que todas as riquezas e toda a fama que acumulei na minha áurea juventude eram infinitas. Pensei que meus belos casarões fossem indestrutíveis e que minha beleza fosse eterna. Mas o implacável tempo se encarregou de apagar até mesmo os retratos que outrora alguns aventureiros fizeram de mim. Vi, aos poucos, as linhas e os traços de minhas telas, sem conservação adequada, perderem as cores, o brilho e a nitidez. Só então percebi que envelhecia, envelhecia, envelhecia...

Minha fortuna está acabando e brevemente chegará o dia em que viverei tão somente do dinheiro ofertado pelos estrangeiros que me visitam e de subvenções governamentais. Meus casarões estão ruindo, minhas vestes estão cobertas de remendos, minhas fontes de vida rapidamente se esgotam e as belas maquiagens que sempre fazem em mim para posar ao lado dos turistas não resistem às altas definições das modernas câmaras digitais que, a cada flash, teimam em ressaltar as profundas marcas de minhas rugas, de minha solidão e de meu abandono.

E à noite, perdida entre o som dos tambores, o bronze dos sinos que dobram, as velhas litanias, o silêncio dos canhões abandonados e o eterno tecer das teias do tempo, com os olhos cheios d’água, faço minha ultima prece: Oh, autoridades, deixem-me viver, pois ainda não vivi toda a minha poesia!!!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

FONTES ESQUECIDAS

Infelizmente, publicar um livro é uma tarefa árdua e quase senpre desgastante. Há quem o faça para realizar um sonho, mas com a consciência de que dela talvez nunca sera dito uma palavra de modo mais crítico.

Acredito que o papel de quem tem a oportunidade de trabalhar com a literatura não é tão somente a de falar sobre as obras e os autores canonizado. Particularmente, gosto de escrever sobre livros que ficaram sem ressonância na memória literária. Hoje falarei sobre Fontes de Inspiração, livro de A. T. Fróes, e que me foi gentilmente ofertado por Laura Fróes, uma querida aluna por quem tenho grande carinho, e filha do autor. Espero, com esse modesto artigo, cumprir com meu papel de educador e de divulgador das letras de minha província.


FONTES ESQUECIDAS
José Neres
(Professor de Literatura)



Estamos numa época em que as tentativas de inovações no âmbito da prosa e da poesia parecem suplantar o trabalho de quem se contenta em usar as formas mais tradicionais de pôr a inspiração no papel.


Desse modo, os escritores que optam por uma literatura aparentemente menos ousada acabam, em muitos casos, condenados às trevas do ostracismo e ao limbo do silêncio. Seus livros, frutos de hercúleos esforços que vão da concepção dos textos à editoração gráfica, mesmo publicados, permanecem inéditos aos olhos do público. Não raras vezes, lançamento serve de rima para lamento, sofrimento, arrependimento e, principalmente, esquecimento.


Publicado sem muito barulho em 1998, o livro “Fontes de Inspiração”, do maranhense Antônio Torres Fróes, é uma obra que traz em cada página, em cada poema, em cada verso, o esforço do poeta de tirar da alma e da memória os lugares e os momentos que marcaram sua vida e que ficaram eternizados em sua memória.


Em uma primeira leitura, o livro pode parecer um álbum de reminiscências, um exercício de resgate das inúmeras impressões que passeiam pelas retinas do autor e que encontram no papel uma forma de eternizar-se. Porém, em um olhar mais atento, pode-se ver também que, no conjunto, o livro é uma grande declaração de amor à vida, à natureza, à terra natal e aos lugares que nunca serão esquecidos.


Em versos simples e bem ritmados, privilegiando quadras e sonetos, Antônio Torres Fróes passeia pela própria memória e dela tira a fonte primária para sua inspiração de homem encantado com a vida, mas insatisfeito com algumas situações sociais que poderiam ser corrigidas. Em verdade, as forças motrizes que do livro são as seguintes: um passado que só pode ser recuperado pela memória, um olhar para os lugares visitados e os diversos painéis de um cotidiano que mistura lirismo e saudade.


A. T. Fróes, como está grafado na capa do livro, deseja pura e simplesmente dar vazão a seus próprios sentimentos, despertando no leitor a empatia para com as situações apresentadas. Em alguns poemas é possível notar o descontentamento do eu-lírico com o quadro social do país e do mundo. Em outros momentos, há o sobressair de emoções que não podem ser contidas pelo uso da razão e que encontram na poesia o escoadouro necessário.


Em suma, Fontes de Inspiração pode até não ser um livro de caráter inovador na forma, no estilo nem na temática, mas, sem dúvida é uma obra que pode levar o leitor alguns pontos do elo perdido da própria existência.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

BANDEIRA TRIBUZI


Hoje, 02 de fevereiro, é o dia do aniversário de nascimento de um dos maiores poetas que o Maranhão já teve: Bandeira Tribuzi.


Como não temos o hábito de guardar a memória de nossos nossos grandes valores culturais, a data deve pasar esquecida, ou pelo menos pouco lembrada. Ontem, o professor José Carlos Sousa e Silva publicou em O Estado do Maranhão uma Homenagem a Tribuzi e provavelmente outros estudiosos escreverão sobre o poeta. Mas mesmo assim ainda é pouco para homenagear um homem que fez tanto. pelas letras maranhenses.


Quando Tribuzi voltou de Portugal, o Maranhão ainda era uma terra que vivia na afã do passadismo romântico. Coube a Tribuzi mostrar à juventude daquela época as novidades literárias que não chegavam a nossa terra. Hoje, três décadas após sua morte física, o Poeta continua vivo nas letras do Hino da cidade a que ele tanto amou, no nome de uma ponte, em um memorial que nunca sai do papel e na memória de quem ama a Poesia. Porém seus livros, repositórios materiais da alma e do estro do poeta, está cada vez mais esquecidos e menos lidos... Infelizmente.


Para os estudiosos desse grande poeta, deixemos aqui apenas algumas sugestões bibliográficas, para aprofundamento de leitura.


1. Rossini Corrêa - Pela Cidade do Homem - Livro essencial para quem deseja entrar em contato com a obra tribuziana


2. Rossini Corrêa - O Modernismo no Maranhão - Um desdobramento do livro anterior, com uma abordagem mais aprofundada e com um grande destaque ao momento histórico e às mudanças ocorridas no Maranhão da época de Tribuzi


3. Sonia Almeida - Tribuzi: Bandeira Poética de São Luís - Nesse livro, a professora Sonia Almeida estuda alguns poemas do poeta maranhense, mas aproveita também para dar uma visão panorâmica sobre o autor.


4. Nauro Machado - As Esferas Lineares - Um livro de ensaios de Nauro Machado. É interessante de grande talento ver um poeta fazendo uma leitura de outro poeta magistral. Nauro Machado demostra muita erudição e segurança ao estudar a poesia de Tribuzi.


5. Ramiro Azevedo - As Isotopias em Tribuzi - Livro hoje muito raro no qual o professor Ramiro Azevedo estuda Tribuzi de modo mais técnico, que serve tanto para a abordagem literária quanto (e principalmente) para a linguística.


6. Guesa Errante - Em alguns números desses interessante e necessário suplemento, é possível encontrar vários textos sobre Tribuzi


Para terminar, um poema de Tribuzi:




Imagem


Vista do mar, a cidade,
subindo suas ladeiras,
parece humilde presépio
levantado por mãos puras:
nimbada de claridade,
ponteia velhos telhados
com as torres das igrejas
e altas copas de palmeiras.
Seus dois rios, como braços
cingem-lhe a doce figura.

Sobre a paz de sua imagem
flui a música do tempo,
cresce o musgo dos telhados
e a umidade das paredes
escorre pelos sobrados
o amargo sal dos invernos.
Tudo é doce e até parece
que vemos só o animado
contorno de iluminura
e não a realidade:
vista do mar, a cidade
parece humilde presépio
levantado por mãos puras
e em sua simplicidade
esconde glórias passadas,
sonha grandezas futuras.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A TEIA POÉTICA DE LÚCIA SANTOS

A TEIA POÉTICA DE LÚCIA SANTOS
José Neres
Publicado em O Estado do Maranhão 02/02/2009


A Poesia é uma ave alucinada que luta dia e noite pela liberdade, que se esforça para ser vista em todos os lugares, em todos os momentos, independentemente de formas, de espaço físico ou de status social. Mas algumas pessoas insistem em pensar que a Poesia só possa existir encarcerada nos versos de um poema.





É no poema, mas não só nele, que a Poesia se materializa. Mas ela não é tão elitista assim e pode aparecer também no sorriso de uma criança, na troca de olhares de um casal apaixonado, no último segundo de luz do ocaso, no suave balançar dos galhos de uma árvore ou no pranto enrugado de um idoso solitário a pensar em seu glorioso passado. Em todos os lugares está a Poesia. Tudo pode ser Poesia, dependendo de quem capta os mais singelos detalhes da vida para transformá-los em arte.


Algumas pessoas têm o dom de pôr no papel esses flashes da vida e de traduzir a poesia da Vida em forma de poemas. É esse o caso da escritora maranhense Lúcia Santos, autora de, por enquanto, três livros: "Quase azul quanto blue" (1992), "Batom Vermelho" (1998) e "Uma Gueixa pra Bashô" (2007), além de participações em antologias poéticas.


Dona de um estilo sintético e agudo, Lúcia Santos compõe seus textos com a maestria de quem tece uma infinita teia de palavras com inúmeros nós que se misturam e se multiplicam formando não um vácuo, mas possivelmente um breve vazio existencial. Suas temáticas tratam basicamente da essência humana, das dores e dos momentos de transição por que todas as pessoas passam em determinados momentos da vida. Contudo, mesmo tratando de assuntos que, nas mãos de um escritor inexperiente, descambariam invariavelmente para um mero lacrimejar de palavras, Lúcia Santos não abre espaço para o pieguismo simplista e sentimentalóide. Ela demonstra ao longo de suas obras que é possível tecer linhas de emoção usando a perspicácia, a inteligência e a razão, mas sem perder o senso poético e o bom gosto estilístico.


Ler os poemas de Lúcia Santos é também entrar em contato com uma tessitura poética que mescla uma consciência intertextual, sutis jogos de palavras, experiências de vida e um emaranhado de argumentos, raciocínio e dúvidas que convergem invariavelmente para um mergulho do eu-lírico rumo a uma busca de autoconhecimento sem precisar recorrer a uma fuga para um reino de serafins. Em boa parte dos poemas o leitor tem a abstração lírica combatida duramente pela acidez irônica de uma visão crítica que quase sempre quebra as expectativas. É o que acontece, por exemplo, no poema "Abstração", no qual a lembrança do enleio amoroso é atravessada por uma revoada de urubus.


Outro ponto importante da teia poética minuciosamente arquitetada pela escritora arariense é sua facilidade em tratar de assuntos que ficam no meio termo entre sensualidade e erotismo, entre tentação e desejo, entre amor e ódio. Sem cair na banalidade ou no mau gosto, Lúcia Santos trabalha vários matizes da essência da Mulher. As vozes femininas que se apresentam nos poemas não representam o simplismo de uma visão maniqueísta de uma sociedade pretensamente falocrática. De um poema para outro ou, às vezes, no próprio poema, a meiguice inicial se transforma em desejo ardente, em voluptuosidade ou em desafio. A mulher deixa de ser apenas caça, mas também se faz caça quando quer e assume a aura de caçadora quando lhe convém.


Consciente de que o poema não precisa de muitas palavras para mostrar sua poesia, Lúcia Santos é econômica em palavras, porém essa visível economia vocabular esconde uma infinita riqueza de imagens poéticas. São tantas as imagens, que o leitor menos experiente nas lides poéticas pode facilmente perder-se nas muitas armadilhas, verdadeiras teias de palavras e de silêncios que dizem muito mais do que os olhos humanos podem alcançar

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

UM CENTENÁRIO ESQUECIDO

Chego a um sebo e fico perdido entre os milhares de livros que nunca poderei ler. Procuro obras raras de autores maranhenses. Passeio entre as estantes. Abro alguns volumes. Leio algumas linhas. Acaricio algumas capas enrugadas pelo uso... Um pequeno livro amarelecido pelo tempo e de aparência frágil chama a minha atenção. Decido comprá-lo.

Na capa rústica, o nome do autor: Carvalho Guimarães, seguido de uma indicação de que ele fizera parte da Academia Maranhense de Letras. Emoldurado por um desenho assinado pelo artista Orestes Acquarone Filho, está o título da obra: Jurema e o Cajueiro.

Em uma falsa folha-de-rosto, deparo-me com um autógrafo do autor, datado de 31 de outubro de 1969. Logo abaixo, um dos possíveis proprietários do livro deixou suas impressões a lápis: “Lido. Por curiosidade. E, sobretudo, evanescentes lembranças do autor!...” Uma assinatura ilegível e a data de 24 de janeiro de 1995 encerram meu passeio pela página inicial da obra.

Manuseando com cuidado o volume, descubro que se trata de uma edição de 1963, impressa no Rio de Janeiro pela Gráfica Tupy. Leio atentamente o prefácio, de quatro páginas, assinado por Maria da Providência (da Associação Brasileira de Imprensa) e sou iluminado com importantes informações sobre o poeta. Descubro sua relação com a cidade de Passagem Franca, seu amor pelas letras e sua importância para o jornalismo escrito na primeira metade do século XX.

Começo a ler o poema. O “Era uma vez” inicial me remete aos velhos e sempre úteis contos de fada, e o encanto dos versos bem construídos levam-me à sombra do velho Cajueiro apaixonado pela Jurema, “outra árvore do sítio, a que ele amava, / E a quem loas teceu num longo poema”. Encanto-me com as divagações do Cajueiro, com seus dias de glória e me entristeço com sua decadência e com a certeza de que seus dias estão em contagem regressiva.

Na segunda parte do belo poema de Carvalho Guimarães, entro em contato com as angústias de Jurema. Ela também, reconhece seu fim próximo, uma morte sem jamais conhecer “o segredo/ Da volúpia de amor dos vegetais” e espera, ao lado do Cajueiro, seu eterno noivo, que se cumpra o destino inexorável das velhas árvores: a derrubada.

Na última página, descubro que o poema foi escrito em Passagem Franca, em 1908 (há um século, portanto). Um belo poema...

Um poema tão centenário quanto o cajueiro e a Jurema. Um poema tão belo como a simplicidade das árvores e tão esquecido quanto elas. Os ramos do texto, em forma de versos, resistiram ao tempo e, mesmo esquecidos, continuam espalhando suas sobras e acolhendo os leitores interessados em conhecer a história de amor entre as duas árvores que há cem anos buscam a realização do impossível final feliz.

Fecho o livro e vêm à minha memória as palavras do professor, crítico e poeta Antônio Carlos Secchin, que certa vez disse que “as noites de autógrafo se transformam em rituais simultâneos de batismo e de óbito de um livro”. Lembro também as sábias palavras de Sebastião Moreira Duarte ao lembrar que “no Maranhão, de tantos valores literários, consegue-se o prodígio de ser publicado e de continuar inédito”.

No fim de tudo, além da beleza e das belas mensagens expressas nas quarenta e três páginas do livro, resta também a certeza de que ainda temos muito o que descobrir nas tão esquecidas letras de nossa fértil literatura...


Fragmento do livro


Era uma vez uma árvore florida,
O robusto cajueiro do sertão.
Que tinha, como a gente, crença e vida,
A crescer e a florir, no coração!

Erguia-se na porta da Fazenda,
Com folhas verdes e amarelos frutos,
O guarda vigilante da vivenda,
Sentinela avançada para os brutos...

Era o boêmio, notívago. Passava,
A noite inteira, ao lado de Jurema, -
- Outra árvore do sítio, a que ele amava,
E a quem loas teceu num longo poema.

Olhava o gado no curral, em frente,
E sentia a delícia de viver,
Cantava toda a noite, como a gente,
Para as mágoas da vida não sofrer,

Mil gerações passaram... sempre ereto,
Aos estranhos pagodes assistia,
No terreiro da casa, o bando inquieto
Dos cantadores dos sertões ouvia.

domingo, 18 de janeiro de 2009

NAURO MACHADO NO YOUTUBE

"O poeta é sua obra
poética" (Nauro Machado)

Nauro Machado é um dos grades poetas do Brasil contemporâneo. Alguns estudiosos já se debruçaram sobre sua obra para tentar captar os vários matizes de uma poesia que é tida por grande parte dos leitores como complexa, hermética, de difícil acesso.

Não são muitos os registros de Nauro Machado falando sobre sua própria poética. Em um vídeo postado no Youtube, ele fala um pouco sobre seus poemas, seu estilo e seus anseios. Ele reconhece que é muito difícil classificar um poeta e o mais difícil é "o próprio poeta dizer quem ele é". Em outro momento do pequeno, mas denso documentário, o poeta admite que gosta da solidão e espera que no futuro sua obra seja estudada.

O pequeno vídeo pode chamar atenção também para a ausência de um projeto de preservação das imagens e dos sons de nossas letras e de nossa história como um todo. Seria órimo se tivessemos também imagens de Chagas, Tribuzi, Arlete Nogueira, Luís Augusto Cassas e de tantos outros que fazem nossa vida literária.

Não sei quem produziu o vídeo, mas o recomendo a todos os que gostam de poesia e que talvez um dia se proponham também a por seus sentimentos no papel. Vale a pena ver e rever o vídeo diversas vezes. O trabalho pode ser visto também em http://www.youtube.com/watch?v=9qiKh4TGfx8




VIANA NA MEMÓRIA DE SOEIRO


Nem todas as lembranças podem ser
afirmadas, com toda certeza,
quando elas são “Estórias” ou
quando começam a ser História,
pois, elas se confundem. (José Soeiro)


Ao Jermany, estimado aluno, neto de José Soeiro,
que me presenteou com os livros de seu avô.



Viajar, mesmo a trabalho, é uma oportunidade de conhecer outros lugares, outras pessoas, de respirar outros ares e de entrar em contato com outros pensamentos e outras culturas.

Semana passada, tive o prazer de conhecer Viana, uma cidade agradável, com gente simples e hospitaleira. Claro que uma semana é um tempo muito curto para alguém conhecer uma cidade, mas é o suficiente para ter uma imagem global. Além de conhecer vários vianenses, por causa da natureza do curso em que eu estava trabalhando, conheci também diversos moradores dos municípios que formam o entorno do município: Cajari, Penalva, Matinha, etc.

Além dos novos amigos que devo ter feito, tive a sorte de ser agraciado com dois livros de um autor local: José Soeiro.

Ao completar oitenta anos, José Soeiro acabou não só recebendo as homenagens devidas, mas também fazendo uma troca de presentes. Deu à história de sua terra natal uma gigantesca contribuição: publicou um livro intitulado TERRA QUERIDA, que é muito mais que uma autobiografia, é também um apanhado geral sobre muitos momentos da história de Viana. Em 94 páginas, boa parte da vida do autor é narrada em um estilo claro e vivaz. Sua história e a da cidade se amalgamam de tal maneira que em alguns pontos o leitor não poderá dissociar uma da outra. Depois de falar sobre seu nascimento, da constituição de sua família e diversos outros momentos de sua vida – sempre com um tom bastante crítico e dinâmico – Soeiro toca no ponto mais contundente da obra: sua relação com a política.

Ele rememora com boa dose de emoção a época em que foi vereador e a reticência da população com o fato de ter no legislativo municipal um representante negro. Narra sua saga ao escapar de assassinos profissionais contratados para impedir que um negro ocupasse a presidência da Câmara dos Vereadores e outras peripécias políticas.

Cinco anos após a primeira publicação, ao completar 85 anos, José Soeiro apareceu com um outro livro: VIANA TE AMAREI POR TODA VIDA, uma obra de referência para quem pretenda conhecer os primórdios e o estágio atual da cidade. Em um levantamento minucioso, amparado na memória e em pesquisas – que o autor faz questão de alertar que não têm cunho científico – o livro traz um pouco da história de Viana, seus prefeitos, seus povoados, momentos marcantes da cidade e muitas outras referências que servirão para futuros pesquisadores.

Consciente de seu papel de formador de opinião, José Soeiro, em suas obras não se limita a narrar fatos de sua vida, da cidade ou de sua família. Ele se imiscui no texto deixando sugestões para melhorar a região, critica mandatos e dá sua opinião sincera a respeito dos rumos da cidade. Ou seja, José Soeiro jamais abdica de seu papel de cidadão.

Pela regra, ao completar 90 anos, teremos mais um capítulo dessa história de um homem simples que coloca no papel bem mais que flashes de sua vida, mas sim lições de cidadania e a certeza de que a idade não deve ser obstáculo para a realização de sonhos. Para o bem de Viana e de sua memória... Vida longa a José Soeiro!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O JABUTI QUE FALAVA INGLÊS


Inexplicavelmente, virou senso comum dizer que o Maranhão não tem literatura voltada para o público infanto-juvenil. Quem diz isso talvez nunca tenha ouvido falar em Viriato Correia (Cazuza), Lenita Estrela de Sá (A Filha de Pai Francisco e Lagartinha Crisencrise), Ubiratan Teixeira (Buli-Búli), Lucas Baldez (Viagem ao Mundo da Imaginação), Wilson Marques (com a série Touchê...) ou de Josué Montello (A formiguinha que Sabia Dançar, A Cabeça de Ouro, Calunga), para ficar apenas em alguns autores.

Claro que ainda não temos uma tradição e uma linha editorial voltada para o público que começa a entrar em contado com os livros. Isso pode ser facilmente verificado quando se nota que, em nossas escolas, os livros paradidáticos quase nada têm a ver com a realidade regional. Mas isso é outra história que envolve dezenas de outros fatores, sobre os quais comentarei um dia desses.

Para engrossar a esse pequeno, contudo valoroso rol de escritores maranhenses dedicados a criar leitores, estréia em livro Joaquim de Oliveira Gomes, com O Jabuti que falava Inglês (Editora Fama, 2008). Um trabalho bem cuidado, em formato quadrado e com ilustrações coloridas de autoria do artista Beto Nicácio. O único porém com relação à diagramação é, talvez, a letra um pouco pequena demais para uma garotada que vê um Universo de desdobrando diante de seus olhos. Mas esse é só um detalhe técnico que pode ser corrigido em futura edição.

Usando um vocabulário fluido e um tom de encantamento, Joaquim Gomes mostra, em forma de alegoria, como o deslocamento inicial causado pelo contato com as diferenças pode ser marcante. O autor mostra também em sua fábula que gentileza, educação, companheirismo e solidariedade independem de língua, raça ou cultura e podem ser encontrados na torça de experiências entre seres de origens distintas. Para mostrar isso, o autor usa com sobriedade a metáfora do relacionamento entre seres humanos e animais. O Jabuti da fazendo, o único a falar inglês ali, serve como porta-voz das diferenças e uma espécie de ponderador entre as diversas personalidades abordadas na pequena obra.

Como a maioria das obras desse gênero, O Jabuti que Falava Inglês serve para divertir e para educar e pode ser lido em diversas camadas, dependendo do grau de amadurecimento do leitor. Esperamos que o autor não pare apenas nesse livro e possa brindar nossos jovens e crianças (e até os adultos) com outras histórias do mesmo quilate.
Os interesandos no livro podem entrar em contato com o autor pelo
email joaquim@fama ou pelo telefone 99741823

domingo, 4 de janeiro de 2009

ARTIGO DE JOSÉ EWERTON NETO


Para finalizar este domingo de muito sol e poeira, recorro ao artigo de meu carísimo amigo recém-conquistado José Ewerton Neto, que dento de alguns meses será empossado na Academia Maranhense de Letras, instituição para a qual foi eleito por seu trato gentil com as pessoas e com as palavras, além, é claro, de seu incontestável mérito literário.

Como ilustração, uso a capa do mais recente livro de Ewerton, o qual eu recomendo para uma leitura em silêncio e cheia de reflexão sobre o que cada página nos traz com relação a busca de nós mesmos.

O texto abaixo foi iniciamente publico em O Estado do Maranhão e está aqui reproduzido com a premissão do autor. Boa leitura a todos.



ASSIM REFULGE A POESIA


José Ewerton Neto, engenheiro,

autor de Ei, você conhece Alexander Guaracy?
Email: ewerton.neto@hotmail.com



“ Esse refulgir que mais parece um sonho...”
Machado de Assis





Em matéria de poesia todos somos suspeitos. De gostar em demasia, de repetir o que todos dizem, até de dizermos que não gostamos dessa ou daquela poesia. Se os poetas são fingidores, como dizia Fernando Pessoa, mais ainda seus leitores, porque sendo a poesia indissociável da expressão de um sentimento, a realização do leitor não está apenas no êxtase com a forma que o traduz, mas, principalmente, na sua identificação com o autor, quando descobre a expressão gloriosa (e próxima da catarse) do equivalente seu.
Por isso poucos se aventuram no terreno da precisa descoberta do
tesouro poético, eis que a poesia , muito mais que a prosa, por exemplo, é o terreno onde o gostar do que se lê é movido por paixões que disparam, junto com a emoção, diante deste ou daquele poema lido; muitas vezes de um verso simplesmente, e não na contemplação do livro como um todo - como ocorre com o romance.
Sendo feito de curtos-circuitos sentimentais tentando revestir-se de um prazer estético, a meu ver, o poeta, mesmo um grande poeta, dificilmente consegue manter em contínuo processo de alumbramento o fetiche com que magnetiza o leitor nesse ou naquele poema isoladamente. Quanto? Aqui a matemática não socorre. Julgo que uma identificação com 30 a 40 % dos poemas de um livro já seja capaz de deixar o leitor em estado de glória, suficiente para acreditar estar diante de um grande livro.
Esse talvez seja o grande problema da poesia brasileira atual : o de
identificar corretamente valores, onde já não emergem os ícones incontestáveis, como no passado. Fragmentária dentro da própria fragmentação da vida cotidiana, à mercê de espasmos que surgem aqui ou ali, não há por parte da crítica literária nacional a imparcialidade e a acuracidade necessária para enxergar, fora do ambiente das “panelinhas literárias” regionais, os centros onde vicejam a melhor poesia. Só isso explica que os suplementos de alcance nacional (raros) não façam menção mais freqüente aos grandes poemas que aqui em São Luis surgem aos borbotões. Como leitor, eis aqui um breve registro do que ultimamente li e gostei:
Em A morte de Ana Paula Usher, Augusto Cassas, poeta
consagrado nacionalmente, permanece fiel a seu estilo, bastante sutil e original na arte poética brasileira, de convivência da ironia e do sarcasmo com o lirismo Essa poesia, mais recente em sua obra, pode provocar alguma perturbação nos que o preferem de outros livros como República dos Becos e a Paixão Segundo Alcântara. O que se percebe, porém, em Cassas é a absorção espontânea de uma espécie de compromisso com um estilo rompedor de clichês, que, ao mesmo tempo em que causa impacto, flui naturalmente. Entre vários bons poemas do livro destaco os títulos A Cama, Um e O amor, resumos preciosos da dissolução dos espíritos no plano transcendental da fusão com o outro, que é o princípio do amor
Em Vozes de Hospício, Cunha Santos, também consagrado poeta, cunha (me perdoem a tentação do trocadilho ) já a partir do título do seu livro a sua concepção poética de uma linguagem densa e forte. São gritos simbólicos extraídos do caos e da degradação humana, que atordoam com um lirismo algumas vezes apaziguador, outras dilacerante, como aqueles em que vocifera “Não se rosna poesia assim, com quem bebe um cálice de sangue”. Não há chances para a felicidade fácil em seus versos , entre os quais prefiro os que fogem do tom panfletário, como os do poema acima citado Lexotan , Musa e Espaço.
Bioque Mesito, poeta vencedor do recente prêmio FUNC, parece buscar nos poemas de A Anticópia dos placebos...o espaço-tempo dos seus “dias em tecnicolor” em que na contemplação do banal cotidiano acaba contemplando a si mesmo. Não há um distanciamento crítico diante do que vê e sente, mas a intenção de flutuar na pulverização e no tédio dos tempos atuais, como num fluido disperso, em que a função de sua poesia é atomizar essa perplexidade para torná-la suavemente palpável. Destaco, para gosto pessoal, os poemas que tratam dos dilemas atemporais dentro dessas janelas como Comics, O tempo não depende..., Haste.
Eduardo Borges, em Susurros é um poeta que não teme os próprios sentimentos eis que, rapidamente, nos identificamos com a multidão de uivos paralelos aos que a gente traz no recôndito de nossas almas. À semelhança de hai-kais, as palavras iniciais agem apenas como desenhos (gaiolas?) para libertar um desfecho sentimental que é maior que o próprio poema como nos versos de Miragem, em que enxerga a overdose dos olhos de um morto no próprio sol que brilha e, assim, faz um resumo da vida humana, como o caminho sem volta da materialização de um sonho. São vários os poemas-resumo de um tudo que se decompõe em melancolia mas, ao mesmo tempo, se estende para além, através do simbolismo da poesia, como no poema acima citado, Omissão e Visão.
José Chagas um dos cem maiores poetas brasileiros do século, segundo o escritor e poeta José Neumanne, evoca Portugal num único poema e nos convida para fazer com ele uma grande travessia. Trata-se, logo se vê, de um poema-livro. Mas, se todo livro já é, em si, uma travessia, num poema-livro o poema é a ponte utilizada para trilharmos a viagem. Grandiosa e magnífica ponte, essa edificada por José Chagas, onde se socorrem de lirismo os alicerces que sustentam o caminhar do leitor pelos vãos mais profundos e valiosos da memória de um povo!

sábado, 3 de janeiro de 2009

A VIDA PEDE PASSAGEM


"Ai, desgraça de ser mãe, pobreza maior seria não ter filhos! (Mia Couto)




Minha intenção hoje era escrever sobre o mais recente livro do grande escritor moçambicano Mia Couto - Venenos de Deus, Remédios do Diabo. No entanto, uma pequenina joia de pouco mais de cinquenta centímetros e pouco mais de quatro quilos me fez mudar de ideia imediatamente.

Ela já era esperada há meses e meses, mas parece que sempre adiava a data de conhecer esse nosso ingrato mundo. No aniversário da mãe, 22 de dezembro, mandou um recado tímido, mas deixou claro que não estava disposta a compartilhar uma data tão especial com mais ninguém da família. No Natal, anunciou que sua vinda estava bem próxima. Não veio! Na passagem de ano, ensaiou passar o réveillon com os familiares dos quais só conhecia as vozes. Achou melhor deixar todos na espera! O aniversário do pai, 1º de janeiro, parecia um momento mais que apropriado para sua chegada... Mas ela não queria mesmo interromper as comemorações de ninguém!

Passadas as festas, no final de noite do segundo dia do ano, ela decidiu que já estava cansada do interno aconchego materno. Decidiu também verificar se aquelas vozes tantas vezes ouvidas correspondiam às suas expectativas. Esperou um pouco mais e, caprichosamente, se espreguiçou no ventre da mãe. Alheia à ansiedade dos parentes e à burocracia das maternidades, ela chegou à conclusão de que era chegada a hora. Mas ela é caprichosa e não quis vir ao mundo sem uma boa dose de trabalho que valorizasse sua presença. Esperou, esperou, esperou... Até que, logo após às oito da manhã, com o sol como astuto abre-alas, ela chegou para iluminar a vida de seus pais e de todos os seus familiares.

Sara veio ao mundo com (e como) o sol, para mostrar que um novo dia está nascendo, que um amanhã ainda virá, que há um futuro pela frente.

Sara está bem, nossa reduzida família está em festa e minha querida irmã está feliz com sua pequenina deusa de mãos pequeninas, bochechas enormes, pele rosada e choro possante. E se todos estão felizes, a literatura pode esperar. Os livros podem esperar. Mas a vida não pode ser deixada para depois, não pode ser procrastinada, não pode ser esquecida... Nunca!

Se, amanhã, minha irmã perceber que os problemas são enormes e que nem sempre a sorte lhe está sorrindo, ela pode ter a certeza de que tem uma família, uma filha e que tudo, todas as chagas, na hora certa, para sempre Sara!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O NOVO LIVRO DE HERBERT DE JESUS SANTOS


Para começar o ano muito bem, resolvi, como sempre faço, ler um livro. O escolhido foi Ofício de São Luís: Bernardo Coelho de Almeida (Coração em verso e prosa), de Herbert de Jesus Santos. Trata-se de um livro que já veio ao mundo premiado. Com ele, o autor conquistou o primeiro lugar no XXXI Concurso Cidade de São Luís, na categoria de jornalismo (Prêmio Bandeira Tribuzi, 2007). É um trabalho de investigação e de emoção que serve tanto para os inciantes quanto para os iniciados na vida e na obra do intelectual maranhense Bernardo Coelho de Almeida.

Com palavras simples, o autor do livro, o experiente jornalista e prosador Herbert de Jesus Santos, reconstitui algumas passagens da trajetória do cronista que carregou São Luís no coração e que a traduziu em várias passagens de uma obra que deixou saudade.

O trabalho em si já seria suficiente para o leitor ter uma ideia da dicção literária de Bernardo Coelho de Almeida, mas o autor do livro foi um pouco mais adiante e incluiu no volume alguns artigos do escritor homenageado - uma escolha criteriosa e que mostra bem o estilo vivaz e vibrante de BCA - e também textos e fragmentos de Arlete Nogueira, Nauro Machado, João Mohana, Alberico Carneiro e Josué montello, dentre outros, que atestaram as qualidades humanas e intelectuais de um homem que se preocupou não só com seu estilo de escrita, mas também com o respeito por seus contemporâneos.

Outro ponto alto do livro são as suas ilustrações. Rico em imagens, o trabalho se torna leve para os leitores e faz com que recordemos alguns momentos da vida cultural de nossa capital.

Ofício de São Luís: Bernardo Coelho de Almeida (Coração em verso e prosa), é um livro para ser lido sem pressa e com a convicção de que estamos em contato com diversos grandes nomes de nossas letras. Um excelente modo de começar um novo ano!

Mais que dois simples telefonemas

Um ano que termina bem tem que, obrigatoriamente, passar o bastão para outro que não pode decepcionar.
Meu 2008 terminou de forma agradável e sem sobressaltos, mas com grandes alegrias. Para começar, o poeta e editor Alberico Carneiro me presenteou com a publicação de meu artigo POESIA MARANHENSE HOJE, nas páginas do suplemento Guesa Errante. Não teria como não ficar agradecido...
No final da tarde, meu telefone tocou. Poderia ser apenas mais uma pessoa desejando-me um feliz 2009, mas não era. Era a minha ilustre escritora e amiga Arlete Nogueira parabenizando-me pelo artigo publicado no Jornal Pequeno. Sempre amável e gentil, Arlete elogiou a publicação do artigo e lembrou que a geração que está começando a despontar neste início de século, mas que já está cavando seu espaço há mais de dez anos é muito boa, estudiosa e criativa. Ela lembrou nomes como Bioque Mesito, Ricardo Leão e Antônio Ailton... Ela tem razão. Estes são, juntam,ente com outros, nomes que farão história em nossas letras em um futuro não muito distante.
2009 começou e, para não perder o ritmo, li logo meu primeiro livro do ano (no post seguinte falarei dele) e comemorei com a família o início de um novo momento.
No dia dois, para surpresa minha, recebo um outro telefonema. Desta feita é a dona Yvonne Montello, desejando-me um ano de muito sucesso e me parabenizando pelo livro Montello: O Benjamim da Academia. Ela me disse que ficou emocionada ao ler o livro que, segundo palavras dela "foi escrito seguramente com o coração". Sua voz denunciava uma forte emoção ao lembrar o companheiro de décadas e que foi relembrado nas páginas de um livro que resgata sua luta por uma vaga na Academia Brasileira de Letras.
Para terminar este primeiro momento de 2009, trago a público este blog, que somado ao meu site, devem trazer algumas informações sobre nossas letras. Cada livro maranhense lido será aqui comentado, como homenagem aos escritores que tanto lutam pelo sucesso de nossas letras.