domingo, 24 de maio de 2009

BIOQUE MESITO


Com este artigo, iniciaremos uma série sobre os poetas maranhenses contemporâneos. Esperamos que um dia falar sobre literatura seja algo comum em nossa mídia. Mas enquanto isso não acontece, vamos tentando fazer a nossa parte.


POETAS DE HOJE: BIOQUE MESITO

José Neres

Quando Fábio Henrique Gomes Brito resolveu separar e depois juntar letras finais de seu nome de batismo, veio à luz o pseudônimo de Bioque Mesito, o autor de A inconstante Órbita dos Extremos (2001) e A Anticópia dos Placebos Existenciais (2008), ambas obras premiadas em concursos literários.

Mais preocupado mais com a essência poética do que com a mera forma do poema, Mesito transita livremente entre os versos soltos e a experiências com a linguagem e com as formas. Em muitos casos, o poeta utiliza-se de recursos gráficos e das associações entre imagens e palavras para transmitir suas ideias, suas críticas e suas impressões sobre o mundo. Isso pode causar estranheza a quem esteja acostumado tão somente com poemas rimados e metrificados com o rigor.

Como pode ser visto desde a escolha das palavras que dão nome aos livros, o interesse do poeta não é fazer poemas narrativos nem de críticas sociais explícitas a cada verso, embora o tom crítico seja visível em muitos momentos dos livros. O interesse maior da poesia de Bioque Mesito é a inquirição do humano, sem se preocupar, porém, em trazer respostas prontas, acabadas e definitivas. Na leitura dos poemas, é possível perceber-se que o eterno questionar(-se) a respeito do mundo ocupa um espaço significativo no estro do poeta. O aparente tom de confissão que permeia grande parte dos textos nem sempre está relacionado ao homem que escreve os poemas, mas, sem dúvida, está se dirigindo ao Homem, visto como entidade universal.

É possível identificar na poética de Bioque Mesito um olhar sempre atento às mais diversas realidades que circundam o ser humano. Como um flâneur a vagar pela inconsistente certeza das dúvidas, o eu lírico dos poemas afia seu olhar em direção ao infinito e ali vislumbra o vazio de seres anônimos que, ao mesmo tempo, podem ser ninguém ou cada um de nós.

A insatisfação é outro ponto a ser destacado nos poemas do jovem escritor. Ao longo das páginas, o leitor entra em contato com um sentimento de descontentamento com relação a tudo que gira na órbita de um nada que se considera digno de reconhecimento. Dessa forma, uma sensação de que o mundo está desconsertado, tão evidente em Camões, Drummond e em outros poetas de grande nível, volta remodelada nas palavras de um homem/poeta que demonstra estar insatisfeito até mesmo com a própria insatisfação, como se pode ser visto nos versos finais do livro de estréia de Bioque Mesito, quando traduz como queria que seu último poema fosse: “suave como borboletas/ no cio/ metade eterno por todo tempo/ metade eterno por insatisfeito.”

A obra de Bioque Mesito não exige uma leitura atenta e livre de preconceitos relativos à forma, às temáticas e às construções nem sempre comuns. As palavras espacializadas à Maiakovski podem até espantar um leitor pouco afeito aos versos menos tradicionais, contudo, em uma leitura mais atenta, ninguém poderá negar o belo trabalho que o poeta faz com a linguagem, em busca da essência humana que só a arte é capaz de traduzir.


domingo, 10 de maio de 2009

NOSSA LÍNGUA...

PALAVRAS MUTANTES

José Neres

Em uma época quem que mutantes invadem as telas das tevês e dos cinemas e inundam o imaginário de jovens e adultos com a ilusão de poderes além dos limites humanos, a maioria das pessoas, no afã de acompanhar as milionárias produções cinematográficas, esquece-se de que todos nós passamos por pequenas mutações no corpo, no vestuário, nos tratamentos cotidianos e, principalmente, na linguagem.

Uma língua é um elemento vivo que também evolui e que se transforma a cada minuto. Palavras e expressões que marcam uma geração podem facilmente ser esquecidas na década seguinte. Algumas pessoas se espantam com a velocidade com que o idioma assimila alguns vocábulos e com sua tendência a descartar elementos linguísticos que, à primeira vista, pareciam eternos e imunes às mudanças.

Mesmo que cause estranheza, essa evolução da língua é parte da eterna necessidade de renovação a que todos estão irremediavelmente atados. Não se trata, portanto, de dizer que uma língua está sendo destruída por seus falantes atuais ou que as “pessoas de antigamente” tinham mais cuidado com o vernáculo, ou, pior ainda, de preconizar que “os jovens estão matando o idioma” cada vez que falam. O que há, na verdade, é uma adequação da linguagem a uma época é às situações impostas pelo próprio cotidiano.

No entanto, mesmo as pessoas que tentam não recender um ranço de passadismo se veem vez ou outra espantadas com a mutação de algumas palavras que circulam com desenvoltura no vocabulário atual. Em alguns casos, o significado da palavra mutante em nada lembra a essência do estágio anterior da língua. Dessa forma, as mutantes citadas a seguir podem causar estranheza a quem não observe com cuidado as falas que ecoam nas ruas, nos shoppings e até nas escolas, mas já são bastante familiares aos ouvidos de todos nós.

O conhecidíssimo ato de NAMORAR de forma descompromissada teve diversas modificações e hoje pode ser encontrado na forma de FICAR, de PEGAR, de PASSAR O SAL e até mesmo de um estranhíssimo ESPOCAR, que suscitam frases interessantes como: “Estou espocando uma mina de tua rua” ou “Já passei o sal em tua prima”. Tudo muito romântico!

O sempre educado DESCULPE-ME está praticamente fora de uso e em seu lugar surge o enigmático FOI MAL, quase sempre dito de modo vago e com uma entonação arrastada que se prolonga no vazio do tempo.

Outra palavra que vem perdendo terreno no dia-a-dia é OBRIGADO, que, depois de décadas e mais décadas brigando para ter sua forma feminina usada de acordo com a norma culta, agora se vê definitivamente sufocada pelo sisudo VALEU.

Estruturas solidificadas como TCHAU, ATÉ LOGO, ESTOU INDO e VOU-ME EMBORA praticamente fundiram-se em uma forma extremamente contraditória e direta. Um simples, rápido e sintético FUI resolve todos os problemas sem precisar de explicações ou das convencionais despedidas.

Atualmente, poucos são os que convidam os amigos para um ANIVERSÁRIO, pois é mais prático convidá-los para o NÍVER, de preferência com poucas pessoas, para evitar gastos desnecessários e com uma vela em forma de interrogação, para preservar a discrição sobre a idade do dono da festa.

Alguns pequenos cacoetes da fala não se contentaram com as visíveis mutações, mas também se acasalaram e trouxeram à luz o famigerado TIPO ASSIM, que nada acrescenta à praticidade discursiva, mas que serve para enfeitar o vazio conteudístico de tanta gente que adora falar, mas que pouco tem a dizer.

A relação poderia se estender por páginas e mais páginas, pois em uma era de comunicação instantânea em que primos viram plimos (ou pliminhos) na internet, mutações como V6 (vocês), 4ever (do inglês forever/para sempre), ctz (com certeza) e qq (qualquer) começam a fazer parte do cotidiano dos falantes da língua e tendem a evoluir para outras formas ainda mais cifradas. Resta então a cada pessoa aprender a conviver com esses mutantes de maneira harmônica ou então viver em um quase isolamento lingüístico.

Um detalhe: não adiante abrir guerra contra os mutantes. Eles geralmente são bastante fortes e têm o poder de fazer parecer que tudo está como sempre esteve. Aparentemente, nada muda dentro da mudança eterna.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

LEITURA LEITURA E LEITURA


LEITURA COM CASTIGO

José Neres



É, infelizmente, uma constante em algumas escolas, quando um aluno, ou mesmo uma turma inteira, não se comporta de acordo com os ditames da instituição, que professores, coordenadores e até mesmo membros do corpo diretivo imponham uma penalidade a quem não esteja encaixado nas normas pré-estabelecidas.


As sanções são as mais variadas e vão desde advertências verbais até a expulsão sumária, passando por outras medidas corriqueiras, como exclusão do aluno da sala de aula, suspensão por determinado período ou até, por mais absurdo que pareça, castigos físicos. Contudo uma das punições mais corriqueiras e aparentemente sem grandes proporções é a que mais chama a atenção, por sua discutível aplicabilidade como método educativo: obrigar o educando a ler um livro ou a escrever uma redação como forma de castigo.


Ora, um dos papéis dos educadores, em todos os níveis de ensino e fomentar nos alunos a ideia de que ler é uma espécie de passaporte para a independência intelectual. Quando alguém é alfabetizado e consegue sair do simples decifrar de palavras para alcançar a dimensão do entendimento global dos textos e da realidade circundante, adquire uma poderosa ferramenta capaz de fazer da pessoa um cidadão mais cônscio de seus direitos e deveres. A produção escrita, por sua vez se transforma em um excelente mecanismo de divulgação das próprias ideias, seja para um grupo restrito, como na produção de cartas e pequenos documentos, seja para um público mais amplo, como ocorre nos escritos de cunho científico ou artístico ou ainda na divulgação de textos via internet.


Mas, impondo a leitura e a escrita com forma de castigo, qual a mensagem subliminar que a instituição escolar passa para seus educando? Agindo dessa forma, qual o incentivo que a escola deixa para o estudante que passa a ver nas palavras escritas um grande inimigo e não um aliado que irá acompanhá-lo ao longo de toda uma vida? Quantos alunos se sentirão inteiramente à vontade com um livro nas mãos enquanto as imagens de castigos antigos e recentes ainda fazem parte de suas mais traumáticas lembranças?


A escola, bem como a família e a sociedade em geral, têm a obrigação de fazer o possível e até o impossível para transformar meros frequentadores de aulas em leitores proficientes e capazes. Não pode ser negado ao educando o direito de caminhar com as próprias pernas e de seguir pelas tortuosas estradas da vida guiado pelo mapa das palavras escritas, com caminhos iluminados pelo farol do conhecimento adquirido após anos de estudos sistemáticos e pavimentados ao prazer das leituras escolhidas pelo próprio indivíduo, quando a passagem pelas salas de aula tiver se tornado uma doce lembrança dos bons tempos de aprendizado.


A leitura e a escrita devem virar fonte de aprendizagem e de prazer. Cada página deve ser devorada com a ânsia de saber o que virá a seguir. Casa palavra escrita deve trazer a essência de quem muito transpirou para transformar ideia, conhecimento e emoções em palavras que traduzam o que o autor sente ou sentiu. Claro que o papel da escola não é o de transformar todos em grandes escritores, mas nada impede que ela ofereça a todos os instrumentos necessários para o aluno pelo menos sonhar com isso.


No entanto, enquanto perdurar a concepção arcaica de que é possível castigar um aluno pondo a sua frente um livro para ser lido ou uma folha de papel em branco da qual sairá um texto, a educação com finalidade qualitativa e não apenas quantitativa estará sempre prejudicada e todos nós sairemos dessa árdua batalha pelo sucesso educacional como grandes perdedores.

domingo, 19 de abril de 2009

O DESEJADO




O desejado

José Neres


A meu amigo

e grande ator

Júlio César


A obsessão de um fazendeiro em encontrar um boi encantado e as consequências que podem advir de uma série de atos insanos servem de mote para a peça teatral O DESEJADO, que esteve em cartaz em nossa cidade neste fim de semana.

Com texto, muito bem adaptado, da obra do piauiense Francisco Pereira da Silva e uma direção segura e competente do conhecido ator César Boaes, a peça bafeja ares das grandes tragédias gregas e levanta questões que vão muito além de uma leitura superficial. O diretor e os atores foram felizes na simplicidade do cenário – uma boa amostra de que talento e criatividade podem suplantar possíveis dificuldades financeiras – e demonstraram segurança nas falas, com pouquíssimos momentos de vacilo, contudo, mesmo nesses raros momentos em que o texto pareceu engasgado na garganta ou na memória, todos souberam se portar com grande maestria.

Quem separou um espaço na agenda neste fim de semana para ir ao teatro certamente não se arrependeu e, sem dúvida, se divertiu e se emocionou bastante com a saga do patriarca que destroi bens e família em busca de uma quimera em forma de um temível boi bravo.

Para completar o espetáculo, a leveza da representação e as sutilezas cênicas foram trabalhadas de forma séria e lírica ao mesmo tempo, sem perder o foco do texto original e mesclando com equilíbrio os momentos trágicos e os cômicos.

Finalmente, como é bom ver pessoas de todas as idades no teatro em um finalzinho de domingo! Como é bom ver crianças, jovens, adultos e idosos lado a lado aplaudindo com as mãos e com o coração nossos talentosos atores e nosso inspirado diretor.

Aplauso a todos. Ao público pela escolha... e aos artistas, por oferecerem aos presentes um espetáculo de qualidade. Aplausos, aplausos, aplausos...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

MESTRE ANTÔNIO VIEIRA


VIEIRA: UMA VOZ, UM SILÊNCIO
José Neres



Fim de tarde. O Centro Histórico de São Luís começa a mudar de feição. Aos poucos, saem de cena os apressados homens de negócio e começam a desfilar pelas estreitas calçadas pessoas que aproveitam os últimos raios de sol para por a conversa em dia, sem preocupação com o correr dos ponteiros do relógio ou com as incertezas do amanhã. Nessa pequena multidão de amantes do por-de-sol do Centro Histórico há homens comuns, mulheres comuns, estudantes, poetas, desocupados e tantas outras pessoas. Mas um frequentador daquele ambiente de pura nostalgia poética chamava a atenção: um homem magro, negro, firme e singelo como sua própria história de vida carregava rumo à Banca do Dácio seu sorriso, seus “causos”, sua música e sua poesia. Seu nome era – e será para sempre – Antônio Vieira...

Mas não era apenas mais um Antônio ou mais um Vieira cercado de gente em uma praça que respira lembranças “dores e saudades”, era, sim, o Mestre Antônio Vieira, um homem que soube transformar palavras simples em versos carregados de poesia e de musicalidade. Talvez nem todos os transeuntes e freqüentadores habituais da Praia Grande tenham aproveitado a presença daquele homem que guardava em sua memória quase nove décadas de experiência, de alegrias e de atribulações, mas que geralmente guardava para si os momentos difíceis, para dividir com os amigos, companheiros ou meramente conhecidos a lucidez de seu sorriso tímido e generoso.

Como todo bom artista popular, Antônio Vieira tirava do cotidiano, de sua própria vivência de mundo e de situações aparentemente banais o motivo para suas composições. Como uma espécie de Midas pouco interessado em ouro, mas ávido de acordes e de musicalidade, o compositor maranhense transformava em versos, sons e ritmo aquilo que para pessoas comuns podia ser apenas mais um acontecimento. Desse modo, uma garota de cabelos crespos que manda alisá-los para depois pô-los no rolo se transformou no antológico “Na cabecinha da Dora”, uma receita caseira para melhorar o ânimo e ao mesmo tempo perfumar o corpo aparece na forma de “Banho Cheiroso” e os conselhos para um amigo que andava triste sem saber o que fazer da vida se metamorfosearam no conhecidíssimo “Tem quem queira”, a mais conhecida das músicas do saudoso Mestre.

Ao longo de aproximadamente setenta anos de vida artística, Vieira compôs mais de trezentas músicas, escreveu um livro de contos, cantou em parceria com diversos grandes nomes da MPB e da MPM, foi homenageado e reverenciado por inúmeras personalidades, mas, em sua simplicidade de homem do povo, não tentava esconder os percalços por que passou até ter seu nome projetado nos palcos do Brasil.

Pode-se ler, ouvir ou cantar a obra de Antônio Vieira por simples diversão ou para assimilar um pouco da espirituosidade de um homem que não teve vergonha de dizer que cometeu muitos erros, como pode ser visto em “A Pedra Rolou”, na qual, em tom confessional, ele declara: “eu também rolei no tempo / e ele muito me ensinou / o mundo rola no espaço / e também muito melhorou / e eu fui rolando com ele / e ele me desarestou”. Em outra música, como máximo de sua simplicidade vestida com a túnica da picardia, desejava transformar-se em uma cocada para adoçar a boca de “mulatas e loiras / morenas e negras”.

Hoje aquela cadeirinha da Banca do Dácio está vazia. O velho poeta já não conta seus infinitos “causos”. Quem pôde aproveitar alguns momentos da companhia do Mestre há de guardar na lembrança para sempre aquele sorriso meigo e aquela imagem de quem tanto demonstrou amor pela música e por sua terra natal. A pedra rolou, o tempo passou, Mestre Antônio Vieira Morreu, mas sua música ficou. Ficou nos Cds, na TV, em nossos ouvidos e até no silêncio da despedida.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

UM ARTIGO SOBRE MEU TRABALHO


É sempre bom tratar com pessoas inteligentes e estudiosas. Recentemente, a convite de minha estimada colega e amiga Honorina Carneiro, fui ministrar um curso de História Literária. Chegando ao local, deparei-me com algumas pessoas com quem havia perdido o contato e com outras com as quais o contato se iniciaria naquele exato momento. nesse último grupo estava a professora Iole Cutrim, que, como deve acontecer com todos os profissionais que se prezam, estava inscrita no curso para aprimorar seus conhecimentos.

Boa leitora e dona de um um bom cabedal de leitura, Iole colaborou ativamente com cada momento da disciplina e, ao final, quando foi pedido o último trabalho, resolveu escrever sobre minha modesta criação literária. repoduzo aqui, com todos os agradecimentos possível o texto de Iole Cutrim, um bom exemplo de sagacidade e acuidade leitora.


ACERTANDO AS CONTAS
Iole Cutrim Costa
(Professora da Rede Estadual de Ensino/Pós-Graduanda em Língua portuguesa e Literatura Brasileira pelo IESF)



Todas as vezes que temos necessidade de expor nossa opinião sobre qualquer assunto temos muitas dificuldades, mas quando vamos falar do que gostamos de verdade somos exagerados e nem um pouco modestos.Por isso falar de um escritor de que gosto na atualidade me faz ficar inundada de emoção, resolvi então desenvolver o meu trabalho em cinco tópicos:

Nunca tinha vivido uma experiência tão inusitada como esta de ser aluna de um escritor, por isso quando ele pediu que fizéssemos um trabalho para fechar a disciplina resolvi falar sobre ele, um Homem/Escritor ou um Escritor/Homem,é difícil separar um do outro, assim como é difícil fazer uma única análise de suas obras. Em 50 pequenas traições, por exemplo ele usa o humor para tratar das questões que envolvem os relacionamentos, por isso o leitor tem emoções diversas ao ler as abordagens feitas por ele,sem contar que a brevidade dos textos possibilita uma leitura agradável.


Então o que falar do estilo do meu agora escritor predileto: acho que ele é intenso quando escreve crônicas, poesias ou simplesmente retoma temas abordados ao longo dos anos na literatura, ou ainda dizer que dos Restos de Vidas Perdidas, dos Epigramas de Artur, com pitadas de 50 Pequenas traições, ou ainda relatos de um Montello: o Benjamim da Academia”,são textos e pretextos que traduzem a essência de um escritor Maranhense que deixa sua marca nos anais da literatura e prende a atenção daqueles que tem a sorte de ler seus escritos.


Realmente estou impressionada com acabei de ler, Os Epigramas de Artur e me veio à mente o seguinte pensamento: é uma obra Dinoneriana ou Neresdiniana,adorei os comentários dos Epigramas, preciso agora ler Estratégias para Matar um Leitor em Formação, com certeza em mim terá o efeito contrário.


Espero que em um futuro próximo a arte de escrever seja valorizada e que um escritor seja reconhecido em vida, afinal escrever não é nada fácil,ainda mais quando se desnuda os sentimentos ocultos e somos desmascarados,pois dentro de cada um de nós existem desejos que teimamos esconder-se. O livro Restos de Vidas Perdidas não poderia ter outro nome pois o autor ironicamente antes de cada crônica noticiada, escreve fragmentos de leis, salmos e dizeres que deveriam sair do papel e postos em prática. Os temas lidos no sumário nos dão a falsa idéia de que leremos algo singelo,entretanto, quando folheamos o Álbum de Recortes e desamarramos Os Laços de Família temos sede de Um Acerto de Contas, sem arrependimentos, sentimos o Inebriante Cheiro de Cola, que esconde o bom moço, Entre Paredes, da loucura, que deixa A marca de um beijos como a Vingança de uma Crônica de um futuro anunciado.

domingo, 5 de abril de 2009

sexta-feira, 20 de março de 2009

UM ADEUS

O ÚLTIMO ATO
José Neres




A vida é uma grande peça de teatro com múltiplas personagens, cenários infinitos e um texto às vezes longo, às vezes curto, mas sempre cheio de surpresas. Porém, por melhor e mais cheio de peripécias que seja o enredo, ele sempre assume contornos de tragédia nas cenas finais. Ou pelo menos de um drama sempre esperado, mas, sempre que possível, protelado.


Não. Não estou escrevendo sobre teatro, mas sim sobre um homem que trazia o teatro no coração. Escrevo sobre uma pessoa que durante sua não muito longa vida representou diversos papéis, sempre com a devida competência. Quase sempre era professor, mas também era excelente cozinheiro, talentoso ator, competente diretor teatral e, principalmente, um amigo sempre bem humorado e cheio de frases de efeito e de palavras que alegravam a todos.


No dia dezenove de março, nosso amigo Antônio José Moscoso Maia terminou a última cena do último ato de sua vida. Foram tantos atos, tantas cenas, tantos momentos em tantos cenários que nem mesmo ele seria capaz de lembrar-se de todos eles.


Moscoso era uma pessoa tão especial que mesmo na ausência estava presente. Inúmeras vezes ele não pôde comparecer a algum evento. Contudo, nós, seus amigos de todas as horas, nos divertíamos contando ou recontando muitos de seus casos, quase sempre hilariantes. Mas havia a certeza de que horas depois ele também estaria gargalhando conosco. Hoje essa certeza acabou.
Seus chistes, suas tiradas, suas brincadeiras e seu jeitão estabanado, seus indefectíveis

suspensórios e, infelizmente, suas constantes baforadas de cigarro eram suas características mais comentadas. No entanto, ele era bem mais que esses meros detalhes. Era um ser humano capaz de sofrer com o sofrimento dos amigos e incapaz de dividir as próprias dores, para não preocupar quem estivesse a seu lado.


Moscoso era um homem gentil vestido com uma invisível capa de sisudez que só enganava quem não tinha coragem de se aproximar para aproveitar o bom-humor que emanava de suas incontáveis histórias.


E tais histórias agora serão recontadas por nós que ainda estamos atuando em nossas peças individuais. E elas irão ecoar ainda por muitos e muitos anos em nossas conversas, em nossas lembranças.


Nesta última cena, quando o som cavo da terra ecoa na lápide e quando o silêncio só é quebrado pelos soluços de saudade, não há risos nem palmas, há sim, saudade, muitas saudades, infinitas saudades!

quarta-feira, 18 de março de 2009

PEQUENA CRÔNICA


AULA...
José Neres


A todos os meus colegas professores e
aos dois ou três seres estranhos que teimam em aprender
.




A aula começa. Toca um celular. Uma revista da Avon passa de mão em mão. As conversas são postas em dia. Um rapazinho conecta o fone de ouvido a seu mp4 e relaxa ao som de sua música preferida. Tudo é tão importante! Tudo é tão mais importante que o assunto da aula!... Tudo é tão mais importante que o conhecimento!... Diante da turma apática para o saber, o professor, num monólogo sem interlocutores derrama seu tão suado conhecimento para dois ou três seres estranhos que teimam em aprender.

Já foi feita a chamada? Olhos seguem atentamente os ponteiros do relógio. Uma mensagem é enviada para o namorado. Vou sair mais cedo. Vem me buscar. Te amo. Para prazer do mestre, as duas ou três figuras estranhas fazem algumas perguntas pertinentes ao assunto. Algumas questões são bem inteligentes, outras nem tanto, mas pelo menos servem para tirar do ar aquele ranço de monólogo.

O ônibus vai passar... A chamada ainda não foi feita... Acho que minha namorada já está lá embaixo me esperando... O pobre professor, com o olhar perdido, busca o brilho do entendimento nos olhos dos alunos, mas só encontra o opaco cinza da indiferença. Olha para o relógio e vê que o tempo passou. Olha para a turma e sente que seu tempo passou. Olha para o mundo e vê que os tempos mudaram...

Fim de horário. Metade da turma já está longe. A outra metade se prepara para não utilizar aquilo que não quis aprender. Todos nadam contra a correnteza do saber, buscando como tábua de salvação um diploma inflado com a certeza do nada ser.

Amanhã teremos outra aula...

domingo, 15 de março de 2009

UMA ENTREVISTA

Poucos minutos atrás, eu estava apagando alguns arquivos antigos do computador, quando encontrei uma entrevista cujas perguntas me foram enviadas por e-mail por alunos de uma das muitas escolas de nossa Capital. Os alunos, educadamente, pediram-me que respondesse às questões, de preferência no mesmo dia, mas não disseram qual a escola em que estudavam. Também apenas se identificaram com o primeiro nome. Ao abrir a caixa de mansagem, às 22:00 horas, deparei-me com as perguntas e, como era caso de "extrema urgência", respondi na mesma hora. Nunca mais entraram em contato para comunicar qual foi o resultado da atividade, mas pelo menos enviaram um outro e-mail agradecendo.


Como disse no início, eu ia apagar a esntrevista da memória do computador... Mas resolvi postá-la aqui para eum tiver paciência para lê-la.




1-Você nasceu em qual cidade?

Nasci na cidade de São José de Ribamar, no dia 17 de fevereiro de 1970. Com alguns dias de vida, fui levado para Brasília e, depois, para Goiás, onde praticamente fui criado, na cidade de Luziânia, bem próxima a Brasília.

2-Quando você se descobriu poeta?

Para ser sincero, eu nunca me descobri Poeta, nem mesmo me considero poeta, mas sim apenas alguém que vez ou outra tenta fazer alguns versinhos. Mas tenho uma excelente relação com a poesia, ela me ajuda a entender o mundo, ou pelo menos tentar.

3-Você tem livros lançados? Quais são?

Tenho oito livros publicados. O nono sairá no dia 10 de outubro na II Feira do Livro de São Luís. Os títulos são (1) “Negra Rosa & Outros Poemas”, que é o primeiro e que tem duas edições esgotadas; (2) “A Mulher de Potifar”, reunião de duas peças teatrais de minha autoria; (3) “Versos de Desamor”, um pequeno livro que trazem poemas sobre desilusões; (4) “Estratégias para Matar um Leitor em Formação”, livro de caráter mais pedagógico que discute o papel da escola na formação de leitores; (5) “Restos de Vidas Perdidas”, um conjunto de contos que mostram a crua realidade das pessoas; (6) “50 Pequenas Traições”, contos bem cursos sobre adultérios em todos os sentidos. Além desses seis individuais, há mais dois me parceria com o escritor e amigo Dino Cavalcante, a saber: (7) Os Epigramas de Artur, um estudo sobre a poesia de Artur Azevedo; e “O Discurso e as Idéias”, coletânea de estudos sobre literatura e linguagem em geral.
Participo também de umas nove antologias fora do estado, escrevi aproximadamente uns 100 (cem) artigos para jornais e revistas
O nono livro a ser lançado se chama “Montello: o Benjamim da Academia”, um estudo sobre os bastidores da eleição de Josué Montello para a Academia Brasileira de Letras, em 1954.

4-Você já participou de festival de poesia. Se sim, obteve êxito ?

Nos moldes desses que temos no Maranhão, o Poemará, nunca participei, por ser tímido e por não concordar com o tipo de proposta que é apresentada. Mas já participei de Concurso e fui premiado no Rio de Janeiro (editora Litteris), no Rio Grande do Sul (Instituto da Poesia Internacional), Aqui no Maranhão (Prêmio Odylo Costa Filho, de contos) e novamente no Rio de Janeiro (Academia Brasileira de Letras)



5-Você se classifica um poeta contemporâneo(em sua forma de escrever)

Como disse antes, não me considero poeta. Mas quando escrevo poemas não sigo muito as normas da contemporaneidade. Ainda gosto dos versos metrificados, dos sonetos, dos Hai-cais e das estruturas mais tradicionais. Porém, quando escrevo contos, sigo a linha contemporânea, seguindo o estilo de Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Marcelo Rubem Paiva.



6-Qual o poeta maranhense o inspirou?

Gosto de ler todos os poetas, não só os maranhenses. Mas não tenho como negar a importância da obra de Ferreira Gullar em minha formação intelectual. Li tudo o que ele escreveu. Outros nomes a quem sempre recorro são José Chagas (paraibano que adotou o Maranhão), Bandeira Tribuzi e Nauro Machado.



7- A escola de poetas maranhenses esta com uma (safra) boa?

O Maranhão, atualmente, não tem uma “escola de poetas”, mas a safra de novos escritores é boa. Temos sempre novos nomes surgindo e alguns sobreviverão pelo talento nato e pelas releituras que fazem das obras de diversos escritores. Bons exemplos disso são Rosemary Rego, Antônio Ailton, Ricardo Leão, Bioque Mesito e outros...

8-São Luis ainda é a “Atenas brasileira”?

Não. Isso é coisa de um passado nostálgico e nem teria mais sentido hoje. O mundo e diferente, bastante globalizado, sem espaço para essa denominação.

quinta-feira, 5 de março de 2009

MULHER MODERNA DESEJA



Minha homenagem a todas as mulheres




MULHER MODERNA DESEJA...


José Neres


Neste mês de março, quando se comemora uma data especialmente dedicada à Mulher – talvez uma forma de esconder os séculos e mais séculos de opressão, de desrespeito e de preconceito para com o sexo feminino – ela, a Mulher, sem deixar de cuidar da família, sem descuidar da aparência nem do intelecto, e sem abdicar de sua sensibilidade e de sua atenção aos mínimos detalhes do mundo que a circunda, pode finalmente expor seus anseios e desejos.
Desse modo, a mulher moderna deseja:
1. Um companheiro de mãos firmes e fortes, que faça uso de sua força não para torturas e espancamentos, mas sim para ajudar nas tarefas do lar e, nos momentos mais íntimos, transformar a força em suaves carícias.

2. Pernas fortes e delineadas, não para mera satisfação visual dos homens, mas como forma de sustentar-se nas longas jornadas de mãe, esposa e profissional, que muitas vezes exigem horas e mais horas de árduo trabalho, de luta incessante por um futuro melhor.
3. Uma educação de qualidade, que sirva como passaporte para a independência intelectual, profissional e financeira, para não precisar depender do dinheiro do companheiro que, em muitos casos, só aparece à custa de muita humilhação.

4. Amigos e amigas sinceros que saibam ouvir queixas, consolar em momentos de tristeza, oferecer o ombro e enxugar lágrimas, mas que também saibam sorrir, dar uma amistosa bronca quando necessário e dizer verdades que só podem ser ditas a quem se ama.
5. Sucesso profissional, não como boba competição com os homens, mas como afirmação de que competência não distingue raça, credo, idade, nem sexo.

6. Felicidade. Mas não a felicidade egoísta que visa apenas ao bem próprio, mas que fica alheia ao bem comum. A Mulher moderna sabe que a felicidade não é totalmente aproveitada se o que impera é a certeza de que todos a seu redor sofrem.

7. Harmonia familiar, pois os problemas familiares são grandes entraves na busca de uma vida tranquila e feliz. Nenhuma mulher se sentirá totalmente feliz sabendo que seus entres queridos sofrem ou que não estão bem.
8. Fim da violência em todos os níveis. Há a consciência de que as guerras, os conflitos urbanos e as inúmeras torturas domésticas são cânceres sociais que corroem a vida de todos e só trazem dores e sofrimentos a todos, homens e mulheres, indistintamente.

9. Um futuro melhor e mais digno. Todos sabem que os momentos são efêmeros e que a alegria de hoje pode ser a lágrima de amanhã, por isso a Mulher consciente de sua condição de cidadã do mundo pensa também no uso responsável do meio ambiente, na preservação dos espaços comuns e planeja um mundo cada vez melhor. Hoje somos nós que ocupamos este espaço, amanhã ele será de nossos filhos. E todos querem o melhor para sua prole, hoje e sempre.

Mas, acima de tudo, nessa nova era, a Mulher moderna não só deseja, como também exige de toda a sociedade algo primordial: respeito. Respeito em todos os sentidos e de todos os modos, pois, sem o mínimo de respeito não vale a pena sacrificar-se tanto pelo bem de toda a humanidade.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

ARTIGO





Este artigo foi publicado há alguns meses no Jornal O Estado do Maranhão e fala sobre nossa falta de leitura. Esperemos que esse quadro melhore o mais rápido possível. (clique no artigo para ampliá-lo)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

UM ADEUS A NASCIMENTO MORAIS FILHO

NASCIMENTO MORAIS FILHO



A Natércia, amiga estimada que sei que sofre por este momento.






Enquanto escrevo estas poucas linhas, é sepultado no cemitério do Gavião o corpo do poeta, pesquisador e ativista ambiental Nascimento Moraes Filho. Falecido na manhã de ontem (21/02), aos 86 anos, o escritor deixa em seus leitores a sensação de vazio, mas de certeza de que ele fez o melhor que pôde na defesa da cultura maranhense, do meio-ambiente, da poesia e dos valores éticos.

Além de grande poeta, um dos melhores de sua geração, Nascimento Morais Filho também deixou sua marca na historiografia literária maranhense ao redescobrir o talento de Maria Firmina dos Reis. Graças a ele e a seus esforços, hoje o Maranhão pode ler a obra da matriarca de nossas letras. Mas este não é o único débito que o Maranhense tem com esse brilhante escritor e pesquisador.

Defensor incansável dos valores de sua terra, o pesquisador também se debruçou sobre as trovas maranhenses esparsas em jornais do século XIX. Estudou também nomes como Frutuoso Ferreira, Estevão Rafael de Carvalho e Ladislau Henrique Maciel da Silva Aranha.

Dono de um estilo poético voltado para o social e para a defesa dos oprimidos, Nascimento Morais Filho era o típico escritor que não se calava diante das injustiças sociais e que encontrava nos versos as armas necessárias para mostrar que algo pode ser feito pelo bem da população, como pode ser visto no fragmento que ilustra o final desta postagem.

Nascimento Morais Filho é um daqueles nomes que só fizeram bem às letras e à evolução da pesquisa no Maranhão. Esperemos que seu nome não fique esquecido das gerações futuras e que suas obras possam ser lidas por jovens e adultos em futuras edições, um modo de preservar a memória desse homem que tanto lutou para que nossa terra tivesse sua própria memória.


ALGUMAS OBRAS DE NASCIMENTO MORAIS FILHO

Clamor da Hora Presente (poesia)
Azulejos (poesia)
Esfinge do Azul (poesia)
Pé-de-Conversa (pesquisa)
Cancioneiro Geral do Maranhão (pesquisa)
Esperando a Missa do Galo (pesquisa + coletânea)
Maria Firmina dos Reis – Fragmentos de uma vida (pesquisa)
Úrsula (edição fac-similar do romance de Maria Firmina dos Reis)
Cantos à Beira Mar (edição fac-similar do livros de Maria Firmina dos Reis
)


FRAGMENTO DE CLAMOR DA HORA PRESENTE

Ai de vós, Industriais da Miséria e da Injustiça!
Ai de vós
que desperdiçais em vossa lauta mesa
a comida que roubais da boca dos meus irmãos!
Ai de vós
que transformais em vinho de vossa adega
o sangue que sugais dos meus irmãos!

Ai de vós
que transformais em sons de “long play”
os soluções e os ais de meus irmãos!
Ò vós
que céus enegreceis de tantos crimes,
levantai-vos de vossa prostração!
- É outra vossa crença! É outro vosso culto!
- As vossas oblações ofendem a Deus,
Ó vós
que celebrais a Missa Negra da Miséria
e da Injustiça

FONTE: Clamor da Hora Presente – Edição Internacional, São Luís, 1992. pág. 31)


sábado, 21 de fevereiro de 2009

OS CONTOS CRUÉIS DE BRUNO TOMÉ FONSECA


Acabo de reler (sim, de reler mesmo, pois esse trabalho merece ser lido e relido) os originais de CONTOS CRUÉIS, livro de estreia de Bruno Tomé Fonseca. Não sei quando será lançado o livro, mas espero que seja em breve, pois as letras maranhenses carecem de prosadores de talento que engrossem nossas fileiras literárias.

São apenas sete contos, a maioria com narração em primeira pessoa, mas que trazem em comum personagens angustiadas e que buscam desesperadamente encontrar um motivo para continuar a própria existência. Ironicamente, o autor coloca no mesmo patamar de tédio e de angústia, um escritor de best sellers, uma lésbica abandonada pela parceira, um advogado em crise existencial, um músico cheio de frustrações e duas bactérias que mantém um diálogo ao mesmo tempo filosófico a respeito da própria existência e da possibilidade de haver vida além do “túnel úmido”.

O desejo de conhecer o mundo e ao mesmo tempo de (re)conhecer-se como parte integrante das sempre contraditórias insanidades do mundo; a certeza de alcançar seus objetivos plenamente e a busca desesperada por algo que possa encher o vazio do viver são as marcas essenciais dos CONTOS CRUÉIS de Bruno Tomé Fonseca. Os leitores mais acostumados com as narrativas contemporâneas não deixarão de identificar nos contos algumas pinceladas de leituras de Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Dalton Trevisan... e voltando um pouco mais no tempo, de Franz Kafka, Charles Bukowski e Roberto Arlt, mas sem tentativa de imitação, mas apenas de inspiração técnica e temática.

Esperemos que o livro seja editado e chegue às mãos de quem aprecia a literatura contemporânea. Alguns contos podem chocar leitores mais sensíveis, mas isso é bom, pois, às vezes é preciso lembrar ao mundo que além das rosas e dos jardins há também o esterco, os porcos e as bactérias.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

UMA RESENHA DE FLAVIANO



Flaviano e Mariane estão lutando para divulgar as letras maranhenses. No blog www.maranharte.blogspot.com, eles vão tecendo palavras e cumprindo com um papel que seria de todos os que gostam do Maranhão, mas que, infelizmente, poucos levam a sério.

No espaço abaixo, reproduzo uma resenha de Flaviano a respeito de meu mais recente livro, Montello: O Benjamim da Academia. Agradeço a ele e, mesmo sem permissão transcrevo aqui o trabalho







RESENHA

Flaviano Menezes
Graduando do curso de Filosofia (UFMA)

O livro Montello: O Benjamim da Academia, de José Neres (professor de Literatura da UFMA e autor de Os epigramas de Artur, em parceria com o professor Dino Cavalcante, de 2000; Estratégias para matar um leitor em formação (2005); 50 pequenas traições (2007), dentre outros) é a princípio dirigido ao público que gosta de literatura e principalmente deseja saber como um escritor consegue a “imortalidade” da Academia Brasileira de Letras. Nesse caso, seguiremos os últimos passos percorridos pelo maranhense Josué Montello até ingressar na tão almejada Casa de Machado de Assis.


José Neres não se apresenta como um pesquisador que se preocupa em parecer “sofisticado”, procurando sempre um termo pomposo para aparentar ser mais acadêmico, algo que acontece em demasia em nossas atuais, eruditas e entediantes obras bibliográficas. A análise sobre como o autor de Os tambores de São Luis conseguiu em 1954 a cadeira que outrora pertenceu ao também maranhense Artur Azevedo é menos acadêmica do que outras obras desse gênero e talvez por isso torna-se uma vantagem lê-la, isso porque, a finalidade da obra parte exatamente da preocupação de um pesquisador em apresentar os fatos, sendo ele próprio um observador, com notas necessários, mas sem aqueles dispensáveis comentários tendenciosos.

Josué Montello nasceu em São Luís, em 21 de agosto de 1917. Estudou na escola Modelo Benedito Leite, onde fez o curso primário, e posteriormente no Liceu Maranhense. Ainda no Liceu dirigiu A Mocidade, onde publicou seus primeiros trabalhos literários. Ingressa na Sociedade Literária Cenáculo Graça Aranha e começa a colaborar nos principais jornais da cidade (Folha do Povo e O Imparcial). Ao mudar-se para Belém do Pará, consegui publicar seu livro de estréia e aos dezoito anos torna-se membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Muda-se novamente, agora para o Rio de Janeiro, em 1938 e integra o grupo de intelectuais “Dom Casmurro”, colaborando com esse periódico e outros jornais da capital. Em 1939, aos vinte dois anos de idade estava na Academia Brasileira de Letras lendo seu artigo “A índole da língua e a frase de Machado de Assis” e iniciando uma aspiração que só conseguia concretizar quinze anos mais tarde: a de ser um imortal das letras brasileiras.


O livro de José Neres começa esclarecendo porque Montello já se mostrava um acadêmico antes mesmo de adentrar com o fardão naquele templo das letras e como era querido pelos outros escritores e até pelos críticos literários, como o discordante Agrippino Grieco, que, em nota sobre a eleição de Montello para a Academia declarou essa pérola; “Isto não é novidade, o Montello é acadêmico desde a escola primária.


A política interna da Academia, as expectativas, a candidatura, as cartas de pedido de voto, o auxílio indispensável de Viriato Corrêa, a votação e a vitória de Montello para a cadeira de número vinte e nove são alguns dos assuntos desvendados por Neres nesse necessário e instigante trabalho de pesquisa, trabalho este que se utiliza também de cartas, notas de jornais e fotos do momento mais glorioso que um escritor pode almejar. Em suma: um livro muito bem escrito, em linguagem acessível e que, sem grandiloquências, dá uma lição de como apresentar um grande escritor para uma nova geração de leitores (e pesquisadores) que está se formando no Maranhão.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

DOIS POEMAS




Hoje não tem comentários, apenas dois poemas para nosso domingo!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

UM POEMA PARA COMEÇAR O DIA


Para começar esta quinta-feira, coloco um pequeno poema. A cada dia me dedico menos aos versos, pelo menos como autor, mas mergulho intensamente neles na condição de leitor sempre apaixonado por todos os tipos de arte.



SILÊNCIO
José Neres


O silêncio é a arma
dos sábios e dos loucos.
O silêncio ilumina muitos,
mas guia bem poucos.

O silêncio é o grito
eterno da Morte
que grita ao vento
o destino e a sorte.

O silêncio é meu olhar
de moribundo eterno.
O silêncio é o crepitar
deste meu inferno.

O silêncio é a comunhão
de dois amantes
que se encontram, mas
não se entendem como antes
.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

COMO VAI NOSSA CIDADE?


Este texto foi escrito há alguns anos, quando se aproximava um dos aniversários de São Luís. Não tive a oportunidade de publicá-lo em jornais (acho que não interessaria a nenhum deles). Encontrei-o em um arquivo e agora decido postá-lo aqui no espaço democrático do blog. Desejo uma boa leitura leitura a quem se aventurar a lê-lo!





LAMENTOS DE UMA DAMA ABANDONADA
José Neres




Hoje, aproximando-se as comemorações de mais um aniversário, eu, bem longe das badalações, volto minha enrugada face rumo ao passado e contemplo, com os olhos cheios de lágrimas, a magnitude de minha história em contraste com a miséria de meu presente.

Muito rica fui. Usei as mais belas vestes vindas da Europa. Conheci centenas de homens ilustres, quase todos se renderam aos meus encantos, e alguns, mais talentosos, encheram páginas e mais páginas de versos em minha homenagem. Várias mulheres suspiravam ao me conhecer e não foram poucas as que, sorrindo ou em prantos, declaravam-se apaixonadas por mim. Eu, vaidosa, aceitei as oferendas de todos, sem distinção de sexo. Nunca parava para analisar com quem estava flertando, de quem se tratava ou quais eram seus outros interesses. Amei a todos com a mesma intensidade com pensei que era amada.

Em minhas inúmeras casas, cujas paredes foram erguidas à base de cal, pedra óleo de baleia, muitas lágrimas e muito suor de escravos, inúmeras mortes foram tramadas, centenas de golpes foram planejados e muitos inocentes foram aprisionados, sem direito a voz ou defesa e, muitas vezes, sem direito a um último banho de sol ou um último pedido.

Confesso que para muitos fui mãe, irmã, esposa e ardorosa amante, mas que para outros fui apenas um cruel e frio carrasco. Só agora, com a sabedoria adquirida com o sofrimento, vejo que muitos daqueles a quem maltratei também me amavam, porém de outro modo. Eles tentavam corrigir meus defeitos e curar-me de meus tantos vícios. Fui cega e vi em cada crítica um inimigo a ser eliminado. Ah! Quantos inocentes maltratei e quantos bandidos protegi!

Acreditei, durante muito tempo, que todas as riquezas e toda a fama que acumulei na minha áurea juventude eram infinitas. Pensei que meus belos casarões fossem indestrutíveis e que minha beleza fosse eterna. Mas o implacável tempo se encarregou de apagar até mesmo os retratos que outrora alguns aventureiros fizeram de mim. Vi, aos poucos, as linhas e os traços de minhas telas, sem conservação adequada, perderem as cores, o brilho e a nitidez. Só então percebi que envelhecia, envelhecia, envelhecia...

Minha fortuna está acabando e brevemente chegará o dia em que viverei tão somente do dinheiro ofertado pelos estrangeiros que me visitam e de subvenções governamentais. Meus casarões estão ruindo, minhas vestes estão cobertas de remendos, minhas fontes de vida rapidamente se esgotam e as belas maquiagens que sempre fazem em mim para posar ao lado dos turistas não resistem às altas definições das modernas câmaras digitais que, a cada flash, teimam em ressaltar as profundas marcas de minhas rugas, de minha solidão e de meu abandono.

E à noite, perdida entre o som dos tambores, o bronze dos sinos que dobram, as velhas litanias, o silêncio dos canhões abandonados e o eterno tecer das teias do tempo, com os olhos cheios d’água, faço minha ultima prece: Oh, autoridades, deixem-me viver, pois ainda não vivi toda a minha poesia!!!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

FONTES ESQUECIDAS

Infelizmente, publicar um livro é uma tarefa árdua e quase senpre desgastante. Há quem o faça para realizar um sonho, mas com a consciência de que dela talvez nunca sera dito uma palavra de modo mais crítico.

Acredito que o papel de quem tem a oportunidade de trabalhar com a literatura não é tão somente a de falar sobre as obras e os autores canonizado. Particularmente, gosto de escrever sobre livros que ficaram sem ressonância na memória literária. Hoje falarei sobre Fontes de Inspiração, livro de A. T. Fróes, e que me foi gentilmente ofertado por Laura Fróes, uma querida aluna por quem tenho grande carinho, e filha do autor. Espero, com esse modesto artigo, cumprir com meu papel de educador e de divulgador das letras de minha província.


FONTES ESQUECIDAS
José Neres
(Professor de Literatura)



Estamos numa época em que as tentativas de inovações no âmbito da prosa e da poesia parecem suplantar o trabalho de quem se contenta em usar as formas mais tradicionais de pôr a inspiração no papel.


Desse modo, os escritores que optam por uma literatura aparentemente menos ousada acabam, em muitos casos, condenados às trevas do ostracismo e ao limbo do silêncio. Seus livros, frutos de hercúleos esforços que vão da concepção dos textos à editoração gráfica, mesmo publicados, permanecem inéditos aos olhos do público. Não raras vezes, lançamento serve de rima para lamento, sofrimento, arrependimento e, principalmente, esquecimento.


Publicado sem muito barulho em 1998, o livro “Fontes de Inspiração”, do maranhense Antônio Torres Fróes, é uma obra que traz em cada página, em cada poema, em cada verso, o esforço do poeta de tirar da alma e da memória os lugares e os momentos que marcaram sua vida e que ficaram eternizados em sua memória.


Em uma primeira leitura, o livro pode parecer um álbum de reminiscências, um exercício de resgate das inúmeras impressões que passeiam pelas retinas do autor e que encontram no papel uma forma de eternizar-se. Porém, em um olhar mais atento, pode-se ver também que, no conjunto, o livro é uma grande declaração de amor à vida, à natureza, à terra natal e aos lugares que nunca serão esquecidos.


Em versos simples e bem ritmados, privilegiando quadras e sonetos, Antônio Torres Fróes passeia pela própria memória e dela tira a fonte primária para sua inspiração de homem encantado com a vida, mas insatisfeito com algumas situações sociais que poderiam ser corrigidas. Em verdade, as forças motrizes que do livro são as seguintes: um passado que só pode ser recuperado pela memória, um olhar para os lugares visitados e os diversos painéis de um cotidiano que mistura lirismo e saudade.


A. T. Fróes, como está grafado na capa do livro, deseja pura e simplesmente dar vazão a seus próprios sentimentos, despertando no leitor a empatia para com as situações apresentadas. Em alguns poemas é possível notar o descontentamento do eu-lírico com o quadro social do país e do mundo. Em outros momentos, há o sobressair de emoções que não podem ser contidas pelo uso da razão e que encontram na poesia o escoadouro necessário.


Em suma, Fontes de Inspiração pode até não ser um livro de caráter inovador na forma, no estilo nem na temática, mas, sem dúvida é uma obra que pode levar o leitor alguns pontos do elo perdido da própria existência.