quarta-feira, 28 de julho de 2010

CONTOS EM DUAS LETRAS

 Na falta do que fazer, surgem algumas brincadeiras com a linguagem, como, por exemplo, os dois continhos que seguem. Espero que gostem...
 

VIRGEM VIOLENTADA
 José Neres

Fonte imagem: http://surtocoletivo.files.wordpress.com/2009/08/abuso_sexual1.jpg?w=250&h=383
          
  - Vô Valdemar, Vitório violentou Virgínia!
            - Viche! Verdade, Valberto ?
            - Verdade verdadeira, vovô! Vicente viu.
            - Vamos ver. Vizinhança vem vindo. Vamos, Valberto.
            - Vamos, vovô!...

---------------x-------------------

            Várias vezes, Vovô Valdemar vira Virgínia varrendo varanda. Vestidinho vermelho, velhinho... Vendendo vitalidade. Virgínia valorizava virgindade, vivia vangloriando-se: “Vivo virgem, valorizo-me.”
            Verdadeiro voyeur, Vitório vigiava Virgínia. Violentava-a visualmente. “Vou ver Virgínia varrendo. Voltarei.”
            Vicente, vagabundo velhaco, vaticinou: “Vai violentá-la. Vou ver, vou ver...” Vicente viu.
            Vestidinho vermelho, Virgínia varria varanda. Vitório vinha vindo. Virgínia virou-se, viu Vitório violentamente vencê-la, virá-la, violentar-lhe ventre virgem, verter vertiginoso vômito viril.
            Vicente viu Virgínia vestir velhíssimo vestido vermelho. Virgínia Voltou. Vicente viu vidro. Viu veneno. Viu Virgínia, vermelha, vomitar verde vômito. Vicente viu vida vazia.



COLEGAS
José Neres

Célio Costa conheceu Cristiane Castro comprando calcinhas. Começaram conversando, combinaram comer camaroada. Comeram. Conversaram. Conquistaram-se. Começaram comprar coisas: copos, colheres, colchas, cobertores, cama...
Casa comprada, casaram-se.
Célio Costa começou comparar Cristiane Castro com Carlinha, colega conversadeira, comprometida com Carlos Custódio, cognominado Carlão, conhecido comerciante carioca. Carlão comercializava cocaína, crak, canabis...
Carlão começou com ciúmes.
Célio comentou com Carlinha. Carla contrapôs:
- Como ciúmes? Carlão confiava cegamente.
Contudo Carlão considerando-se corno, convocou curriola, combinou castrar Célio, caso confirmasse corneação.
Começou caçada.
Célio Costa conversava com colegas, comia codorna. Comemorava campeonato com cerveja, cachaça, conhaque. Chegou Carlão com canalhada. Carlinha conversava com Célio.
Correria.
Célio cai. Carlão com cutelo corta-lhe calça. Célio chora. Com calma, Carlos Custódio corta-lhe caroços.
Chega Cristiane. Corajosa, corre contra Carlão. Chora. Curva-se, chora:
- Covarde, covarde, castrou Célio, covarde!
Carlão corre.
Célio, castrado, chorava.

domingo, 25 de julho de 2010

MUNDO MODERNO

fonte da imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUnugzcLzwEm9VybH46yfgvjbNqVbiLrKQV17Wr2T6GXio2ybT8tOCTNSWtZqAbkmG4luNmsDxiEKrUZ54QWPQMeA2bH2P1xtbExQSoQENw4xC-OBqGF0b5iiSaPLnm9URFae17WaKuEQ/s1600/ideias.bmp


UMA TELA, UM TECLADO E A SOLIDÃO

José Neres


            O educador português Roberto Carneiro defende a ideia de que vivemos hoje o momento da morte do tempo e da distância. O sociólogo espanhol Manuel Castells lembra em seus trabalhos que estamos em uma sociedade em rede, com a internet tornando-se a cada dia mais importante na vida de todos. O pensador polonês Zygmunt Bauman alerta sobre a liquidez das relações na sociedade contemporânea. O que parece apenas um amontoado de teorias, sai do âmbito acadêmico e invade a cada dia nossa realidade e se torna evidente em todos os lares.
            Uma tevê enorme ocupa o lugar de destaque em nossa sala. As pessoas, mudas entre si, convergem o olhar rumo à tela iluminada. O silêncio de palavras parece não incomodar tanto as pessoas que, quando ligam o aparelho televisivo, parecem desligar automaticamente o senso crítico e convertem um entretenimento, que deveria ser momentâneo, em razão principal da vida.
            Em seu quarto, isolado da família e do mundo, um adolescente se diverte com as inúmeras possibilidades do videogame. A cada temporada, uma nova versão do jogo faz acender o desejo de atualizar um acervo que nunca satisfaz ao seu proprietário. Perdido no meio de milhões de cores e de imagens altamente elaboradas, o jovem não vê a vida passar, não percebe que não é apenas lá fora que o tempo está passando.
            Em outro cômodo da casa, um garoto, uma garota, um adulto ou mesmo uma pessoa que beira ou já frequenta chamada terceira idade, mantém uma animada conversa online com seus amigos virtuais. Às vezes, na solidão de um quarto, a pessoa conversa com alguém que esteve a seu lado o dia inteiro, mas não recebeu nem mesmo um simples bom dia. As amizades virtuais ganham a cada dia uma importância maior que o sorriso franco, um abraço fraterno ou um aperto de mão. A intermediação de um computador conectado à grande rede tem o poder de transformar pessoas frágeis em verdadeiras máquinas de conquista, de diálogos cifrados, nem sempre inteligíveis.
            Com a popularização dos computadores portáteis (netebooks e notebooks), os trabalhos inacabados, que antes ficavam no escritório, agora são levados a tiracolo para casa e chegam mesmo a dividir espaço com pratos, copos e talheres na mesa de jantar da família. As conversas do dia são substituídas pela mudez de quem se divide entre os alimentos e as tarefas que devem ser concluídas antes de outro turno de trabalho começar oficialmente. Tudo isso sem se dar conta de que hoje as jornadas laborais não têm mais começo nem fim, apenas um todo contínuo que se mistura com a própria noção do viver.
Imagem retirada da internet 

            No império do LCD, até as imagens fotográficas, que antes serviam para recordar os bons momentos da vida, agora têm como função principal alimentar as páginas de relacionamento. Mas não se trata apenas de uma substituição de suporte – do papel para o computador – e sim de uma narcisística mudança de atitude, em que a vida tem de ser exposta não apenas com o fim de mostrar por onde o dono do perfil passou, ou o que fez, mas sim para despertar o desejo ou a inveja em outros que não tiveram as mesmas oportunidades, que, por sua vez, respondem postando fotos que mostram que também estiveram onde o outro não pôde estar, e assim uma silenciosa batalha de imagens de desenrola no universo virtual.
            Nas páginas de relacionamento, o número de amigos virtuais torna-se um termômetro de uma popularidade que às vezes não tem correspondência no mundo real. Os mil e tantos “amigos” conquistados por uma simples mensagem pedindo para ser adicionado nem sempre estão disponíveis para ouvir (ou ler) as queixas e as dores de alguém trancando em um quarto e que nem sempre tem coragem de abrir a porta e conversar de verdade sobre seus anseios com as pessoas próximas.
            No mundo contemporâneo, no qual a instantaneidade se tornou o foco das relações, o homem conseguiu diminuir os espaços, modificou a noção de tempo e se conectou ao mundo por meio de aparelhos portáteis (de preferência sem fios), mas também entrou no paradoxo de sentir-se sozinho no meio de uma multidão de outros solitários sentados diante de uma tela.
E-mail: joseneres@globo.com


terça-feira, 20 de julho de 2010

ARTIGO DE HAGAMENOM DE JESUS

É tão raro encontrar quem faça crítica literária em nossa terrinha, que não posso me furtar a reproduzir aqui o texto do poeta e ensaísta Hagamenom de Jesus sobre um de meus livros. O artigo saiu em um jornal de nossa capital, infelizmentente não tenho a referência exata. Assim que souber acrescentarei, para respeitar o trabalho do jornal. Boa leitura a todos e nosso muito obrigado ao autor do texto.




50 PEQUENAS TRAIÇÕES: SURGE UMA PROMESSA
NO ÂMBITO DA NARRATIVA CURTA

Hagamenom de Jesus
Poeta Maranhense

Qualquer pessoa que goste de literatura fica feliz quando imagina que um autor começa a se encontrar nos objetivos que buscava, quando principia a achar a sua melhor forma de expressão, as características que lhe são próprias e o gênero em que se ache mais à vontade. Acredito que com o livro 50 Pequenas Traições José Neres conseguiu isto.
Autor que publica com constância desde a sua estréia com Negra Rosa e outros Poemas (1999), José Neres tem livros em diversos gêneros literários, tais como poesia, ensaios, teatro e, desde 2006, contos. E os livros de ficção deste autor, até o lançamento de 50 Pequenas Traições, sempre me satisfizeram, mas apenas em parte. É que com este livro, a meu ver, o autor achou o melhor de si: humor, lirismo e uma bem sutil pitada de drama e erotismo. O livro, escrito no melhor estilo da despretensão (mas sem ser descuidado), trata do imemorial tema do adultério, das fabulosas, e “sempre edificantes”, estórias de corno.
Tema recorrente na literatura de todos os tempos, como bem destaca José Neres no início do livro, o autor, no entanto, situa todas as suas estórias muito bem ambientadas no momento atual. Ele consegue pôr em cena, de maneira simples, sem chatice, aquelas pequenas situações e dramas que sempre colocam na sua cabeça. É o marido, cotidianamente esfalfado pela imensa carga de trabalho, que não percebe como os óleos aromáticos colocados pela sua mulher vão se transportando para o corpo do vizinho. É a mulher, preocupada, querendo descobrir porque o marido voltou a sorrir e não reclama mais dos seus descuidos para com ele. É o cara moderno que queria a transa a três e notou que várias vezes, por descuido, o garoto de programa acabou chamando a esposa pelo seu nome verdadeiro – ainda que ela exigisse que fosse totalmente desconhecido (melhor é fingir que não se percebeu). São as pequenas vinganças, como a da jovem esposa, preterida cinicamente em função de uma amiga, que recebeu o maior e melhor pedaço de bolo no aniversário do seu marido. E o jeito foi dar, no dia de sua festa, para outrem, não só um pedaço de bolo... É o marido que tinha a mulher que todo homem sonhava, pois podia fazer tudo que quisesse, porque ela respeitava os seus prazeres, e, afinal, por que não dar umas voltinhas pelo bairro, quando a encontrou com o vizinho, e respeitar os prazeres dela?
Mas o primordial é que José Neres utilizou bem as referências que cita no início do livro e que reconhece como suas influências, caso, por exemplo, de Dalton Trevisan, um craque da narrativa curta. E é porque acredito que o autor se encontrou no contexto da narrativa curta que acho importante falar deste livro. Porque este é o livro do texto conciso, do padrão culto, mas coloquial, simples, da linguagem e, principalmente, um livro cujos maiores méritos estão em conseguir ser uma bem condensada crônica de costumes da atualidade, mesclando, sem intelectualismos enjoados e forçados, lirismo, bom humor e uma boa pitada de drama e sutil erotismo.
Claro que reprovo alguns textos, que não passam de piadas já batidas, e que, não fossem as próprias intenções despretensiosas do autor para com o livro, talvez não devessem estar nele. Claro que no âmbito da narrativa curta este ainda é um livro de aprendizado, que pode apontar para o autor um caminho a explorar e, para nós, leitores, a esperança de mais e melhor. Mas isto não compromete a qualidade do livro como um todo, do conjunto de contos. Este é um livro de muito bons textos, este é o livro do suave lirismo de “Óleos Aromáticos” e “Um Simples Botão”, do sutil erotismo e humor de “Feliz Aniversário”, “O Desconhecido” e “Deveres”, do realismo de “Escambo” e “O Banho”, mas, principalmente, este é o livro de “Atrás da Porta”, um conto sintético, de um simbolismo caricatural, quase um conto de fadas às avessas, um excelente conto que, na prática, fotografa o drama nosso contemporâneo de todos os dias, da solidão, da opressão, do descaso e do desamor. 50 Pequenas Traições, na sua despretensão e simplicidade, insidiosamente - como obrigatoriamente teria de ser - põe em foco suas indagações e vai conseguir aquilo a que todo livro deve aspirar: ser lido.










SEMPRE LITERATURA


NOSSOS EVENTOS LITERÁRIOS


José Neres


            Embora nem sempre recebam a divulgação adequada e merecida, no Maranhão há diversos eventos de cunho literário que movimentam o cenário cultural do Estado. A seguir, há uma relação de alguns deles e suas características básicas.
Festival Geia de Literatura – Na última semana de agosto, as pessoas interessadas no mundo das letras têm um encontro marcado com livros, palestras e diversos tipos de manifestações artísticas na cidade de São José de Ribamar. O Festival é uma iniciativa do Instituto Geia, capitaneado pelo seu presidente Jorge Murad, e tem como objetivo maior divulgar os valores culturais maranhenses para as novas gerações e para todos os interessados em literatura. Durante três dias, crianças e adultos convivem com o mágico mundo das letras e com um universo todo voltado para as palavras escritas.
Feira do Livro de São Luís – Quase no final do ano, a população ludovicense tem a oportunidade de visitar a Feira do Livro, que, em 2010, chega a sua quarta edição. Além de favorecer um contato direto com autores e obras de diversos gêneros, a Feira é também uma oportunidade de o grande público entrar em contato direto com escritores renomados como Ariano Suassuna, Afonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti, Moacyr Scliar e Antônio Carlos Secchin, só para citar alguns dos convidados das edições anteriores. Todos os anos, o evento homenageia um escritor que tenha contribuído para a solidificação das letras maranhenses no âmbito nacional. Depois de Josué Montello, Arthur Azevedo e Ferreira Gullar, na quarta edição, o patrono do evento será o jornalista e romancista José Louzeiro.
Café Literário – É um projeto da Secretaria de Estado da Cultura levado adiante pelos esforços da professora, escritora e acadêmica Ceres Costa Fernandes. A ideia central é reunir autores maranhenses que discutem sua obra ou outro assunto relacionado às letras. Na primeira edição houve a presença dos escritores José Ewerton Neto e José Neres, que explanaram a respeito de suas obras e sobre a importância da leitura. No segundo encontro, os escritores Lourival Serejo e Mundinha Araújo, que falaram sobre a obra de Aluísio Azevedo
Salimp – O Salão do Livro de Imperatriz é um evento que já está solidificado no calendário literário maranhense. Uma vez por ano, a cidade recebe milhares de pessoas em busca de livros, palestras e outras atividades literárias. Estudantes, professores, escritores e o público em geral têm a sua disposição milhares de obras e a oportunidade de encontrar-se com personalidades do mundo das letras que vêm de outros recantos do país para prestigiarem ou palestrarem na cidade maranhense.
Manhã Literária – A cada semestre uma universidade particular de São Luís promove um evento chamado Manhã Literária. Sob o comando da professora Marineis Merçon, os alunos de Direito e de outros cursos reúnem-se para discutir uma obra literária e seu autor. Para enriquecer a discussão, a instituição convida alguns especialistas na área de literatura, que participam de uma mesa-redonda sobre o livro em foco. Após as palestras, o público é brindado com duas encenações teatrais baseadas na obra lida, com a participação dos alunos envolvidos no projeto.
Encontros de Estudantes – Embora o objetivo maior dos encontros de estudantes de Letras não essa esse, eles servem também para promover a produção literária local. Durante os eventos, os organizadores sempre convidam alguns escritores, seja para lançamento de livros, seja para palestras ou mesmo discussão das obras dos autores convidados.
            Em cada uma dessas festas literárias, o público, a cidade e a própria literatura saem renovados, na certeza de que o mundo das letras é um universo mágico e sem fim.

sábado, 10 de julho de 2010

MÚSICA



Ouvindo Clayber Rocha


José Neres


Confesso o que é evidente. Sou um completo analfabeto no que diz respeito à prática musical. Não sei tocar um instrumento. Minha voz é desafinada e evito até mesmo bater palmas em aniversários de crianças com medo de que meu descompasso rítmico atrapalhe a evolução das palmas alheias. Mas ser analfabeto musical não é sinônimo de ter surdez melódica. Pelo contrário. Considero-me até bastante exigente com o que ouço. Não faço de meus pobres ouvidos um repositório de lixo mercadológico disfarçado de música.
            Assim, com a um analfabeto das letras não lhe pode ser negado o direito de opinar sobre a beleza de um poema, de uma narrativa ou mesmo de comentar sobre o enredo de uma peça teatral, reservo-me o direito de apreciar a magnífica  voz de um Emílio Santiago, o tom altissonante de uma Mercedes Sosa, a potência vocação de um Tim Maia, a magistral rouquidão de um Louis Armstrong, a simplicidade melódica de um Paulo Diniz, a energia de uma Alcione ou a sonora percussão de um Papete ou de um Hermeto Paschoal.
            Também não posso deixar de admirar a capacidade musical de Clayber Rocha, esse jovem músico que dedilha o violão com a alma e que tira das cordas todos os ritmos possíveis e imagináveis. Não se trata, porém, apenas de uma pessoa com técnica e inspiração, Clayber também possui a capacidade de reunir em um mesmo CD um repertório de primeira linha e de intenso bom gosto.
            Em sua nova obra, Clayber Rocha não se contenta em tocar e também solta a voz, cantando em francês, português, espanhol e inglês, o que ocorre apenas esporadicamente nos outros álbuns lançados anteriormente. Mas ele não deixa de lado sua marca mais conhecida: o talento com o violão. Às vezes, passa a impressão de que há dezenas de outros instrumentos compondo o cenário musical composto pelo intérprete, mas, para quem tem talento, uma voz e um violão tomam a dimensão de uma verdadeira orquestra.
            Neste momento, escrevo ouvindo a interpretação de “Love me tender”, música que foi imortalizada na voz de Elvis Presley e que ganha um toque especial com o artista maranhense. Volto um pouco e me impressiono a virtuosa artística demonstrada em Carinhoso. Finalizo com as empolgantes notas de Yo Camelo, de Adriah Esteves, uma canção que faz bem a qualquer ouvido.
            Como disse antes, sou um analfabeto musical, mas não sou surdo e gosto do que tem qualidade. Talvez o único defeito do CD seja que ele tenha uma curta duração e que na hora que começa a empolgar, acaba. Mas vale a pena.

   Contato com o músico: clayberrochaok@hotmail.com
Músicas do CD

1.      Je L’aime à Mourir
2.      Carinhoso
3.      Corcovado
4.      Pequena bailarina
5.      Love me tender
6.      Introduction / Asturias
7.      Aquarela do Brasil
8.      Ponteio
9.      Yo Camelo
10.  Mediterranean Sundace


sábado, 3 de julho de 2010

REVISTA LITTERA

Acaba de ser lançada a edição digital da Revista Littera, do Curso de Letras da Universidade Federal do Maranhão, com textos de diversos autores. Convido a todos a uma visita nas páginas da revista, para prestigiar o trabalho de nossos pesquisadores.
Clique AQUI e vá para a página da revista.

sábado, 26 de junho de 2010

BALADA LITERÁRIA


Música. Poesia. Teatros. Performances e muita arte em todos os sentidos. Assim foi a Balada Literária promovida pelos alunos de Letras da Faculdade Atenas Maranhense, na última quinta-feira (24.06.2010) no teatro da Faculdade.
Com uma programação bem escolhida e organizada de modo a não cansar a plateia com repetições de estilo, os alunos se desdobraram e conseguiram um belíssimo efeito estético, com direito a momentos de improviso e o nervosismo natural de quem se encontra no meio de um palco, com dezenas de olhos focados em um único ponto.
Todos deram o máximo de si para o espetáculo. Todos estão de parabéns. O público, sempre escasso em eventos de natureza artística não-comercial, certamente, se deliciou com cada um dos textos apresentados e se divertiu com as inteligentes tiradas de humor que pincelaram o evento. Mas, sem dúvida, o momento mais marcante da noite foi quando a aluna Simone Pinheiro, fez uma belíssima interpretação em libras do poema “Magia”, de autoria de Perla Alvez, também aluna da instituição. Simone e todos os organizadores da Balada Literária provaram que a Poesia não conhece limitações, porque ela mesma é sem limites.
Todos têm talento e bastava uma oportunidade para mostrar de que cada pessoa é capaz. O evento foi uma excelente chance de todos conhecerem o talento dos alunos e companheiros.
  Feliz com a plasticidade do evento, a plateia guardará esses bons momentos e aguardará a segunda edição da Balada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

NOVO LIVRO GRATIS EM PDF

Caros leitores,

Disponibilizo para vocês meu livro inédito O ÚLTIMO DESEJO DE CATIRINA. Espero que todos os que se dispuserem a ler esse trabalho tenham bons momentos de entretenimento e de reflexão.

Um abraço a todos e Boa Leitura

segunda-feira, 21 de junho de 2010

CÉREBROS PROSTITUÍDOS, MÃOS DE ALUGUEL
José Neres


            De um lado da mesa de negociação está uma pessoa inteligente, bem formada, com bom nível intelectual, e, pelo menos em teoria, com necessidades econômicas e, na prática, com evidente carência ética e moral. Do outro lado, está alguém que frequentou as aulas, mas que, ou por deficiência intelectual, ou por falta de habilidade, não aprendeu o suficiente para ter competência de elaborar suas próprias atividades acadêmicas, sejam elas trabalhos corriqueiros de meio de curso, artigos científicos, monografias, dissertações ou teses.
            Quanto custa uma monografia? Quanto custa uma dissertação? Por quanto será que sai um trabalho? Qual o preço pago por uma certificação? Para quem realmente estudou e se prepara para levar uma vida profissional pautada pela ética e pela busca da competência, essas perguntas parecem sem sentido. No entanto, se o objetivo é apenas ter um diploma na gaveta, se é tão somente entrar para estatísticas oficiais, sem preocupação com o que poderia ser assimilado na sala de aula e levado para a vida profissional, tais perguntas são tão corriqueiras quanto querer saber o preço de um cigarro ou de um quilo de carne.
            A prostituição intelectual é tão grande e tão visível e despudorada que não sente vergonha em se oferecer em páginas de jornais, murais de universidades, faculdades, escolas, cursos de pós-graduação e congêneres. Às vezes, uma tênue sombra de pudor faz com que os aproveitadores da incompetência alheia disfarcem seus negócios com pomposos nomes como apoio à pesquisa acadêmica ou serviço de digitação, o que acaba virando estigma negativo para quem realmente faz apenas a digitação de trabalhos, sem envolver-se em fraudes.
            Não são raros os casos em que os “elaboradores de trabalhos” apenas recorrem às páginas da internet, fazem uma coleta de trabalhos com a temática pretendida, fazem uma colcha de retalhos com textos variados e vendem para os incautos e preguiçosos compradores como se aquilo fosse um texto original, tecido pelas hábeis mãos do incansável “trabalhador” da palavra. Outros, temerosos de que o texto seja verificado em um dos programas eletrônicos que farejam plágio, preferem copiar de livros e/ou de trabalhos defendidos em universidades de outros estados.
            O aluno, por sua vez, chega mesmo a levar os “originais” para que seu orientador leia, faça suas correções e sugira modificações a fim de tornar o trabalho encomendado mais pessoal. O professor, às vezes por comodismo ou inexperiência,  às vezes fazendo-se de bobo por não ter provas cabais de que seu orientado está pagando pelo trabalho, fecha os olhos, finge que tudo está ótimo e aprova o trabalho.
            Algumas empresas mais organizadas oferecem, além do texto revisado e encadernado, treinamento para que o cliente se saia bem na defesa pública do trabalho. No dia da apresentação, como se um voz do além iluminasse a cabeça daquele graduando, ele demonstra todo o seu conhecimento perante o publico presente e, em alguns casos, ainda comemora com a família a vitória de tantas horas de esforço.
            De quem é a culpa? Aparentemente todos são culpados. Instituições, docentes, discentes... Pois só há quem venda trabalhos, porque também há quem os compre. E, na falta de competência, pode parecer um bom negócio pagar pela competência alheia, mesmo que não se possa reclamar em caso de ser enganado.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

LUTO NAS LETRAS PORTUGUESAS

MORRE O ESCRITOR PORTUGUÊS JOSÉ SARAMAGO

A sexta-feira, 18 de junho de 2010 amanheceu de luto> Saramago escreveu o capitulo final de sua saga, e a literatura de língua portuguesa perdeu  um de seus grandes escritores. 
Escritor polêmico e dono de um estilo sui generis, Saramago foi o único escritor de língua portuguesa, até agora, a receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Agora, seus longos parágrafos, seus períodos gigantescos e suas vírgulas surpreendentes  recebem a pausa final e deixam seus
Entre seus livros mais importantes, temos:

  • Ensaio sobre a Cegueira
  • Ensaio sobre a Lucidez
  • Todos os nomes
  • Evangelho segundo Jesus Cristo
  • Jangada de Pedra
  • O ano da morte de Riocardo Reis

sábado, 5 de junho de 2010

NOVO LIVRO DE WALDEMIRO VIANA

A TARA SOB A TOGA
José Neres


            Criar uma obra literária a partir de um acontecimento histórico é sempre uma tarefa que exige muito cuidado por parte do escritor, que pode deixar o livro com ranço de puro historicismo sem valor estético ou descaracterizar totalmente o fato que serviu de base para a narrativa e fugir completamente do enredo original, criando uma versão quase que totalmente desvinculada do modelo adotado.
            Por outro lado há também os interesses do público leitor. Algumas pessoas querem transformar Literatura em registro fidedigno da História e não se conformam com as liberdades criativas do ficcionista que, livre das amarras da cientificidade, não tem compromisso com a verdade, precisando apenas manter uma coerência interna para com os episódios apresentados. Há quem pegue um romance, não para se deleitar com o valor artístico da obra, mas sim para apontar possíveis falhas históricas do autor. Mas também há pessoas que se sentem lesadas quando a narrativa literária fica muito colada aos acontecimentos já conhecidos e de domínio público. Tais leitores geralmente alegam que o papel do escritor é oferecer um outro olhar dos fatos, e não apenas reproduzir fontes documentais com roupagem literária.
            Buscar um equilíbrio entre a força criativa da ficção e o respeito a um roteiro já traçado pela veracidade dos fatos, entre o estilo individual e as expectativas dos leitores não é uma tarefa fácil. Mas foi o que conseguiu o escritor maranhense Waldemiro Viana, em seu mais recente romance “A Tara e a Toga”, que traz de volta às letras o conhecido crime cometido pelo desembargador Pontes Visgueiros contra sua amante Mariquinhas.
            O livro, além de presentear o leitor com uma narrativa ágil e envolvente, traz também belíssimas ilustrações assinadas pelo artista Jesus Santos, que, com seu talento já tantas vezes reconhecido, conseguiu captar a essência da narrativa e traduzir em traços e cores os momentos capitais do romance.
            Possivelmente usando como fonte de pesquisa o livro “O caso Pontes Visgueiro: um erro judiciário”, de Evaristo de Moraes e outras obras sobre o famoso caso, Waldemiro Viana reconstrói o cenário da época do crime, imiscui personagens à trama, reconstitui diálogos que poderiam ter acontecido, arquiteta situações que costuram o romance e tempera tudo com boas doses de sarcasmo, erotismo e de suspense. E ainda aproveita para homenagear alguns amigos e confrades que aparecem sutilmente em alguns momentos na trama.
            Algumas cenas do romance são antológicas, como, por exemplo, o momento em que, cego de paixão, o desembargador vai ao Largo dos Remédios e lá encontra sua amada nos braços de outro. A fúria toma conta do velho magistrado que, vendo-se traído, toma satisfações de sua protegida e desce aos mais baixos degraus da escala humana, vivendo, em um curtíssimo intervalo de tempo, sensações que vão do ódio profundo à vergonha de ver a própria família a presenciar seu vexame, passando também pela humilhação de ter sua vida íntima exposta em público, pelo desespero de conviver com a impotência física e moral e, ao mesmo tempo pela certeza da dependência dos vícios e dos prazeres carnais proporcionados pela infiel amante. A cena final do livro também é carregada de ironia e de uma pitada de bom humor, sem perder o foco da narrativa.
            Outra cena muito importante e que terá significativo valor para o desfecho da obra é a da estada de Pontes Visgueiro no Piauí. Os episódios se encaixam de modo perfeito e divertem o leitor com o canhestro casal que se forma a partir de um encontro fortuito. O contraste entre a decadência física do desembargador e suas atitudes de incorrigível conquistador demonstra a habilidade do romancista em oscilar entre o trágico e o cômico com a mesma destreza.
            Muito mais que narrar uma história tantas vezes contata e recontada e que já faz parte do conhecimento público, Waldemiro Viana aproveitou as quase duas centenas e meia de páginas do livro para traçar um perfil psicológico das duas personagens centrais. No entanto, o desembargador é o que recebe maior atenção na construção da personalidade. Sua figura caricata desperta no leitor um misto de pena e riso. O ridículo, em várias passagens da obra, serve como contraponto do drama existencial vivido por um homem dividido entre a sisudez da toga e as alegrias de poder realizar suas taras, não importando o preço a ser pago no balanço final.
            Com mais esse livro, Waldemiro Viana presta um importante serviço aos admiradores de sua obra, da boa literatura e  até mesmo àquelas pessoas que querem apenas divertir-se com as efemérides de nossa História.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Artigo


TRAGÉDIA NOSSA DE CADA DIA


José Neres



Eu não queria matar aquele homem. Juro que não queria! Tudo aconteceu de maneira tão rápida que só depois de um tempo foi que percebi o que havia acontecido. Mas uma coisa é certa: eu não queria matar ninguém. Sou uma vítima também.
Era um feriado. Desses que todo mundo aproveita para enforcar mais um dia de serviço, anulando os dias úteis para aproveitar e descansar ou cair na bebedeira. E foi essa tal de bebedeira que me levou a cometer um crime que jamais aconteceria, se o maldito álcool não tivesse sido consumido de maneira tão irresponsável.
Meu companheiro jamais saía sem mim. Silenciosa e discreta, eu sempre o acompanhava em todos os eventos. Desde uma simples festinha até um jogo de futebol, lá estava eu fielmente a seu lado, grudada em seu corpo a protegê-los dos muitos inimigos que ele acumulava com seu jeito truculento de ser. Comigo, ele sempre se sentia protegido, mais forte, mas homem. Invulnerável.
Eram raras as vezes em que ele me deixava no carro, descansando, sem ter nada o que fazer. Mas ele bebia muito e arrumava  muita confusão. Chegava mesmo a ser violento, super violento. Lembro-me de que por diversas vezes o tirei de brigas, servindo de escudo para que ele saísse ileso. Era até engraçado o medo que nós impúnhamos nas pessoas. Voltávamos para o carro e eu ficava a seu lado, quietinha, só ouvindo suas gargalhadas. Em casa, ele me levava para a cama, beijava-me várias vezes e dormia a meu lado, roncando alto, bem alto.
Dizem que antes de me conhecer ele era tranqüilo, incapaz mesmo de levantar a voz para alguém. Um verdadeiro lerdo. Muitas vezes era humilhado pelos valentões da rua ou da escola. Seus poucos amigos me culpavam pela brusca transformação. A família dele me detestava e fazia de tudo para nos separar. Mas não tinha jeito. Ele não sabia mais viver sem mim. Virei uma espécie de anjo da guarda para ele. Não nos separávamos nunca. Comigo por perto, ele deixava de ser um fracote e virava um homem respeitado, temido.
Naquele feriado fomos a uma festa. Como sempre eu estava ao lado dele. Dançamos bastante. Algumas vezes quase caí. Mas ele era cuidadoso comigo e me deixava sempre próxima a seu corpo. Se alguém tocava inadvertidamente em mim, ele me protegia, assim como eu o protegia na hora das confusões. Pequena e discreta, não incomodo ninguém, não sou de barulho e quase sempre passo despercebida nos lugares que frequentamos. Nasci para servir.
Pois bem, depois de beber e de dançar muito, ele foi aconselhado por conhecidos a voltar para casa e dormir. No começo, protestou, mas estava um tanto quanto cansado e decidiu seguir os conselhos. Morto de bêbado, pegou o carro e saiu cantando os pneus. O som alto e os constantes ziguezagues chamavam a atenção dos transeuntes. Eu estava quietinha ao lado dele. De repente, um forte barulho inundou a noite. Ele bateu na traseira de um carro. Depois de um palavrão, ele abriu a porta e foi tomar satisfação com o outro motorista. Um bate-boca terminou em agressão. Embora menor, o outro condutor estava sóbrio e era mais forte. Com o rosto sangrando e os lábios trêmulos, ele voltou para o carro e me puxou de modo agressivo.
Foi tudo muito rápido. Eu não queria fazer aquilo. Foi horrível. Disparei três vezes. O rapaz, a quem nunca havia visto antes, soltou um grito e caiu morto. Uma multidão furiosa se aproximava. Não entendi nada. Fui jogada no chão e só ouvi o barulho do motor que arrancava. Meu amigo parece ter esquecido a bebedeira e fugiu em disparada.
Eu não queria matar aquele homem. Juro que não queria! Uma coisa é certa: eu não queria matar ninguém. Sou apenas uma pistola que caiu nas mãos de um bêbado louco. Peço perdão à família daquele pobre que perdeu a vida de modo tão estúpido. Perdão!

.

domingo, 23 de maio de 2010

CANDIDO ALBERTO GOMES

UM SOCIÓLOGO EM LUTA PELA EDUCAÇÃO
José Neres
fonte: O Estado do Maranhão, 23 de maio de 2010

            Um dos grandes problemas da educação é a falta de divulgação do nome dos grandes vultos que contribuem para o desenvolvimento dos estudos educacionais em nosso país. Em uma sociedade em que para alguém ser reconhecido precisa estar evidenciado pelos meios de comunicação de massa, as pessoas que se destacam pelo uso do intelecto e pela produção e pela divulgação de ideias passam despercebidas até mesmo por quem tem interesse por assuntos intelectuais.
            Recentemente, tivemos em nossa cidade a presença do gramático e filólogo Evanildo Bechara, do lingüista Sirio Possenti e do professores Jacira da Silva Câmara e Afonso Celso Galvão, dois dos mais importantes pesquisadores da educação na atualidade. Mas, infelizmente, a passagem desses intelectuais por São Luís ficou no esquecimento e ficou apenas na lembrança de alguns poucos privilegiados que tiveram a oportunidade de entrar em contato com esses pensadores que tanto contribuíram e ainda contribuirão para o fortalecimento das pessoas interessadas na cultura acadêmica.
            No período compreendido entre 16 e  22 de maio, a capital maranhense foi honrada com a presença do professor, sociólogo e pesquisador Candido Alberto Gomes, autor de diversos livros e de mais de uma centena e meia de artigos sobre sociologia da educação e sobre o sistema educacional brasileiro.             Graduado em Sociologia pela Universidade do Estado da Guanabara, mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro e doutor em Educação pela Universidade da Califórnia, Candido Gomes não se contentou apenas em ter títulos para ascender na carreira docente. Ele mergulhou no mundo das pesquisas sociais e, preocupado com o processo ensino-aprendizagem, divulgou o resultado de suas investigações em mais de uma centena e meia de artigos científicos e em dezenas de livros, merecendo, por suas atividades de docência e de pesquisas, diversos prêmios, como por exemplo, Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito Educativo (pela Presidência da República), Diploma de reconhecimento aos serviços prestados (prêmio oferecido pelo Conselho de Educação do Distrito Federal) e Diploma de Mérito funcional (oferecido pelo Senado Federal).
            Autor de livros como “O Ensino Médio no Brasil”, “Educação em novas perspectivas sociológicas” e “O jovem e o desafio do trabalho”, entre tantos outros, Candido Gomes não é um pesquisar alheio à realidade circundante, muito pelo contrário, está sempre atento às transformações do dia a dia e tira delas a matéria bruta que será depois decantada e refinada em estudos sérios que depois se transforma em livros, artigos, palestras e cursos ministrado em diversos países do mundo.
            Dono de amplo conhecimento em Educação, Sociologia e Filosofia, o professor da Universidade Católica de Brasília, não se reduz ao tecnicismo das ciências que domina, mas sim tem a capacidade de relacionar conceitos científicos com a própria realidade e inclusive com obras literárias, como “O Ateneu”, de Raul Pompéia, e “Os Tambores de São Luís”, de Josué Montello”, e outros livros que servem de base ilustrativa para muitas de suas preleções em sala de aula e em suas palestras. O professor também consegue utilizar com maestria a sétima arte em prol dos assuntos trabalhados, conseguindo aplicar a teoria à pratica, sem sair do foco educacional.
            Consciente de seu papel de observador e estudioso da realidade, Candido Gomes ainda encontra tempo para concentrar em pesquisas voltadas para a educação brasileira e analisar fatores como violência na escola, política, gestão e economia da educação, sem contar também seus trabalhos como consultor da UNESCO e  a cátedra de educação, juventude e sociedade. Em suma, o professor Candido Alberto Gomes, que brindou São Luís com seus conhecimentos é um incansável sociólogo que luta em prol da educação.
x

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SOBRE LIVROS E ESCRITORES

Quem escreve, ouve...
José Neres
(O Estado do Maranhão, 06/05/2010)

            Toda  pessoa que se dedica à árdua tarefa de escrever, vez ou outra, se vê às voltas com algumas frases que, dependendo do estado e do nível de sensibilidade do escritor, pode levá-lo a uma explosão de ira, de riso ou até mesmo de lágrimas.
            As situações descritas a seguir, parecem inventadas, mas, infelizmente, são ditas por aí com uma frequência assustadora e, o pior, com impressionante ar de naturalidade.
            Para começar, temos uma cena que poderia acontecer em qualquer lugar onde houvesse um escritor e um hipotético leitor. Alguém comenta (ou aponta) dizendo que o fulano que se aproxima é o autor do livro Tal. A pessoa insinua um sorriso e, atabalhoadamente, tenta dar mostrar de conhecer os trabalhos do autor, que, muitas vezes constrangido, nem sempre encontra ânimo para dizer que o livro comentado com tanta euforia não é seu.
            Também não é incomum que o poeta, romancista, contista ou teatrólogo, ao encontrar alguém que leu parte de suas obras expresse sua admiração com uma das frases mais cruéis que alguém poderia dizer: “Nossa! O livro é seu mesmo? Foi você que escreveu?” O escritor fica sem saber se aquilo foi um elogio pela qualidade da obra ou se foi um questionamento sobre sua capacidade de escrever algo que prestasse. Na dúvida, prefere agradecer com um sorriso amarelo estampado nos olhos da incredulidade.
            Outra frase muito corriqueira aos ouvidos do escritor é: “Como eu faço para ganhar um livro seu?”, ou as variações: “E quando é que você vai me dar um livro?”, “Cadê meu livro?”, “Estou esperando meu livro! Não esquece!”, “Eu queria tanto ler o teu livro, mas ainda não ganhei nenhum.” Poucas são as pessoas que se lembram de perguntar onde o livro está à venda ou quanto custa o livro. Isso talvez aconteça porque a maioria das pessoas ignore que toda produção cultural tenha um custo e que não são raras as vezes em que o próprio autor é o financiador do projeto e que possivelmente tenha acalentado o sonho de um dia recuperar pelo menos parte dos recursos gastos, já que lucro ele não espera conseguir.
            Caso interessante foi o de uma senhorita que, conversando um amigo escritor, não teve o menor constrangimento em dizer para ele: “Passando pela livraria, vi um livro seu, mas nem comprei, não vou gastar dinheiro comprando um livro de um amigo que seu que vai me dar um ou pelo menos emprestar para tirar uma xérox”.
            Por falar em xérox, há aquelas pessoas que têm o descaramento de pedir autógrafo na cópia xerografada de um livro que foi lançado recentemente e que se encontra disponível para venda. Geralmente, quem faz isso age como se tal atitude fosse uma homenagem ao escritor.
            Temos também o caso em que alguém ganhou o livro do próprio autor, mas não se contenta em ter somente a obra e exige uma dedicatória. Quando, tempos depois, o escritor cai na asneira de perguntar se a pessoa gostou do livro, escuta invariavelmente: “Rapaz, ainda nem tive tempo de ler, mas assim que puder, eu leio”.  Houve um caso bastante interessante de um autor que distribuiu seus livros para os amigos mais íntimos em uma quinta-feira e, na terça-feira seguinte, encontrou seu livro disponível em um sebo, com uma marca de corretivo cobrindo a dedicatória que ele fez para um de seus grandes amigos.
            Não podemos esquecer aquelas pessoas que, quando são convidadas para um lançamento de livro, não perguntam nem mesmo o título da obra, vão logo para o seguinte questionamento: “vai ter um coquetel de graça para os amigos, não vai?”
            De qualquer forma, esses acontecimentos, que oscilam entre o trágico e o cômico servem para dar mais cor à vida do escritor ou, quem sabe, possam até se transformar em mote para novos livros.